Wuldor is the English name for the Norse god Ullr. His legendary archery skills were remembered in the Old English term Wuldorgeflogene or ‘glorious flown things’. Wuldor is a keeper of oaths and had an oathring – much like Ullr’s Ullarhringr- called the Wuldorbeag, which also symbolised the torc or crown.
In English lore Wuldor’s name appears in the Wuldortanas or Glory Twigs- the Nine Glory Wands from the Nine Herb Charm which we associate with Woden. We also find his name in the OE Wuldorfæder or Glory Father and OE Wuldor-alwealda or Glorious all-ruler, names later borrowed by christianity.
The origin of the name Wuldor, *wulþuz means Glory, stemming from an older root *wel-ēt- meaning ‘to see’.
Obediência - substantivo feminino. 1. Ato ou efeito de obedecer. 2. Condição ou qualidade de obediente.
Depois de alguns dias de ambientação, Wuldor já estava começando a entender como todos se relacionavam dentro daquela estranha casa. Conheceu, completamente contra a sua vontade, mais alguns dos habitantes do lugar. Além de Ta-Dah, B.A., Fancy, Acid e o tal Botânico, descobriu que mais três criaturas bizarras viviam ali – uma pessoa que ele não conseguira decifrar o gênero chamada Gold Chamber; uma criatura cinzenta e também de gênero indecifrável chamada de Ozma; e uma mulher rude e completamente sem modos chamada de S-Me.
Claro, Alala continuava com eles na casa, porém passava a maior parte do tempo com Fancy, fazendo sabe-se-lá o que (não que Wuldor se interessasse pelo paradeiro e pela rotina da garota de verdade).
“Ei, babaca.” A mulher chamada S-Me, pegou Wuldor pelo ombro. Sua pele escura e unhas pintadas de vermelho eram um imenso contraste com toda a brancura que definia Wuldor (tanto na pele quanto nas roupas).
Wuldor continuou seguindo, desvencilhando-se de S-Me, sem olhar para ela. Ele já estava sendo obrigado a ficar ali, não precisava se relacionar com essas estranhas pessoas e seus nomes estúpidos.
“Você vai me ouvir sim, branco azedo!” Dessa vez ela gritou e a casa toda tremeu. Wuldor desequilibrou-se em sua constante flutuação e bateu contra a parede, caindo no chão. “Viu, branquelo. Aqui você ouve quando chamam você, especialmente se for eu, porque você não vai querer me ouvir gritando no seu ouvido.” S-Me caminhou até Wuldor e o puxou do chão pela gola de seu casaco. “É hora do treinamento. O Botinho me pediu para vir catar você para vir treinar. Não é uma pergunta, eu estou mandandovocê vir. Sem opção de recusa.”
Wuldor não respondeu, soltou-se da mão de S-Me e a encarou, tentando forçar um contato visual que fizesse a mulher desistir dele. Ela tinha um cabelo enorme que se parecia muito com uma juba de um leão. Talvez fosse uma maneira de intimidar as pessoas com sua aparência, Wuldor não sabia precisar isso. Ele percebeu que ela continuava parada na frente dele, ambas as mãos na cintura e uma expressão que Wuldor conseguiu ler como “extrema raiva”. Bem, se ela queria enfrentá-lo em uma luta, ele teria um enorme prazer em destruí-la.
Chegaram até o local de treino, uma quadra coberta enorme que muito se assemelhava à sala do Botânico em seu tamanho. Bem no meio da quadra, Ta-Dah estava fazendo seu show de ilusões com direito a uma criatura gigante mastigando um prédio. B.A. estava sentado em uma cadeira, atirando flechas amareladas em um alvo que estava posto bem a sua frente – o deslumbre era que ele acertava cada uma das flechas no meio do alvo, mesmo sendo cego e a maior surpresa era que as flechas desapareciam no ar, como se nunca tivessem existido. Num outro ponto, Wuldor pôde avistar Alala sendo atingida por coisas que ACID atirava contra ela; cada um dos objetos voltava contra ACID com a mesma força, enquanto Alala ficava se protegendo com as mãos sobre o rosto.
