Bianca já estava pronta em frente ao portão de sua casa às 16 horas. Lucas disse que passaria ali para buscá-la e ela estava aguardando. Algo incomodava em sua barriga. Talvez o frio que ele deixava, a ansiedade, o pânico e a felicidade que ela sentia quando estava com ele. Lucas estava descendo a rua lentamente, com uma camiseta rosa e uma calça branca. Bianca sentiu-se uma maloqueira e riu para si mesma, suspirando e pensando em quanto Lucas era lindo. Ela estava com uma regata branca e uma blusa bege e larga por cima. Um shorts confortável, all star nos pés e uma bolsa pendurada em seus ombros. Lucas chegou devagar, encurralou-a no portão vermelho sorrindo. — Oi gata. — Ele disse, olhando em seus olhos e roubando-lhe um beijo. Eles deram-se as mãos, entrelaçando-as e caminharam em direção ao ponto de ônibus. Sentaram-se e Lucas riu. — Eu queria ter dezoito anos, aí estaríamos de carro. — Bianca também riu, respondendo que não ligava pra aquilo. A lotação chegou rápido, eles subiram e ainda conseguiram sentar.
— Onde a gente vai? — Ela perguntou, quando desceram no metrô. Ele sorriu. — No shopping. — Ela riu e bateu na testa dele, fazendo feições de obviedade. Lucas passou uma mão por seus ombros, levando-a em direção à catraca. Eles entraram na estação e pegaram o primeiro trem. Sentaram-se num banco próximo às janelas. O sol iria se pôr em cerca de meia hora. O sol fraco de fim de tarde refletia nos olhos de Bianca, e Lucas encarava-a como se não fosse desse mundo. Era estranho, mas em tão pouco tempo ele sentia algo sobrenatural em relação à ela. Era forte em tamanha dimensão que apenas palavras não eram suficientes para explicar. Ele sorriu torto, como de costume, olhando para os próprios pés. Bianca olho de relance para ele. Sentiu seu coração dar um pulo. Seria possível sentir-se daquele jeito por alguém? O sorriso torto, os olhos claros, tudo a encantava, como se ela não fosse capaz de ter alguém assim. Ela riu e voltou a olhar para a janela antes que ele notasse que ela o observava.
Lucas levou-a até a praça de alimentação. Aquela área do shopping tinha uma enorme janela que dava visão à uma parte da cidade. A vista perfeita do pôr do sol, que acabara de começar. Ele parou, pegou seu celular e mandou uma mensagem para alguém. Instantaneamente, uma música começou a tocar no shopping. Lucas soltou Bianca e segurou suas mãos, olhando-a nos olhos. — Bem leonina, menina, mandona. Linda, sabe da sina, mina valentona. Fina, cheia de razão, rainha, foliona! Ela, descortina o novo, bota fim na zona. — Ele começou a cantar, rindo. Bianca estava séria. — O que é isso, Lucas?
Lucas parou em sua frente, pigarreou, como se tomasse coragem. — Bianca, preciso te falar umas coisas. Você é a melhor coisa que já aconteceu na minha vida. Ter você, assim, de repente, linda, minha, foi o maior presente que Deus me deu. E eu fui idiota. Eu quase joguei isso fora... — Ele engoliu em seco e ajoelhou, não largando suas mãos. — Então, primeiramente, eu queria te pedir desculpas. Desculpas de joelhos mesmo. Mesmo você já tendo me perdoado, você não merecia aquilo e eu nunca deveria ter te machucado. Eu fui um otário, o maior merda do mundo. Me desculpa. — Sua voz estava trêmula. Ele sabia que ia chorar, mas aguentou firme.
— Lucas, o que é is... — Ele não deixou-a terminar a frase e pediu que o deixasse terminar. — "Quer ser minha pequenina, e pro mundo grandona... Meu negócio da China, caipira, brigona.", Bianca, obrigado por tudo. Por esses quatro meses, por me perdoar, por ser você. Por ser linda, forte, engraçada, carinhosa, inocente, criança, mulher, delicada, indelicada, por me aguentar, por me amar, por me fazer feliz, por me aceitar. Por ser minha. E hoje eu quero te pedir que seja minha de verdade. Te pedir pra que você deixe eu cuidar de você e te fazer feliz como ninguém nunca fez... Eu te amo. Muito.
Ele respirou fundo, o céu estava numa mistura lilás e azul magnífica. Olhou em seus olhos e deu mais um sorriso de canto. — Você quer namorar comigo? — Lucas perguntou, sem desviar o olhar e retirando um peso de suas costas. Aquela fora, sem dúvidas, as palavras mais úteis e corajosas que já saíram de sua boca. Bianca estava parada, intacta, talvez nem respirando. Ela piscou três vezes e sorriu, levando aos mãos ao rosto. Estava vermelha. — Eu... Eu quero, é lógico que eu quero! — Ela riu, puxando a mão de Lucas e levantando-o. Passou uma mão por sua nuca e beijou-o. Ele passou uma das mãos por sua cintura, puxando-a para mais perto e obrigando-a a ficar na ponta dos pés. As poucas pessoas presentes no local aplaudiram e em coro fizeram "Awww", obrigando-os a se separar e sorrir, constrangidos. Ele segurou forte em sua mão, caminhando entre as pessoas em direção ao cinema.
Bianca estava extasiada. Namorando? Ela? Quem diria que aquilo era possível. Ela parou na fila do cinema e encarou-o com as sobrancelhas unidas. — Como conseguiu colocar a música? — perguntou, e Lucas explicou que tinha um amigo que trabalhava no shopping e devia-lhe um favor. Ela assentiu, e recostou-se em seu ombro, olhando para cima. Ele roubou-lhe um selinho, ela riu e eles voltaram a conversar como se conhecessem há anos. Era assim que o amor deles funcionava: como se fosse desde sempre e durasse para sempre. E se dependesse deles, duraria.