Resolvi escrever sobre: machucados
Eu fui uma criança que sofreu bullying, na época que isso ainda não se chamava assim, nunca entendi nem acho que vou entender o porquê realmente motiva os outros a fazer o que fazem, a verdade é que quando lembro das coisas me vêm uma mistura de tristeza, vergonha medo e raiva, surpreendendo 0 pessoas, vamos lá…: Tristeza- eu ficava triste, por que realmente me esforçava para agradar os outros até uma certa idade que aceitei que eu nunca ia ser o suficiente, mas não era sobre ser o suficiente e sim que eu nunca ia poder ser normal por que eu já tinha nascido com tudo errado, eu criei uma aversão a minha imagem tão grande que acho que até hoje não tenho o habito de me olhar no espelho, mas foi com 8 anos tive com minha mãe a seguinte conversa:
Mãe, eu tô bem arrumada?
Sei lá filha, se olha no espelho!
Eu não quero, você pode me falar?
Para de ser tonta, por que você não quer se olhar no espelho?
Porque eu não gosto do que eu vejo.
Depois disso minha mãe procurou logo uma psicologa infantil que me diagnosticou com depressão profunda, hoje penso na minha mãe que foi segurar essa barra; vergonha- hoje já na idade adulta e já tendo passado pelas situações e vendo que a vida, na verdade, é tão leve quanto queremos que ela seja eu confesso que vejo que algumas situações podiam ser lidadas diferente da minha parte, mas acho também que, tudo bem, não tem nada que faça com que eu mude o passado, do que realmente tenho vergonha é das minhas atitudes de hoje onde repito comportamentos da infância por puro mecanismo de defesa, acho até ridículo e nojento quando me pego nessas situações; medo- este é tão instintivo quanto a minha raiva, eu faço de conta que nada me abala, mas eu sei que é mentira, se fosse para me descrever por fora diria que sou calma, alegrinha e às vezes reajo de maneira passivo agressiva, mas por dentro acho que sou 40% raiva e 40% medo e o resto eu divido em todas as outras emoções, reações e sentimentos que se podem imaginar, mas acho que sou boa atriz, por que as pessoas realmente me descrevem como “guerreira”, aliás, não gosto quando me descrevem assim, eu nunca quis ser guerreira e me chamam assim desde que nasci, mas acho que num certo ponto me resignei e fiz questão que sempre me vissem como uma “guerreira” mesmo que por dentro eu seja uma criança de 8 anos que têm medo do próprio reflexo; Raiva-bom a minha raiva, na maior parte das vezes, vem de um ponto: como deixaram isso acontecer? Tipo, quem merda eram os adultos irresponsáveis que deixavam tudo passar? Eu tinha raiva por que me sentia injustiçada, e hoje tenho raiva por que sinto que fui negligenciada por muitos adultos, isso me gera uma revolta desde o cento das minhas tripas; mas em fim.
Machucados. Outro dia com uma amiga estava falando sobre o começo do meu atual relacionamento, que hoje têm quase 10 anos, e revivendo o começo da relação quando tinha 16 anos eu tive uma atitude que muitos, me incluindo, dizem que foi madura demais para minha idade, e eu percebi nessa conversas com essa amiga que minha atitude não foi de uma adolescente madura, e sim de uma criança machucada, estava no auge dos meus hormônios, com pais liberais o suficiente para me dar a edução sexual necessária e passe livre para atender a maioria dos desejos que um adolescente pode ter, mas minhas atitudes eram “extremamente maduras”, limpava a casa, fazia o mínimo para passar de ano já sabia que carreira queria seguir e também já tinha aceitado para mim que não queria nem um tipo de relacionamento sério até realmente ser adulta e escolher com quem quero compartilhar mais do que momentos de tesão, isso até conhecer ele, meu até agora namorado; eu estava na escola pensando com quem eu gostaria de estrear essa nova etapa da minha vida, um recomeço, eu seria uma nova eu, ia começar a “pegar geral” e vi ele e sabia que dessa relação eu sairia por cima, ele nunca teria coragem de abusar das minhas fraquezas, ele não me dava medo, e não ia nunca me machucar, começamos a sair e percebi que mesmo ele sento tudo o contrário do que eu idealizava em alguém eu queria muito gostar dele então veio o tal “atitude madura para meus 16 anos” da qual tanto me gabei:
Olha, eu quero falar uma coisa séria com você, a gente está namorando?
Eu… não sei, agente ta ficando.
Eu preciso saber por que é assim, não espere que eu te chame de “amor”, “amorzinho” e nada disso, por que, eu espero que você não se ofenda, mas eu não te amo, eu gosto muito, mas não te amo, porque eu acho que amor é uma coisa que se constrói, e agente se conhece bem pouco, acho estranho falar que te amo.
Ta bem…
Tá tudo bem mesmo?
Sim, acho que sim, então agora a gente é namorado?
… Você quer? Se você quiser namorar eu tenho vontade de namorar você.
Chega a me dar risada essa conversa, e acho mais engraçado eu achar até pouco tempo que estava sendo madura, nesse momento eu não tinha mais 16 anos eu pretendia ser uma pessoa madura, mas, na verdade, estava reagindo como uma criança que foi machucada e rejeitada muitas vezes, a verdade é que agora estou muito feliz de lembrar disso e ver que sim, eu estava machucada, e não, não era madura, mas hoje eu não encaro minhas relações assim, eu realmente amo as pessoas por serem humanos, mesmo não concordando com nada do que sair da boca dela, eu consigo olhar para os machucados que a mesma têm e dizer “é isso, eu te amo” isso é maravilhoso, então em síntese e pra terminar esse texto de maneira bem tosca: “Machucados emocionais, saram, e eles podem deixar marcas feias, mas você também pode resolver isso.”












