A relação dos quadrinhos com o gênero literário CyberpunkParte do Projeto L0wl1f3

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A relação dos quadrinhos com o gênero literário CyberpunkParte do Projeto L0wl1f3
Produtos com as ilustrações do primeiro volume de L0WL1F3 já estão disponíveis no estúdio da Colab55
https://www.colab55.com/@l0wl1f3project
Conto escrito por Carol Peace. Parte integrante do primeiro volume de L0WL1F3 Mais informações disponíveis aqui: https://l0wl1f3p.tumblr.com/
O FUTURO É AGORA! BEM-VINDO À MIRAI NO TOSHI, SEU OÁSIS FUTURÍSTICO EM MEIO A DESTRUIÇÃO! VENHA CONHECER O FUTURO E VIVER O SEU SONHO! Roteiro, arte e argumento por Carol Peace. Parte do projeto L0WL1F3 Para mais informações, visite: https://l0wl1f3p.tumblr.com/
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There is no route out of the maze. The maze shifts as you move through it, because it is alive. ― Philip K. Dick, VALIS
Creating L0WL1F3
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L0wl1f3 é uma coleção de histórias em quadrinhos de Ficção Científica centradas em futuros distópicos com nuances de cyberpunk.Assista nosso book-trailer!
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OBEDIÊNCIA
Obediência - substantivo feminino. 1. Ato ou efeito de obedecer. 2. Condição ou qualidade de obediente.
Depois de alguns dias de ambientação, Wuldor já estava começando a entender como todos se relacionavam dentro daquela estranha casa. Conheceu, completamente contra a sua vontade, mais alguns dos habitantes do lugar. Além de Ta-Dah, B.A., Fancy, Acid e o tal Botânico, descobriu que mais três criaturas bizarras viviam ali – uma pessoa que ele não conseguira decifrar o gênero chamada Gold Chamber; uma criatura cinzenta e também de gênero indecifrável chamada de Ozma; e uma mulher rude e completamente sem modos chamada de S-Me.
Claro, Alala continuava com eles na casa, porém passava a maior parte do tempo com Fancy, fazendo sabe-se-lá o que (não que Wuldor se interessasse pelo paradeiro e pela rotina da garota de verdade).
“Ei, babaca.” A mulher chamada S-Me, pegou Wuldor pelo ombro. Sua pele escura e unhas pintadas de vermelho eram um imenso contraste com toda a brancura que definia Wuldor (tanto na pele quanto nas roupas).
Wuldor continuou seguindo, desvencilhando-se de S-Me, sem olhar para ela. Ele já estava sendo obrigado a ficar ali, não precisava se relacionar com essas estranhas pessoas e seus nomes estúpidos.
“Você vai me ouvir sim, branco azedo!” Dessa vez ela gritou e a casa toda tremeu. Wuldor desequilibrou-se em sua constante flutuação e bateu contra a parede, caindo no chão. “Viu, branquelo. Aqui você ouve quando chamam você, especialmente se for eu, porque você não vai querer me ouvir gritando no seu ouvido.” S-Me caminhou até Wuldor e o puxou do chão pela gola de seu casaco. “É hora do treinamento. O Botinho me pediu para vir catar você para vir treinar. Não é uma pergunta, eu estou mandandovocê vir. Sem opção de recusa.”
Wuldor não respondeu, soltou-se da mão de S-Me e a encarou, tentando forçar um contato visual que fizesse a mulher desistir dele. Ela tinha um cabelo enorme que se parecia muito com uma juba de um leão. Talvez fosse uma maneira de intimidar as pessoas com sua aparência, Wuldor não sabia precisar isso. Ele percebeu que ela continuava parada na frente dele, ambas as mãos na cintura e uma expressão que Wuldor conseguiu ler como “extrema raiva”. Bem, se ela queria enfrentá-lo em uma luta, ele teria um enorme prazer em destruí-la.
Chegaram até o local de treino, uma quadra coberta enorme que muito se assemelhava à sala do Botânico em seu tamanho. Bem no meio da quadra, Ta-Dah estava fazendo seu show de ilusões com direito a uma criatura gigante mastigando um prédio. B.A. estava sentado em uma cadeira, atirando flechas amareladas em um alvo que estava posto bem a sua frente – o deslumbre era que ele acertava cada uma das flechas no meio do alvo, mesmo sendo cego e a maior surpresa era que as flechas desapareciam no ar, como se nunca tivessem existido. Num outro ponto, Wuldor pôde avistar Alala sendo atingida por coisas que ACID atirava contra ela; cada um dos objetos voltava contra ACID com a mesma força, enquanto Alala ficava se protegendo com as mãos sobre o rosto.
“Que bom que você veio, panaca.” Wuldor reconheceu a voz de Fancy, que lhe deu um empurrão para que ele entrasse na quadra. Todos pararam as suas respectivas atividades e olharam para Wuldor que, pela primeira vez na vida, sentiu-se incomodado e, até mesmo envergonhado. Emoções humanas demais para que ele digerisse com facilidade.
“Vamos rotacionar as atividades. Ta-Dah você e Karma podem verificar se suas habilidades se complementam, como é a primeira vez de Karma no campo de treino aberto, seja gentil, Ta-Dah.” ACID ordenou e Ta-Dah prestou uma continência. “Ozma você e B.A. podem começar o treinamento padrão de vocês e Gold Chamber... fique com eles, porque um dos dois pode sair ferido nessa brincadeira.”
Ozma apareceu, brotando do chão e tomando sua forma humanoide estranha, sem rosto. B.A. flutuou para fora de sua cadeira, ainda sentado, mas agora sobre o ar. Gold Chamber sentou-se na cadeira previamente ocupada por B.A. e cruzou as pernas, enquanto lia uma revista em uma língua que Wuldor não conseguia identificar.
Gold Chamber não tinha cabelo algum na cabeça e tampouco tinha sobrancelhas, a pele era levemente morena, lábios grossos pintados de preto e usava roupas estranhas que poderiam ser calças ou uma saia (ou uma mistura dos dois), combinadas com uma camisa de botão cor de rosa e gravata borboleta azul. Ela tinha unhas curtas pintadas uma de cada cor, mas Wuldor ainda não conseguia precisar seu gênero por não ter seios proeminentes. Ao contrário de S-Me, ela não usava joias e nem mesmo brincos. Talvez fosse uma mulher, dado que tinha roupas espalhafatosas demais para os padrões de normalidade de humanos do gênero masculino.