“Que bom que você veio, panaca.” Wuldor reconheceu a voz de Fancy, que lhe deu um empurrão para que ele entrasse na quadra. Todos pararam as suas respectivas atividades e olharam para Wuldor que, pela primeira vez na vida, sentiu-se incomodado e, até mesmo envergonhado. Emoções humanas demais para que ele digerisse com facilidade.
“Vamos rotacionar as atividades. Ta-Dah você e Karma podem verificar se suas habilidades se complementam, como é a primeira vez de Karma no campo de treino aberto, seja gentil, Ta-Dah.” ACID ordenou e Ta-Dah prestou uma continência. “Ozma você e B.A. podem começar o treinamento padrão de vocês e Gold Chamber... fique com eles, porque um dos dois pode sair ferido nessa brincadeira.”
Ozma apareceu, brotando do chão e tomando sua forma humanoide estranha, sem rosto. B.A. flutuou para fora de sua cadeira, ainda sentado, mas agora sobre o ar. Gold Chamber sentou-se na cadeira previamente ocupada por B.A. e cruzou as pernas, enquanto lia uma revista em uma língua que Wuldor não conseguia identificar.
Gold Chamber não tinha cabelo algum na cabeça e tampouco tinha sobrancelhas, a pele era levemente morena, lábios grossos pintados de preto e usava roupas estranhas que poderiam ser calças ou uma saia (ou uma mistura dos dois), combinadas com uma camisa de botão cor de rosa e gravata borboleta azul. Ela tinha unhas curtas pintadas uma de cada cor, mas Wuldor ainda não conseguia precisar seu gênero por não ter seios proeminentes. Ao contrário de S-Me, ela não usava joias e nem mesmo brincos. Talvez fosse uma mulher, dado que tinha roupas espalhafatosas demais para os padrões de normalidade de humanos do gênero masculino.
“Meu pudinzinho, eu vou precisar falar com o Boto, então você e S-Me vão ter que cuidar do nosso garoto problema, OK?” Fancy abraçou e deu um beijo no rosto de ACID, antes de passar novamente por Wuldor. “Você, garoto problemático, cuide-se. S-Me e ACID não vão pegar leve com você.”
Não que Wuldor se importasse com isso. Ele era invencível, no final das contas. Ao menos era isso que pensava.
Wuldor, no entanto, se surpreendeu ao ver que Ozma se desfazia e retomava a forma de várias coisas que ele não conseguia decifrar, enquanto B.A. a atacava incessantemente com flechas de energia amarelada, que voavam sempre para o ponto em que Ozma estava. Ainda que a criatura conseguisse se evadir dos ataques de B.A., ele sempre parecia descobrir onde ela surgiria em seguida. Com um estardalhaço, ela começou a fazer várias pontas de lança aparecerem pelas paredes, estalando o reboco e fazendo a poeira levantar-se no ar. B.A. também conseguia movimentar-se rapidamente flutuando de um lado para o outro, até que uma das pontas passou muito perto do seu rosto, fazendo os óculos escuros que sempre usava caírem.
“Ozma. Isso é sacanagem. Eu gosto desses óculos.”
“Desculpa.” A voz de Ozma era estranha e distante, como se ela não estivesse realmente ali.
“Nah, tudo bem, acho que não quebrou, não ouvi trincar. Só uma pausa para eu pegar os óculos.” B.A. pousou no chão e foi batendo o pé até finalmente olhar para o lado oposto e seguir até os óculos escuros. Wuldor finalmente notou que B.A. não estava com os olhos abertos, claro, pelo visto não usava a visão para nada. “Não trincou. OK. Goldie, você pode ficar com meus óculos?”
“Claro, Bee.” Gold Chamber começou a estalar os dedos de uma das mãos até o óculos chegar lá. “Pronto, seguro comigo, querido.”
“Valeu, Goldie.”
