A relação dos quadrinhos com o gĂȘnero literĂĄrio CyberpunkParte do Projeto L0wl1f3
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let's talk about Bridgerton tea, my ask is open
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A relação dos quadrinhos com o gĂȘnero literĂĄrio CyberpunkParte do Projeto L0wl1f3
Produtos com as ilustraçÔes do primeiro volume de L0WL1F3 jĂĄ estĂŁo disponĂveis no estĂșdio da Colab55
https://www.colab55.com/@l0wl1f3project
Conto escrito por Carol Peace. Parte integrante do primeiro volume de L0WL1F3 Mais informaçÔes disponĂveis aqui: https://l0wl1f3p.tumblr.com/
O FUTURO Ă AGORA! BEM-VINDO Ă MIRAI NO TOSHI, SEU OĂSIS FUTURĂSTICO EM MEIO A DESTRUIĂĂO! VENHA CONHECER O FUTURO E VIVER O SEU SONHO! Roteiro, arte e argumento por Carol Peace. Parte do projeto L0WL1F3 Para mais informaçÔes, visite: https://l0wl1f3p.tumblr.com/
Primeira Live disponĂvel!
O vĂdeo da nossa primeira live jĂĄ estĂĄ disponĂvel!
 Link para o Instagram: https://www.instagram.com/tv/CboAPgnPgox/?utm_source=ig_web_copy_link
Postagem em nossa fanpage: https://www.facebook.com/l0wl1feproject/posts/147079601136706
There is no route out of the maze. The maze shifts as you move through it, because it is alive. â Philip K. Dick, VALIS
Creating L0WL1F3
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L0wl1f3 Ă© uma coleção de histĂłrias em quadrinhos de Ficção CientĂfica centradas em futuros distĂłpicos com nuances de cyberpunk.Assista nosso book-trailer!
Conto novo, disponĂvel para leitura gratuita no e-book TRASH! Escrevi o conto "A GĂȘnese da Aniquilação" hĂĄ mais ou menos uns 5 anos, melhorei muito a escrita dele depois desse tempo na geladeira e agora ele estĂĄ um deleite! Segue o link, aproveitem para visitar o site e baixar o livro para ler gratuitamente. https://www.revistaconexaoliteratura.com.br/2021/10/ja-esta-disponivel-o-e-book-trash.html?fbclid=IwAR1N3ArlkBDRiGBBhYUFx2vDAE5XDzmZo-_bwTVhHM7qU2KLBXdvjKJfYzM
Tem conto meu nessa antologia! Baixe gratuitamente no link!
http://www.revistaconexaoliteratura.com.br/2021/08/ja-esta-disponivel-o-e-book-contos-e.html?fbclid=IwAR3kdsCsiLoO1qFQt7MdpAIdqqXGovre5gVL4Cr1iYrxAzSmhkSXiDWOQHI
OBEDIĂNCIA
ObediĂȘncia - substantivo feminino. 1. Ato ou efeito de obedecer. 2. Condição ou qualidade de obediente.
Depois de alguns dias de ambientação, Wuldor jĂĄ estava começando a entender como todos se relacionavam dentro daquela estranha casa. Conheceu, completamente contra a sua vontade, mais alguns dos habitantes do lugar. AlĂ©m de Ta-Dah, B.A., Fancy, Acid e o tal BotĂąnico, descobriu que mais trĂȘs criaturas bizarras viviam ali â uma pessoa que ele nĂŁo conseguira decifrar o gĂȘnero chamada Gold Chamber; uma criatura cinzenta e tambĂ©m de gĂȘnero indecifrĂĄvel chamada de Ozma; e uma mulher rude e completamente sem modos chamada de S-Me.
Claro, Alala continuava com eles na casa, porém passava a maior parte do tempo com Fancy, fazendo sabe-se-lå o que (não que Wuldor se interessasse pelo paradeiro e pela rotina da garota de verdade).
âEi, babaca.â A mulher chamada S-Me, pegou Wuldor pelo ombro. Sua pele escura e unhas pintadas de vermelho eram um imenso contraste com toda a brancura que definia Wuldor (tanto na pele quanto nas roupas).
Wuldor continuou seguindo, desvencilhando-se de S-Me, sem olhar para ela. Ele jĂĄ estava sendo obrigado a ficar ali, nĂŁo precisava se relacionar com essas estranhas pessoas e seus nomes estĂșpidos.
âVocĂȘ vai me ouvir sim, branco azedo!â Dessa vez ela gritou e a casa toda tremeu. Wuldor desequilibrou-se em sua constante flutuação e bateu contra a parede, caindo no chĂŁo. âViu, branquelo. Aqui vocĂȘ ouve quando chamam vocĂȘ, especialmente se for eu, porque vocĂȘ nĂŁo vai querer me ouvir gritando no seu ouvido.â S-Me caminhou atĂ© Wuldor e o puxou do chĂŁo pela gola de seu casaco. âĂ hora do treinamento. O Botinho me pediu para vir catar vocĂȘ para vir treinar. NĂŁo Ă© uma pergunta, eu estou mandandovocĂȘ vir. Sem opção de recusa.â
Wuldor nĂŁo respondeu, soltou-se da mĂŁo de S-Me e a encarou, tentando forçar um contato visual que fizesse a mulher desistir dele. Ela tinha um cabelo enorme que se parecia muito com uma juba de um leĂŁo. Talvez fosse uma maneira de intimidar as pessoas com sua aparĂȘncia, Wuldor nĂŁo sabia precisar isso. Ele percebeu que ela continuava parada na frente dele, ambas as mĂŁos na cintura e uma expressĂŁo que Wuldor conseguiu ler como âextrema raivaâ. Bem, se ela queria enfrentĂĄ-lo em uma luta, ele teria um enorme prazer em destruĂ-la.
Chegaram atĂ© o local de treino, uma quadra coberta enorme que muito se assemelhava Ă sala do BotĂąnico em seu tamanho. Bem no meio da quadra, Ta-Dah estava fazendo seu show de ilusĂ”es com direito a uma criatura gigante mastigando um prĂ©dio. B.A. estava sentado em uma cadeira, atirando flechas amareladas em um alvo que estava posto bem a sua frente â o deslumbre era que ele acertava cada uma das flechas no meio do alvo, mesmo sendo cego e a maior surpresa era que as flechas desapareciam no ar, como se nunca tivessem existido. Num outro ponto, Wuldor pĂŽde avistar Alala sendo atingida por coisas que ACID atirava contra ela; cada um dos objetos voltava contra ACID com a mesma força, enquanto Alala ficava se protegendo com as mĂŁos sobre o rosto.
âQue bom que vocĂȘ veio, panaca.â Wuldor reconheceu a voz de Fancy, que lhe deu um empurrĂŁo para que ele entrasse na quadra. Todos pararam as suas respectivas atividades e olharam para Wuldor que, pela primeira vez na vida, sentiu-se incomodado e, atĂ© mesmo envergonhado. EmoçÔes humanas demais para que ele digerisse com facilidade.