“Meu pudinzinho, eu vou precisar falar com o Boto, então você e S-Me vão ter que cuidar do nosso garoto problema, OK?” Fancy abraçou e deu um beijo no rosto de ACID, antes de passar novamente por Wuldor. “Você, garoto problemático, cuide-se. S-Me e ACID não vão pegar leve com você.”
Não que Wuldor se importasse com isso. Ele era invencível, no final das contas. Ao menos era isso que pensava.
Wuldor, no entanto, se surpreendeu ao ver que Ozma se desfazia e retomava a forma de várias coisas que ele não conseguia decifrar, enquanto B.A. a atacava incessantemente com flechas de energia amarelada, que voavam sempre para o ponto em que Ozma estava. Ainda que a criatura conseguisse se evadir dos ataques de B.A., ele sempre parecia descobrir onde ela surgiria em seguida. Com um estardalhaço, ela começou a fazer várias pontas de lança aparecerem pelas paredes, estalando o reboco e fazendo a poeira levantar-se no ar. B.A. também conseguia movimentar-se rapidamente flutuando de um lado para o outro, até que uma das pontas passou muito perto do seu rosto, fazendo os óculos escuros que sempre usava caírem.
“Ozma. Isso é sacanagem. Eu gosto desses óculos.”
“Desculpa.” A voz de Ozma era estranha e distante, como se ela não estivesse realmente ali.
“Nah, tudo bem, acho que não quebrou, não ouvi trincar. Só uma pausa para eu pegar os óculos.” B.A. pousou no chão e foi batendo o pé até finalmente olhar para o lado oposto e seguir até os óculos escuros. Wuldor finalmente notou que B.A. não estava com os olhos abertos, claro, pelo visto não usava a visão para nada. “Não trincou. OK. Goldie, você pode ficar com meus óculos?”
“Claro, Bee.” Gold Chamber começou a estalar os dedos de uma das mãos até o óculos chegar lá. “Pronto, seguro comigo, querido.”
“Valeu, Goldie.”
Com isso os dois voltaram para suas atividades, de maneira vertiginosa.
“Olha, eu acho que eu devia limpar o chão com a cara desse branquelo.” S-Me resmungou.
“Faça as honras da casa, S-Me.” ACID falou e bateu palmas, atraindo a atenção de Wuldor.
Logo um ruído alto tomou o lugar, a onda sonora era tão forte que derrubou Wuldor no chão. A mulher pisou na perna de Wuldor afundando o salto ali; Wuldor não sentiu dor no primeiro momento, mas quando ela começou a cantarolar, foi como se vários alfinetes acertassem ele ao mesmo tempo, várias e várias vezes. Uma agonia torturante que fez com que Wuldor crispasse com a dor que começava a sentir a cada repetição das agulhadas. Wuldor concentrou-se no salto da mulher até congelá-lo, quebrando a peça e fazendo S-Me cambalear, caindo no chão, sentada. Wuldor moveu-se rapidamente para ficar de pé, mas sentiu algo o puxar para baixo: era uma corrente sendo controlada por ACID que o pegou e o amarrou ao chão.
“Primeira lição de hoje: cooperação. Quando você tem uma equipe, você pode confiar que essa equipe vai te apoiar durante uma luta.” ACID falou e num estalar de dedos fez um novo salto para o sapato de S-Me.
“Sempre tão atencioso, ACID.” S-Me sorriu.
“Segunda lição: aprenda como as habilidades das pessoas que estão com você podem amplificar as suas. Pode olhar para os seus braços, Wuldor.”
Wuldor fechou o cenho, sem entender do que ACID estava falando. Logo viu que estava mesmo com milhares de agulhas enfiadas por todo o corpo e a dor continuava enquanto S-Me cantarolava.
“A voz de S-Me, até mesmo num tom aceitável como esse, é uma arma letal. Com o auxílio de minha habilidade de manipulação de metais, ela consegue torturar até pessoas com limiares de dor em muito superior ao de humanos normais. Que é justamente o seu caso.”
“Eu vou... Eu vou...” Wuldor murmurou.
“Tente. Tente qualquer coisa.” ACID crispou.
Wuldor congelou todos os metais e os expulsou para longe. Ouviu uma sequência de reclamações. Virou e viu que tinha atingido algumas pessoas: Ta-Dah começou a xingar em japonês, B.A. estava apontando uma flecha para ele, Karma estava escondida atrás de Gold Chamber que estalava os dedos, liberando uma onda dourada por todo o espaço.
“¡Chingado!” Gold Chamber gritou “Dígale a ese pendejo que pare. No es que todos aquí sean Ozma.” Continuou resmungando em espanhol, enquanto agitava as mãos para fazer a onda dourada passar por todos.
A tal onda fez com que todos que tinham sofrido danos por conta das agulhas tivessem a pele reparada. Gold Chamber estalou os dedos mais uma vez e levantou-se da cadeira em que estava sentada para continuar agitando as mãos para que tudo mais fosse retornando ao lugar lentamente.
“Goldie, acho que tem alguma coisa no meu rosto.” B.A. sussurrou e fez um barulho de reclamação quando Gold Chamber puxou uma agulha do rosto dele.
“Amado.” Gold Chamber foi até B.A. e o beijou no rosto, o que fez o sangue estancar. “Espero que isso não se repita.”
ACID acenou com a cabeça para Gold Chamber.
“Vou fazer um muro para evitar que isso, Goldie.” ACID respondeu e fez uma enorme parede metálica se formar, dividindo o espaço.
“Se mexer com a minha namorada de novo eu vou gritar até seu ouvido pular para fora da sua cabeça!” S-Me grunhiu.
Wuldor grunhiu entre os dentes e lançou uma forma pontiaguda de gelo contra ACID, que a cortou com uma lâmina que atravessou o ar rapidamente. Começaram a desferir golpes um contra o outro enquanto S-Me dava a volta e parou justamente atrás de Wuldor.