Com isso os dois voltaram para suas atividades, de maneira vertiginosa.
“Olha, eu acho que eu devia limpar o chão com a cara desse branquelo.” S-Me resmungou.
“Faça as honras da casa, S-Me.” ACID falou e bateu palmas, atraindo a atenção de Wuldor.
Logo um ruído alto tomou o lugar, a onda sonora era tão forte que derrubou Wuldor no chão. A mulher pisou na perna de Wuldor afundando o salto ali; Wuldor não sentiu dor no primeiro momento, mas quando ela começou a cantarolar, foi como se vários alfinetes acertassem ele ao mesmo tempo, várias e várias vezes. Uma agonia torturante que fez com que Wuldor crispasse com a dor que começava a sentir a cada repetição das agulhadas. Wuldor concentrou-se no salto da mulher até congelá-lo, quebrando a peça e fazendo S-Me cambalear, caindo no chão, sentada. Wuldor moveu-se rapidamente para ficar de pé, mas sentiu algo o puxar para baixo: era uma corrente sendo controlada por ACID que o pegou e o amarrou ao chão.
“Primeira lição de hoje: cooperação. Quando você tem uma equipe, você pode confiar que essa equipe vai te apoiar durante uma luta.” ACID falou e num estalar de dedos fez um novo salto para o sapato de S-Me.
“Sempre tão atencioso, ACID.” S-Me sorriu.
“Segunda lição: aprenda como as habilidades das pessoas que estão com você podem amplificar as suas. Pode olhar para os seus braços, Wuldor.”
Wuldor fechou o cenho, sem entender do que ACID estava falando. Logo viu que estava mesmo com milhares de agulhas enfiadas por todo o corpo e a dor continuava enquanto S-Me cantarolava.
“A voz de S-Me, até mesmo num tom aceitável como esse, é uma arma letal. Com o auxílio de minha habilidade de manipulação de metais, ela consegue torturar até pessoas com limiares de dor em muito superior ao de humanos normais. Que é justamente o seu caso.”
“Eu vou... Eu vou...” Wuldor murmurou.
“Tente. Tente qualquer coisa.” ACID crispou.
Wuldor congelou todos os metais e os expulsou para longe. Ouviu uma sequência de reclamações. Virou e viu que tinha atingido algumas pessoas: Ta-Dah começou a xingar em japonês, B.A. estava apontando uma flecha para ele, Karma estava escondida atrás de Gold Chamber que estalava os dedos, liberando uma onda dourada por todo o espaço.
“¡Chingado!” Gold Chamber gritou “Dígale a ese pendejo que pare. No es que todos aquí sean Ozma.” Continuou resmungando em espanhol, enquanto agitava as mãos para fazer a onda dourada passar por todos.
A tal onda fez com que todos que tinham sofrido danos por conta das agulhas tivessem a pele reparada. Gold Chamber estalou os dedos mais uma vez e levantou-se da cadeira em que estava sentada para continuar agitando as mãos para que tudo mais fosse retornando ao lugar lentamente.
“Goldie, acho que tem alguma coisa no meu rosto.” B.A. sussurrou e fez um barulho de reclamação quando Gold Chamber puxou uma agulha do rosto dele.
“Amado.” Gold Chamber foi até B.A. e o beijou no rosto, o que fez o sangue estancar. “Espero que isso não se repita.”
ACID acenou com a cabeça para Gold Chamber.
“Vou fazer um muro para evitar que isso, Goldie.” ACID respondeu e fez uma enorme parede metálica se formar, dividindo o espaço.
“Se mexer com a minha namorada de novo eu vou gritar até seu ouvido pular para fora da sua cabeça!” S-Me grunhiu.
Wuldor grunhiu entre os dentes e lançou uma forma pontiaguda de gelo contra ACID, que a cortou com uma lâmina que atravessou o ar rapidamente. Começaram a desferir golpes um contra o outro enquanto S-Me dava a volta e parou justamente atrás de Wuldor.
