Enzo já tinha tomado a mamadeira. A tia de Lua, minha antiga chefe, Darla tinha concordado em tomar conta para que nós pudéssemos ir até o luau do clube. Era o pontapé para a temporada de verão e também somente para os membros. Micael não queria ir, mas Lua tinha ligado e implorado a nossa presença. Eu me senti culpada por não ter tido tempo suficiente para ficar mais com ela, então o convenci.
Amanhã teria uma consulta médica e a paciência de Micael estava no limite. Ele estava esperando ir comigo, para então me atacar no estacionamento. O que eu não iria reclamar, mas não queria lhe dar ideia.
Gabriel tinha ligado para ver se íamos e também Flávio. Ele queria saber se eu poderia ficar com Dani, caso ele tivesse que lidar com algo durante o luau. Lua também ficaria por perto se precisasse. Elas se tornaram amigas, o que só confirmou a minha crença de que ela seria uma boa pessoa. Lua era exigente.
A fogueira era maior do que qualquer outra na praia, isso porque a cidade não podia controlar o que acontecia na propriedade do clube, assim era permitido fazer esse tipo de festa na praia, que era pública.
Lua disse essa era à festa "imperdível" da temporada. O que me pareceu bom. Micael e eu precisávamos sair.
- Tem certeza que não quer ir mudar de roupa antes de sair do carro? – perguntou Micael, olhando para mim.
Franzi minha testa, quando olhei para minha roupa nova. Eu comprei na semana passada. Era uma saia de linho branco que ficava no meio da coxa e uma blusa amarela de um ombro só que acabava perpassando a cintura da minha saia. Era algo que brilhava se eu levantasse meus braços.
- Você disse isso em casa. Você não gostou? - Talvez meu corpo não estivesse pronto para usar algo como isso.
Micael agarrou meu queixo e segurou seu olhar com o meu.
- Você está deliciosa, Sophia. Eu não gosto de saber que outros homens estarão olhando para você.
- Tenho certeza de que não vou mudar. Eu gosto quando você fica todo possessivo. Me deixa com tesão. - eu disse a ele com uma piscadela enquanto abria a porta.
- Você está me matando, mulher. - disse ele ao fechar sua porta.
Micael estendeu a mão e pegou a minha, enquanto caminhamos até a praia.
O sol já havia caído, mas o luau iluminava o nosso caminho quando chegamos até a metade da passagem. Lua estava acenando para nós e pulando de cima pra baixo, assim que entramos na festa.
- Acho que ela quer que a gente fique com eles. - Micael disse num tom divertido.
- Também acho. - respondi.
Lua já tinha bebido três doses quando chegamos. Arthur revirou os olhos quando ela cambaleou para me abraçar. Ela cheirava a tequila.
- Ei, você está atrasada!
- Não, eles não estão. Você só começou a tomar todas logo de cara e agora está bêbada demais para saber quanto tempo nós estamos aqui. - Arthur levantou-se do seu lugar. Ele também parecia um pouco irritado com ela.
Olhei em volta para Dani, mas não a vi.
- Onde está Dani e Flávio? – Perguntei a Lua que sorriu para mim como se ela não tivesse ideia de que eu estava falando.
- Eu os vi um pouco atrás, mas Flávio teve que lidar com alguns dos funcionários que estavam fumando maconha. Não sei o que aconteceu com Dani. - disse Arthur.
Porcaria. Nós deveríamos estar cuidando de Dani.
- É melhor eu ir procurá-la. - sussurrei para Micael.
- Vou com você. Não sei se quero você andando aqui sozinha. - disse ele.
- Não. Apenas se sente e converse com Arthur. Pegue uma bebida. Eu só vou dar uma olhada por aí e volto. Você não precisa vir comigo.
Micael franziu a testa e eu o empurrei na direção da cadeira livre ao lado de Arthur.
- Vá. - pedi e olhei para a Lua. - Vou procurar Dani. - disse a ela.
- Eu também! Eu quero ir também! - Lua disse, levantando a mão como se estivesse na escola.
- Não... Sua bunda bêbada vai ficar aqui. - Arthur respondeu.
Lua estendeu o lábio inferior e se sentou no colo de Arthur.
- Você não é divertido. - ela reclamou.
Não esperei ela perguntar novamente. Virei-me e fiz meu caminho próximo ao fogo. Eu vi vários rostos familiares. Ganhei um abraço de Jimmy e conheci o cara que topou ter um encontro com ele naquela noite, mas ainda não tinha visto Dani. Dei a volta e me dirigi até os limites do luau para ver se ela estava se escondendo na escuridão. Também não vi ninguém. Eu comecei a dar meia volta e retornar para Micael, quando ouvi uma voz estridente gritando. Não era uma voz assustada, mais como se estivesse chateada com alguma coisa. Dei um passo mais perto do estacionamento e ouvi outra voz, definitivamente feminina e muito sulista tentando acalmar a outra voz. Olhei para trás na direção que deixei Micael, mas ele não me viu.