“Ajoelhe-se.” Ela murmurou no ouvido de Wuldor que caiu de joelhos no chão, gritando de dor. “Você acha mesmo que está lutando de igual para igual com a gente? Qual o seu treinamento? O que você sabe fazer?”
Wuldor começou a gemer, segurando o próprio peito. Urrava de dor, tanto pelas agulhas quanto pela voz de S-Me.
“Eu passei anos sem poder dizer uma palavra, hoje consigo controlar meu poder. Você se acha o todo poderoso? Eu causo dor, quanta dor eu quiser, só por falar. O que você pode fazer, Wuldor? Chore, agora.”
Wuldor caiu no chão, urrando de dor, enquanto ACID o prendia no chão.
“Última lição do dia: saiba quando foi derrotado. E finalizamos por hoje.” ACID falou e deu as costas para Wuldor que continuava sentindo as dores de sua recém descoberta humanidade.
ESTÁTUAS DE SAL
Não olhe para trás.
Os primeiros passos pareciam os mais difíceis. Há quanto tempo ele não andava com suas próprias pernas? Pelo menos trinta anos, talvez cinquenta anos. Ele caiu para frente e foi amparado por um dos fisioterapeutas. Depois de uma breve pausa, retornou aos passos lentos que seu corpo humano lhe oferecia. Cult não reclamaria do atendimento que estava recebendo. Seu corpo humano estava bastante fragilizado e consumido. Tudo o que lhe fosse oferecido era o melhor que eles poderiam fazer.
De certa forma essa longa pausa o tinha feito refletir sobre suas próprias ações: seu erro foi acreditar muito em seu parasita. O parasita tinha o abandonado no primeiro sinal de perigo. Era óbvio que para o parasita ele era completamente descartável. Ele agitou uma das mãos fazendo com que a enfermeira saísse de seu quarto. Seus poderes de persuasão estavam completamente restaurados, mas isso não era o suficiente para remediar tudo o que tinha perdido. Ele tinha perdido tudo em NY.
Com esse rancor totalmente enraizado em sua alma, Cult sabia que teria que fazer algo a respeito. Depois de vários jornais lidos e de bastante cultura inútil televisiva, ele tinha aprendido que tudo o que acontecera em NY tinha sido completamente apagado do mapa. As desculpas eram as mais implausíveis possíveis, contudo, todos acreditavam sem qualquer questionamento.
Havia um enorme poder ali, algo completamente desconhecido para Cult, um poder tão grande que era capaz de manipular muitas mentes e idiotificar todo um sistema. Esse poder era o que Cult buscava. Sua cruzada anterior tinha restado frívola; de fato, o tal Wuldor agora lhe parecia nada mais do que um rato. Tinha gastado todas suas fichas numa criatura cruel e infantil. O arrependimento era grande, mas quem poderia culpá-lo? Ele deveria ter esperado mais tempo? Ele deveria ter desistido no momento em que Thinker o advertira? Ele deveria ter se resignado ao ponto zero e desistido de sua tentativa de subornar um deus cruel?
As perguntas eram muitas e as repostas eram muito poucas. Ele resignou-se a mirar o possível futuro. Voltar às sombras era a única oportunidade que ele tinha de tentar conseguir algo em sua completa impotência. Ele não era mais uma cura, ele agora buscava uma cura. Os placebos da vida não mais iriam satisfazê-lo, ele precisava de algo mais imponente, ele precisava de novas respostas.
Com o tempo ele voltou a se acostumar com seu rosto do passado. Com o tempo ele voltou a lembrar-se de quem uma vez foi. Inadvertidamente sua mente o levava para os lugares que tinha abandonado. A lembrança de sua família foi o suficiente para que ele desejasse retornar ao que era antes; a humanidade era irritante, a humanidade era doentia.
Não existia qualquer deus sobre os mais altos céus e os mais profundos abismos. Nenhum deus que quisesse ouvir os clamores de Cult. Nem mesmo um deus falso que pudesse dizer a Cult que era seu criador. Nada, nenhuma resposta. O vazio da humanidade iria destruí-lo – não há cura para essa doença a não ser a morte.
Cult estava prestes a desistir de tudo, abandonar suas crenças e encontrar um repouso sereno. Um último olhar para o mundo e iria abandonar tudo. Era o que lhe restava. A única cura para humanidade era a morte. Ele queria ser curado. Ele precisava ser curado.
A lâmina era fria e a dor era verdadeira. A humanidade era avassaladora e cruel. Ele sabia que a morte seria seu único momento de paz.
“Eu nunca pensei que você fosse um desistente.” A voz dentro da mente de Cult o fez soltar a lâmina que titilou no chão. Ele conhecia aquela voz fria e enferrujada. A voz que o mantivera em cativeiro por tanto tempo.
“Você voltou.”
“Pensamos que estava morto.”
“Eu estou morto.”
“Não está.”
“Qual a utilidade disso? Esse corpo está arruinado.”
“Não está arruinado.”
“Você fugiu. Eu apenas estou encontrando minha cura.”
“Essa não é a resposta, Cult.”
“Essa é a minha saída.”
“Não há vencedores. Não há cura.”
“Se deseja esse corpo arruinado ele é seu, mas eu não quero mais.”
Houve silêncio no banheiro. A sombra tremeu, como uma folha farfalha ao vento. A sombra desceu e passou por cima do sangue que escorria das veias destruídas, ela subiu até os pulsos de Cult e começou a sorver Cult pouco a pouco.
“O que você deseja que eu faça?”
“Há trabalho para ser concluído, Cult.”
“Esse trabalho não é meu.”
“Esse trabalho é nosso.” A palavra ‘nosso’ ecoou pelo banheiro, Cult nunca saberia de quem era realmente a carga.
Cult sentiu a escuridão curá-lo de toda sua humanidade mais uma vez. Ele abriu os olhos novamente e levantou-se, saindo da banheira. Olhou-se no espelho por puro reflexo; seu rosto ainda era o mesmo humano, com o nariz levemente torto para esquerda, os olhos castanho-claros, os lábios finos e todas as rugas que tinha se esquecido que eram suas. Todas as imperfeições que o tornavam humano. Ele passou a mão sobre os cabelos claros e sobre a barba por fazer. Sentiu a vitalidade de seus passos e percebeu que seu corpo estava curado. Sem dores, sem nenhuma sensação. Era como se estivesse completamente anestesiado.
