“A melhor memória que tenho dos meus avós? Uau! Dessa vez vocês me pegaram de surpresa. Geralmente vocês só me perguntam sobre como era ser neta dos “precursores do cinema francês” e blá blá blá. E sinceramente, eu nunca sou muito boa em responder essas, já que eles morreram quando eu tinha dez anos e até essa época eu não ligava muito para fama da minha família. Agora, a melhor lembrança que tenho deles, vocês realmente se sobressaíram, essa é bem difícil de escolher, tenho tantas… Hmm, já sei! Não riam, é bem boba, eu sei, mas sempre me faz sorrir quando eu lembro. Eu tinha uns quatro, cinco anos? Toda a família tinha ido almoçar na casa dos meus avós e ficamos na sala depois. Eu estava deitada no tapete, bem perto da televisão, mudando de um canal para o outro enquanto os adultos conversavam a minha volta. Até que parei num filme preto e branco e antes mesmo que o personagem principal abrisse a boca para soltar sua fala meu avô começou, nas mesmas palavras e entonação que o personagem. Era como se o próprio Louis Bouvier, milionário galinha do filme estivesse na sala. Logo em seguida minha avó começou a recitar as falas da mocinha também e por algum motivo eu achei aquilo mágico. O como ele sabiam as falas que seriam ditas e como eles soavam igual aos personagens. Eu lembro que comecei a gritar “vocês são bruxos, vocês também são bruxos”numa empolgação enquanto meus pais riam da minha inocência de achar que aquilo tinha a ver com magia. Eu demorei um tempinho para aceitar que Gèrard Binoche e Gevaise Binoche dos créditos do filme eram na verdade meus avós, que na época eu conhecia apenas como papy e mamie. Foi realmente muito difícil aceitar que aquelas pessoas, sem rugas nem bengalas, cantando e dançando num filme preto e branco, eram realmente meus avós! Eu não sei se essa realmente serve como melhor lembrança deles, certeza tem melhores, mas com a pressão do tempo e das câmeras foi a primeira coisa que consegui lembrar.”
“Me desculpe se não sou como você, maman. Eu não consigo esquecer. Eu não consigo não ficar tensa ou agir estranho. Eu juro, estou fazendo meu melhor para trata-los como antes, mas é muito difícil. Monsieur e Madame Etoile não voltarão, tão cedo, a serem chamados de papy e mamie, não por mim. Eu sei, eu sei que você acha que eles pareciam arrependidos das proporções que o processo tomou, mas eu não vi isso. Eu tento lembrar de um pingo de remorso transparecendo no rosto de um dos dois em meio ao julgamento e tudo que eu lembro é o mesmo olhar arrogante de ‘estamos fazendo o melhor por ela’ de sempre. Toda vez que penso em perdoa-los aparece em minha mente as feições desesperadas de papa, que tentava seu melhor para manter-se forte, sozinho do outro lado daquele salão escuro e sob ameaça de ser obliviado. Lembro das nossas varinhas em frente a juíza prontas para serem quebradas. Eles realmente achavam que aquilo era uma solução adequada? Obliviarem papa, só porque ele é trouxa, e banir nós duas do mundo mágico, só porque eu decidi abandonar a escola. Porque eu seria um risco na frente das cameras trouxas se não soubesse ‘controlar minha magia direito’. Como se ninguém nunca tivesse abandonado aquela escola antes… E-eu lembro de como eu soluçava em meio aquele maldito voto perpetuo e quando eu olhei para eles, Monsieur Etoile me olhava como se aquilo não fosse nada, como se não fosse uma barganha com a minha vida. Me diz, será se acham que valeu a pena? Tudo isso, só para eu voltar para escola, só para me afastar do mundo trouxa. Tudo isso e eles não perceberam que foram longe demais. Não perceberam que uma vez fora daquela prisão eu farei o máximo para estar no cinema de novo, que todo essa tortura que me fizeram passar não vai ter serventia nenhuma. Mas afinal, os Etoiles podem dizer o que quiserem. Podem se dizer os mais arrependidas do mundo, mas não vou acreditar. Não se preocupe, não vou me afastar deles de vez nem nada ainda somos parentes, não é mesmo? Continuarei indo nos eventos familiares e quando quiserem me encontrar estarei a disposição, mas nunca mais vai ser como antes, nunca mais maman…”