âVamos rotacionar as atividades. Ta-Dah vocĂȘ e Karma podem verificar se suas habilidades se complementam, como Ă© a primeira vez de Karma no campo de treino aberto, seja gentil, Ta-Dah.â ACID ordenou e Ta-Dah prestou uma continĂȘncia. âOzma vocĂȘ e B.A. podem começar o treinamento padrĂŁo de vocĂȘs e Gold Chamber... fique com eles, porque um dos dois pode sair ferido nessa brincadeira.â
Ozma apareceu, brotando do chĂŁo e tomando sua forma humanoide estranha, sem rosto. B.A. flutuou para fora de sua cadeira, ainda sentado, mas agora sobre o ar. Gold Chamber sentou-se na cadeira previamente ocupada por B.A. e cruzou as pernas, enquanto lia uma revista em uma lĂngua que Wuldor nĂŁo conseguia identificar.
Gold Chamber nĂŁo tinha cabelo algum na cabeça e tampouco tinha sobrancelhas, a pele era levemente morena, lĂĄbios grossos pintados de preto e usava roupas estranhas que poderiam ser calças ou uma saia (ou uma mistura dos dois), combinadas com uma camisa de botĂŁo cor de rosa e gravata borboleta azul. Ela tinha unhas curtas pintadas uma de cada cor, mas Wuldor ainda nĂŁo conseguia precisar seu gĂȘnero por nĂŁo ter seios proeminentes. Ao contrĂĄrio de S-Me, ela nĂŁo usava joias e nem mesmo brincos. Talvez fosse uma mulher, dado que tinha roupas espalhafatosas demais para os padrĂ”es de normalidade de humanos do gĂȘnero masculino.
âMeu pudinzinho, eu vou precisar falar com o Boto, entĂŁo vocĂȘ e S-Me vĂŁo ter que cuidar do nosso garoto problema, OK?â Fancy abraçou e deu um beijo no rosto de ACID, antes de passar novamente por Wuldor. âVocĂȘ, garoto problemĂĄtico, cuide-se. S-Me e ACID nĂŁo vĂŁo pegar leve com vocĂȘ.â
NĂŁo que Wuldor se importasse com isso. Ele era invencĂvel, no final das contas. Ao menos era isso que pensava.
Wuldor, no entanto, se surpreendeu ao ver que Ozma se desfazia e retomava a forma de vĂĄrias coisas que ele nĂŁo conseguia decifrar, enquanto B.A. a atacava incessantemente com flechas de energia amarelada, que voavam sempre para o ponto em que Ozma estava. Ainda que a criatura conseguisse se evadir dos ataques de B.A., ele sempre parecia descobrir onde ela surgiria em seguida. Com um estardalhaço, ela começou a fazer vĂĄrias pontas de lança aparecerem pelas paredes, estalando o reboco e fazendo a poeira levantar-se no ar. B.A. tambĂ©m conseguia movimentar-se rapidamente flutuando de um lado para o outro, atĂ© que uma das pontas passou muito perto do seu rosto, fazendo os Ăłculos escuros que sempre usava caĂrem.
âOzma. Isso Ă© sacanagem. Eu gosto desses Ăłculos.â
âDesculpa.â A voz de Ozma era estranha e distante, como se ela nĂŁo estivesse realmente ali.
âNah, tudo bem, acho que nĂŁo quebrou, nĂŁo ouvi trincar. SĂł uma pausa para eu pegar os Ăłculos.â B.A. pousou no chĂŁo e foi batendo o pĂ© atĂ© finalmente olhar para o lado oposto e seguir atĂ© os Ăłculos escuros. Wuldor finalmente notou que B.A. nĂŁo estava com os olhos abertos, claro, pelo visto nĂŁo usava a visĂŁo para nada. âNĂŁo trincou. OK. Goldie, vocĂȘ pode ficar com meus Ăłculos?â
âClaro, Bee.â Gold Chamber começou a estalar os dedos de uma das mĂŁos atĂ© o Ăłculos chegar lĂĄ. âPronto, seguro comigo, querido.â
âValeu, Goldie.â
Com isso os dois voltaram para suas atividades, de maneira vertiginosa.
âOlha, eu acho que eu devia limpar o chĂŁo com a cara desse branquelo.â S-Me resmungou.
âFaça as honras da casa, S-Me.â ACID falou e bateu palmas, atraindo a atenção de Wuldor.
Logo um ruĂdo alto tomou o lugar, a onda sonora era tĂŁo forte que derrubou Wuldor no chĂŁo. A mulher pisou na perna de Wuldor afundando o salto ali; Wuldor nĂŁo sentiu dor no primeiro momento, mas quando ela começou a cantarolar, foi como se vĂĄrios alfinetes acertassem ele ao mesmo tempo, vĂĄrias e vĂĄrias vezes. Uma agonia torturante que fez com que Wuldor crispasse com a dor que começava a sentir a cada repetição das agulhadas. Wuldor concentrou-se no salto da mulher atĂ© congelĂĄ-lo, quebrando a peça e fazendo S-Me cambalear, caindo no chĂŁo, sentada. Wuldor moveu-se rapidamente para ficar de pĂ©, mas sentiu algo o puxar para baixo: era uma corrente sendo controlada por ACID que o pegou e o amarrou ao chĂŁo.
âPrimeira lição de hoje: cooperação. Quando vocĂȘ tem uma equipe, vocĂȘ pode confiar que essa equipe vai te apoiar durante uma luta.â ACID falou e num estalar de dedos fez um novo salto para o sapato de S-Me.
âSempre tĂŁo atencioso, ACID.â S-Me sorriu.
âSegunda lição: aprenda como as habilidades das pessoas que estĂŁo com vocĂȘ podem amplificar as suas. Pode olhar para os seus braços, Wuldor.â
Wuldor fechou o cenho, sem entender do que ACID estava falando. Logo viu que estava mesmo com milhares de agulhas enfiadas por todo o corpo e a dor continuava enquanto S-Me cantarolava.
âA voz de S-Me, atĂ© mesmo num tom aceitĂĄvel como esse, Ă© uma arma letal. Com o auxĂlio de minha habilidade de manipulação de metais, ela consegue torturar atĂ© pessoas com limiares de dor em muito superior ao de humanos normais. Que Ă© justamente o seu caso.â
âEu vou... Eu vou...â Wuldor murmurou.
âTente. Tente qualquer coisa.â ACID crispou.
Wuldor congelou todos os metais e os expulsou para longe. Ouviu uma sequĂȘncia de reclamaçÔes. Virou e viu que tinha atingido algumas pessoas: Ta-Dah começou a xingar em japonĂȘs, B.A. estava apontando uma flecha para ele, Karma estava escondida atrĂĄs de Gold Chamber que estalava os dedos, liberando uma onda dourada por todo o espaço.
âÂĄChingado!â Gold Chamber gritou âDĂgale a ese pendejo que pare. No es que todos aquĂ sean Ozma.â Continuou resmungando em espanhol, enquanto agitava as mĂŁos para fazer a onda dourada passar por todos.
A tal onda fez com que todos que tinham sofrido danos por conta das agulhas tivessem a pele reparada. Gold Chamber estalou os dedos mais uma vez e levantou-se da cadeira em que estava sentada para continuar agitando as mĂŁos para que tudo mais fosse retornando ao lugar lentamente.