“Nosso propósito nos pede que estejamos escondidos. Você agora é Isidor Cult.” A voz em sua mente proferiu.
“Eu sou humano.” Cult falou.
“Não é mais. Você está curado.”
“Eu sou a ponte.”
“Você é a ponte.”
Cult sorriu seus dentes continuavam levemente tortos, o que sempre fez com que suas expressões parecessem incrivelmente sombrias. Ele estava curado.
PENSE POR SI MESMO
Antes que seja tarde demais.
Wuldor ainda estava digerindo todas as informações que tinha recebido em menos de um dia. A sua ideia de formar um grupo de pessoas poderosas não era uma novidade, aparentemente. A pior parte disso tudo é que ele estava enfiado até o fundo nisso agora; de fato, Wuldor estava frustrado por ter perdido a oportunidade de ter a ideia primeiro.
No meio de sua reflexão, Wuldor terminou pensando em Hiero. Ele sentiu um grave pesar em seu coração
“Você falou marido... ACID é seu marido?” Wuldor perguntou enquanto Fancy bebia uma xícara de chá.
“Sim. Somos casados, oficialmente, inclusive. Já devia ter ficado meio óbvio.” Fancy deu de ombros. “Você é muito denso, Wuldor.”
“Para pessoas tão poderosas... Esse parece ser um relacionamento inútil.”
A fala de Wuldor arrancou uma gargalhada de Fancy que, teve que colocar a xícara de volta à mesa.
“Você é muito estúpido mesmo.” Fancy falou, entre uma gargalhada. “Nossa, a melhor coisa que aconteceu na minha vida foi trocar alianças com o ACID. Ele é o amor da minha vida, acredite.”
“A inutilidade está em depender de outra pessoa.”
“Você realmente acha que eu dependo unilateralmente do ACID. Você realmente acha que eu sou uma mocinha indefesa que precisa de alguém para salvá-la?” Fancy riu. “Panaca, eu não sou uma há anos, então, preste bem atenção, porque só vou falar isso uma vez: eu não gosto de você. Na verdade, não tolero olhar para esse seu cabelo branco e esses seus olhinhos azuis. Eu detesto você, de verdade. Mas, seus poderes me interessam muito. E só isso que me interessa em você. Qualquer merda que você pense ou que você fale não me interessa. Se você acha que nós aqui somos trouxas, você está mortalmente enganado. Eu posso acabar com a sua raça e nem precisaria dizer ao ACID que fiz isso, porque ele ficaria feliz em saber que você está devidamente morto e enterrado, ainda mais se for o marido dele que fez isso.”
“Eu não acredito em suas ameaças.”
“E eu não me importo com o que você pensa. OK. Já me arrependi de ter trazido você.” Fancy levantou-se. “Karma é uma ótima aquisição, ela já se deu com todo mundo e você continua sendo um babaca. Me procure quando entender que você é um babaca e aí podemos conversar de novo.”
Alala abriu a porta e arregalou os olhos ao ver Wuldor, se encolhendo no alizar da porta.
“Hey, gracinha. Venha cá com o Fancy.” Ele estendeu os braços e Alala, surpreendentemente foi até ele. Ele a apanhou nos braços, a apoiando enquanto ela enroscava um dos braços no pescoço dele. “Você é um docinho, sabia? Mas não deve ser docinho assim com todo mundo. O tio Fancy vai ensinar algumas coisinhas de menina para você, ok?”
“Eu sei muitas coisas de menina, senhor Fancy.” Ela murmurou. “Muitas coisas ruins acontecem com meninas no meu país.”
“Não duvido, queridinha.” Ele falou, beijando a bochecha dela. “Mas, você confia demais em mim, por isso pensei que o mundo ainda não tinha tirado toda sua doçura.”
“Ah... Eu gostei do senhor.”
“Que fofura.” Ele riu para a moça. “Eu também gostei de você logo de cara, Karma.”
Wuldor sentiu-se excluído, mas os dois logo saíram da cozinha, o deixando lá, com seus próprios pensamentos. Wuldor ponderou o que o tinha o levado até aqui. Pensava que encontrar um grupo de pessoas com poderes que ele pudesse dominar seria fácil, mas ele estava enganado. Existiam pessoas poderosas demais nesse mundo. Talvez nenhum deles fosse mais poderoso do que Wuldor. Mesmo assim, ele tinha receio de atacar qualquer deles e terminar... Sem qualquer vantagem.
Ele tinha abandonado Hiero por achar que ela representava uma fraqueza para ele. Agora ele estava imensamente arrependido de tê-lo feito. Ela não era uma fraqueza para ele, ela era uma vantagem! Quanta tolice em só ter percebido isso tarde demais. Ela provavelmente já tinha desaparecido no mundo, ela não iria querer vê-lo nunca mais. Ele era um tolo.
Enterrou a cabeça nas mãos e ouviu alguém abrindo a porta da cozinha. Uma pessoa entrou na cozinha, sem muita cerimônia. Abriu a torneira e encheu um pote com água. Voltou-se para o fogão e acendeu a chama, colocando o tal pote sobre as labaredas. Não olhou nenhuma vez sequer para Wuldor nesse processo, como se estivesse o ignorando por completo.
Wuldor sentiu uma fúria imensa e levantou-se, arrastando a cadeira no processo. Assim que se levantou, sentiu-se sendo puxado novamente para cadeira. Estarrecido olhou para pessoa, que agora o encarava por trás de espessos óculos escuros. Estava com o rosto parcialmente encoberto tanto pelos óculos quanto pelo cachecol pesado que usava sobre o pescoço. A pessoa voltou a encarar o fogão, como se nada tivesse acontecido. Notou então que essa pessoa era bem diferente da maioria das pessoas que tinha visto até então; ele era baixo em estatura e bastante grosso em sua largura. Lembrou-se do termo “gordo”, contudo, ponderou se isso fazia esse rapaz sentir-se mal com sua própria aparência. Os humanos tinha a tendência de se importar muito com esse tipo de detalhe e ele não queria arrumar mais encrencas com alguém.
