De los corazones imperfectos nace el amor definitivamente.
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De los corazones imperfectos nace el amor definitivamente.
Me pregunto, ¿si alguien mas se enamoro de tu sonrisa?
WEB: Entre o Agora e o Sempre
Capítulo 181 (Último)
Alice narrando
Quinze anos depois
— Alice Abrahão Borges! — A sra. Marta chama o meu nome do palco montado no auditório. Ouço meus amigos e parentes gritando na multidão, depois assobios e palmas.
Eu seguro meu capelo sobre a cabeça enquanto subo os degraus de madeira. Ele não se encaixa bem. Papai tirou sarro de mim, dizendo que minha cabeça tem um formato esquisito e que isso é culpa de mamãe, porque não posso ter puxado dele.
Enquanto ando pelo palco, mais assobios, gritos e palmas enchem o auditório. Meu coração está batendo forte. Estou tão emocionada. Acho que estou com um sorriso enorme há uns vinte minutos.
A diretora Helena me entrega o meu diploma e eu o recebo. As palmas ficam mais altas. Olho para meus pais na primeira fila, de pé ao lado das cadeiras, com os olhos brilhando e animados pela empolgação. Minha mãe me manda beijos. Papai pisca para mim e bate palmas. Estão tão orgulhosos que tenho até vontade de chorar. Eu não estaria aqui, se não fosse por eles. Não poderia pedir pais melhores.
Depois que a cerimônia de formatura acaba, eu e meu namorado, Pedro, abrimos caminho na multidão até meus pais.
Mamãe me abraça forte e beija a minha cabeça.
— Você conseguiu, Alice! — Ela me aperta. — Eu tô tão orgulhosa! —Ouço o choro em sua voz.
— Mãe, não chora. Vai borrar seu rímel.
Ela passa os dedos embaixo dos olhos. Papa ime abraça a seguir.
— Parabéns, bebê.
Eu fico na ponta dos pés e beijo sua bochecha.
— Obrigada, papai. — Então ele me puxa para o seu lado e põe a mão na minha cintura, de um jeito protetor.
Meu pai fuzila Pedro com os olhos, examinando-o de alto a baixo, como sempre fez nestes dois anos que estamos juntos. Mas, desta vez, é tudo brincadeira. Em parte, pelo menos. Papai levou um ano para sair do pé de Pedro e confiar nele o suficiente para nos deixar sair sem ele ou mamãe junto. Constrangedor. Mas o excesso de proteção nunca conseguiu afugentar Pedro, e acho que só isso já deu aos meus pais mais motivos para respeitá-lo.
Ele é realmente um ótimo sujeito, e achoque no fundo meus pais sabem disso.
— Parabéns, Pedro — meu pai cumprimenta, apertando a mão dele.
— Obrigado. — Pedro ainda fica meio apavorado com meu pai. Eu acho isso bonitinho.
Meus pais dão uma enorme festa de formatura para mim em casa, e vem todo mundo. Todo mundo mesmo. Tem gente aqui que não vejo há anos: tio Matheus e tia Lia vieram da Espanha! O tio Marlon também veio, com meus primos Arthur e Mariana e sua nova esposa, Alana. Minhas avós, Antonia e naná Branca (ela se recusa a ser chamada de VÓ) também vieram. A naná não está muito bem. Ela tem esclerose múltipla.
— Meu Deus, garota, você vai me abandonar! — exclama minha melhor amiga, Letícia, vindo me encontrar. Nós crescemos juntas, como a mãe dela, Natalie, cresceu com a minha mãe aqui em Raleigh.
— Pois é! Odeio isso, mas você sabe que vou te visitar! — Eu a abraço forte.
— É, mas vou sentir falta de você pra caramba.
— Já falei— respondo—, você sempre pode se mudar pra Boston pra ficar mais perto.
Ela revira os olhos, o cabelo caindo sobre os ombros quando ela se senta num banquinho da cozinha.
— Bem, não só eu não vou me mudar pra Boston com você, mas pelo jeito também não vou ficar na Carolina do Norte por muito tempo mais.
— Como assim?— pergunto, surpresa.
Eu me sento no banquinho ao lado dela. Meu tio Caio entra na cozinha com algumas garrafas vazias de cerveja nas mãos. Ele joga tudo no lixo.
Letícia suspira, apoia o cotovelo no balcão e começa a enrolar alguns fios de cabelo nos dedos.
— Meus pais vão se mudar pra São Francisco.
— Quê?Sério?— Mal posso acreditar.
— Sim.
Não sei dizer se ela está decepcionada ou simplesmente ainda não sabe o que pensar.
— Bom, mas isso é muito legal — eu digo, esperando encorajá-la. — Você não quer se mudar?
Letícia tira o braço do balcão e cruza as pernas.
— Nem sei o que eu acho, Alice. É muito longe de casa. Não é no fim da rua.
— É verdade, mas é São Francisco! Eu adoraria ir pra lá.
Ela sorri um pouco.
Tio Caio, alto e misterioso como sempre, pega mais três garrafas de cerveja da geladeira e as segura entre os dedos pelos gargalos. Ele sorri para mim ao passar e volta para a sala de estar cheia de gente.
Ele é irado. Assim que chegou, me deu um cartão de parabéns com duzentos paus dentro.
— Letícia, eu acho ótimo. E, sinceramente, mal posso esperar pra visitar minha melhor amiga na Califórnia. É. Dá gosto até falar isso. Califórnia. — Eu faço um gesto dramático com as mãos.
Ela ri.
— Vou sentir muito a sua falta, Alice.
— Eu também.
A mãe dela entra na cozinha, com opai, Bruno, logo atrás.
— Já contou a novidade pra Alice?— a mãe dela pergunta, mexendo na geladeira.
— Sim, acabei de contar.
— O que você acha, Alice?— a mãe dela pergunta.
O pai de Letícia beija a cabeça dela, pega uma cerveja da mãe e sai, provavelmente para fumar.
