Branco Letal, de Robert Galbraith
Quando terminei “Vocação para o Mal”, lembro de ter pensado, satisfeito, em como a narrativa da série, iniciada no mediano “O Chamado do Cuco”, havia melhorado progressivamente e atingido o seu ápice naquele terceiro volume. A dinâmica entre os personagens havia ganhado mais espaço, o relacionamento de Robin com o noivo abarcava sutilmente pautas contemporâneas sobre relacionamento abusivo e a própria investigação fugia do cansativo esquema “entrevista-pista-entrevista”. No entanto, fiquei ligeiramente incomodado com a abordagem de algumas questões mais políticas, como a de um personagem que tinha o desejo de amputar um membro, o que aponta para um transtorno mental, mas que acaba sendo tratado no texto como algo ridículo em face do protagonista, que realmente tem uma perna amputada. “Branco Letal” mantém todo o aprimoramento da narrativa, mas escancara ainda mais as rachaduras na visão progressista do autor.
- E você viu uma criança estrangulada, Billy?
Aqui, Strike e Robin precisam dividir sua atenção entre investigar um caso de chantagem envolvendo um parlamentar e o possível assassinato de uma criança, relatado por um rapaz que aparenta ter problemas psicológicos. Paralelamente, os detetives precisam lidar com as próprias questões pessoais que parecem sempre à beira de um colapso.
Com quase duzentas páginas a mais do que o antecessor, este é o livro mais ambicioso da série, preenchendo a trama com dezenas de personagens e inaugurando duas linhas de investigação diferentes, que levam os detetives por ruas, apartamentos, pubs, centros comunitários, mansões, clubes secretos, escritórios e até o parlamento inglês. A quantidade de informações é gigantesca, mas nunca parece absurda demais para o raciocínio da dupla, nem cansativa para nós, leitores. Aliás, mantém o dinamismo que a série, calcada no realismo policial, demorou para alcançar. No entanto, como acontece nos livros anteriores, os detalhes dos casos só interessam para a resolução dos mesmos e desaparecem da nossa mente assim que são concluídos.
O que fica mesmo em “Branco Letal”, e certamente compõem os momentos mais prazerosos da leitura, são os acontecimentos que envolvem a vida pessoal dos personagens. A deterioração da relação de Robin, a aversão que Strike tem das namoradas e o sentimento que está aflorando entre os dois são deliciosos de acompanhar. O autor, sendo alter ego de quem é, tem experiência em explorar tensão sexual e sabe que um movimento apressado pode minar uma dinâmica riquíssima. Já os núcleos secundários, que envolvem vilões e vítimas em diferentes níveis, são calcados em visões políticas que trafegam entre o interessante e o problemático e comprometem a crítica partidária proposta aqui.
- Onde estavam vocês marxistas quando desafiamos o ideal da família heteronormativa?
As críticas feitas ao conservadorismo abordam a hipocrisia do modelo de família padrão, o autoritarismo, a frivolidade e os flertes com a corrupção enquanto que para o lado (não diametralmente) oposto é reservada uma espécie mais elaborada de vilania, onde se concentra a maior deficiência da imparcialidade. Os personagens de esquerda, principalmente os masculinos, estão num espectro que vai do mero demagogo, que usa o discurso para conseguir transar, até o manipulador mais perigoso, que quase flerta com o terrorismo. Em uma determinada passagem, Robin vai a uma festa deste grupo em que os integrantes parecem saídos da família Manson: bêbados, drogados, completamente avessos a higiene básica e comentando pautas esquerdistas de modo grotesco, apenas para reafirmar a falta de crença nelas. Assim, a direita, convicta das próprias controversas, soa até razoável diante dessa esquerda leviana, que utiliza pautas sociais para pôr em prática suas intenções mesquinhas e se comportam como animais.
Outro ponto fraco é o modo como o casamento de Robin e Matthew é (aparentemente) resolvido, fazendo-a tomar uma decisão praticamente forçada e comprometendo todo o processo de empoderamento que vinha sendo construído. Felizmente isso leva a um gancho mais honesto do que o deixado por “Vocação para o Mal” e talvez possa devolver um pouco da força perdida no próximo título.
Apesar dos tropeços, “Branco Letal” é uma ótima experiência, um ponto ligeiramente mais baixo do que o anterior, mas definitivamente alto. Torço para que as recentes contendas políticas de Rowling não traguem esta história para algum radicalismo protetivo, como tem acontecido com seu comportamento nas redes sociais.