“Eu sei que você estava aí. Sou cego, não sou surdo.” A pessoa reclamou. “Mas é bastante descortês arrastar uma cadeira assim quando você está sobre um piso de cerâmica. Você sabia que pode arranhar as lajotas assim?”
Wuldor tentou processar todas as informações, em vão.
“O que é cego? O que é surdo?” Wuldor balbuciou, a contragosto.
“Oh. Desculpe, pensei que você falasse inglês.” O homem riu um pouco. “O pessoal me chama de B.A. por conta do que eu faço.” Ele esticou a mão e uma das cadeiras veio até ele. “Telecinésia, sabe, tipo mexer as coisas com poder Jedi da mente.”
“Eu não sei o que é Jedi, mas sei o que é telecinésia.”
“Ah, OK. Tudo bem.” Ray sentou-se na cadeira.
Ray era um rapaz pequeno e de cabelos castanhos claros, cortados um pouco acima dos ombros. Sua tez era clara, como se pouco visse o sol. Ele agora estava preparando algo com a água quente, utilizando seus poderes para misturar as coisas enquanto estava sentado na frente de Wuldor.
“E aí, cara novo, você tem nome?”
“Wuldor.”
“Nome maneiro.” B.A. estava passando as mãos uma contra a outra, tentando esquentá-las. “Você faz o quê?”
“Não compreendi a sua pergunta.”
“Poderes. Tipo, você voa? Você consegue fazer ventar? Você lê mentes? Você quebra as coisas... O que você faz afinal?”
“Telecinésia. Criocinese. Manipulação Psíquica. Distorção de realidade.”
“Maneiro, parece uma bula de remédio.” B.A. estava comendo macarrão agora. Aparentemente ele tinha cozinhado isso para comer.
“Todos aqui fazem pouco caso das coisas?”
“Olha, eu supostamente sou o bobo da corte da minha equipe.” B.A. arrotou. “Mas, né... Se você tivesse sido ferrado pela vida como eu fui, você entenderia minha necessidade de autoafirmação através de péssimas piadas que eu vivo contando.”
Wuldor encostou-se mais ainda na cadeira. B. A. terminou de comer seu macarrão e voltou a colocar água em outro pote.
“Você come ou é um daqueles caras que se alimenta do néctar do universo?” B.A. perguntou.
“Eu não preciso de comida.”
“Maneiro, só para saber, mesmo. Temos um outro cara que basicamente se alimenta de luz solar, então eu tinha que perguntar, só para saber se faço mais um pote de macarrão para você.” B.A. chupou o macarrão fazendo barulho. “Você faz fotossíntese ou seu lance é mais... Shambala, tipo Hare Krishina?”
“Eu não entendo suas piadas.”
“Que pena.” B.A. arrotou mais uma vez. “Essas piadas fazem muito sucesso nas festinhas da turma. Dizem que eu sou o mais legal daqui porque conto as piores piadas do West Side.”
B.A. continuou comendo e Wuldor notou que ele não olhava para o pote, na verdade não olhava para nada em específico. Ser cego significava que ele não dependia de sua visão? Bem, isso era, por si só, um poder muito interessante; não estar preso às amarras do mundo visível deveria ser o que tornava esse garoto tão valoroso para a equipe. Ele finalmente terminou a refeição e levantou-se da cadeira.
“Você pode tentar ser mais legal, Wuldor. Ninguém aqui vai te morder, sacou?” Ele remendou com mais um arroto sonoro e longo. “Acho que nós somos maneiros, afinal queremos dominar o mundo.” B.A. fez um símbolo com as mãos, mostrando dois dedos, formando uma letra V. Wuldor não compreendia muito essas expressões, era como se as pessoas mudassem de língua o tempo todo, ou como se a comunicação dessas pessoas fosse muito truncada. “Cara, eu tô brincando. Eu nem sei o que o pessoal da Ordem faz na verdade. Eu só sei que me colocaram aqui e eu tô de boas, afinal aqui ninguém me trata como se eu fosse doido ou como se eu fosse deficiente.” Ele coçou a cabeça, remexendo os cabelos castanhos emaranhados. “Aqui eu me sinto em casa porque ninguém se desvia de mim quando eu ando. No mundo lá de fora, as pessoas nem chegam perto de mim quando eu tô usando a minha guia. Parece que eu vou passar uma doença para elas ou sei lá... Você me entende?”
Wuldor balançou a cabeça negativamente. Ele realmente não entendia nada do que esse B.A. falava.
“Ah, legal.” Ele passou a mão no nariz e puxou os óculos do rosto. Seus olhos eram completamente brancos e leitosos, algo que deixou Wuldor surpreso. “Eu não vejo nada com esses olhos desde que eu nasci. Mas, desde que eu nasci eu vejo com os olhos da mente, saca? Eu não sei explicar como, mas eu sei que você tá sentado numa cadeira, sei quando você balança a cabeça para dizer que não liga para nada do que eu ‘tô falando. Eu só sei.”
“Pensei que ser cego significasse o seu poder.”
“Cara, você acha mesmo que cegueira é um super poder?”
“O que mais poderia ser?”
“Cara, isso foi uma coisa legal de se dizer. Não sei se você realmente acredita no que você disse, mas foi legal para caramba.”
“Claro que acredito no que eu falei. Vocês têm o costume de não acreditar no que vocês falam?”
“Caraca. Você realmente não é da Inglaterra, né? As pessoas me chamam de gordo, cego e preguiçoso a maior parte do tempo. Exceto o pessoal da casa, o Fancy é muito legal e o Botânico é o melhor professor que eu tive na vida... Mas, o pessoal lá de fora é muito escroto comigo, de verdade.”
“Você se torna forte com toda a adversidade.”
“O Botânico falou a algo assim quando eu cheguei aqui.” B.A. coçou o queixo. “Cara, eu pensei que você era um babacão, porque o Fancy não é de pegar no pé de ninguém. Aliás, o Fancy é o cara mais maneiro que eu conheço, com todo o visual George Michael e fazendo tricô e tal.”