— Tô empolgada por ela — respondo. — Eu vou me mudar pra Boston pra fazer faculdade. Ela tá mudando pra Califórnia. Podemos não estar mais juntas do jeito que crescemos, mas tem alguma coisa em não ficar parada no mesmo lugar pra sempre que faz tudo parecer certo.
— Você com certeza é filha de Micael e Sophia, não dá pra negar — a mãe dela diz, sorrindo.
Eu sorrio orgulhosamente e pulo do banquinho, voltando com ela e Letícia para a sala de estar.
— Um brinde! — meu pai diz no meio da sala, levantando sua cerveja. Ele olha para mim. Temos os mesmos olhos castanhos. — À nossa garotinha, Alice. Que você possa mostrar a todos na faculdade como se faz!
Todos bebem.
— A Alice!
Eu passo o dia todo, até anoitecer, com meus amigos e parentes e, claro, Pedro, que eu amo tanto. Somos tão parecidos. Nos conhecemos logo depois que ele se mudou do Arizona para cá. O armário dele no colégio ficava perto do meu, e ele acabou fazendo quase todas as aulas comigo. Letícia foi pra cima dele primeiro, o que não é surpresa, do jeito que ela é namoradeira. Lembro que ela me disse, no primeiro dia de aula dele:
— Ele vai ser meu. Espera pra ver. — E eu nunca tive nenhuma intenção de interferir, mas pelo jeito Letícia era demais para alguém como Pedro. Mas achoque talvez eu possa dar crédito a Letícia por Pedro e eu acabarmos juntos. Se não fosse por ela, talvez ele não tivesse nada que o obrigasse a falar comigo para fugir dela.
Letícia o esqueceu assim que ele deixou óbvio que era em mim que ele estava interessado.
E é muito esquisito, também, porque Pedro e eu somos tão parecidos que é quase como se o destino tivesse nos unido. Nós dois queríamos fazer a mesma faculdade. Gostamos das mesmas músicas, filmes, livros e seriados de TV. Ambos adoramos arte e história e já nos perguntamos, em momentos diferentes da vida, como seria viajar pela África. Pedro se interessa por arqueologia. Eu me interesso pela preservação de artefatos arqueológicos.
Pedro não foi meu primeiro namorado nem foi o primeiro que beijei, mas foi meu primeiro em todo o resto. Não consigo imaginar passar a vida com ninguém além dele.
Espero que sejamos como meus pais. É, torço mesmo por isso.
~~~
Depois da formatura, passei o verão com meus pais. E não desperdicei um minuto desse tempo com eles, porque eu sabia que seria curto. No outono, me mudei pra faculdade, e mamãe e papai — bem, eles tinham planos tão grandiosos quanto os meus. Acho que eles fizeram um excelente trabalho me criando, mas eu sabia que quando me mudasse e começasse a viver por minha conta na faculdade e com Pedro, meus pais partiriam para realizar o sonho de suas vidas.
Estou tão feliz por eles. Sinto falta deles todo dia, mas estou tão feliz.
Eles nunca se esquecem de me mandar cartas — não e-mails, cartas escritas à mão mesmo. Guardo todas elas, desde as enviadas da Argentina, Brasil, Costa Rica e Paraguai, até as que chegaram da Escócia, Irlanda, Dinamarca e lugares de toda a Europa. Adoro ter pais assim, tão livres de espírito, motivados e apaixonados pelo mundo. Eu os admiro. Pelas histórias que eles me contam da época em que eram um pouco mais velhos do que eu, percebo que a vida deles, mesmo antes que se conhecessem, começou complicada, mas no fim tudo se encaixou. Minha mãe me falou do seu passado, de quanto ela era depressiva. Não entrou em muitos detalhes, e eu sempre soube que havia coisas que ela não contava. Mas ela queria que eu soubesse que ela e meu pai sempre me apoiarão, não importa o que aconteça ou que decisões eu tome.
Acho que ela temia que eu tomasse as mesmas decisões erradas que ela tomou em alguns momentos difíceis, mas, sinceramente, não consigo me imaginar infeliz.
Mamãe também me contou como conheceu papai. Num ônibus de viagem, imagine. Eu só ri. Mas sempre que penso neles e nas coisas que enfrentaram juntos, não consigo deixar de ficar admirada.
De acordo com mamãe, meu pai era um pouco selvagem, naquela época. Ela disse que o fato de ele ser assim foi o principal motivo de sua demora em aceitar Pedro. Ela também não entrou em detalhes sobre isso, mas… caramba, meu pai devia ser mesmo… Eca! Deixa pra lá.
Mas eu aprendi tanto com meus pais. Eles me ensinaram como a vida é preciosa e que nunca se deve deixar passar em branco um segundo dela, porque qualquer segundo pode ser o último. Meu pai sempre me disse para ser eu mesma, defender aquilo em que acredito, e dizer o que eu penso, não o que os outros pensam. Ele disse que as pessoas vão tentar me tornar como elas, mas para eu não cair nessa, porque quando eu der por mim, serei como elas. Minha mãe, bem, fazia questão que eu soubesse que há muito mais coisas no mundo além de empregos ruins, contas a pagar e se tornar um escravo da sociedade. Ela fez questão que eu entendesse que não importava o que qualquer um dissesse, eu não precisava viver de um jeito que eu não quisesse. Eu escolho o meu caminho. Eu torno minha vida memorável, para que ela não suma no meio de tantas outras vidas vazias ao meu redor. No fim das contas, a escolha é minha e somente minha. Vai ser difícil às vezes, posso ter que fritar hambúrgueres e limpar privadas por algum tempo, vou perder pessoas que amo, e nem todo dia será brilhante como o anterior. Mas contanto que eu nunca deixe as dificuldades me abaterem completamente, um dia vou fazer exatamente o que eu quero. E não importa o que aconteça, ou quem eu perca, não vou ficar triste para sempre.
Mas acho que a principal coisa que aprendi dos meus pais foi a amar. Eles me amam incondicionalmente, é claro, mas falo do modo como se amam. Conheço muitos casais casados — a maioria dos pais dos meus amigos ainda está casada —, mas nunca vi duas pessoas mais devotadas uma à outra do que meu pai e minha mãe. Eles foram inseparáveis por toda a minha vida. Só me lembro de umas poucas discussões entre os dois, mas nunca os ouvi brigar. Nunca. Não sei o que torna o casamento deles tão forte, mas espero que, seja oque for, eu tenha herdado um pouco dessa magia.