âGoldie, acho que tem alguma coisa no meu rosto.â B.A. sussurrou e fez um barulho de reclamação quando Gold Chamber puxou uma agulha do rosto dele.
âAmado.â Gold Chamber foi atĂ© B.A. e o beijou no rosto, o que fez o sangue estancar. âEspero que isso nĂŁo se repita.â
ACID acenou com a cabeça para Gold Chamber.
âVou fazer um muro para evitar que isso, Goldie.â ACID respondeu e fez uma enorme parede metĂĄlica se formar, dividindo o espaço.
âSe mexer com a minha namorada de novo eu vou gritar atĂ© seu ouvido pular para fora da sua cabeça!â S-Me grunhiu.
Wuldor grunhiu entre os dentes e lançou uma forma pontiaguda de gelo contra ACID, que a cortou com uma lùmina que atravessou o ar rapidamente. Começaram a desferir golpes um contra o outro enquanto S-Me dava a volta e parou justamente atrås de Wuldor.
âAjoelhe-se.â Ela murmurou no ouvido de Wuldor que caiu de joelhos no chĂŁo, gritando de dor. âVocĂȘ acha mesmo que estĂĄ lutando de igual para igual com a gente? Qual o seu treinamento? O que vocĂȘ sabe fazer?â
Wuldor começou a gemer, segurando o próprio peito. Urrava de dor, tanto pelas agulhas quanto pela voz de S-Me.
âEu passei anos sem poder dizer uma palavra, hoje consigo controlar meu poder. VocĂȘ se acha o todo poderoso? Eu causo dor, quanta dor eu quiser, sĂł por falar. O que vocĂȘ pode fazer, Wuldor? Chore, agora.â
Wuldor caiu no chĂŁo, urrando de dor, enquanto ACID o prendia no chĂŁo.
âĂltima lição do dia: saiba quando foi derrotado. E finalizamos por hoje.â ACID falou e deu as costas para Wuldor que continuava sentindo as dores de sua recĂ©m descoberta humanidade.
ESTĂTUAS DE SAL
NĂŁo olhe para trĂĄs.
Os primeiros passos pareciam os mais difĂceis. HĂĄ quanto tempo ele nĂŁo andava com suas prĂłprias pernas? Pelo menos trinta anos, talvez cinquenta anos. Ele caiu para frente e foi amparado por um dos fisioterapeutas. Depois de uma breve pausa, retornou aos passos lentos que seu corpo humano lhe oferecia. Cult nĂŁo reclamaria do atendimento que estava recebendo. Seu corpo humano estava bastante fragilizado e consumido. Tudo o que lhe fosse oferecido era o melhor que eles poderiam fazer.
De certa forma essa longa pausa o tinha feito refletir sobre suas prĂłprias açÔes: seu erro foi acreditar muito em seu parasita. O parasita tinha o abandonado no primeiro sinal de perigo. Era Ăłbvio que para o parasita ele era completamente descartĂĄvel. Ele agitou uma das mĂŁos fazendo com que a enfermeira saĂsse de seu quarto. Seus poderes de persuasĂŁo estavam completamente restaurados, mas isso nĂŁo era o suficiente para remediar tudo o que tinha perdido. Ele tinha perdido tudo em NY.
Com esse rancor totalmente enraizado em sua alma, Cult sabia que teria que fazer algo a respeito. Depois de vĂĄrios jornais lidos e de bastante cultura inĂștil televisiva, ele tinha aprendido que tudo o que acontecera em NY tinha sido completamente apagado do mapa. As desculpas eram as mais implausĂveis possĂveis, contudo, todos acreditavam sem qualquer questionamento.
Havia um enorme poder ali, algo completamente desconhecido para Cult, um poder tĂŁo grande que era capaz de manipular muitas mentes e idiotificar todo um sistema. Esse poder era o que Cult buscava. Sua cruzada anterior tinha restado frĂvola; de fato, o tal Wuldor agora lhe parecia nada mais do que um rato. Tinha gastado todas suas fichas numa criatura cruel e infantil. O arrependimento era grande, mas quem poderia culpĂĄ-lo? Ele deveria ter esperado mais tempo? Ele deveria ter desistido no momento em que Thinker o advertira? Ele deveria ter se resignado ao ponto zero e desistido de sua tentativa de subornar um deus cruel?
As perguntas eram muitas e as repostas eram muito poucas. Ele resignou-se a mirar o possĂvel futuro. Voltar Ă s sombras era a Ășnica oportunidade que ele tinha de tentar conseguir algo em sua completa impotĂȘncia. Ele nĂŁo era mais uma cura, ele agora buscava uma cura. Os placebos da vida nĂŁo mais iriam satisfazĂȘ-lo, ele precisava de algo mais imponente, ele precisava de novas respostas.
Com o tempo ele voltou a se acostumar com seu rosto do passado. Com o tempo ele voltou a lembrar-se de quem uma vez foi. Inadvertidamente sua mente o levava para os lugares que tinha abandonado. A lembrança de sua famĂlia foi o suficiente para que ele desejasse retornar ao que era antes; a humanidade era irritante, a humanidade era doentia.
NĂŁo existia qualquer deus sobre os mais altos cĂ©us e os mais profundos abismos. Nenhum deus que quisesse ouvir os clamores de Cult. Nem mesmo um deus falso que pudesse dizer a Cult que era seu criador. Nada, nenhuma resposta. O vazio da humanidade iria destruĂ-lo â nĂŁo hĂĄ cura para essa doença a nĂŁo ser a morte.
Cult estava prestes a desistir de tudo, abandonar suas crenças e encontrar um repouso sereno. Um Ășltimo olhar para o mundo e iria abandonar tudo. Era o que lhe restava. A Ășnica cura para humanidade era a morte. Ele queria ser curado. Ele precisava ser curado.
A lĂąmina era fria e a dor era verdadeira. A humanidade era avassaladora e cruel. Ele sabia que a morte seria seu Ășnico momento de paz.
âEu nunca pensei que vocĂȘ fosse um desistente.â A voz dentro da mente de Cult o fez soltar a lĂąmina que titilou no chĂŁo. Ele conhecia aquela voz fria e enferrujada. A voz que o mantivera em cativeiro por tanto tempo.
âVocĂȘ voltou.â
âPensamos que estava morto.â
âEu estou morto.â
âNĂŁo estĂĄ.â
âQual a utilidade disso? Esse corpo estĂĄ arruinado.â
âNĂŁo estĂĄ arruinado.â
âVocĂȘ fugiu. Eu apenas estou encontrando minha cura.â
âEssa nĂŁo Ă© a resposta, Cult.â
âEssa Ă© a minha saĂda.â
âNĂŁo hĂĄ vencedores. NĂŁo hĂĄ cura.â
âSe deseja esse corpo arruinado ele Ă© seu, mas eu nĂŁo quero mais.â
Houve silĂȘncio no banheiro. A sombra tremeu, como uma folha farfalha ao vento. A sombra desceu e passou por cima do sangue que escorria das veias destruĂdas, ela subiu atĂ© os pulsos de Cult e começou a sorver Cult pouco a pouco.
