é difícil se aceitar
Nesse último dia de agosto se encerra o mês da visibilidade lésbica, mas lutaremos por ela sempre. Dessa vez quero falar de mim, especificamente. Falar sobre a enorme dificuldade que tive em me aceitar, quebrar preconceitos e desgrudar da ignorância. Chegando até os dias de hoje, em que me aceito e me amo como sou, finalmente liberta das amarras dos padrões. Lembro que desde quando eu era criança, eu não me encaixava nos padrões do gênero feminino. Não queria arrumar meu cabelo, passar maquiagem nem usar saias e vestidos. Odiava rosa. Não queria gostar de meninos. Eu queria poder ser como eles porque eles podiam fazer tudo. Podiam sentar como quisessem, falar o que quisessem, correr, lutar, jogar futebol, subir em árvores e ficar até mais tarde na rua. Usavam bermudas, camisas e tênis legais. Tinham carros, motos, skates e vários outros brinquedos interessantes e divertidos. Isso tudo eu consegui até certo ponto, mas minha mãe começou a tentar controlar meu comportamento e minhas roupas. Eu deveria ser uma “mocinha” e não um “moleque”. Mesmo brincando de Barbie, eu escolhia ser o Ken. Em todas as brincadeiras imaginárias, eu era um homem. Brincando com meus primos eu era um homem. Que graça tinha em ser uma mulher? Não podia fazer nada de aventureiro ou extraordinário, era só um papel chato e entediante. Eu queria ser importante e nos fizeram acreditar que as meninas não podiam ser. Além disso, garotas se interessavam por garotos. Então, mesmo que de brincadeirinha, eu podia fingir que tinha alguma interessada por mim. Eu odiava a parte de cima do biquíni e não entendia o motivo de ter que usar se meu peito era liso, igual do meu primo. Me recusei até que eles começaram a se formar... odiei isso, me expôs como mulher. Assim mais coisas começariam a ser impostas a mim e o que eu podia fazer era apenas aceitar. Na escola, a separação entre gêneros ficava cada vez mais evidente. Não eramos iguais e não podíamos nos misturar. Tinha fila para os meninos e fila para as meninas. Era difícil um professor permitir na aula de educação física que um menino jogasse vôlei com as meninas, ou que uma menina jogasse futebol com os meninos. Um menino que tivesse muitas amizades com meninas, era gay. Uma menina que tivesse muitas amizades com meninos, era sapatão. Minha primeira lembrança lésbica é de quando eu tinha mais ou menos 6 anos. Eu gostava de uma menina da minha sala e queria que ela fosse minha namorada. Depois aos 8, tive outra paixão na escola e dizia para dois amigos meus que ela era minha namorada. Era segredo, ela nem sabia disso... coisa de criança. Essa informação vazou para todos os alunos do meu ano e tive que enfrentar isso até o colegial. Não foi legal. Sempre temi a palavra “sapatão”. Era horrível. Um xingamento. Uma coisa que você nunca poderia ser. É motivo de chacota, piadas maldosas, zoação e bullying. E eu ouvi muito essa palavra. Sempre usada no pejorativo e ainda era piorada: “maria-homem”. Uma menina jamais poderia fugir do padrão do feminino. Ela não podia preferir a bermuda larga do que o shorts estilo legging (referência aos uniformes do colégio em que estudei). Também não podia fazer “brincadeira de menino”. Nem andar com eles se não você seria menos mulher por isso. Você seria meio homem: maria-homem. Inclusive, aos 10 ou 11 anos de idade, teve um episódio em que alguns garotos me cercaram na escola para ficarem me chamando disso. Eu fiquei tão ofendida que comecei a chorar. Não sabia o que fazer e liguei para minha mãe me buscar. Ela ficou me dizendo que eu não era “aquilo” e fez os envolvidos me pedirem desculpas. Teve até reunião com o pai de um deles. Até hoje ela faz questão de tocar no assunto: “lembra da vez que te chamaram de maria-homem (sempre insistindo em usar essa palavra) e você chorou porque nunca foi isso?”. A questão é: eu nunca entendi o que era isso. Só sentia que era ruim. Mulher que gosta de mulher? Anormalidade total. Puro desconhecimento meu. Depois disso tudo, passei a esconder o que eu sentia. Reprimia meus pensamentos... eu tava errada, tinha que pensar em meninos. Mas eu nunca consegui. E os que eu me esforçava para tentar gostar, eram amigos meus. Eu tentava me iludir com isso, sempre. O tempo passava e os pesamentos continuavam. “Com qual amiga eu namoraria?”, “eu gostaria de namorar fulana”. Eu sonhava, não conseguia mais controlar. Com 14 anos eu dei meu primeiro beijo, foi um garoto e eu odiei. Durante minha adolescência eu acreditava que tinha que me encaixar nos padrões, inclusive, comecei a comprar vestidos e saltos para ir em festas de 15 anos. Me senti obrigada. Era assim que eu acreditava que me encaixaria na sociedade. Eu nunca me senti confortável com isso, mas fingia que sim. Eu queria