“Ajoelhe-se.” Ela murmurou no ouvido de Wuldor que caiu de joelhos no chão, gritando de dor. “Você acha mesmo que está lutando de igual para igual com a gente? Qual o seu treinamento? O que você sabe fazer?”
Wuldor começou a gemer, segurando o próprio peito. Urrava de dor, tanto pelas agulhas quanto pela voz de S-Me.
“Eu passei anos sem poder dizer uma palavra, hoje consigo controlar meu poder. Você se acha o todo poderoso? Eu causo dor, quanta dor eu quiser, só por falar. O que você pode fazer, Wuldor? Chore, agora.”
Wuldor caiu no chão, urrando de dor, enquanto ACID o prendia no chão.
“Última lição do dia: saiba quando foi derrotado. E finalizamos por hoje.” ACID falou e deu as costas para Wuldor que continuava sentindo as dores de sua recém descoberta humanidade.
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Plush for @wuldor
Wuldor ainda estava digerindo todas as informações que tinha recebido em menos de um dia. A sua ideia de formar um grupo de pessoas poderosas não era uma novidade, aparentemente. A pior parte disso tudo é que ele estava enfiado até o fundo nisso agora; de fato, Wuldor estava frustrado por ter perdido a oportunidade de ter a ideia primeiro.
No meio de sua reflexão, Wuldor terminou pensando em Hiero. Ele sentiu um grave pesar em seu coração
“Você falou marido... ACID é seu marido?” Wuldor perguntou enquanto Fancy bebia uma xícara de chá.
“Sim. Somos casados, oficialmente, inclusive. Já devia ter ficado meio óbvio.” Fancy deu de ombros. “Você é muito denso, Wuldor.”
“Para pessoas tão poderosas... Esse parece ser um relacionamento inútil.”
A fala de Wuldor arrancou uma gargalhada de Fancy que, teve que colocar a xícara de volta à mesa.
“Você é muito estúpido mesmo.” Fancy falou, entre uma gargalhada. “Nossa, a melhor coisa que aconteceu na minha vida foi trocar alianças com o ACID. Ele é o amor da minha vida, acredite.”
“A inutilidade está em depender de outra pessoa.”
“Você realmente acha que eu dependo unilateralmente do ACID. Você realmente acha que eu sou uma mocinha indefesa que precisa de alguém para salvá-la?” Fancy riu. “Panaca, eu não sou uma há anos, então, preste bem atenção, porque só vou falar isso uma vez: eu não gosto de você. Na verdade, não tolero olhar para esse seu cabelo branco e esses seus olhinhos azuis. Eu detesto você, de verdade. Mas, seus poderes me interessam muito. E só isso que me interessa em você. Qualquer merda que você pense ou que você fale não me interessa. Se você acha que nós aqui somos trouxas, você está mortalmente enganado. Eu posso acabar com a sua raça e nem precisaria dizer ao ACID que fiz isso, porque ele ficaria feliz em saber que você está devidamente morto e enterrado, ainda mais se for o marido dele que fez isso.”
“Eu não acredito em suas ameaças.”
“E eu não me importo com o que você pensa. OK. Já me arrependi de ter trazido você.” Fancy levantou-se. “Karma é uma ótima aquisição, ela já se deu com todo mundo e você continua sendo um babaca. Me procure quando entender que você é um babaca e aí podemos conversar de novo.”
Alala abriu a porta e arregalou os olhos ao ver Wuldor, se encolhendo no alizar da porta.
“Hey, gracinha. Venha cá com o Fancy.” Ele estendeu os braços e Alala, surpreendentemente foi até ele. Ele a apanhou nos braços, a apoiando enquanto ela enroscava um dos braços no pescoço dele. “Você é um docinho, sabia? Mas não deve ser docinho assim com todo mundo. O tio Fancy vai ensinar algumas coisinhas de menina para você, ok?”
“Eu sei muitas coisas de menina, senhor Fancy.” Ela murmurou. “Muitas coisas ruins acontecem com meninas no meu país.”