âO que vocĂȘ deseja que eu faça?â
âHĂĄ trabalho para ser concluĂdo, Cult.â
âEsse trabalho nĂŁo Ă© meu.â
âEsse trabalho Ă© nosso.â A palavra ânossoâ ecoou pelo banheiro, Cult nunca saberia de quem era realmente a carga.
Cult sentiu a escuridão curå-lo de toda sua humanidade mais uma vez. Ele abriu os olhos novamente e levantou-se, saindo da banheira. Olhou-se no espelho por puro reflexo; seu rosto ainda era o mesmo humano, com o nariz levemente torto para esquerda, os olhos castanho-claros, os låbios finos e todas as rugas que tinha se esquecido que eram suas. Todas as imperfeiçÔes que o tornavam humano. Ele passou a mão sobre os cabelos claros e sobre a barba por fazer. Sentiu a vitalidade de seus passos e percebeu que seu corpo estava curado. Sem dores, sem nenhuma sensação. Era como se estivesse completamente anestesiado.
âNosso propĂłsito nos pede que estejamos escondidos. VocĂȘ agora Ă© Isidor Cult.â A voz em sua mente proferiu.
âEu sou humano.â Cult falou.
âNĂŁo Ă© mais. VocĂȘ estĂĄ curado.â
âEu sou a ponte.â
âVocĂȘ Ă© a ponte.â
Cult sorriu seus dentes continuavam levemente tortos, o que sempre fez com que suas expressÔes parecessem incrivelmente sombrias. Ele estava curado.
PENSE POR SI MESMO
Antes que seja tarde demais.
Wuldor ainda estava digerindo todas as informaçÔes que tinha recebido em menos de um dia. A sua ideia de formar um grupo de pessoas poderosas não era uma novidade, aparentemente. A pior parte disso tudo é que ele estava enfiado até o fundo nisso agora; de fato, Wuldor estava frustrado por ter perdido a oportunidade de ter a ideia primeiro.
No meio de sua reflexão, Wuldor terminou pensando em Hiero. Ele sentiu um grave pesar em seu coração
âVocĂȘ falou marido... ACID Ă© seu marido?â Wuldor perguntou enquanto Fancy bebia uma xĂcara de chĂĄ.
âSim. Somos casados, oficialmente, inclusive. JĂĄ devia ter ficado meio Ăłbvio.â Fancy deu de ombros. âVocĂȘ Ă© muito denso, Wuldor.â
âPara pessoas tĂŁo poderosas... Esse parece ser um relacionamento inĂștil.â
A fala de Wuldor arrancou uma gargalhada de Fancy que, teve que colocar a xĂcara de volta Ă mesa.
âVocĂȘ Ă© muito estĂșpido mesmo.â Fancy falou, entre uma gargalhada. âNossa, a melhor coisa que aconteceu na minha vida foi trocar alianças com o ACID. Ele Ă© o amor da minha vida, acredite.â
âA inutilidade estĂĄ em depender de outra pessoa.â
âVocĂȘ realmente acha que eu dependo unilateralmente do ACID. VocĂȘ realmente acha que eu sou uma mocinha indefesa que precisa de alguĂ©m para salvĂĄ-la?â Fancy riu. âPanaca, eu nĂŁo sou uma hĂĄ anos, entĂŁo, preste bem atenção, porque sĂł vou falar isso uma vez: eu nĂŁo gosto de vocĂȘ. Na verdade, nĂŁo tolero olhar para esse seu cabelo branco e esses seus olhinhos azuis. Eu detesto vocĂȘ, de verdade. Mas, seus poderes me interessam muito. E sĂł isso que me interessa em vocĂȘ. Qualquer merda que vocĂȘ pense ou que vocĂȘ fale nĂŁo me interessa. Se vocĂȘ acha que nĂłs aqui somos trouxas, vocĂȘ estĂĄ mortalmente enganado. Eu posso acabar com a sua raça e nem precisaria dizer ao ACID que fiz isso, porque ele ficaria feliz em saber que vocĂȘ estĂĄ devidamente morto e enterrado, ainda mais se for o marido dele que fez isso.â
âEu nĂŁo acredito em suas ameaças.â
âE eu nĂŁo me importo com o que vocĂȘ pensa. OK. JĂĄ me arrependi de ter trazido vocĂȘ.â Fancy levantou-se. âKarma Ă© uma Ăłtima aquisição, ela jĂĄ se deu com todo mundo e vocĂȘ continua sendo um babaca. Me procure quando entender que vocĂȘ Ă© um babaca e aĂ podemos conversar de novo.â
Alala abriu a porta e arregalou os olhos ao ver Wuldor, se encolhendo no alizar da porta.
âHey, gracinha. Venha cĂĄ com o Fancy.â Ele estendeu os braços e Alala, surpreendentemente foi atĂ© ele. Ele a apanhou nos braços, a apoiando enquanto ela enroscava um dos braços no pescoço dele. âVocĂȘ Ă© um docinho, sabia? Mas nĂŁo deve ser docinho assim com todo mundo. O tio Fancy vai ensinar algumas coisinhas de menina para vocĂȘ, ok?â
âEu sei muitas coisas de menina, senhor Fancy.â Ela murmurou. âMuitas coisas ruins acontecem com meninas no meu paĂs.â
âNĂŁo duvido, queridinha.â Ele falou, beijando a bochecha dela. âMas, vocĂȘ confia demais em mim, por isso pensei que o mundo ainda nĂŁo tinha tirado toda sua doçura.â
âAh... Eu gostei do senhor.â
âQue fofura.â Ele riu para a moça. âEu tambĂ©m gostei de vocĂȘ logo de cara, Karma.â
Wuldor sentiu-se excluĂdo, mas os dois logo saĂram da cozinha, o deixando lĂĄ, com seus prĂłprios pensamentos.  Wuldor ponderou o que o tinha o levado atĂ© aqui. Pensava que encontrar um grupo de pessoas com poderes que ele pudesse dominar seria fĂĄcil, mas ele estava enganado. Existiam pessoas poderosas demais nesse mundo. Talvez nenhum deles fosse mais poderoso do que Wuldor. Mesmo assim, ele tinha receio de atacar qualquer deles e terminar... Sem qualquer vantagem.
Ele tinha abandonado Hiero por achar que ela representava uma fraqueza para ele. Agora ele estava imensamente arrependido de tĂȘ-lo feito. Ela nĂŁo era uma fraqueza para ele, ela era uma vantagem! Quanta tolice em sĂł ter percebido isso tarde demais. Ela provavelmente jĂĄ tinha desaparecido no mundo, ela nĂŁo iria querer vĂȘ-lo nunca mais. Ele era um tolo.
Enterrou a cabeça nas mãos e ouviu alguém abrindo a porta da cozinha. Uma pessoa entrou na cozinha, sem muita cerimÎnia. Abriu a torneira e encheu um pote com ågua. Voltou-se para o fogão e acendeu a chama, colocando o tal pote sobre as labaredas. Não olhou nenhuma vez sequer para Wuldor nesse processo, como se estivesse o ignorando por completo.