Pedro entra no meu quarto, fechando a porta atrás de si. Ele se senta na beira da minha cama.
— Outra carta dos seus pais?
Eu balanço a cabeça.
— Onde eles estão, agora?
— No Peru — digo, olhando de novo para a carta. — Eles adoram aquele lado do mundo.
Sinto a mão dele no meu joelho para me consolar.
— Você tá preocupada com eles.
Eu balanço a cabeça mais uma vez, lentamente.
— Tô, como sempre, mas me preocupo mais quando eles estão lá. Alguns lugares são muito perigosos. Não quero que eles acabem como…
Pedro segura meu queixo com a mão.
— Eles vão ficar bem, você sabe que vão.
Talvez ele tenha razão. Meus pais já estão mochilando pelo mundo há dois anos, e o pior perigo que encontraram — bem, pelo que me contam — foi que meu pai foi roubado uma vez, e outra vez houve um problema com os passaportes deles. Mas tudo pode acontecer, especialmente com os dois sozinhos assim, só com as mochilas na estrada.
Pelo jeito, puxei muito à minha mãe na tendência para me preocupar.
— Daqui a dois anos, eles vão estar preocupados assim com você — Pedro acrescenta, e em seguida beija meus lábios.
— Acho que sim — digo, sorrindo para ele, que se levanta da cama. — Provavelmente minha mãe nem vai dormir mais, imaginando que algum leão me devorou.
Pedro abre um sorriso torto.
Seis meses atrás, decidimos que queremos mesmo ir para a África depois da faculdade. Quando nos conhecemos, não era bem uma ideia, e sim uma coisa de que falamos numa conversa casual. Mas agora se tornou nossa meta. Pelo menos por enquanto. Muita coisa pode mudar em dois anos.
Eu dobro a carta, guardo no envelope desbotado e deixo sobre o criado-mudo.
Pedro estende a mão para mim.
— Pronta?— ele pergunta, e eu seguro sua mão e me levanto com ele.
Saio do quarto para comemorar o aniversário de Pedro com nossos amigos, e antes de sair para o corredor, olho mais uma vez para a carta, antes de fechar a porta devagar atrás de mim.
Fim!
WEB: Entre o Agora e o Sempre
Capítulo 180
Micael narrando
Eu penso muito na minha vida de antes, até antes de conhecer Sophia, e vejo que é meio assustador o quanto mudei. Eu era o que ela denomina um “galinha” no colegial. E, tudo bem, continuei meio galinha depois do colegial — ela sabe de todas as mulheres com as quais já transei. Das festas que eu frequentava. Sabe praticamente tudo a meu respeito. De qualquer forma, penso muito no meu passado, mas não sinto saudade. A não ser de vez em quando, contando lembranças da infância com meus irmãos, sinto aquela nostalgia da qual Sophia falava na nossa segunda vezem Nova Orleans.
Não me arrependo de nada que fiz no passado, por mais que tenha chutado o balde às vezes, mas tampouco faria de novo. Consegui sobreviver àquela vida e faturar uma linda esposa e uma filha que realmente não mereço.
Fiquei sabendo ontem que Marlon e Michelle, depois de dois filhos e anos de casamento, estão se divorciando. Odeio que estejam passando por isso, mas acho que nem todo mundo nasceu para ficar junto com alguém, como Sophia e eu. Eu me pergunto se eles não teriam conseguido se não se matassem tanto de trabalhar. Aquele bar consumia o meu irmão, e Michelle também era consumida pelo seu emprego. Sophia e eu conversamos sobre como eles pareciam estar se distanciando, já na primeira visita de Sophia, antes que Alice nascesse.
— Eles só trabalham — Sophia comentou uma noite, ano passado. — Trabalham, cuidam de Arthur e Mariana, veem TV e vão dormir.
Eu balancei a cabeça contemplativamente.
— É, que bom que a gente não acabou assim.
— Também acho.
Matheus, por outro lado, tem um doce de garota chamada Lia. E me orgulho em dizer que um dia eles decidiram espontaneamente se mudar para Madri. Meu irmão caçula se deu muito bem profissionalmente, conseguindo um emprego de engenheiro de sistemas de informática que lhe permitia mudar de país. Ele não precisava ir. Poderia ficar em Wyoming, mas, pelo jeito, ele é mais parecido comigo do que eu pensava. Por sorte, Lia tem os mesmos interesses e a mesma determinação que ele; senão o relacionamento dos dois acabaria mais parecido com o de Marlon e Michelle do que com o meu com Sophia. E ouvi dizer que Lia ganha uma grana preta vendendo vestidos feitos à mão pela internet. Sophia pensou em tentar alguma coisa assim, até que se deu conta de que precisaria costurar.
Com eles morando em Madri, nós já tínhamos um lugar para ficar quando também fomos para lá. Matheus insistia que não precisávamos pagar aluguel, mas nós pagamos assim mesmo. Sophia não queria ficar “na aba”, como ela mesma disse.
— Um dólar — Matheus negociou, só para contentá-la.
— Não— Sophia rebateu. — Seis dólares e 84 centavos por semana, nem um centavo a menos. Matheus riu.
— Você é meio esquisita, mulher. Tudo bem. Seis dólares e 84 centavos por semana.
No início, só íamos ficar com meu irmão por uma semana, mas uma noite, Sophia e eu tivemos uma conversa séria.
— Micael, achoque talvez a gente devesse ficar aqui por uns tempos. Aqui em Madri. Ou talvez voltar pra Raleigh. Eu não quero, mas…
Eu olhei para ela, curioso, mas ao mesmo tempo era aparente, para mim, que estávamos pensando da mesma forma.
— Eu sei o que você tá pensando — admiti. — Não é tão fácil quanto a gente queria que fosse, viajar com Alice.