“Não duvido, queridinha.” Ele falou, beijando a bochecha dela. “Mas, você confia demais em mim, por isso pensei que o mundo ainda não tinha tirado toda sua doçura.”
“Ah... Eu gostei do senhor.”
“Que fofura.” Ele riu para a moça. “Eu também gostei de você logo de cara, Karma.”
Wuldor sentiu-se excluído, mas os dois logo saíram da cozinha, o deixando lá, com seus próprios pensamentos. Wuldor ponderou o que o tinha o levado até aqui. Pensava que encontrar um grupo de pessoas com poderes que ele pudesse dominar seria fácil, mas ele estava enganado. Existiam pessoas poderosas demais nesse mundo. Talvez nenhum deles fosse mais poderoso do que Wuldor. Mesmo assim, ele tinha receio de atacar qualquer deles e terminar... Sem qualquer vantagem.
Ele tinha abandonado Hiero por achar que ela representava uma fraqueza para ele. Agora ele estava imensamente arrependido de tê-lo feito. Ela não era uma fraqueza para ele, ela era uma vantagem! Quanta tolice em só ter percebido isso tarde demais. Ela provavelmente já tinha desaparecido no mundo, ela não iria querer vê-lo nunca mais. Ele era um tolo.
Enterrou a cabeça nas mãos e ouviu alguém abrindo a porta da cozinha. Uma pessoa entrou na cozinha, sem muita cerimônia. Abriu a torneira e encheu um pote com água. Voltou-se para o fogão e acendeu a chama, colocando o tal pote sobre as labaredas. Não olhou nenhuma vez sequer para Wuldor nesse processo, como se estivesse o ignorando por completo.
Wuldor sentiu uma fúria imensa e levantou-se, arrastando a cadeira no processo. Assim que se levantou, sentiu-se sendo puxado novamente para cadeira. Estarrecido olhou para pessoa, que agora o encarava por trás de espessos óculos escuros. Estava com o rosto parcialmente encoberto tanto pelos óculos quanto pelo cachecol pesado que usava sobre o pescoço. A pessoa voltou a encarar o fogão, como se nada tivesse acontecido. Notou então que essa pessoa era bem diferente da maioria das pessoas que tinha visto até então; ele era baixo em estatura e bastante grosso em sua largura. Lembrou-se do termo “gordo”, contudo, ponderou se isso fazia esse rapaz sentir-se mal com sua própria aparência. Os humanos tinha a tendência de se importar muito com esse tipo de detalhe e ele não queria arrumar mais encrencas com alguém.
“Eu sei que você estava aí. Sou cego, não sou surdo.” A pessoa reclamou. “Mas é bastante descortês arrastar uma cadeira assim quando você está sobre um piso de cerâmica. Você sabia que pode arranhar as lajotas assim?”
Wuldor tentou processar todas as informações, em vão.
“O que é cego? O que é surdo?” Wuldor balbuciou, a contragosto.
“Oh. Desculpe, pensei que você falasse inglês.” O homem riu um pouco. “O pessoal me chama de B.A. por conta do que eu faço.” Ele esticou a mão e uma das cadeiras veio até ele. “Telecinésia, sabe, tipo mexer as coisas com poder Jedi da mente.”
“Eu não sei o que é Jedi, mas sei o que é telecinésia.”
“Ah, OK. Tudo bem.” Ray sentou-se na cadeira.
Ray era um rapaz pequeno e de cabelos castanhos claros, cortados um pouco acima dos ombros. Sua tez era clara, como se pouco visse o sol. Ele agora estava preparando algo com a água quente, utilizando seus poderes para misturar as coisas enquanto estava sentado na frente de Wuldor.
“E aí, cara novo, você tem nome?”
“Wuldor.”
“Nome maneiro.” B.A. estava passando as mãos uma contra a outra, tentando esquentá-las. “Você faz o quê?”
“Não compreendi a sua pergunta.”
“Poderes. Tipo, você voa? Você consegue fazer ventar? Você lê mentes? Você quebra as coisas... O que você faz afinal?”