Wuldor sentiu uma fĂșria imensa e levantou-se, arrastando a cadeira no processo. Assim que se levantou, sentiu-se sendo puxado novamente para cadeira. Estarrecido olhou para pessoa, que agora o encarava por trĂĄs de espessos Ăłculos escuros. Estava com o rosto parcialmente encoberto tanto pelos Ăłculos quanto pelo cachecol pesado que usava sobre o pescoço. A pessoa voltou a encarar o fogĂŁo, como se nada tivesse acontecido. Notou entĂŁo que essa pessoa era bem diferente da maioria das pessoas que tinha visto atĂ© entĂŁo; ele era baixo em estatura e bastante grosso em sua largura. Lembrou-se do termo âgordoâ, contudo, ponderou se isso fazia esse rapaz sentir-se mal com sua prĂłpria aparĂȘncia. Os humanos tinha a tendĂȘncia de se importar muito com esse tipo de detalhe e ele nĂŁo queria arrumar mais encrencas com alguĂ©m.
âEu sei que vocĂȘ estava aĂ. Sou cego, nĂŁo sou surdo.â A pessoa reclamou. âMas Ă© bastante descortĂȘs arrastar uma cadeira assim quando vocĂȘ estĂĄ sobre um piso de cerĂąmica. VocĂȘ sabia que pode arranhar as lajotas assim?â
Wuldor tentou processar todas as informaçÔes, em vão.
âO que Ă© cego? O que Ă© surdo?â Wuldor balbuciou, a contragosto.
âOh. Desculpe, pensei que vocĂȘ falasse inglĂȘs.â O homem riu um pouco. âO pessoal me chama de B.A. por conta do que eu faço.â Ele esticou a mĂŁo e uma das cadeiras veio atĂ© ele. âTelecinĂ©sia, sabe, tipo mexer as coisas com poder Jedi da mente.â
âEu nĂŁo sei o que Ă© Jedi, mas sei o que Ă© telecinĂ©sia.â
âAh, OK. Tudo bem.â Ray sentou-se na cadeira.
Ray era um rapaz pequeno e de cabelos castanhos claros, cortados um pouco acima dos ombros. Sua tez era clara, como se pouco visse o sol. Ele agora estava preparando algo com a ĂĄgua quente, utilizando seus poderes para misturar as coisas enquanto estava sentado na frente de Wuldor.
âE aĂ, cara novo, vocĂȘ tem nome?â
âWuldor.â
âNome maneiro.â B.A. estava passando as mĂŁos uma contra a outra, tentando esquentĂĄ-las. âVocĂȘ faz o quĂȘ?â
âNĂŁo compreendi a sua pergunta.â
âPoderes. Tipo, vocĂȘ voa? VocĂȘ consegue fazer ventar? VocĂȘ lĂȘ mentes? VocĂȘ quebra as coisas... O que vocĂȘ faz afinal?â
âTelecinĂ©sia. Criocinese. Manipulação PsĂquica. Distorção de realidade.â
âManeiro, parece uma bula de remĂ©dio.â B.A. estava comendo macarrĂŁo agora. Aparentemente ele tinha cozinhado isso para comer.
âTodos aqui fazem pouco caso das coisas?â
âOlha, eu supostamente sou o bobo da corte da minha equipe.â B.A. arrotou. âMas, nĂ©... Se vocĂȘ tivesse sido ferrado pela vida como eu fui, vocĂȘ entenderia minha necessidade de autoafirmação atravĂ©s de pĂ©ssimas piadas que eu vivo contando.â
Wuldor encostou-se mais ainda na cadeira. B. A. terminou de comer seu macarrĂŁo e voltou a colocar ĂĄgua em outro pote.
âVocĂȘ come ou Ă© um daqueles caras que se alimenta do nĂ©ctar do universo?â B.A. perguntou.
âEu nĂŁo preciso de comida.â
âManeiro, sĂł para saber, mesmo. Temos um outro cara que basicamente se alimenta de luz solar, entĂŁo eu tinha que perguntar, sĂł para saber se faço mais um pote de macarrĂŁo para vocĂȘ.â B.A. chupou o macarrĂŁo fazendo barulho. âVocĂȘ faz fotossĂntese ou seu lance Ă© mais... Shambala, tipo Hare Krishina?â
âEu nĂŁo entendo suas piadas.â
âQue pena.â B.A. arrotou mais uma vez. âEssas piadas fazem muito sucesso nas festinhas da turma. Dizem que eu sou o mais legal daqui porque conto as piores piadas do West Side.â
B.A. continuou comendo e Wuldor notou que ele nĂŁo olhava para o pote, na verdade nĂŁo olhava para nada em especĂfico. Ser cego significava que ele nĂŁo dependia de sua visĂŁo? Bem, isso era, por si sĂł, um poder muito interessante; nĂŁo estar preso Ă s amarras do mundo visĂvel deveria ser o que tornava esse garoto tĂŁo valoroso para a equipe. Ele finalmente terminou a refeição e levantou-se da cadeira.
âVocĂȘ pode tentar ser mais legal, Wuldor. NinguĂ©m aqui vai te morder, sacou?â Ele remendou com mais um arroto sonoro e longo. âAcho que nĂłs somos maneiros, afinal queremos dominar o mundo.â B.A. fez um sĂmbolo com as mĂŁos, mostrando dois dedos, formando uma letra V. Wuldor nĂŁo compreendia muito essas expressĂ”es, era como se as pessoas mudassem de lĂngua o tempo todo, ou como se a comunicação dessas pessoas fosse muito truncada. âCara, eu tĂŽ brincando. Eu nem sei o que o pessoal da Ordem faz na verdade. Eu sĂł sei que me colocaram aqui e eu tĂŽ de boas, afinal aqui ninguĂ©m me trata como se eu fosse doido ou como se eu fosse deficiente.â Ele coçou a cabeça, remexendo os cabelos castanhos emaranhados. âAqui eu me sinto em casa porque ninguĂ©m se desvia de mim quando eu ando. No mundo lĂĄ de fora, as pessoas nem chegam perto de mim quando eu tĂŽ usando a minha guia. Parece que eu vou passar uma doença para elas ou sei lĂĄ... VocĂȘ me entende?â
Wuldor balançou a cabeça negativamente. Ele realmente não entendia nada do que esse B.A. falava.