— Não, não é. — Ela olhou para longe, pensativa, e sua expressão ficou mais dura. — Você acha que a gente agiu certo? Indo com ela pra tantos lugares?
Finalmente, ela olhou para mim de novo. Pude ver pela sua expressão que ela torcia para que eu dissesse que sim, que agimos certo.
— Claro que sim — eu afirmei, com convicção. — Era o que a gente queria fazer quando partimos no primeiro dia. Não temos arrependimentos. Claro, precisamos fazer as coisas de outro jeito em nome da segurança dela, evitar vários lugares que queríamos visitar e ficar parados mais tempo do que queríamos para que ela não sofresse com mudanças bruscas, mas agimos certo.
Sophia sorriu suavemente.
— E talvez tenhamos despertado nela o amor pelas viagens. — Sophia fica vermelha. — Não sei…
— Não, acho que você tem razão.
— Então, o que você acha que devemos fazer?
Ficamos com Matheus e Lia por três meses antes de partir de novo. Tínhamos uma última parada a fazer antes de voltar para os EUA: lá. Sophia finalmente admitiu o motivo de seu desejo persistente de ir para lá. Seu pai a levou para lá uma vez numa viagem de negócios, quando ela tinha 15 anos. Foram só ela e ele. E aquela foi a última vez que ela se sentiu sua garotinha. Eles passaram muito tempo juntos. Ele passou mais tempo com ela do que trabalhando.
— Tem certeza de que é uma boa ideia? — perguntei, antes de partirmos para Roma. — E se você voltar pra lá e estragar a lembrança, como a do bosque da sua infância?
— É um risco que eu tô disposta a correr — ela disse, pondo as roupas de Alice na nossa mala. — Além disso, não tô indo reviver aqueles seis dias com meu pai, vou pra lembrar aqueles seis dias com meu pai. Não tenho como estragar uma coisa que não lembro direito.
Quando chegamos lá, testemunhei Sophia lembrando tudo. Ela pegou Alice e se sentou com ela na escadaria da Piazza di Spagna, imagino que da mesma forma que seu pai fez quando a levou ali.
— A gente te ama muito — Sophia disse para Alice. — Você sabe disso, não sabe? — Ela apertou a mão de nossa filha.
Alice sorriu e beijou a mãe na bochecha.
— Eu te amo, mamãe.
Então Alice se sentou entre as pernas de Sophia enquanto a mãe passava os dedos pelo cabelo louro dela, fazendo uma trança e deixando-a sobre o ombro, como a dela.
Eu sorri e fiquei olhando, pensando num dia há tanto tempo:
— Vai ser um lance de amizade, acho— ela disse. — Sabe, duas pessoas fazendo uma refeição juntas.
— Ah — eu disse, sorrindo discretamente. — Então agora somos amigos?
— Claro — ela respondeu, obviamente pega desprevenida pela minha reação. — Acho que somos tipo amigos, pelo menos até Wyoming.
Eu estiquei o braço e lhe ofereci minha mão, e, relutantemente, ela apertou.
— Amigos até Wyoming, então — eu concordei, mas sabia que ela precisava ser minha. Mais do que até Wyoming. Para sempre seria suficiente.
Ainda pira minha cabeça pensar em como chegamos longe.
Depois de quase três anos na estrada, finalmente estava na hora de ir para casa.
Voltamos para Raleigh, para nossa humilde casinha. Natalie e Bruno a desocuparam e foram morar do outro lado da cidade. Mais tarde, Alice começou a ir para a escola, e nos anos seguintes, fomos felizes, mas havia sempre uma parte de nós que parecia vazia. Vi minha garotinha se transformar numa linda jovem com sonhos e metas e aspirações na vida que rivalizam com os meus e de Sophia. Gosto de pensar que nós — Sophia e eu — levamos o crédito pelo que Alice se tornou. Mas, ao mesmo tempo, Alice é uma pessoa única, e eu acho que ela seria assim mesmo sem nossa ajuda.
Eu não poderia estar mais orgulhoso.
Parece que faz tanto tempo. E, bem, acho que faz. Mas, até hoje, lembro o dia em que conheci Sophia naquele ônibus no Kansas, algo ainda está tão nítido e vivo na minha mente que sinto que eu poderia estender a mão e tocar. E pensar que, se nós dois não tivéssemos partido como partimos, mandando a sociedade e seus julgamentos praquele lugar, jamais teríamos nos conhecido. Se Sophia se deixasse dominar pelo medo do desconhecido, poderíamos nunca ter tomado aquele avião para a Jamaica. Nós realmente vivemos nossas vidas da forma que nós queríamos viver, não da forma que o mundo esperava que vivêssemos. Corremos riscos, escolhemos o caminho fora do convencional, não deixamos a opinião dos outros sobre nossas escolhas atrapalhar nossos sonhos, e nos recusamos a continuar fazendo por tempo demais qualquer coisa que não nos agradasse. Claro, fazíamos o tempo todo coisas que não queríamos fazer, porque era necessário — trabalhamos em lanchonetes por algum tempo, por exemplo —, mas nunca deixamos nenhuma dessas coisas controlar nossas vidas. Encontramos uma saída, no fim das contas, em vez de nos deixarmos derrotar. Porque só temos uma vida. Temos só uma chance de fazê-la valer a pena. Nós pegamos essa chance e agarramos com unhas e dentes.
E achoque nos saímos bem pra caramba.
Sinceramente, não sei o que mais dizer. Não que nossa vida tenha acabado, agora que nossa história parece chegar ao fim. Não. Com certeza, está longe de terminar. Sophia e eu ainda temos tanta coisa a fazer, tantos lugares para ver, tantas regras da vida para desafiar.
Hoje é o primeiro dia do resto das nossas vidas. É um dia especial, para Alice, para nós, para tudo o que nós três representamos. Nossa história acabou, sim, mas nossa jornada não, porque nós vamos viver entre o agora e o sempre até morrer.
WEB: Entre o Agora e o Sempre
Capítulo 179
Sophia narrando
E como foi fantástica e maravilhosa essa vida.
