The White Album: Falta de sintonia, profissionalismo ou simplesmente saco cheio um do outro?
É inegável que a qualidade sonora dos Beatles foi se aprimorando ao longo dos seus quase dez anos de existência, mas o que realmente acontece quando cada membro está em um momento diferente da vida e não parecem entrar num consenso exato a cerca da sonoridade do álbum como um todo? Acontece um lançamento como "The Beatles"
Lançado em 1968, após o período frutífero que os quatro passaram isolados na Índia, o que para muitos pôde ser considerado como o começo do fim da banda. O disco duplo recebeu o maior número de faixas da carreira dos Beatles e foram tantas composições que eles tiveram que dividir o álbum, e a divisão não teve um sentido: Fizeram o que sabiam fazer de melhor e deixaram George Martin cuidar do resto. As gravações foram um verdadeiro caos; os quatro homens transtornados pela súbita perda de um amigo e empresário, aquele que também cuidava de resolver todos os conflitos pessoais da banda, e frustrados pela tentativa de buscar conforto na meditação que usaram da viagem como uma resposta para todos os momentos turbulentos que cercavam o grupo, coletivamente e individualmente. Ambas tentativas sendo um fracasso total! Pelo menos para três deles, já que George Harrison permaneceu imerso a cultura indiana até os dias de seu falecimento.
É impossível falar de um álbum dos Beatles e não dar foco total para Lennon-Mccartney, afinal eles assinavam a maior parte de composições dentro da banda. Uma dupla imbatível que naquele ano não parecia encontrar um jeito de sintonizar seus pensamentos como faziam anteriormente; é notável que ambos tinham suas faixas escritas de forma bem singular e apenas levavam o nome um do outro por fins contratuais. As faixas de McCartney têm uma sonoridade mais animadas e com um toque cômico — como no caso de Rocky Raccon — com exceção da famosa ‘Blackbird’ que possui um tom melodramático e suave, dispensando o uso de guitarras e tendo seu solo no violão e de ‘Helter Skelter’, considerada como uma das músicas pioneiras para o gênero heavy metal. É uma mistura que funciona bem para a época, mas não funcionou tanto para o álbum. Já da parte de Lennon temos músicas mais melancólicas e deprimentes, já que o homem não fez questão de esconder que estava passando por um período conturbado de sua vida. Em músicas como ‘Im So Tired’ e ‘Yer Blues’ ele deixa bem evidente o quanto seus pensamentos beiravam aos suicidas, afundado numa tristeza e na confusão pessoal que estava tomando conta de sua vida; Um divórcio e consequentemente o abandono de seu filho, a morte de Brian e o afastamento de Paul pareciam engatilhar Lennon para o fundo mais subterrâneo do poço. As baladas ‘Dear Prudence’ e ‘Julia’ também possuem um tom mais simplista e atônico, carregado de pesar e culpa de mortes que o acompanhariam enquanto ele estivesse sóbrio.
Falando agora de George Harrison, meu membro favorito, digamos que ele teve uma das épocas mais infelizes, musicalmente falando, pois não era incomum vê-lo descartando letras e melodias boas em prol do ego estratosférico de seus dois companheiros de banda. Ele parecia e se sentia cada vez mais como uma peça fora de jogada. Então, quando teve a oportunidade de se mostrar e mostrar suas canções por mais de dois minutos, ele nos deu de presente 'While My Guitar Gentle Weeps ' ; uma das melhores músicas do álbum e a preferida de muitos. Trazendo os vocais pouco aproveitados de George e o solo de guitarra de Eric Clapton — que também participou de uma versão alternativa de Yer Blues —, a música tem uma letra excruciante e demoníaca de tão boa, melodias arrepiantes e toda a capacidade de George Harrison de se firmar como um protagonista de uma banda que sempre parecia lhe colocar em segundo plano. Era como se ele estivesse rasgando sua alma para ser visto como igual por John Lennon e Paul McCartney.
Ringo Starr não trouxe tanto para o álbum além de seus bons esforços para a bateria sob o incessante comando de Paul, ‘Don’t Pass Me By' sendo sua única composição no álbum e um toque de leveza num álbum tão carregado. E deve ser exatamente por isso que ele saiu da banda por duas semanas durante as gravações do The White Album, deixando a bateria de ‘Back To U.R.S.S’ por conta de McCartney.
Longe de mim odiar o álbum. Eu acho que eles tinham grandes e diferentes ideias que particularmente poderiam não se encaixar tão bem. E de fato, pode soar um álbum confuso e jogado, como se nada fizesse sentido dentro dele, mas acho que o The White Album reflete justamente a situação da banda naquela época. Eram quatro jovens adultos passando por um turbilhão de coisas ao mesmo tempo sem conseguirem uma comunicação clara para se resolverem, tendo diversos conflitos entre si ao ponto de ocorrer saídas temporárias e brigas acaloradas entre todos os membros. É apenas um retrato de tudo que os Beatles foram naquele ano de 68.
É o melhor álbum deles? Não na minha opinião. É o pior? Também não, eles já compuseram coisas mais assombrosas. Vale a pena escutar periodicamente, se você não estiver tão afim de ouvir 30 músicas a fio como apenas uma fã maluca faria. (Autocrítica.