âAh, legal.â Ele passou a mĂŁo no nariz e puxou os Ăłculos do rosto. Seus olhos eram completamente brancos e leitosos, algo que deixou Wuldor surpreso. âEu nĂŁo vejo nada com esses olhos desde que eu nasci. Mas, desde que eu nasci eu vejo com os olhos da mente, saca? Eu nĂŁo sei explicar como, mas eu sei que vocĂȘ tĂĄ sentado numa cadeira, sei quando vocĂȘ balança a cabeça para dizer que nĂŁo liga para nada do que eu âtĂŽ falando. Eu sĂł sei.â
âPensei que ser cego significasse o seu poder.â
âCara, vocĂȘ acha mesmo que cegueira Ă© um super poder?â
âO que mais poderia ser?â
âCara, isso foi uma coisa legal de se dizer. NĂŁo sei se vocĂȘ realmente acredita no que vocĂȘ disse, mas foi legal para caramba.â
âClaro que acredito no que eu falei. VocĂȘs tĂȘm o costume de nĂŁo acreditar no que vocĂȘs falam?â
âCaraca. VocĂȘ realmente nĂŁo Ă© da Inglaterra, nĂ©? As pessoas me chamam de gordo, cego e preguiçoso a maior parte do tempo. Exceto o pessoal da casa, o Fancy Ă© muito legal e o BotĂąnico Ă© o melhor professor que eu tive na vida... Mas, o pessoal lĂĄ de fora Ă© muito escroto comigo, de verdade.â
âVocĂȘ se torna forte com toda a adversidade.â
âO BotĂąnico falou a algo assim quando eu cheguei aqui.â B.A. coçou o queixo. âCara, eu pensei que vocĂȘ era um babacĂŁo, porque o Fancy nĂŁo Ă© de pegar no pĂ© de ninguĂ©m. AliĂĄs, o Fancy Ă© o cara mais maneiro que eu conheço, com todo o visual George Michael e fazendo tricĂŽ e tal.â
âEssas palavras, panaca e babaca... SĂŁo para se referir com desdĂ©m sobre mim?â
âNa verdade nĂŁo. Ă sobre vocĂȘ ser um cara rude e mal intencionado. Sabe, como se vocĂȘ fosse um cara ruim, tipo isso.â
âRuim. NĂŁo existe bom ou ruim no mundo.â
âSaquei, vocĂȘ Ă© tipo um cara de moral cinza? Tipo um anti-herĂłi, aquele cara que mete bala em todo mundo, mas curte abraçar gatinhos.â
âEu sou invencĂvel.â
âAh, um pouco megalomanĂaco tambĂ©m. Sussa. OK. Cara, se vocĂȘ for legal com os outros como vocĂȘ foi comigo, ninguĂ©m aqui dentro vai continuar te xingando. O pessoal por aqui esquece as merdas que a gente faz no passado... Eu, por exemplo, uma vez estourei... literalmente. NĂŁo aguentava mais o pessoal me chamando de bastardo gordo e de cegueta. DaĂ eu fiz BUM e matei todo mundo da minha turma. Foi sem querer, mas o lance de Jedi Ă s vezes sai do controle... E eu mando tudo pelos ares.â
âVocĂȘ parece muito poderoso.â
âE descontrolado. Acredite, quando eu perco a minha paciĂȘncia, eu viro uma bomba relĂłgio, sĂł que sem o relĂłgio e sem os fiozinhos para tentar parar a contagem.â
âEles prendem vocĂȘ aqui?â
âNĂŁo, nĂŁo, nem de longe. Eu nĂŁo gosto de sair mesmo. NĂŁo gosto das pessoas em geral... Eu sempre sou o gordo cego que ocupa toda a calçada. Sempre sou o cara que ninguĂ©m quer por perto.â
âMas, eles querem vocĂȘ por perto.â
âĂ isso aĂ. Por isso eles sĂŁo legais. VocĂȘ tambĂ©m pode ser legal se tentar um pouco.â
âSua conversa Ă© boa, o fato de eu querer conversar com vocĂȘ me torna isso de ser... Legal... Ă© a palavra?â
âSim. Isso torna vocĂȘ um cara legal. E o lance de vocĂȘ nĂŁo ter desviado o olhar depois que eu tirei os Ăłculos. Isso tambĂ©m torna vocĂȘ legal.â
âOK. Isso Ă© bom. Talvez eu tenha entendido isso sobre ser... Legal.â
âĂ isso aĂ. Aqui eles relevam as coisas, cara. Se eu estivesse lĂĄ fora eu estaria preso, senĂŁo estivesse morto por ser uma aberração.â
âVocĂȘ nĂŁo Ă© uma aberração, B.A. VocĂȘ possui poderes inimaginĂĄveis. Isso torna vocĂȘ muito melhor do que as pessoas que nĂŁo conseguiram evoluir.â
âValeu. VocĂȘ realmente sabe massagear o ego das pessoas, Wuldor. E isso Ă© ser maneiro.â
Com isso, B.A. pegou seus Ăłculos e saiu da cozinha. Apesar da Ăłtima conversa que teve com o jovem poderoso, Wuldor nĂŁo conseguia deixar de pensar que as pessoas da Ordem do AmanhĂŁ pareciam ser completamente insanas. Estavam preocupadas com minĂșcias insignificantes, com banalidades que pertenciam aos humanos e nĂŁo a grandiosos poderes como eles.
Wuldor continuou sentado na cadeira observando todas as coisas que o circundavam. Essas pessoas continuavam a agir como humanos, continuavam a viver com a mesma pequenez das pessoas de vida finita... Talvez isso os tornasse mais poderosos, ele pensou consigo mesmo. Quem sabe fosse isso que Wuldor tinha deixado de entender. Pensou, entĂŁo, em Hiero; talvez ele tivesse errado em abandonĂĄ-la daquela forma.
Ele estava decidido a se tornar mais poderoso e a conseguir o apoio dessa tal Ordem do AmanhĂŁ. Se para isso ele tivesse que mudar completamente seus planos, ele assim o faria.
VocĂȘ pode ler Fios Soltos aqui no link! ;)
Enjoy!
https://drive.google.com/file/d/1FAqwbYT-XU71UVQeGYPKg-Zq7UnKtM0n/view?fbclid=IwAR3vQo5_YPcqkT0sE77PTg8s4tNgGzHQiUHId22HbNjhED_HzzNcxGue5h4
LEMBRE-SE DE MIM
Para lembrar Ă© preciso esquecer. - Maurice Blanchot
Ela deu mais alguns passos na neve e parou abruptamente. Os enjoos estavam a acompanhando hĂĄ alguns meses, como pequenas ondas de agonia que insistiam em quebrar toda a monotonia de sua vida no meio do Himalaia.
Desde que seu deus tinha a abandonado, ela tinha se dedicado a construir uma pequena casa dentro de uma caverna esquecida. Todos os dias arrumava uma maneira para se aquecer, caçava e depois voltava para caverna para chorar sua solidĂŁo. NĂŁo que Tsumamoto Hiero em algum momento tenha se sentida acolhida ou recebida por alguĂ©m ou por algo. A Ășnica vez em que foi abraçada foi por seu deus, Kamui descido dos cĂ©us, pronto para trazer dor e destruição.
Talvez no final a Ășnica pessoa que tenha experimentado a tal dor a tal destruição tenha sido ela. Talvez se ela resolvesse destruir o mundo as pessoas conseguissem vĂȘ-la de outra forma...? Esse pensamento passou muito rĂĄpido pela cabeça dela, mas assim que apareceu ela o jogou para um canto esquecido de sua mente. Arquivado na pasta de todas as ideias estĂșpidas que Hiero tinha de tempos em tempos.
Lembrou-se de cada uma das coisas que passou ao lado do Deus da Neve, a destruição que ele causou, todas as coisas que ele fez... Todas as coisas que ela o ajudou a fazer. Era um prazer estranho saber que ela tinha o poder de destruir. Logo ela que sempre foi a Ășltima irmĂŁ, a Ășnica mulher que nascera de sua mĂŁe, logo ela que era o erro da famĂlia, o momento de fraqueza de seu pai, o algoz de sua mĂŁe. Logo ela que nunca serviu de nada senĂŁo de tributo para o inevitĂĄvel.