“Telecinésia. Criocinese. Manipulação Psíquica. Distorção de realidade.”
“Maneiro, parece uma bula de remédio.” B.A. estava comendo macarrão agora. Aparentemente ele tinha cozinhado isso para comer.
“Todos aqui fazem pouco caso das coisas?”
“Olha, eu supostamente sou o bobo da corte da minha equipe.” B.A. arrotou. “Mas, né... Se você tivesse sido ferrado pela vida como eu fui, você entenderia minha necessidade de autoafirmação através de péssimas piadas que eu vivo contando.”
Wuldor encostou-se mais ainda na cadeira. B. A. terminou de comer seu macarrão e voltou a colocar água em outro pote.
“Você come ou é um daqueles caras que se alimenta do néctar do universo?” B.A. perguntou.
“Eu não preciso de comida.”
“Maneiro, só para saber, mesmo. Temos um outro cara que basicamente se alimenta de luz solar, então eu tinha que perguntar, só para saber se faço mais um pote de macarrão para você.” B.A. chupou o macarrão fazendo barulho. “Você faz fotossíntese ou seu lance é mais... Shambala, tipo Hare Krishina?”
“Eu não entendo suas piadas.”
“Que pena.” B.A. arrotou mais uma vez. “Essas piadas fazem muito sucesso nas festinhas da turma. Dizem que eu sou o mais legal daqui porque conto as piores piadas do West Side.”
B.A. continuou comendo e Wuldor notou que ele não olhava para o pote, na verdade não olhava para nada em específico. Ser cego significava que ele não dependia de sua visão? Bem, isso era, por si só, um poder muito interessante; não estar preso às amarras do mundo visível deveria ser o que tornava esse garoto tão valoroso para a equipe. Ele finalmente terminou a refeição e levantou-se da cadeira.
“Você pode tentar ser mais legal, Wuldor. Ninguém aqui vai te morder, sacou?” Ele remendou com mais um arroto sonoro e longo. “Acho que nós somos maneiros, afinal queremos dominar o mundo.” B.A. fez um símbolo com as mãos, mostrando dois dedos, formando uma letra V. Wuldor não compreendia muito essas expressões, era como se as pessoas mudassem de língua o tempo todo, ou como se a comunicação dessas pessoas fosse muito truncada. “Cara, eu tô brincando. Eu nem sei o que o pessoal da Ordem faz na verdade. Eu só sei que me colocaram aqui e eu tô de boas, afinal aqui ninguém me trata como se eu fosse doido ou como se eu fosse deficiente.” Ele coçou a cabeça, remexendo os cabelos castanhos emaranhados. “Aqui eu me sinto em casa porque ninguém se desvia de mim quando eu ando. No mundo lá de fora, as pessoas nem chegam perto de mim quando eu tô usando a minha guia. Parece que eu vou passar uma doença para elas ou sei lá... Você me entende?”
Wuldor balançou a cabeça negativamente. Ele realmente não entendia nada do que esse B.A. falava.
“Ah, legal.” Ele passou a mão no nariz e puxou os óculos do rosto. Seus olhos eram completamente brancos e leitosos, algo que deixou Wuldor surpreso. “Eu não vejo nada com esses olhos desde que eu nasci. Mas, desde que eu nasci eu vejo com os olhos da mente, saca? Eu não sei explicar como, mas eu sei que você tá sentado numa cadeira, sei quando você balança a cabeça para dizer que não liga para nada do que eu ‘tô falando. Eu só sei.”
“Pensei que ser cego significasse o seu poder.”
“Cara, você acha mesmo que cegueira é um super poder?”
“O que mais poderia ser?”
“Cara, isso foi uma coisa legal de se dizer. Não sei se você realmente acredita no que você disse, mas foi legal para caramba.”
“Claro que acredito no que eu falei. Vocês têm o costume de não acreditar no que vocês falam?”