“Essas palavras, panaca e babaca... São para se referir com desdém sobre mim?”
“Na verdade não. É sobre você ser um cara rude e mal intencionado. Sabe, como se você fosse um cara ruim, tipo isso.”
“Ruim. Não existe bom ou ruim no mundo.”
“Saquei, você é tipo um cara de moral cinza? Tipo um anti-herói, aquele cara que mete bala em todo mundo, mas curte abraçar gatinhos.”
“Eu sou invencível.”
“Ah, um pouco megalomaníaco também. Sussa. OK. Cara, se você for legal com os outros como você foi comigo, ninguém aqui dentro vai continuar te xingando. O pessoal por aqui esquece as merdas que a gente faz no passado... Eu, por exemplo, uma vez estourei... literalmente. Não aguentava mais o pessoal me chamando de bastardo gordo e de cegueta. Daí eu fiz BUM e matei todo mundo da minha turma. Foi sem querer, mas o lance de Jedi às vezes sai do controle... E eu mando tudo pelos ares.”
“Você parece muito poderoso.”
“E descontrolado. Acredite, quando eu perco a minha paciência, eu viro uma bomba relógio, só que sem o relógio e sem os fiozinhos para tentar parar a contagem.”
“Eles prendem você aqui?”
“Não, não, nem de longe. Eu não gosto de sair mesmo. Não gosto das pessoas em geral... Eu sempre sou o gordo cego que ocupa toda a calçada. Sempre sou o cara que ninguém quer por perto.”
“Mas, eles querem você por perto.”
“É isso aí. Por isso eles são legais. Você também pode ser legal se tentar um pouco.”
“Sua conversa é boa, o fato de eu querer conversar com você me torna isso de ser... Legal... é a palavra?”
“Sim. Isso torna você um cara legal. E o lance de você não ter desviado o olhar depois que eu tirei os óculos. Isso também torna você legal.”
“OK. Isso é bom. Talvez eu tenha entendido isso sobre ser... Legal.”
“É isso aí. Aqui eles relevam as coisas, cara. Se eu estivesse lá fora eu estaria preso, senão estivesse morto por ser uma aberração.”
“Você não é uma aberração, B.A. Você possui poderes inimagináveis. Isso torna você muito melhor do que as pessoas que não conseguiram evoluir.”
“Valeu. Você realmente sabe massagear o ego das pessoas, Wuldor. E isso é ser maneiro.”
Com isso, B.A. pegou seus óculos e saiu da cozinha. Apesar da ótima conversa que teve com o jovem poderoso, Wuldor não conseguia deixar de pensar que as pessoas da Ordem do Amanhã pareciam ser completamente insanas. Estavam preocupadas com minúcias insignificantes, com banalidades que pertenciam aos humanos e não a grandiosos poderes como eles.
Wuldor continuou sentado na cadeira observando todas as coisas que o circundavam. Essas pessoas continuavam a agir como humanos, continuavam a viver com a mesma pequenez das pessoas de vida finita... Talvez isso os tornasse mais poderosos, ele pensou consigo mesmo. Quem sabe fosse isso que Wuldor tinha deixado de entender. Pensou, então, em Hiero; talvez ele tivesse errado em abandoná-la daquela forma.
Ele estava decidido a se tornar mais poderoso e a conseguir o apoio dessa tal Ordem do Amanhã. Se para isso ele tivesse que mudar completamente seus planos, ele assim o faria.
Você pode ler Fios Soltos aqui no link! ;)
Enjoy!
https://drive.google.com/file/d/1FAqwbYT-XU71UVQeGYPKg-Zq7UnKtM0n/view?fbclid=IwAR3vQo5_YPcqkT0sE77PTg8s4tNgGzHQiUHId22HbNjhED_HzzNcxGue5h4
LEMBRE-SE DE MIM
Para lembrar é preciso esquecer. - Maurice Blanchot
Ela deu mais alguns passos na neve e parou abruptamente. Os enjoos estavam a acompanhando há alguns meses, como pequenas ondas de agonia que insistiam em quebrar toda a monotonia de sua vida no meio do Himalaia.
Desde que seu deus tinha a abandonado, ela tinha se dedicado a construir uma pequena casa dentro de uma caverna esquecida. Todos os dias arrumava uma maneira para se aquecer, caçava e depois voltava para caverna para chorar sua solidão. Não que Tsumamoto Hiero em algum momento tenha se sentida acolhida ou recebida por alguém ou por algo. A única vez em que foi abraçada foi por seu deus, Kamui descido dos céus, pronto para trazer dor e destruição.
Talvez no final a única pessoa que tenha experimentado a tal dor a tal destruição tenha sido ela. Talvez se ela resolvesse destruir o mundo as pessoas conseguissem vê-la de outra forma...? Esse pensamento passou muito rápido pela cabeça dela, mas assim que apareceu ela o jogou para um canto esquecido de sua mente. Arquivado na pasta de todas as ideias estúpidas que Hiero tinha de tempos em tempos.
Lembrou-se de cada uma das coisas que passou ao lado do Deus da Neve, a destruição que ele causou, todas as coisas que ele fez... Todas as coisas que ela o ajudou a fazer. Era um prazer estranho saber que ela tinha o poder de destruir. Logo ela que sempre foi a última irmã, a única mulher que nascera de sua mãe, logo ela que era o erro da família, o momento de fraqueza de seu pai, o algoz de sua mãe. Logo ela que nunca serviu de nada senão de tributo para o inevitável.
Destruir era um prazer que jamais sentira, mas novamente seu Deus da Neve tinha lhe trazido tantos prazeres que jamais sentira. Ela cerrou o punho e olhou para o fogo que serpenteava na sua frente. Ela era o veículo do caos para esse mundo, tinha aceitado receber o filho da destruição. Era essa sua missão, sobreviver para que essa criança viesse ao mundo e destruísse todo o resto. Ela era um verdadeiro portal para o submundo, não era? Riu um pouco com tamanha besteira. Ela era apenas o vaso disponível para receber a prole, não era uma escolhida, não era uma abençoada. Suspirou um pouco tentando manter a comida dentro do estômago. Mastigou gelo e continuou olhando para o fogo.
