📩 to Sebastian📌
"Sebs,
Aqui reside tudo o que eu sempre quis dizer, mas que só consegui escrevendo. Muitos textos estão incompletos, outros são só fragmentos de ideais que quis colocar no papel. Mas tudo isso é parte de mim. Leia com carinho, tudo bem? Espero que goste.
Your Franny Blue
Franny Blue
Sincerely Yours,
Little Bunny”
A decisão de presentear Sebastian com seu caderno de contos e rascunhos foi tomada após uma longa e tranquila noite de sono. Desde o fim do terceiro encontro com o príncipe Alexander, a ansiedade com o futuro deixou de ser uma questão tão intensa quanto antes. Claro, ainda guardava certos medos e incertezas, mas sentia que um peso havia saído de suas costas com a eliminação. As madrugadas de insônia reduziram, ela voltou a tentar se alimentar no horário correto — nem sempre conseguia — e continuou a escrever. Apesar de perceber que desejava seguir atuando, não tinha deixado os seus textos de lado. Talvez um dia poderia escrever um roteiro, transformar em filme uma de suas histórias...De todo modo, ao acordar, pediu um papel de presente vermelho com bolinhas brancas para a sua dama de companhia e ela mesmo embrulhou o presente. O caderno foi confeccionado com suas próprias mãos, então era cheio de falhas na lombada, mas Franny sabia que a escolha das folhas, da linha de costura e até do azul escuro da capa de couro tinha sido dela e sentia orgulho disso. E foi pelo desejo de manter o presente todo artesanal que recusou a ajuda de sua dama de companhia no momento da embalagem. Com certeza, teria ficado melhor nas mãos da outra, já que Franny era péssima com qualquer atividade que exigia habilidades tão precisas como aquela. Bordado, desenho e pintura sempre estiveram fora do alcance da Fitzgerald, mas ainda assim, conseguiu embrulhar o presente.
Era o seu caderno dos medos, dos sonhos, das esperanças, angústias, felicidades e incertezas. Ali residiam histórias fantásticas, de pequenas mulheres que nasceram com asas sem o poder de voar, de crianças de barro vivendo em um mundo de mármore, de uma jovem pintora que transformou sua dor em arte e de um escritor falido que tinha o sonho de virar um artista de circo, para que sua família fosse feita de desconhecidos das estradas. A potência dos textos de Franny Blue estava nas sutilezas que, muitas vezes, só cresciam na alma do leitor depois de horas após o primeiro contato com o texto, como se as palavras fossem raízes e crescessem dentro de si, agitando as entranhas pouco a pouco. No final do caderno, próximo de onde as últimas frases foram escritas, tinha uma história específica, que a Fitzgerald fez questão de deixar marcada com um asterisco. Era sobre um homem que estava sentado em um canto de uma estação vendo as pessoas irem e virem. Cada uma tinha seu destino, às vezes compartilhavam recortes de suas vidas com ele e o homem permanecia parado, dando sorrisos, assentindo com a cabeça ou só olhando, atento. Ninguém sabia quando ele havia chegado ali ou para onde iria, mas todos os dias, os passageiros que por ali passavam, o viam no mesmo lugar — sempre calado, sempre atento — alheios a solidão que o abraçava. Mas então, em determinado momento do conto, aparecia uma mulher perdida, que não falava língua alguma e o forçava, sem querer, a sair da inércia de permanecer sentado no seu consagrado banco da estação. Ele se levantava para tentar ajudá-la a encontrar o seu destino, mas depois disso, o texto estava incompleto, sem um final específico. Franny desejava finalizar um dia, mas parou naquela parte, porque decidiu que só continuaria quando soubesse qual seria o caminho do homem da estação e da mulher perdida.