Voltei para o estacionamento seguindo as vozes. Cheguei o mais perto que pude para ouvir a conversa. Mas não havia mais ninguém no estacionamento. Então para onde eles foram? Fui até onde tinha estacionado o carro e parei.
- Não, por favor. Apenas, fale com Flávio. Eu não fiz nada. Eu juro. Não, oh Deus. - A voz suave estava com medo.
- Estou farta de falar com Flávio. Você pegou o que era meu. Ele escolheu você. Chega... Ele pode ter você sua vadia idiota. Mas primeiro você vai pagar por ter tomado o que era meu. - Um forte tapa e um grito de dor seguido das palavras dela. - Isso dói, não é, piranha? Você é uma idiota. Por que Flávio pensa que você pode fazê-lo feliz, eu não sei. Mas ele vai aprender. O merda vai aprender a não se meter comigo.
Ouvia uma voz que sabia que era Dani. Eu não tinha ideia de quem era à outra mulher, mas ela estava machucando Dani. Pensei em chamar Micael, mas ela poderia machucar ainda mais a outra.
Eu não precisava de Micael. Eu não tinha certeza de quem era a psicopata, mas eu poderia lidar com ela. Enfiei a mão na bolsa e tirei a chave, abrindo a porta do carro silenciosamente.
Deslizando minha mão sob o assento, peguei minha arma e garanti que a carga estava vazia, e então verifiquei a trava de segurança. Eu não tinha a intenção de atirar em ninguém. Não havia necessidade de que ela estivesse carregada. Eu só precisava assustar a agressora e, em seguida, chamar Flávio.
Felizmente, ela não tinha machucado muito a Dani.
Outro grito de Dani me fez andar mais rápido. Eu segui as vozes próximas a um edifício. Eu vi a outra mulher pela primeira vez. Ela estava segurando Dani pelos cabelos e a chamou de louca novamente. Ela tinha certeza que Dani era maluca. Essa vadia estava me irritando.
Eu segurei a arma e apontei para a mulher antes de deixá-la saber que ela tinha companhia.
- Deixe-a ir. - eu disse e percebi como a mulher se virou ainda segurando o cabelo de Dani... que soltou outro soluço.
- Que porra é essa? - Disse a mulher, olhando para mim como se eu fosse a única louca.
- Solte o cabelo dela e dê um passo longe. - eu disse alto e em bom som, no caso dela não ter entendido.
- Você só pode estar brincando. Eu não sou idiota. Vá cuidar da sua vida e pare de brincar de As Panteras.
Soltei a trava de segurança e posicionei a arma.
- Ouça piranha. Se eu quisesse poderia furar ambas as suas orelhas daqui sem estragar a merda do seu cabelo. Vá em frente e me teste. - Eu mantive minha voz calma e fria. Eu queria que ela acreditasse em mim, porque realmente não queria ter que atirar nela para provar meu ponto.
Seus olhos se arregalaram e ela soltou o cabelo de Dani. Do canto do meu olho, eu vi Dani rapidamente se afastar.
- Você tem alguma ideia de quem sou eu? Eu poderia acabar com você. Você vai ficar na cadeia por muito tempo por te me ameaçado. – ela disse, mas eu ainda ouvia o medo em sua voz.
- Nós estamos no escuro e somos três. Você não tem um arranhão. Os machucados e as feridas de Dani provam que será nossa palavra contra a sua. Eu não me importo quem você é. Só me parece que não é uma situação boa para você.
Ela se afastou para longe de mim um pouco mais, mantendo os olhos na minha arma.
- Meu pai vai saber sobre isso. Ele vai acreditar em mim. - disse ela com a voz trêmula.
- Bom pra você. Meu marido também vai saber sobre isso e ele, com certeza, vai acreditar em mim.
A mulher soltou uma risada com raiva e balançou a cabeça.
- Meu pai pode comprar esta cidade. Você mexeu com a mulher errada.
- Sério? Tente de novo, porque agora você está olhando para uma mulher com uma arma carregada que pode atingir um alvo em movimento a qualquer hora. Então, por favor... Só. Tente. Novamente.
Dani estava encolhida com os braços em volta dos joelhos enquanto continuava sentada silenciosamente nos observando.
- Quem é você? - Perguntou a mulher, pela primeira vez, me levando a sério.