Tinha sido criada para ser uma das esposas de um produtor rico de arroz, mas teve seu encontro fortuito com Wuldor antes que seu destino fosse realmente selado. De fato, ela não sabia muito bem porque tinha decidido correr atrás do Deus da Neve que trouxe destruição para seu povo. Ela sempre esteve atrás de alguma coisa, sempre esteve correndo sem rumo definido em sua vida, sempre foi apenas uma expectadora em sua própria vida. Tinha recebido o nome do irmão que nasceu morto, era o nome dele, nunca fora o nome dela. Sempre tinha sido a irmã que nasceu errado e tinha aprendido a justificar isso com todo o afinco de uma vida. Ela parou de mastigar o gelo por um momento e sentiu as lágrimas escorrerem por seu rosto.
Era isso mesmo, não era? Ela era uma personagem esquecida em um livro, aquela com quem ninguém se identifica. Aquela que ninguém se lembra. Ela era uma memória ruim e amarga na vida de quem conseguia saber quem ela era. Apenas um ponto a ser esquecido. Não perca seu tempo se lembrando de Tsumamoto Hiero, diria o narrador! Esqueçam-na. Ela nem mesmo tem um nome só seu. Antes de nascer ela matou o próprio irmão, esse sim que seria o verdadeiro protagonista, esse que seria o messias, o prometido. Ela já cometia seus atos maléficos dentro do ventre, ela não merece sequer sua pena. Hiero podia imaginar o narrador descrevendo-a dessa forma enquanto o leitor passava os olhos pelas linhas e concordava. No final das contas, ela era desprezível mesmo.
Passou a mão nos cabelos negros e suspirou olhando para cima. Ainda assim o destino tinha lhe pregado uma peça. Tinha usado ela como pedra para um deus. E lá estava ela, sozinha, numa caverna fria e escura, fazendo carinho em sua barriga inchada por um semideus. Afinal, o filho de um deus não pode ser completamente, deus, certo? Era algo desse tipo que os gregos falavam tanto. Os heróis de outrora, filhos de humanos e deuses. Mas, ela esperava que esse filho se tornasse um vilão e não um herói. Esse mundo não merecia mais nenhum herói, esse mundo merecia ser punido de todas as formas possíveis. Esse mundo merecia ser destruído.
Ela riu novamente, dessa vez muito mais inebriada pela dor e pelo desespero. Sim, ela seria um portal para o submundo. Ela tinha decidido por si só que ela não serviria mais para ninguém. Ela não seria heroína, ela seria a total profanação. Lágrimas escorreram por seu rosto mais uma vez. Ela não as secou. Se o que custava era que destruísse sua humanidade, que fosse esse o preço pago.
Beat. Era disso que ele a chamava. Era esse seu novo nome. Ela era Beat a última batida do coração. A morte, a obliteração. Deitou-se em sua cama e fechou os olhos com um breve sorriso. Na hora certa ela estaria pronta para trazer ruína novamente. E dessa vez ela seria a protagonista de sua própria história.
LEMBRE-SE DE NÓS
A pior parte do passado é o acerto de contas.
Thinker sabia que não era um santo. Em sua eterna batalha para manter a estabilidade do multiverso ele tinha cometido sua gama de pecados irremediáveis. Dos piores era consumir pessoas inocentes a cada novo problema que surgia em sua vigília sobre a Terra.
A primeira ser consumida: Eneida. Nunca se esqueceria daqueles enormes olhos azuis e das sardas espalhadas sobre o nariz... Nunca se esqueceria do imenso amor que ela sentia pela filha, Hestia. Era um amor tão imenso que transcendeu as barreiras do tempo, dormindo eternamente nos salões de memória de Thinker. Quando entrou em contato com Eneida, percebeu o poder que emanava dela: chamavam de histeria, mas na verdade era um poder grandioso de acomodar várias mentes em um único corpo. Claro, 1830 não era um bom momento para as mulheres e chamar de histeria realmente devia parecer uma boa ideia. Hestia herdara poderes da mãe, em um conjunto de possibilidade diverso; consumir e manter várias almas num único espaço – ela era a verdadeira porta para o submundo. Absorveu as duas e se arrependeu disso nos primeiros dez anos; depois superou, caminhou a diante (afinal, as duas estavam juntas para sempre no palácio de sua mente, abraçadas e vivendo o sonho delas).
Tudo ia muito bem até o corpo de Hestia começar a desfalecer. O poder era demais para ela? Thinker não sabia, mas o corpo estava se destruindo e ele precisava de um novo hospedeiro. Assim como um vírus, tomou o seguinte, sem pensar muito sobre isso. O nome dele, mal se recordava do nome... Era MacLein? Sim, era esse o nome dele. Um bravo Sir, disposto a cobrar as dívidas de Hestia. Ele absorveu o corpo e a mente desse homem e nele descobriu mais uma habilidade: projeção astral. Agora os três viviam dentro dele, cada qual em seu próprio mundo, cada qual em seu próprio sonho. Decidiu que levaria a mesma vida que Sir MacLein levava, um explorador! Conheceria o mundo e descobriu lugares inesperados... O continente das savanas e dos grandes animais o encantou sobremaneira; África - poderia viver lá para sempre. Poderia, futuro do pretérito. Já entendia que isso não duraria muito.
Adore Afrain foi um capricho. Thinker sabia que o corpo de MacLein duraria mais algumas décadas, mas ao perceber que Adore podia controlar a própria mente ao ponto de bloquear-se do mundo exterior, o desejo de possuí-la foi praticamente irracional. Ela lutou, como a brava amazona africana que era, mas ao absorvê-la, Thinker viu que suas habilidades mentais era imensas: ler mentes, bloquear ataques mentais, isolar-se da realidade externa. Era muito poder e Thinker sabia como usar.
O próximo corpo foi por mera comodidade. Thinker tinha se cansado das caçadas, precisava de algo mais desafiador para sua alma. Algo que pudesse fazê-lo ir aos limites de sua habilidade. Com Rochà Thinker conseguiu os passos que desejava: a habilidade de abrir portas para outros lugares e viajar entre os planos era o que ele precisava para retomar o poder que possuía antes de abandonar sua divindade e se fazer humano.