“Caraca. Você realmente não é da Inglaterra, né? As pessoas me chamam de gordo, cego e preguiçoso a maior parte do tempo. Exceto o pessoal da casa, o Fancy é muito legal e o Botânico é o melhor professor que eu tive na vida... Mas, o pessoal lá de fora é muito escroto comigo, de verdade.”
“Você se torna forte com toda a adversidade.”
“O Botânico falou a algo assim quando eu cheguei aqui.” B.A. coçou o queixo. “Cara, eu pensei que você era um babacão, porque o Fancy não é de pegar no pé de ninguém. Aliás, o Fancy é o cara mais maneiro que eu conheço, com todo o visual George Michael e fazendo tricô e tal.”
“Essas palavras, panaca e babaca... São para se referir com desdém sobre mim?”
“Na verdade não. É sobre você ser um cara rude e mal intencionado. Sabe, como se você fosse um cara ruim, tipo isso.”
“Ruim. Não existe bom ou ruim no mundo.”
“Saquei, você é tipo um cara de moral cinza? Tipo um anti-herói, aquele cara que mete bala em todo mundo, mas curte abraçar gatinhos.”
“Eu sou invencível.”
“Ah, um pouco megalomaníaco também. Sussa. OK. Cara, se você for legal com os outros como você foi comigo, ninguém aqui dentro vai continuar te xingando. O pessoal por aqui esquece as merdas que a gente faz no passado... Eu, por exemplo, uma vez estourei... literalmente. Não aguentava mais o pessoal me chamando de bastardo gordo e de cegueta. Daí eu fiz BUM e matei todo mundo da minha turma. Foi sem querer, mas o lance de Jedi às vezes sai do controle... E eu mando tudo pelos ares.”
“Você parece muito poderoso.”
“E descontrolado. Acredite, quando eu perco a minha paciência, eu viro uma bomba relógio, só que sem o relógio e sem os fiozinhos para tentar parar a contagem.”
“Eles prendem você aqui?”
“Não, não, nem de longe. Eu não gosto de sair mesmo. Não gosto das pessoas em geral... Eu sempre sou o gordo cego que ocupa toda a calçada. Sempre sou o cara que ninguém quer por perto.”
“Mas, eles querem você por perto.”
“É isso aí. Por isso eles são legais. Você também pode ser legal se tentar um pouco.”
“Sua conversa é boa, o fato de eu querer conversar com você me torna isso de ser... Legal... é a palavra?”
“Sim. Isso torna você um cara legal. E o lance de você não ter desviado o olhar depois que eu tirei os óculos. Isso também torna você legal.”
“OK. Isso é bom. Talvez eu tenha entendido isso sobre ser... Legal.”
“É isso aí. Aqui eles relevam as coisas, cara. Se eu estivesse lá fora eu estaria preso, senão estivesse morto por ser uma aberração.”
“Você não é uma aberração, B.A. Você possui poderes inimagináveis. Isso torna você muito melhor do que as pessoas que não conseguiram evoluir.”
“Valeu. Você realmente sabe massagear o ego das pessoas, Wuldor. E isso é ser maneiro.”
Com isso, B.A. pegou seus óculos e saiu da cozinha. Apesar da ótima conversa que teve com o jovem poderoso, Wuldor não conseguia deixar de pensar que as pessoas da Ordem do Amanhã pareciam ser completamente insanas. Estavam preocupadas com minúcias insignificantes, com banalidades que pertenciam aos humanos e não a grandiosos poderes como eles.
Wuldor continuou sentado na cadeira observando todas as coisas que o circundavam. Essas pessoas continuavam a agir como humanos, continuavam a viver com a mesma pequenez das pessoas de vida finita... Talvez isso os tornasse mais poderosos, ele pensou consigo mesmo. Quem sabe fosse isso que Wuldor tinha deixado de entender. Pensou, então, em Hiero; talvez ele tivesse errado em abandoná-la daquela forma.
Ele estava decidido a se tornar mais poderoso e a conseguir o apoio dessa tal Ordem do Amanhã. Se para isso ele tivesse que mudar completamente seus planos, ele assim o faria.