Destruir era um prazer que jamais sentira, mas novamente seu Deus da Neve tinha lhe trazido tantos prazeres que jamais sentira. Ela cerrou o punho e olhou para o fogo que serpenteava na sua frente. Ela era o veĂculo do caos para esse mundo, tinha aceitado receber o filho da destruição. Era essa sua missĂŁo, sobreviver para que essa criança viesse ao mundo e destruĂsse todo o resto. Ela era um verdadeiro portal para o submundo, nĂŁo era? Riu um pouco com tamanha besteira. Ela era apenas o vaso disponĂvel para receber a prole, nĂŁo era uma escolhida, nĂŁo era uma abençoada. Suspirou um pouco tentando manter a comida dentro do estĂŽmago. Mastigou gelo e continuou olhando para o fogo.
Tinha sido criada para ser uma das esposas de um produtor rico de arroz, mas teve seu encontro fortuito com Wuldor antes que seu destino fosse realmente selado. De fato, ela não sabia muito bem porque tinha decidido correr atrås do Deus da Neve que trouxe destruição para seu povo. Ela sempre esteve atrås de alguma coisa, sempre esteve correndo sem rumo definido em sua vida, sempre foi apenas uma expectadora em sua própria vida. Tinha recebido o nome do irmão que nasceu morto, era o nome dele, nunca fora o nome dela. Sempre tinha sido a irmã que nasceu errado e tinha aprendido a justificar isso com todo o afinco de uma vida. Ela parou de mastigar o gelo por um momento e sentiu as lågrimas escorrerem por seu rosto.
Era isso mesmo, nĂŁo era? Ela era uma personagem esquecida em um livro, aquela com quem ninguĂ©m se identifica. Aquela que ninguĂ©m se lembra. Ela era uma memĂłria ruim e amarga na vida de quem conseguia saber quem ela era. Apenas um ponto a ser esquecido. NĂŁo perca seu tempo se lembrando de Tsumamoto Hiero, diria o narrador! Esqueçam-na. Ela nem mesmo tem um nome sĂł seu. Antes de nascer ela matou o prĂłprio irmĂŁo, esse sim que seria o verdadeiro protagonista, esse que seria o messias, o prometido. Ela jĂĄ cometia seus atos malĂ©ficos dentro do ventre, ela nĂŁo merece sequer sua pena. Hiero podia imaginar o narrador descrevendo-a dessa forma enquanto o leitor passava os olhos pelas linhas e concordava. No final das contas, ela era desprezĂvel mesmo.
Passou a mĂŁo nos cabelos negros e suspirou olhando para cima. Ainda assim o destino tinha lhe pregado uma peça. Tinha usado ela como pedra para um deus. E lĂĄ estava ela, sozinha, numa caverna fria e escura, fazendo carinho em sua barriga inchada por um semideus. Afinal, o filho de um deus nĂŁo pode ser completamente, deus, certo? Era algo desse tipo que os gregos falavam tanto. Os herĂłis de outrora, filhos de humanos e deuses. Mas, ela esperava que esse filho se tornasse um vilĂŁo e nĂŁo um herĂłi. Esse mundo nĂŁo merecia mais nenhum herĂłi, esse mundo merecia ser punido de todas as formas possĂveis. Esse mundo merecia ser destruĂdo.
Ela riu novamente, dessa vez muito mais inebriada pela dor e pelo desespero. Sim, ela seria um portal para o submundo.  Ela tinha decidido por si sĂł que ela nĂŁo serviria mais para ninguĂ©m. Ela nĂŁo seria heroĂna, ela seria a total profanação. LĂĄgrimas escorreram por seu rosto mais uma vez. Ela nĂŁo as secou. Se o que custava era que destruĂsse sua humanidade, que fosse esse o preço pago.
Beat. Era disso que ele a chamava. Era esse seu novo nome. Ela era Beat a Ășltima batida do coração. A morte, a obliteração. Deitou-se em sua cama e fechou os olhos com um breve sorriso. Na hora certa ela estaria pronta para trazer ruĂna novamente. E dessa vez ela seria a protagonista de sua prĂłpria histĂłria.
LEMBRE-SE DE NĂS
A pior parte do passado Ă© o acerto de contas.
Thinker sabia que nĂŁo era um santo. Em sua eterna batalha para manter a estabilidade do multiverso ele tinha cometido sua gama de pecados irremediĂĄveis. Dos piores era consumir pessoas inocentes a cada novo problema que surgia em sua vigĂlia sobre a Terra.
A primeira ser consumida: Eneida. Nunca se esqueceria daqueles enormes olhos azuis e das sardas espalhadas sobre o nariz... Nunca se esqueceria do imenso amor que ela sentia pela filha, Hestia. Era um amor tĂŁo imenso que transcendeu as barreiras do tempo, dormindo eternamente nos salĂ”es de memĂłria de Thinker. Quando entrou em contato com Eneida, percebeu o poder que emanava dela: chamavam de histeria, mas na verdade era um poder grandioso de acomodar vĂĄrias mentes em um Ășnico corpo. Claro, 1830 nĂŁo era um bom momento para as mulheres e chamar de histeria realmente devia parecer uma boa ideia. Hestia herdara poderes da mĂŁe, em um conjunto de possibilidade diverso; consumir e manter vĂĄrias almas num Ășnico espaço â ela era a verdadeira porta para o submundo. Absorveu as duas e se arrependeu disso nos primeiros dez anos; depois superou, caminhou a diante (afinal, as duas estavam juntas para sempre no palĂĄcio de sua mente, abraçadas e vivendo o sonho delas).
Tudo ia muito bem atĂ© o corpo de Hestia começar a desfalecer. O poder era demais para ela? Thinker nĂŁo sabia, mas o corpo estava se destruindo e ele precisava de um novo hospedeiro. Assim como um vĂrus, tomou o seguinte, sem pensar muito sobre isso. O nome dele, mal se recordava do nome... Era MacLein? Sim, era esse o nome dele. Um bravo Sir, disposto a cobrar as dĂvidas de Hestia. Ele absorveu o corpo e a mente desse homem e nele descobriu mais uma habilidade: projeção astral. Agora os trĂȘs viviam dentro dele, cada qual em seu prĂłprio mundo, cada qual em seu prĂłprio sonho. Decidiu que levaria a mesma vida que Sir MacLein levava, um explorador! Conheceria o mundo e descobriu lugares inesperados... O continente das savanas e dos grandes animais o encantou sobremaneira; Ăfrica - poderia viver lĂĄ para sempre. Poderia, futuro do pretĂ©rito. JĂĄ entendia que isso nĂŁo duraria muito.
Adore Afrain foi um capricho. Thinker sabia que o corpo de MacLein duraria mais algumas dĂ©cadas, mas ao perceber que Adore podia controlar a prĂłpria mente ao ponto de bloquear-se do mundo exterior, o desejo de possuĂ-la foi praticamente irracional. Ela lutou, como a brava amazona africana que era, mas ao absorvĂȘ-la, Thinker viu que suas habilidades mentais era imensas: ler mentes, bloquear ataques mentais, isolar-se da realidade externa. Era muito poder e Thinker sabia como usar.