Graciete foi um achado em tempos de guerra. Chamavam de “Segunda Grande Guerra Mundial”, mas Thinker sabia que essa era apenas uma das milhares de guerras que os humanos faziam todos os dias. De fato, resolveu experimentar a real mortalidade lutando com as tropas americanas e, em seu leito de morte viu que ainda poderia ser muito melhor: Graciete possuía telesinesia e Thinker não podia escolher um corpo melhor do que aquele. Claro o fato de ter passado a maior parte de sua vida humana em um corpo feminino o atraía muito para esse tipo de casca; as mulheres tinham uma resistência enorme e duravam mais tempo na brevidade de suas vidas.
Valeri Moir foi escolhida por seus poderes, ilusionismo e choque mental, mas também por sua infinita astúcia. Era uma mulher divertida, uma ladra excepcional e completamente livre de todas as amarras da sociedade. Ao tocá-la e transferir toda sua essência para ela, Thinker foi obrigado a trancá-la bem no fundo de sua mente. Ela não era uma criatura fácil de domar, contudo, sua intensidade trazia momentos divertidos para Thinker. De todas as almas, Valeri era a única que se recusava a sonhar, sempre presa ao eterno loop de pesadelos que ela mesma escolheu.
Richard foi muito mais simples de ser atingido. Seu poder, inteligência infinita, fez com que Thinker se aproximasse e tornou a recíproca verdadeira. Dick passava muito tempo ouvindo as histórias de Thinker/Valeria, queria saber sempre mais, queria entender como o universo funcionava... Era tolo e fácil de ser apanhado. Thinker o apanhou e o levou da moça que nada esquecia, sem saber que o futuro guardava uma enorme surpresa.
A surpresa se chamava Julian, um grego metido a garanhão que provavelmente encantaria a moça que nada esquecia com apenas duas palavras. Julian foi a alma que mais se recusou, a alma que mais tempo lutou e que mais tempo manteve Thinker trancado sob a superfície. O poder de Julian era infinito, desde projetar energia mental, até criar construtos mentais capazes de cortar diamantes. Era capaz de alterar a matéria e a densidade da matéria, só porque sua mente era forte demais. Julian venceu a queda de braço por muito tempo, manteve as outras almas trancadas numa caixa pequena demais para os desejos de Thinker. Thinker queria mais e finalmente conseguiu apunhalar Julian, tomando o corpo e a alma para si. Todavia, essa vitória tinha sido dura, cruel... O sabor não era o mesmo que o das outras almas. Julian tinha o sabor amargo da derrota; ele mesmo se trancou num dos cantos do castelo mental de Thinker, como se estivesse se retirando para reaparecer em momento oportuno.
Outros inimigos apareceram e Thinker deixou Julian ficar onde ele queria. Tinha que derrotar Cult primeiro. Depois um dos cavaleiros do fim dos tempos apareceu. Tudo estava uma loucura... Qual era mesmo a tarefa dele nesse universo? Multiverso, é verdade. Milhares de universos convergindo em pontos dentro da malha infinita de possibilidades. Qual era sua tarefa? Claro. Manter a estabilidade desse universo em relação aos demais. Evitar que perigos grandiosos demais aplacassem essa terra.
Ao ver Cult e o homem de gelo soube que era por isso que estava ali. Ele devia acabar com as incongruências, devia fazer com que a ordem fosse retomada a qualquer custo. Talvez Thinker tivesse acordado cedo demais nesse tempo. Não sabia ao certo quando suas vontades tinham superado o seu dever, mas isso tinha acontecido em algum momento.
“Você não vai conseguir fazer isso sozinho.”
Thinker conhecia aquela voz, era Valeri. A ladra que tinha sido roubada e que não tinha desistido de retomar o que era seu por direito.
“Agora quer ajudar, Valeri?”
“Nunca, mas acho que você arranjou outro tão problemático quanto eu.” Ela apontou para Julian, que se aproximou de seu doppelganger e ajoelhou-se na frente dele.
“Se você está planejando fazer isso sozinho, não vai poder contar com os nossos poderes.” Julian ameaçou.
“Tenho vários outros poderes a minha disposição.”
“Algum deles altera a matéria? Algum deles faz com que todos se ajoelhem aos seus pés?” Valeri gargalhou. “Eu duvido muito. Você nos apanhou porque sabia que iria precisar de nós.”
“Qual é o porém?”
“O porém? O meu não é porém nenhum. Vencemos e você libera a minha alma. Me cansei de ficar trancada na sua casa de bonecas, Thinker.”
“Eu quero meu corpo e minha vida de volta.”
“Não posso atender o seu pedido, Julian.”
“Então nada feito.” Valeri bateu na mesa que tinha feito aparecer entre eles. “Porque você pode até pensar que eu sou egoísta, Thinker, mas não conhece nada da minha alma. E por Julian e fico trancada aqui para toda a eternidade.”
“Isso me surpreende.”
“A humanidade te surpreende?” Julian falou, pausadamente, com seu sotaque pesado. “Se nós podemos acreditar em deuses invisíveis e em mentiras improváveis, nós tudo podemos. Os verdadeiros deuses somos nós, os humanos. Nós surpreendemos, nós mudados. A evolução é isso, Thinker. Seus milênios não lhe ensinaram nada?”
“De fato. Ainda tenho muito a aprender.” Thinker riu, num tom seco. Esses humanos ainda estavam lutando. Nunca entenderia porque os humanos lutavam tanto, porque perseveravam tanto até o fim. “Eu aceito as suas condições, assinaremos um contrato de alma, vale mais do que qualquer outra coisa. É escrito como um x sobre o coração, uma vez cumpridos os termos, nada poderá evitar a reparação.”
“Justo.” Valeri fez um x sobre seu coração, ele brilhou em dourado. Julian fez o mesmo e Thinker o seguiu. Estavam acordados e dispostos a se unir ante um inimigo comum.
“Lembre-se de nós, Thinker. Somos seus maiores aliados, não faça com que nos tornemos seus piores inimigos.” Julian crispou.
Thinker reabriu os olhos para ver Neverbe o observando.
“Julian manda lembranças.”