Lembro como se fosse ontem o dia em que partimos, no fim da primavera, para a Jamaica. Alice usava um vestido amarelo e duas presilhas florais no cabelo. Ela não chorou nem deu trabalho no voo para Montego Bay. Foi um anjinho. E quando chegamos nesse primeiro destino, assim que descemos do avião e pisamos em outro país, tudo se tornou real.
Foi então que Micael e eu ficamos… diferentes.
Mas eu já vou falar disso.
Foi há muito tempo, e eu quero começar do princípio.
Por dois meses, até o dia em que subimos naquele avião, eu continuei com medo de fazer isso. Por mais que eu quisesse fazer, por mais vezes que dissesse a mim mesma que Micael tinha razão e que eu não precisava me preocupar, eu sempre me preocupava, é claro. Tanto que, dois dias antes da partida, quase dei pra trás.
Mas aí me lembrei da época quando Micael e eu nos conhecemos, quando ele me fez enfiar suas roupas naquela mochila, logo isso:
— Então, pra onde a gente vai primeiro?— perguntei, dobrando uma camisa que ele me deu para pôr na mochila, a primeira da pilha.
Ele ainda estava fuçando no closet.
— Não, não — ele disse lá de dentro; sua voz chegava meio abafada —, nada de planejamento, Sophia. Vamos só pegar o carro e rodar. Nada de mapas, nem planos, nem… — Ele pôs a cabeça para fora do closet e sua voz ficou mais clara. — O que você tá fazendo?
Ergui o olhar, com a segunda camisa da pilha já meio dobrada.
— Dobrando suas camisas.
Ouvi um tum-tum quando ele deixou cair um par de tênis pretos e saiu do closet. Quando chegou, me olhou como se eu tivesse feito algo errado e tirou a camisa dobrada das minhas mãos.
— Não seja tão perfeitinha, gata; só enfia tudo na mochila.
Um momento aparentemente insignificante que compartilhamos, mas foi isso, no fim das contas, que me deu a coragem para subir naquele avião. Eu sabia que, se eu ficasse, se continuasse a pensar demais em tudo, a única coisa que eu iria conseguir seria deixar o medo controlar a minha, a nossa vida toda, daquele momento em diante.
E sempre que revejo nossa vida agora, a única coisa que ainda me apavora é saber que faltou muito pouco para que passássemos o resto da vida na Carolina do Norte.
Ficamos três semanas na Jamaica, adoramos tanto que nem queríamos ir embora. Mas sabíamos que tínhamos tanta coisa mais a fazer, tantos lugares para ver. E assim, uma noite, depois de nos enturmar na praia com os locais, Micael enfiou a mão no saquinho (trocamos o chapéu de vaqueira por um saquinho roxo de uísque Crown Royal, muito mais fácil de carregar) e tirou o Japão. Do outro lado do oceano…
Isso era algo que não havíamos previsto.
Nem é preciso dizer que abandonamos completamente a ideia do saquinho e de sortear países, depois dessa. Passamos a escolher a próxima etapa de acordo com a nossa localização: Venezuela, Panamá, Peru e finalmente o Brasil. Visitamos todos eles, passando o maior tempo, dois meses, em Temuco, no Chile, e evitando a todo custo lugares conhecidos por serem mais perigosos para viajantes, cidades e até países inteiros em qualquer situação de conflito. E, em todo lugar que visitamos, nos sentimos cada vez mais parte de cada cultura. Comendo os pratos típicos. Participando de eventos. Aprendendo os idiomas. Só algumas frases essenciais aqui e ali eram o máximo que Micael e eu conseguíamos aprender.
E nós voltávamos para os EUA nos feriados. Dia de Ação de Graças em Raleigh. Natal em Galveston. Ano-novo em Chicago. E, claro, também passamos o segundo aniversário de Alice em Raleigh. Nós a levamos ao pediatra para um check up e para pôr as vacinas em dia. E, sim, Micael também fazia check ups e, como a filha, tinha uma saúde de ferro.
Pouco antes da primavera, Micael concordou com a ideia de deixar Natalie e Bruno alugarem nossa casa. Era meio perfeito, na verdade. Eles estavam procurando uma casa, e nós precisávamos do dinheiro, e isso também nos livrou de pagar as contas. Ainda tínhamos muito dinheiro no banco, mas viajar tanto estava começando a abrir um buraco na nossa conta. Mas começamos a pegar as manhas de como economizar no exterior, fazendo uso de pousadas, hotéis baratos e casas de veraneio ainda mais baratas. Não precisávamos de luxo, só de um lugar seguro e limpo para Alice.
Mas acho que o que nos fazia economizar mais era que nunca viajávamos para lugar nenhum como turistas. Não comprávamos lembrancinhas nem nada de que não precisássemos. Não estávamos ali para acompanhar visitantes em passeios com guias ou gastar dinheiro fazendo tudo o que quem planeja uma viagem de férias faz. Comprávamos só o necessário, e de vez em quando torrávamos algum dinheiro em comida boa ou num brinquedo novo para Alice, quando ela se cansava do que tinha.
E também cantávamos para ganhar um dinheirinho extra, às vezes, mas, com Alice, nunca nos apresentávamos juntos. Como não ousávamos nem pensar em deixar Alice aos cuidados de alguém, nem mesmo por alguns minutos, eu parei de cantar completamente, e Micael tocou violão e cantou por uns tempos sozinho. Mas no fim ele parou também. Países estrangeiros. Estilos diferentes de música. Idiomas completamente diferentes. Não demoramos muito para perceber que nossa música não era tão eficaz nesses lugares como na nossa pátria.
Alguns meses depois do segundo aniversário de Alice, Micael e eu decidimos que estava na hora de partir. Queríamos viajar o máximo possível antes que fosse preciso parar em algum lugar para que Alice pudesse começar a estudar. E eu estava pronta para conhecer a Europa. Assim, com o verão se aproximando, Portugal se tornou nosso destino seguinte.