ter o cabelo curto mas parecia que não podia fazer isso, jamais. Por mais ou menos 10 anos, eu abafei tudo o que sentia. Quando fiz 16, eu comecei a entender melhor o mundo LGBT com a ajuda de uma amiga nova (que era bissexual). Até então eu jurava de pé junto que era hétero. Eu não aceitava ser outra coisa além disso. Ficamos muito próximas e eu gostava muito dela. Descobri que ela era a fim de mim. Isso me incomodou muito. Eu fiquei apavorada. No fundo, eu sabia que sentia o mesmo, mas não podia. “Comigo não. Isso é errado. Eu não sou assim, eu não posso ser assim”. Fiquei meses atordoada com esses pensamentos e decidi dar uma chance. Nos encontramos e nos beijamos. Não dá nem pra explicar o nervosismo que corria dentro de mim, minha boca estava completamente seca e eu nem conseguia pensar. Foi muito diferente do primeiro beijo. Mesmo sendo atrapalhado, foi uma sensação incrível. Então comecei a me entender. Mas até aceitar isso foi um processo longo e doloroso. -
Tudo bem. Finalmente eu estava aceitando minha condição. Não deu nem tempo de assimilar as coisas direito e um mês depois meus pais descobriram. Eu ainda tinha 16 anos e minha vida se tornou um caos. Na época passei por barras pesadas. Ninguém em casa me apoiou. Sofri ameaças, fui obrigada a frequentar a igreja e psicólogos que tentaram fazer uma lavagem cerebral. Eu só chorava. Não conseguia comer. Entrei em depressão. Fui no hospital por dor de estômago e tive reação alérgica a um medicamento. Sofri um choque anafilático e precisei ser internada por 3 dias. No meio disso tudo eu tentei, ainda, manter o relacionamento com alguém que exigia muito mais do que eu poderia dar naquela época. Me afastei da família, não conversava com ninguém. Não queria a companhia deles. Fui humilhada. Afastei dos amigos e achei que ninguém iria querer continuar falando comigo. Me isolei total. Eu estava esgotada e só tinha uma pessoa que podia contar, mas ela me abandonou quando eu mais precisei e no dia do meu aniversário me traiu. Eu não tinha ninguém e acabei aceitando o pedido de desculpas pensando que a culpa era minha por ser tão limitada. Continuei tentando manter esse relacionamento até o fim de 2013. Tudo sempre escondido. Depois de certo tempo, contei para alguns amigos sobre minha sexualidade. A maioria permaneceu ao meu lado, mas tem aqueles que continuam presos a ignorância e te julgam. E é aí que você se afasta deles. Tive que aguentar tudo dentro de casa sozinha. Não foi fácil e continua não sendo. Sem entender como, aos 18 anos consegui passar em uma Universidade Estadual. Sair da casa dos meus pais? Um sonho sendo realizado há mais ou menos 900km de distância. Eu comecei a ler mais sobre o feminismo e a comunidade LGBT. Me informei, me libertei, me desmistifiquei do medo da palavra “sapatão”. No primeiro ano de faculdade pude expressar minha sexualidade sem medo, até que enfim. Uma experiência que nunca tive antes, foi ótimo. Mas ainda faltava alguma coisa em mim, eu não me sentia completa e nem confortável. Tinha algo de errado com minha aparência e a ideia “quero cortar o cabelo” apitava cada vez mais. No final de 2014 me permiti a cortar (FINALMENTE) meu cabelo, mesmo com as proibições dos pais. Ele tava enorme. Foi uma das melhores experiências da minha vida. Não ficou lá essas coisas, eu ainda achava que tinha que cortar mais. E depois acabei cortando mesmo. Eu tinha que fazer uma coisa de cada vez para que, além de eu me acostumar com a aparência diferente, meus pais também deveriam. E aí, após certo tempo, comecei a mudar meu guarda-roupa. Me desfiz de todas as roupas que eu não gostava. Todos os vestidos, blusas, calças, shorts, sapatilhas, saltos, tudo o que me incomodava e não faziam parte de quem eu sou. Comprei roupas novas, me encontrei na sessão “masculina”. Extingui os shorts curtos e troquei por bermudas. E sinceramente, eu deveria ter feito isso a muito tempo. Hoje com 20 anos posso dizer que me amo. Não foi fácil sentir esse amor próprio. Mesmo me aceitando como lésbica, demorou mais 4 anos pra eu me amar. Fugindo tanto dos padrões de gênero como eu fica mais difícil. É dolorido, a sociedade te dá um soco no estômago sempre que pode mas é preciso continuar lutando pela nossa visibilidade. Quebre esteriótipos. Nenhuma mulher é obrigada a manter o padrão de um sistema patriarcal opressor. Você não é menos mulher de calça e cabelo curto. Você é resistência e luta! Até hoje meus pais não me aceitam, mas esse ano minha irmã mais velha me aceitou. Isso já foi o bastante pra mim. Voltamos a nos falar e a conviver bem. Precisamos espalhar conhecimento e histórias por aí, pra cada sapatão sem amparo saber que não está sozinha. Vocês tem com quem contar, pelo menos podem contar comigo.








