A Bailarina - Capítulo Catorze
Corri sem ao menos me dar conta do que estava fazendo, pois quando tudo finalmente pareceu fazer sentido, eu estava entrando no banheiro do colégio. Olhei-me no espelho e nunca havia visto alguém tão pálida em toda a minha vida. Algumas garotas entravam no banheiro e eu sorria suavemente, tentando não parecer alterada. Abri a torneira e passei um pouco de água na testa, fechando os olhos logo em seguida. Quando os abri, Sophia estava do meu lado.
— Lu…
— Não, Sophia, por favor… – Interrompi sua fala e saí do banheiro.
— Eu só quero te ajudar, Lu! – Ela andava do meu lado no mesmo ritmo de passos que eu, em direção aos armários.
— Eu sei, Soph – disse desanimada. – Mas eu não quero conversar agora. – Olhei para ela sentindo o nó em minha garganta e peguei O Pacto em meu armário.
— O que você vai fazer? – ela perguntou olhando o livro em minhas mãos.
— Vou matar aula… – eu disse com receio. – Mas só as próximas duas. Acho melhor eu fazer a última. – Eu a abracei e saí pelo corredor em direção ao jardim dos fundos enquanto todos os outros alunos se dirigiam para as salas de aula.
A cada passo que eu dava, eu me sentia cada vez mais perto daquele jardim praticamente escondido, onde vários alunos matavam aula. Passei pela grade estourada, provavelmente vandalizada por algum aluno do colégio, e entrei no jardim. Alguns rostos conhecidos me olhavam com espanto, como se fosse algum crime matar aula, mesmo que eles estivessem cometendo o mesmo crime que eu.
Abri o livro me concentrei naquela história que eu simplesmente amava. E foi um tempo vago bem gasto. Eu não sentia o peso na minha consciência por estar perdendo aulas… Eu nem sabia quais eram elas. Foi cem minutos que eu passei vidrada em linhas que descreviam um pacto de suicídio entre dois adolescentes, o romance, o sexo, o amor que ia além de muitas coisas…
Quando dei por mim, o segundo sinal bateu, dando inicio a última aula. Levantei-me da grama e refiz o trajeto de volta à escola, tomando o cuidado para que eu não fosse descoberta. Andei vagarosamente, sem pressa nenhuma… Guardei o livro em meu armário e então me dei conta de que a última aula era geografia ambiental. Gelei da cabeça aos pés enquanto meus passos me guiavam pelo caminho sem o meu consentimento. Parei em frente à porta fechada e percebi que todos já estavam dentro da sala. Eu precisava ser corajosa…
— Olhem! – O professor olhou para mim sorridente quando abri a porta. – Vejam só se não é a nossa pequena Miss Blanco – ele me chamou pelo sobrenome.
— Oi! – Acenei sem graça e sorrindo amarelo enquanto todos me olhavam, inclusive Arthur. Dei os primeiros passos em direção ao meu lugar, quando o professor me interrompeu.
— Não se sente, Lua – ele disse calmamente. – Eu sei que você e o Arthur adoram ficar perto um do outro, mas como eu estava dizendo antes de você entrar na sala, nós vamos para a biblioteca hoje. – Olhei para ele confusa. – Não estou muito a fim de ficar aqui na sala, e vocês já podem ir coletando materiais para o projeto. Aqueles que se importam com isso, é claro… Os que não se importam, podem dar uns amassos entre as estantes; eu vou fingir que não vi nada. – Ele piscou e todos deram risada.
Fui a primeira a sair da sala, sendo seguida pela multidão de alunos e pelo professor. Fiquei o mais longe de Arthur possível e desejei mentalmente que ele tivesse ficado puto da vida comigo e resolvesse se amassar com alguém na biblioteca para que eu pudesse trabalhar sozinha no projeto, ou pelo menos fingir. E, mais uma vez, minha mente conspirou contra mim. Sentei-me em uma das mesas de mogno da biblioteca, vendo Arthur sentar em minha frente logo em seguida. Ele olhou em meus olhos como se penetrasse em meus pensamentos, o que me fez desviar o olhar.
— Então… – ele disse. Olhei para ele novamente, que afrouxava a gravata um pouco mais enquanto eu engolia em seco.
— Eu… eu vou procurar um livro. – Levantei apressada e entrei no meio das milhares de estantes.
Fui procurando tudo relacionado ao meio ambiente até que encontrei um livro que pudesse ser perfeito para o projeto. O problema era que estava numa prateleira um tanto alta demais. Bufei e fiquei na ponta dos dedos para tentar alcançar o livro, fracassando totalmente. Bufei mais uma vez tendo plena certeza de que eu não precisava de ajuda, mesmo sabendo que eu estava enganada. Fiquei na ponta dos pés uma segunda vez, tentando me esticar um pouco mais. Foi quando eu senti um corpo se pressionar contra o meu, prensando minha barriga na estante enquanto uma mão segurava em minha cintura e a outra deslizava para cima do meu braço tendo mais sucesso em pegar o livro do que eu.
Voltei meus pés à posição plana enquanto sentia a mão ainda em minha cintura e cada centímetro do corpo dele estava no meu. Senti a respiração bater em meus cabelos, como uma confirmação de quem era aquela pessoa. Não que eu não soubesse, mas tinha medo de estar certa. Ele me entregou o livro e virei meu corpo de frente para o dele.
— Arthur… – minha voz saiu tão fraca quanto eu esperava.
— Shh! – Ele pressionou o indicador contra meus lábios. – Me deixa falar, por favor. – Eu assenti com a cabeça de uma forma quase imperceptível e sua mão se encostou em minha bochecha enquanto seus dedos se encaixavam em meus cabelos. – Eu não sabia da aposta, juro que não sabia – ele disse preocupado. – Foi uma coisa que os caras planejaram entre eles, você não foi uma aposta, nada daquilo foi… – Ele respirou fundo e aproximou o rosto do meu. – Por favor, não faz isso comigo.
— Arthur, o que você quer que eu faça? – perguntei quase tonta e sem conseguir respirar.
— Quero que você me beije – Seu nariz se encostou no meu e eu pedi forças para resistir. Eu não conhecia o Arthur, a única coisa que eu sabia era que ele usava aquela tática com todas as garotas e que se eu o beijasse, na próxima semana estaria sendo trocada por outra pessoa. Mas não consegui resistir. O hálito dele já estava dentro da minha boca; eu não sabia qual respiração era dele e qual era a minha. Estavam misturadas, eram praticamente uma só. Senti que seus lábios estavam cada vez mais próximos…
— Lua! Arthur! – O professor apareceu de surpresa e nós apenas movemos nossas cabeças para o lado direito. – A diretora está por aqui – ele disse preocupado. – Mas eu vou fingir que não vi absolutamente nada. – E continuou seu caminho.
Empurrei Arthur sutilmente para longe de mim e tentei me recompor. Comecei a andar para voltar à mesa enquanto tentava recuperar tudo o que ele me havia feito perder.
— Eu nunca desisto do que eu quero! – Ouvi sua voz ainda um pouco próxima e fiquei pensando se teria como as coisas melhorarem. Ou na pior das hipóteses, se teria como elas piorarem.