Micael e eu “crescemos” no dia em que descemos daquele avião na Jamaica. Foi isso que eu quis dizer quando falei que ficamos diferentes. Claro que Alice nos pôs bastante nos eixos quando nasceu, mas quando descemos do avião e sentimos a brisa nos nossos rostos, não só eu finalmente descobri que o ar é diferente mesmo em outros países, mas nós descobrimos que era real. Estávamos muito longe de casa com a nossa filha, e por mais que nos divertíssemos, daquele dia em diante, jamais poderíamos baixar a guarda.
Nós crescemos.
WEB: Entre o Agora e o Sempre
Capítulo 178
Micael narrando
Em minutos, a casa está em silêncio, depois que Sophia faz Alice dormir. Ela se senta na cadeira ao meu lado de novo, erguendo as pernas e cruzando-as sobre o assento. Apoiando um cotovelo na mesa, ela segura o queixo com a mão e me olha com um sorriso meigo, como se tivesse algo em mente.
— Micael, você acha mesmo que a gente consegue fazer isso?
— Fazer o quê, exatamente?
Ela apoia os braços na mesa à sua frente, entrelaçando os dedos.
— Viajar com Alice.
Eu fico em silêncio e me apoio no encosto da cadeira.
— Sim, eu acho que a gente consegue. Você não?
Seu sorriso enfraquece.
— Sophia, você não quer mais viajar?
Ela balança a cabeça.
— Não, não é isso, juro. Só tô com muito medo. Nunca conheci pessoalmente ninguém que tentou uma coisa dessas. É assustador, só isso. E se a gente estiver se iludindo? Vai ver que as pessoas normais não fazem esse tipo de coisa por um motivo.
De início, fiquei preocupado. Tive a sensação de que talvez ela tivesse mudado de ideia, e embora eu aceitasse o que ela quisesse, uma parte de mim ficaria decepcionada por algum tempo.
Eu me encosto e apoio os braços sobre a mesa diante de mim, como Sophia. Meu olhar fica meigo quando olho para ela.
— Eu sei que a gente consegue. Contanto que seja o que nós dois queremos igualmente, que nenhum dos dois só esteja fazendo porque acha que é o que o outro quer, então sim, Sophia, eu sei que a gente consegue. Dinheiro a gente tem. Alice só vai entrar na escola daqui a anos. Nada nos impede.
— É isso que você quer realmente? — ela pergunta. — Jura que não tem uma parte de você que só tá indo adiante com isso por minha causa?
Eu balanço a cabeça.
— Não. Mas se eu não quisesse tanto quanto você, faria assim mesmo porque é o que você quer. Mas não, eu quero de verdade.
Aquele sorriso fraco dela se fortalece de novo.
— E você tem razão — eu continuo —, é assustador, admito. Não seria tanto se fôssemos só eu e você, mas pense por um segundo. Se não fizermos isso, o que mais vamos fazer?
Sophia desvia o olhar, pensativa. Ela dá de ombros e diz:
— Trabalhar e criar uma família aqui, acho.
— Exatamente. Esse medo é a linha tênue que nos separa deles. — Faço um gesto amplo para indicar quem são “eles”, o tipo de gente do mundo que não queremos nos tornar. Sophia entende; vejo isso em seu rosto. E não estou dizendo que pessoas que decidem ficar num só lugar a vida toda e criar uma família estão erradas. São as pessoas que não querem viver assim, que sonham em ser algo mais, fazer algo mais, mas nunca vão atrás disso porque deixam que o medo as impeça antes mesmo de começarem.
— Mas o que a gente vai fazer?— ela pergunta.
— O que a gente quiser. Você sabe disso.
— Tá, mas eu digo depois. Daqui a cinco, dez anos, o que vamos fazer com nossas vidas, com a vida de Alice? Por mais que eu adore a ideia de fazer isso pra sempre, não consigo imaginar que seja realística. Uma hora nosso dinheiro vai acabar. Alice vai ter que ir pra escola. Aí vamos parar aqui de novo e ficar como eles do mesmo jeito.
Eu balanço a cabeça e sorrio.
— Corrigindo, esse medo e essas desculpas são a linha tênue. Amor, a gente vai ficar bem. Alice vai ficar bem. Vamos fazer o que quisermos, ir aonde quisermos e aproveitar a vida, sem nos acomodarmos numa vida que nenhum de nós realmente quer. O que tiver que acontecer, se o dinheiro começar a faltar, se a gente não conseguir trabalhar pra repor, se Alice precisar estudar e a gente tiver que decidir ficar num só lugar por muito tempo, mesmo se esse lugar for aqui, nesta casa, vamos fazer o que tivermos que fazer. Mas agora — eu aponto severamente para a mesa —, neste momento, não é com essas coisas que precisamos nos preocupar.
Ela sorri.
— Tá. Eu só queria ter certeza.
Eu balanço a cabeça e empurro o chapéu na direção dela com o dedo.
— Você escolhe primeiro— eu digo.
Ela começa a mexer dentro dele, mas para e estreita os olhos para mim.
— Você pôs a Itália aqui dentro?
— Pus, sim. Juro.
Sabendo que estou dizendo a verdade dessa vez, Sophia enfia mais a mão no chapéu e remexe as tiras de papel com os dedos. Ela tira uma e a segura no punho fechado.
— Bem, tá esperando o quê?— pergunto.
Ela põe sua mão na minha e diz:
— Quero que você leia.
Eu balanço a cabeça, tomo o papelzinho dela e o desdobro cuidadosamente. Leio só para mim primeiro, deixando minha imaginação explodir com visões de nós três lá. Eu estava tão fissurado em ganhar a aposta com o Brasil que nem pensei muito nos outros países, mas agora que perdi, é fácil imaginar.
— E então?— ela está ficando impaciente.
Eu sorrio e jogo a tira de papel sobre a mesa, com o nome para cima.
— Jamaica — anuncio. — Pelo jeito, nós dois perdemos a aposta.
Sophia abre um enorme sorriso. Aquela tirinha de papel sobre a mesa diante de nós é tão mais do que apenas papel e tinta. Ela acaba de pôr em movimento o resto de nossa vida juntos.
WEB: Entre o Agora e o Sempre
Capítulo 177
Micael narrando
Ficamos juntos no sofá vendo um filme pelas duas horas seguintes, depois Sophia me beija e vai tomar banho.
