**ATENÇÃO: este texto contem informação sensível. O mesmo foi escrito apenas para catársis.
A verdade é que eu sinto muita raiva, isso não é novo, a raiva que habita em mim é antiga, a verdade é que eu sinto raiva há tanto tempo que nem me lembro de quanto tempo já convivo com ela, aprendi a lidar com ela, mas a minha raiva com o sexo não é uma coisa tão antiga, eu adorava sexo, bem, o sexo em si não, acho que nunca gostei de sexo, mas adorava a excitação, até por que quem não gosta de ficar exitado? E me enchia de tesão deixar alguém exitado, gerar essa energia de desejo, adorava mesmo isso.
A origem da minha raiva diante do sexo é que esse prazer foi arrancado de mim, ou eu perdi, ou bloqueei, não sei só sei que não têm mais, e até me masturbar é difícil, acho um absurdo isso, eu que ficava com quentura até em lugares públicos só com o poder da imaginação hoje só consigo um orgasminho broxa com migo mesma se for com estímulo de um pornô, que decadente, não sei onde começa o bloqueio e nem onde termina a falta de libido, nem sei se é falta de libido, só sei que a frustração de não poder aproveitar de uma coisa que eu gostava me gera uma profunda raiva; e tenho vergonha de conversar sobre isso, a raiva em si não é um grande problema quando o tema é sexo o problema é a tristeza e a ansiedade e o medo, esses três… odeio eles, são super inconvenientes.
Já não sei mais o que fazer para não pensar naquele dia, já senti vergonha, pena, tristeza e, como sempre, raiva também, por aquele dia, noite, sei lá, sobre “o acidente”. Por muito tempo chamei assim: “o acidente”, curioso eu ter pensado nesse nome para me referir a situação, porque não tenho provas para dizer que foi premeditado, mas tenho certeza que esse crime foi tudo, menos um acidente. Morro de medo, de tudo, morro de vergonha de pensar que me coloquei nessa situação e me envergonho de sentir vergonha de ser uma vítima, e me sinto invalidada por mim mesma, a verdade é que embora eu saiba que eu disse que não antes de tudo eu beijei ele; nunca vomitei tanto, nunca tinha bebido até vomitar, nunca tinha ficado bêbada com 3 doses de vodca, nunca bobeei tanto… o ditado é claro: “Pela boca o peixe morre, nunca diga nunca” e eu morri naquele quarto por tantas vezes jurar que nunca aconteceria comigo. Muitas coisas foram muito ruins, mas esse dia mexeu comigo, e não só fisicamente.
Me chateou o fato de ele ser o único que me falou para eu parar de me cortar, me chateou mais o fato dele ter dito isso após me violar, eu tinha dito não, com todas as letras, e nem são tantas letras, para mim é incompreensível alguém que entende um “não” como um “sim”, não foi um “não” dengoso com risadinhas, eu não tinha essa intimidade, foi um “não” com vergonha, pudor, cheio de medo, como alguém confunde um com o outro? E a filha dele que tem a minha idade estava no quarto, COMO VOCÊ SAI DO QUARTO ESCUTANDO EU DIZER NÃO!? Será que ela me escutou? Sabe o cômico dessa situação? Eu gostava dela, eu queria ficar com ela, não sabia se ela iria me corresponder, mas eu tava tão na dela; a cada passo que ela dava mais perto da porta de saída do quarto eu falava um zilhão de “nãos”, mas acho que nunca verbalizei eles, eu consigo lembrar cada um dos pensamentos que vieram na minha cabeça durante os últimos milímetros que fecharam a porta depois que ela saiu, eu fiz uma escolha naquele centésimo de segundo antes do “clic” da porta a mão dele já estava na minha coxa começando o impulso de me puxar para perto, eu escolhi ficar, sem lutar, sobreviver, e os meus pensamentos eram: por favor goza logo; como vou explicar isso; ninguém pode saber; por que ela saiu do quarto?
Depois ele ficou me olhando, e puxou uma conversa comigo que ninguém queria escutar e eu não queria falar para as pessoas:
O que é isso na sua coxa?
Mas como foi isso? É muito fundo esse corte.
E eu caí em lágrimas, como ele tinha coragem de me fazer uma pergunta dessas? Por que só ele se importou em me fazer uma pergunta dessas? E ainda me abraçou e consolou, dizendo que ia ficar tudo bem, e que eu era muito bonita para fazer isso comigo, pelo visto minha beleza não foi o suficiente para ele não me machucar, ou talvez isso foi o incentivo para ele fazer o que fez.
Ele me deixou em casa, e eu tomei um banho muito quente, eu adorava banhos gelados antes disso, eu chorei muito no banho, e depois eu desmaiei me tranquei no quarto dormi 12h acordei tomei outro banho fervendo com um pingo de esperança de me sentir um pouco diferente, mas nem um dos banhos quentes iria tirar o que eu tava sentindo, e saí, passei numa farmácia para tomar uma pildora do dia seguinte e fui viver, eu tinha que estudar e ver ele, o professor, pai da minha colega, e o que daria o nome para “o acidente”. Após semanas me sentindo estranha fui para uma clínica de saúde, tirei sangue e só uma palavra se destacou naquele papel branco cheio de coisas escritas: POSITIVO. Nunca fiquei tão abalada, quanto olhando para o resultado daquele exame. Aquela noite eu chorei muito, contei para as únicas duas amigas que eu tinha e sabia que poderiam me apoiar sem me julgar, gastei todo o dinheiro que eu tinha juntado por um ano em dois remédios, pensei muito, chorei muito e doeu muito, fisicamente, e passei essa noite sozinha, acho que morri, um pedaço de mim morreu, não me arrependo dessa escolha, se voltasse no tempo para esse momento faria exatamente o mesmo, que tipo de pessoa não se arrepende disso?
Se existisse volta no tempo eu teria chorado, me debatido, talvez o resultado seria o mesmo, ou pior, mas teria morrido lutando em vez de só sobrevivendo.
Hoje estou segura, já tratei parte desse trauma com uma psicologa maravilhosa, tenho um namorado que me respeita e me ama e até quando não falo ele entende os “nãos”, mas sinto vontade e falta de sentir, eu quero me sentir bem e exitada, quero gozar e rir comigo e com quem eu amo, e não ter isso me deixa frustrada e com muita raiva.