O prĂłximo corpo foi por mera comodidade. Thinker tinha se cansado das caçadas, precisava de algo mais desafiador para sua alma. Algo que pudesse fazĂȘ-lo ir aos limites de sua habilidade. Com RochĂ Thinker conseguiu os passos que desejava: a habilidade de abrir portas para outros lugares e viajar entre os planos era o que ele precisava para retomar o poder que possuĂa antes de abandonar sua divindade e se fazer humano.
Graciete foi um achado em tempos de guerra. Chamavam de âSegunda Grande Guerra Mundialâ, mas Thinker sabia que essa era apenas uma das milhares de guerras que os humanos faziam todos os dias. De fato, resolveu experimentar a real mortalidade lutando com as tropas americanas e, em seu leito de morte viu que ainda poderia ser muito melhor: Graciete possuĂa telesinesia e Thinker nĂŁo podia escolher um corpo melhor do que aquele. Claro o fato de ter passado a maior parte de sua vida humana em um corpo feminino o atraĂa muito para esse tipo de casca; as mulheres tinham uma resistĂȘncia enorme e duravam mais tempo na brevidade de suas vidas.
Valeri Moir foi escolhida por seus poderes, ilusionismo e choque mental, mas tambĂ©m por sua infinita astĂșcia. Era uma mulher divertida, uma ladra excepcional e completamente livre de todas as amarras da sociedade. Ao tocĂĄ-la e transferir toda sua essĂȘncia para ela, Thinker foi obrigado a trancĂĄ-la bem no fundo de sua mente. Ela nĂŁo era uma criatura fĂĄcil de domar, contudo, sua intensidade trazia momentos divertidos para Thinker. De todas as almas, Valeri era a Ășnica que se recusava a sonhar, sempre presa ao eterno loop de pesadelos que ela mesma escolheu.
Richard foi muito mais simples de ser atingido. Seu poder, inteligĂȘncia infinita, fez com que Thinker se aproximasse e tornou a recĂproca verdadeira. Dick passava muito tempo ouvindo as histĂłrias de Thinker/Valeria, queria saber sempre mais, queria entender como o universo funcionava... Era tolo e fĂĄcil de ser apanhado. Thinker o apanhou e o levou da moça que nada esquecia, sem saber que o futuro guardava uma enorme surpresa.
A surpresa se chamava Julian, um grego metido a garanhĂŁo que provavelmente encantaria a moça que nada esquecia com apenas duas palavras. Julian foi a alma que mais se recusou, a alma que mais tempo lutou e que mais tempo manteve Thinker trancado sob a superfĂcie. O poder de Julian era infinito, desde projetar energia mental, atĂ© criar construtos mentais capazes de cortar diamantes. Era capaz de alterar a matĂ©ria e a densidade da matĂ©ria, sĂł porque sua mente era forte demais. Julian venceu a queda de braço por muito tempo, manteve as outras almas trancadas numa caixa pequena demais para os desejos de Thinker. Thinker queria mais e finalmente conseguiu apunhalar Julian, tomando o corpo e a alma para si. Todavia, essa vitĂłria tinha sido dura, cruel... O sabor nĂŁo era o mesmo que o das outras almas. Julian tinha o sabor amargo da derrota; ele mesmo se trancou num dos cantos do castelo mental de Thinker, como se estivesse se retirando para reaparecer em momento oportuno.
Outros inimigos apareceram e Thinker deixou Julian ficar onde ele queria. Tinha que derrotar Cult primeiro. Depois um dos cavaleiros do fim dos tempos apareceu. Tudo estava uma loucura... Qual era mesmo a tarefa dele nesse universo? Multiverso, é verdade. Milhares de universos convergindo em pontos dentro da malha infinita de possibilidades. Qual era sua tarefa? Claro. Manter a estabilidade desse universo em relação aos demais. Evitar que perigos grandiosos demais aplacassem essa terra.
Ao ver Cult e o homem de gelo soube que era por isso que estava ali. Ele devia acabar com as incongruĂȘncias, devia fazer com que a ordem fosse retomada a qualquer custo. Talvez Thinker tivesse acordado cedo demais nesse tempo. NĂŁo sabia ao certo quando suas vontades tinham superado o seu dever, mas isso tinha acontecido em algum momento.
âVocĂȘ nĂŁo vai conseguir fazer isso sozinho.â
Thinker conhecia aquela voz, era Valeri. A ladra que tinha sido roubada e que nĂŁo tinha desistido de retomar o que era seu por direito.
âAgora quer ajudar, Valeri?â
âNunca, mas acho que vocĂȘ arranjou outro tĂŁo problemĂĄtico quanto eu.â Ela apontou para Julian, que se aproximou de seu doppelganger e ajoelhou-se na frente dele.
âSe vocĂȘ estĂĄ planejando fazer isso sozinho, nĂŁo vai poder contar com os nossos poderes.â Julian ameaçou.
âTenho vĂĄrios outros poderes a minha disposição.â
âAlgum deles altera a matĂ©ria? Algum deles faz com que todos se ajoelhem aos seus pĂ©s?â Valeri gargalhou. âEu duvido muito. VocĂȘ nos apanhou porque sabia que iria precisar de nĂłs.â
âQual Ă© o porĂ©m?â
âO porĂ©m? O meu nĂŁo Ă© porĂ©m nenhum. Vencemos e vocĂȘ libera a minha alma. Me cansei de ficar trancada na sua casa de bonecas, Thinker.â
âEu quero meu corpo e minha vida de volta.â
âNĂŁo posso atender o seu pedido, Julian.â
âEntĂŁo nada feito.â Valeri bateu na mesa que tinha feito aparecer entre eles. âPorque vocĂȘ pode atĂ© pensar que eu sou egoĂsta, Thinker, mas nĂŁo conhece nada da minha alma. E por Julian e fico trancada aqui para toda a eternidade.â
âIsso me surpreende.â
âA humanidade te surpreende?â Julian falou, pausadamente, com seu sotaque pesado. âSe nĂłs podemos acreditar em deuses invisĂveis e em mentiras improvĂĄveis, nĂłs tudo podemos. Os verdadeiros deuses somos nĂłs, os humanos. NĂłs surpreendemos, nĂłs mudados. A evolução Ă© isso, Thinker. Seus milĂȘnios nĂŁo lhe ensinaram nada?â
âDe fato. Ainda tenho muito a aprender.â Thinker riu, num tom seco. Esses humanos ainda estavam lutando. Nunca entenderia porque os humanos lutavam tanto, porque perseveravam tanto atĂ© o fim. âEu aceito as suas condiçÔes, assinaremos um contrato de alma, vale mais do que qualquer outra coisa. Ă escrito como um x sobre o coração, uma vez cumpridos os termos, nada poderĂĄ evitar a reparação.â
âJusto.â Valeri fez um x sobre seu coração, ele brilhou em dourado. Julian fez o mesmo e Thinker o seguiu. Estavam acordados e dispostos a se unir ante um inimigo comum.
âLembre-se de nĂłs, Thinker. Somos seus maiores aliados, nĂŁo faça com que nos tornemos seus piores inimigos.â Julian crispou.
Thinker reabriu os olhos para ver Neverbe o observando.
âJulian manda lembranças.â