Eu desligo a TV, me levanto do sofá e olho ao meu redor na sala. Ouço a água do chuveiro correndo e os carros passando lá fora. Penso na conversa que tive com meu chefe ontem, quando ele me disse que já estou no emprego há quase dois anos e tenho duas semanas de férias vencidas. Mas eu sei que duas semanas não são suficientes para que eu e Sophia façamos as coisas que queremos fazer. Essa questão do emprego é a única coisa que não chegamos a resolver, decidir o que faremos quando quisermos sair de Raleigh por um mês ou mais. Não queremos perder nossos empregos, mas acabamos chegando pelo menos a uma conclusão: é um sacrifício que estamos dispostos a fazer, e vamos ter que fazer para realizar nossos sonhos de viajar pelo mundo e não virar vítimas daquela vida cotidiana monótona que tanto tememos.
Sabemos que não vamos ficar nesses empregos para sempre. E, bem, é para ser assim mesmo.
Mas eu disse ao meu chefe que sim, que eu iria tirar aquelas férias nos próximos meses. Decidi não avisá-loque iria largar o emprego sem antes falar com Sophia hoje à noite.
Eu me levanto do sofá, pego um bloco de anotações da gaveta da mesinha do computador e me sento à mesa da cozinha com ele. E começo a escrever os nomes dos vários lugares que Sophia e eu já dissemos que queríamos conhecer: França, Irlanda, Escócia, Brasil, Jamaica… Escrevo até formar um monte de tiras de papel no meio da mesa. Enquanto estou dobrando uma por uma e jogando no chapéu de vaqueira de Sophia, ouço o chuveiro sendo fechado no banheiro.
Ela aparece na cozinha com o cabelo molhado colado nas costas.
— O que você tá fazendo?— ela pergunta, mas entende antes que eu consiga responder. Ela se senta ao meu lado. E sorri. Ótimo sinal.
— Talvez a gente devesse partir em maio ou junho— sugiro.
Ela passa o pente no cabelo molhado algumas vezes e parece pensar a respeito. Depois deixa o pente sobre a mesa.
— Você acha que Alice tá pronta pra isso?— ela pergunta.
Eu balanço a cabeça.
— Sim, achoque tá. Já tá andando. A gente disse que ia esperar pelo menos até ela começar a andar.
Sophia balança a cabeça também, ainda pensando a respeito, mas não parece ter dúvidas.
— Precisamos começar cedo com ela.
Com certeza, não somos como as outras famílias. Muitos pais rejeitariam completamente a ideia de viajar para o exterior com um bebê, só por viajar. Mas nós não. Admito que não é para todos, mas para nós, é a única coisa a fazer. Claro que nossas “viagens além” não serão como as épocas que Sophia e eu passamos na estrada nos EUA. Dirigir por aí sem destino por horas, dias e semanas a fio com um bebê no carro não é totalmente factível — Alice iria detestar. Não, essas viagens consistirão mais em ficar parados em cidades que queremos explorar, e não ir de uma cidade a outra sem parar muito para descansar. E, infelizmente, não levaremos o Chevelle.
Sophia puxa o chapéu para perto de si e mexe a mão dentro dele.
— Você pôs todos os países que escrevemos na lista?— ela pergunta.
— Claro.
Ela estreita os olhos, brincalhona.
— Tá mentindo.
— Quê?Não, eu pus todos mesmo.
Ela chuta a minha canela com o pé descalço por baixo da mesa.
— Você tá de onda com a minha cara, Micael.
Então ela começa a pegar as tiras de papel, desdobrando e lendo uma por uma.
— Jamaica. — Ela põe a tira na mesa. — França. — Ela põe por cima da outra. — Irlanda. Brasil. Bahamas. Ilhas Virgens. México. — Uma a uma, ela empilha as tiras. Depois de várias, ela pega a última, mantendo-a dobrada entre os dedos, e rosna para mim. — Algo me diz que aqui não tá escrito“Itália”. — Ela está se esforçando tanto para não sorrir. Realmente não sei por que achei que isso iria dar certo.
Enquanto tento não rir e continuar sério, ela desdobra o papel e lê:
— Austrália. — Ela põe a tira no alto da pilha. — Eu deveria castigar você por tentar trapacear — ela reclama, erguendo o queixo e cruzando os braços teimosamente sobre o peito.
— Ah, por favor — eu digo, incapaz de me manter sério. — Pelo menos eu não pus mais algumas tiras com o nome “Brasil”. — Eu rio.
— Mas pensou em fazer isso, não pensou?!
Faço uma careta com seu berro, e ambos olhamos para o corredor, para o quarto onde Alice está dormindo.
Sophia se debruça um pouco sobre a mesa e cochicha entre os dentes:
— Eu vou te punir. Nada de sexo por uma semana. — Ela se afasta de novo, apoiando as costas na cadeira, com um sorrisinho.
Tá, agora esse negócio perdeu a graça.
Eu engulo meu orgulho, hesito e digo:
— Vai, você não tá falando sério. Você gosta tanto quanto eu.
— Claro que gosto. Mas você nunca ouviu dizer que as mulheres têm a capacidade mágica de ficar mais tempo na seca?Eu me viro sozinha.
— Você tá blefando— acuso, descrente.
Ela balança a cabeça de leve, com um brilho nos olhos que diz blefando-o-cacete, e isso está me deixando nervoso.
— O que você vai fazer pra se redimir, então?
Eu levanto um lado da boca num sorriso.
— O que você quiser. — Faço uma pausa, levanto um dedo e acrescento, antes que seja tarde demais: — Bem, contanto que não seja degradante, nojento ou injusto.
Com o sorriso aumentando, Sophia se levanta lentamente da cadeira. Eu observo todos os seus movimentos com a maior atenção, em parte temendo perder alguma coisa. Ela enfia os polegares no elástico da calcinha e me provoca com a ideia de tirá-la.
Puta que me pariu… sério?Você chama isso de punição?
Tento manter minha compostura, fingindo que seus gestos não me afetaram de forma alguma, quando na verdade não é preciso praticamente nada para me deixar louco por ela.
