Hoje meu celular tocou, T. E eu odeio o som que ele faz porque eu não entendo quem precisa ligar ao invés de mandar mensagem. Geralmente é algo sério e eu odeio levar as coisas a sério. Mas quando eu vi, era seu número no visor. Queria dizer que não reconheci a chamada. Só que eu decorei seu número, a placa do seu carro e todas as nossas datas. Deixei tocar. No primeiro toque, virei o celular de cabeça para baixo. Não suportaria ficar olhando aquilo acontecer e ignorar. Porque no fundo eu queria atender, T, e gritar que sentia tua falta. Mais um... Olha para mim, T. Esse meio metro de encrenca tentando tirar forças sabe-se lá Deus de onde para ignorar uma maldita ligação. Pensei em atender e peguei o celular na mão. Eram 4:12 da manhã. O que você queria comigo essa hora, T? A tela se apagou e eu senti um alívio barato junto com a dor da tua ausência. Ouvir tua voz teria acabado comigo. Como em todas as outras vezes em que você fez isso só para tentar reascender qualquer chama apagada em mim. Mesmo porque, T, todas as vezes que precisávamos ligar um para o outro, era problema. Lembro-me da ultima vez em que tivemos um conversa decente por celular. Foi naquela época em que ficamos longe um do outro e você me ligou para tocar nossa música preferida da outro lado da linha. “after all this time I’m coming home to you”. Eu ainda ouço sua voz quando tocam esses acordes. Achei que estava livre, que tinha me livrado de você – de nós – por mais um dia. E foi aí que o celular vibrou: uma mensagem sua. “Desculpe, foi engano, K.” Tudo bem, é isso que a gente é, um engano. Um erro, um passado recente, um foi-mas-não-é-mais. Aquele maldito erro que a gente insiste em chamar de belo, e que de belo não tem nada. Eu te conheço, T. Você apagou meu número no dia em que fui embora. E ninguém disca 9 dígitos sem querer. Eu nunca esqueci seu número, mas ainda assim entrei no jogo: “Quem é?” – respondi. Vou continuar fingindo que acredito nos seus enganos e cometendo os meus aqui. Enquanto a gente errar, vai lembrar um do outro.
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