- Sophia Borges. - respondi.
- Merda. Micael Borges se casou com uma caipira com uma arma. Eu acho isso difícil de acreditar. - Ela esnobou.
- Se fosse você, eu acreditaria, já que ela está segurando a porra da arma. - a voz de Micael veio atrás de mim.
Os olhos da mulher se arregalaram.
- Você está brincando comigo? Esta cidade é louca. Como todos vocês.
- Você foi a única a bater em uma mulher inocente por causa de um homem e no escuro. - Lembrei a ela. - Você é a única que parece louca aqui.
- Tudo bem. Já chega disso. Vocês venceram. – ela gritou e caminhou para o estacionamento. Eu baixei a arma e coloquei de volta a trava de segurança antes de entregá-la a Micael, e então corri para Dani. Seus grandes olhos azuis estavam arregalados em descrença.
- Você realmente acabou de apontar uma arma para ela? - ela perguntou com admiração na voz.
- Ela estava dando uma surra em você. - lembrei. Ela escondeu o rosto entre as mãos e soltou uma risada trêmula.
- Oh meu Deus. Ela é louca. Eu juro que eu estava começando a pensar que ela ia me bater até eu ficar inconsciente. Fiquei pensando que ia desmaiar e ela realmente iria me machucar. - Ela olhou para mim. - Obrigada.
- Você pode se levantar? Ou prefere sentar aqui mais um pouco, enquanto eu chamo Flávio?
- Eu quero me levantar. Eu preciso me levantar. - disse ela.
Ela assentiu com a cabeça e tirou um do seu bolso. Esperei enquanto ela ligou para Flávio.
- Ei. – ela fez uma pausa. - Na verdade, não, não realmente. Eu tive um incidente com Angelina. – ela disse. - Não... não... ela se foi. Huum, Sophia apareceu e... deve ter assustado ela. – ela esperou a resposta de Flávio. - Sophia ainda está aqui com o marido dela. – outra pausa. - Atrás do edifício-garagem. – ela falou. – Ok, também te amo.
Ela desligou e olhou para mim através de cílios grossos.
- Bom. Vamos esperar com você. - Eu abri minha bolsa e tirei um pacote de lenço umedecido. Eu era uma mãe agora, então tinha isso comigo a todo o momento. – Você quer limpar o sangue de seu lábio antes dele chegar aqui e ir atrás de Angelina?
Dani acenou com a cabeça e pegou o lenço da minha mão.
Eu me virei para olhar para Micael que estava me observando, mas até agora não tinha falado muito. Dois faróis apareceram pela estrada, logo brecando ao lado de onde estávamos. Flávio pulou da caminhonete e veio correndo até onde eu estava com Dani.
- Droga! - ele gritou puxando-a em seus braços. - Deus, baby, eu sinto muito. Ela vai pagar por isso. - assegurou ele, enquanto suas mãos corriam sobre ela verificando se ela estava bem.
- Está tudo bem. Acho que Sophia a assustou. - Dani disse contra o peito dele.
Flávio olhou para mim e fez uma careta.
- O que Sophia fez? - perguntou Flávio.
- Ela apontou uma arma para ela e a ameaçou furar suas orelhas. – disse Dani.
Flávio levantou uma sobrancelha.
- Então, Alabama puxou a arma de novo? Obrigado, Sophia. - disse ele antes de beijar a cabeça de Dani e sussurrando em seu cabelo palavras que foram feitas para ninguém a não ser ela.
- Fiquei feliz em encontrá-las. Você precisa fazer algo sobre essa mulher, ela é uma piranha maluca. - eu disse antes de virar e caminhar de volta para o Micael. Ele colocou a mão na minha cintura e me segurou contra ele.
- Obrigada. - Dani falou novamente.
- Não há de quê. - respondi e depois Micael e eu voltamos para o estacionamento.
- Não vou ser capaz de esperar até amanhã. Você estava incrível quando virei à esquina e você estava lá como uma poderosa segurando uma arma contra Angelina. Eu acho que posso ter gozado no meu maldito jeans quando você disse a ela que podia furar as orelhas dela de longe. Vou ter que te foder gostoso hoje a noite.
Eu tentei morder o lábio para não rir, mas não consegui.
- Fico feliz que você concorde que não há mais porque esperar. Estou pronto para me perder no meu céu de novo.
Eu parei de andar e fiquei na ponta dos pés para beijar sua bochecha.
- Eu te amo, Micael Borges.
- Foi bom eu não ter desistido de você, quando você quis me deixar aquela vez.
- Fico feliz por você não ter desistido de mim. Isso é pra sempre não é? - perguntei.