Ela se afasta de mim.
— Tá indo pra onde?— pergunto.
— Me virar sozinha.
— Oi?
— Você me ouviu.
Tá, ouvi, mas… não era pra acontecer isso.
— Mas… qual é a minha punição?
Ela para só o tempo suficiente para se virar e olhar para trás.
— Você vai ficar assistindo.
— Peraí… oquê?
Eu começo a segui-la. Bruxa do mal.
Ela vai para a sala e se deita, com a cabeça apoiada no braço do sofá e uma perna por cima do encosto.
Bruxa do mal. Do mal!
Ela me olha com ar sedutor e basta isso; assim que nossos olhares se cruzam, subo em cima dela, esmagando minha boca sobre a dela.
— Sem chance, amor — sussurro febrilmente em sua boca, e a beijo com mais força ainda. Sua mão agarra a minha camiseta, sua língua se enrola apaixonadamente na minha.
E então Alice começa a chorar.
Eu paro. Sophia para. Nós nos entreolhamos por um momento, os dois frustrados, mas não conseguimos deixar de sorrir. Alice tem sono pesado e já quase não acorda mais durante a noite, mas de alguma forma sua intervenção, esta noite, não me surpreende.
— Eu vou desta vez— ela diz, se levantando do sofá.
Fico de pé, passando a mão no alto da cabeça.
Depois que ela desaparece no corredor, volto para a cozinha e me sento à mesa para rabiscar “Itália” em outra tira de papel. Eu a jogo no chapéu, dobro todas as outras e jogo dentro também.
WEB: Entre o Agora e o Sempre
Capítulo 176
Micael narrando
9 de fevereiro — primeiro aniversário de Alice
— Marlon e Michelle chegaram! — ouço Sophia anunciar da sala.
Eu fecho o último botão nas costas do vestido de Alice e a pego pela mão. Mas ela não gosta quando seguro a mão dela e sempre se desvencilha e segura meu dedo indicador.
— Vem, bebê — eu chamo, olhando para ela. — O tio Marlon e a tia Michelle vieram ver a aniversariante.
Juro que ela entende oque estou dizendo.
Ela aperta meu dedo com toda a força, dá uma risadinha e um passão para a frente, como se eu fosse lerdo demais para acompanhá-la. Todo encurvado, eu dou passinhos rápidos e avanço pelo corredor, deixando que ela corra com suas perninhas roliças à minha frente. Quando Alice começa a cair ao fazer a curva, eu seguro sua mão, levanto-a um pouco do chão e deixo que se equilibre de novo. Ela começou a andar com dez meses. Sua primeira palavra foi“mamá”, quando tinha seis meses. Com sete meses, ela falou “papá”, e eu me derreti ao ouvi-la me chamar assim pela primeira vez.
E Sophia tinha razão— ela tem olhos castanhos como os meus.
— Alice! — Michelle exclama dramaticamente, agachando-se para tomá-la nos braços. — Meu Deus do céu, você tá enorme! — Ela a beija nas bochechas, na testa e no nariz, e Alice gargalha sem parar. — Nham nham nham! — Michelle acrescenta, fingindo morder as bochechas.
Eu olho para Marlon, que está com meu sobrinho, Arthur, colado ao corpo. Faço menção de pegá-lo, mas ele é tímido e se encolhe sobre o peito de Marlon. Eu recuo, torcendo para que ele não chore. Marlon tenta convencê-lo.
— Ele já tá andando?— Sophia pergunta, de pé ao meu lado.
Michelle segue Alice para a sala, onde uma nuvem de balões de hélio cor-de-rosa e azuis se acumula no forro. Quando Alice percebe que não vai conseguir alcançar os balões, desiste e vai direto para a sua pilha de presentes no chão.
Marlon entrega dois embrulhos a Sophia, e vamos todos para perto de Michelle e Alice na sala. Sophia põe os presentes junto com os outros.
— Ele tá tentando — Marlon responde, falando dos progressos de Arthur. — Já anda se segurando no sofá, mas ainda não sente vontade de se soltar.
— Meu Deus, ele parece com você, mano— comento. — Coitadinho.
Marlon me daria um soco no estômago, se estivesse com as mãos livres.
— Ele é lindo— Sophia elogia, estendendo os braços para pegá-lo.
Claro que é, mas eu preciso zoar o meu irmão.
Arthur primeiro a olha como se ela fosse louca, mas depois se vinga de mim por falar merda sobre seu pai, pulando direto no colo de Sophia sem problemas.
Marlon ri.
Branca e Roger, Natalie e Bruno, Sarah e seu namorado, que já tem um filho com uma ex-namorada, aparecem todos praticamente ao mesmo tempo. Depois, nossos vizinhos, Marcos e Luiza, um jovem casal com um filho de dois anos, chegam trazendo presentes. Alice, como a pequena exibicionista que é, apoia as mãos e a cabeça no tapete, empinando a bundinha enfraldada no ar. Então finge cair e diz “Oh-oh”, fazendo todos caírem na risada.
— Olha só esse cabelo louro — Michelle diz. — O cabelo de Sophia era tão clarinho assim quando ela era bebê?— pergunta para a mãe de Sophia, que está sentada ao seu lado.
Branca balança a cabeça.
— Sim, era assim mesmo.
Mais tarde, depois que todos chegam, Alice pode abrir seus presentes e, como sua mãe, canta, dança e faz um show para todos. E depois de soprar a velinha (na verdade, eu meio que soprei por ela), ela praticamente toma um banho de bolo e cobertura roxa. Seu cabelo e seus cílios estão melecados, tem bolo até dentro do nariz dela. Sophia tenta, em vão, evitar que ela faça bagunça demais, mas acaba desistindo e deixando Alice se divertir.
Alice capota depois de tanta empolgação, bem antes que o último convidado saia.
— Achoque foi o banho— Sophia sussurra para mim enquanto a olhamos no berço.
Eu pego Sophia pela mão e a levo comigo, encostando a porta do quarto de Alice, mas deixando uma fresta.