Anne estava confortável no banco de seu carro quando avistou um Starbucks próximo do sinaleiro que estava cruzando. Refletiu bastante sobre demorar um pouco mais para chegar em casa e finalmente abrir o resultado dos exames que havia acabado de pegar por parar e pedir um frapuccino ou encerrar seu desespero o quanto antes finalmente chegando ao hotel no qual seu avô estava hospedado novamente em New York. No final das contas, a morena decidiu que não faria mal algum se distrair um pouco daquele pânico que, secretamente, tomava conta de seu interior. Não queria acreditar de jeito, maneira, que as náuseas que andava sentindo nos últimos dias estavam ligadas à menstruação atrasada e à tontura inconveniente que a acometera nas últimas semanas.
Sendo assim, depois de alguma demora para estacionar, deixou o banco do motorista de seu Ranger Rover e seguiu na direção da lanchonete. O cheiro de café atordoou seus sentidos de uma maneira positiva, enquanto ela esperava na fila. Aguardando, checou suas mensagens no celular e também seus e-mails. Foi inevitável sorrir com algumas palavras recebidas de Evan, como sempre. Não que ele já tivesse presenciado a cena, mas as bochechas de Chariot Anne costumavam corar absurdamente quando Flynn era romântico daquela maneira e tão carinhoso como sempre fora, mesmo quando ela menos merecia. Com os dedos trêmulos como uma adolescente estúpida estaria, respondeu-o e depois checou suas outras redes sociais. A loucura que era seu instagram conseguia assustá-la de tal modo que quando seu aparelho celular começou a vibrar por conta das inúmeras notificações, a aracnídea decidiu deixar a ideia de lado e finalmente pedir seu café.
O frapuccino no maior tamanho possível estava pronto depois de bons dez minutos. Anne sorveu um pouco do líquido gelado e adocicado por conta do caramelo extra e também pediu por um brownie. Quando ele foi guardado em uma pequena sacola, Johnson caminhou de volta para a saída, mantendo sua postura vistosa, magra e realmente invejável, em cima de seus saltos de quinze centímetros. Sempre que caminhava em New York daquela maneira, sentia-se a dona do mundo, ainda que seu sangue fosse britânico e até mesmo sua fala entregasse aquela condição. Sabia que não pertencia aos Estados Unidos de maneira alguma, mas seu ego acreditava englobar todos os continentes e todos os idiomas com seu poder e sua onipresença.
[...]
Um pouco antes das quatro e meia da tarde, Chariot encontrava-se na poltrona ao lado da de seu avô. O Sr. Scott já não era mais tão novo e as rugas em seu rosto entregavam isso. Sua postura já não era mais tão ereta e seus olhos verdes não pareciam mais tão joviais. O cheiro de charuto misturado com perfume de marca e whiskey jamais o deixaria e Anne tinha certa raiva disso até os dias de hoje. Contudo, ela estava realmente concentrada nas palavras do homem ao seu lado, que dizia algo sobre a Inglaterra estar se tornando um lugar cada vez melhor e ela ter de se mudar para lá qualquer dia desses, apenas para comprovar por si própria.
-- Eu não posso, vovô. -- Anne disse categoricamente, com as pernas cruzadas, os exames sobre os joelhos e o canudo entupido de cafeína encostando nos lábios. -- Em New York tenho meus trabalhos como fotógrafa e modelo. Sem contar que ainda tenho planos do Evan vir morar comigo. Alguns contatos meus em Wall Street podem colocá-lo como diretor e isso tornaria efetiva a minha decisão de começar uma história com ele aqui. Eu amo a Inglaterra, amo Oxford e amo a maneira como você faz chá. -- Sorriu de canto, com os olhos brilhando. Sempre que conversava com seu avô, mostrava-se uma mulher doce e carinhosa. Não a víbora como todos a conheciam. -- Mas eu amo ainda mais Evan Daniel Flynn.
O Sr. Scott ficava feliz de ouvir aquilo, para a sorte de Anne. Já havia dito que sabia que a neta realmente amava o rapaz pela maneira como falava dele e como havia sofrido durante as várias brigas falsamente sérias que os dois haviam tido. Era óbvio que ele preferia vê-la feliz e estável ao lado dele, do que separada e agonizando com isso. Sendo assim, ele não se sentia tão incomodado pela filha de criação ter-lhe negado o convite.
-- Como estão as coisas entre vocês?
-- Vão bem. -- Respondeu automaticamente. Anne nunca teria muito o que dizer sobre sua relação com Evan, porque só ela e ele saberiam, de verdade, o quão profunda era aquela coisa que tinham, mesmo que fosse apenas um namoro misturado com noivado e toda aquela possessividade presente nos dois, que poderia dar medo aos mais desavisados. -- Ele anda trabalhando tanto quanto eu. Vem para cá quando dá tempo, assim como eu vou para lá quando posso. Por isso eu disse que estou tentada a negociar com ele que finalmente moremos juntos.
-- Faça isso. Assim ele pode finalmente te pedir em casamento e vocês finalmente podem me dar alguns netos. -- O Sr. Scott riu. Em sua voz rouca, houve algumas tosses, consequências daquele hábito de fumar. Felizmente, nada aparentemente preocupante.
Houve silêncio por parte de Anne, que passou a mordiscar o interno de sua bochecha e sentir sua pressão abaixar um pouco. Interrompeu seu frapuccino e deixou o copo na mesa de centro. Respirou fundo e estendeu o enorme envelope branco sobre o colo do avô.
-- Era sobre isso que eu queria conversar com o senhor.
O homem olhou-a com uma sobrancelha arqueada. Encarou o papel em sua frente e crispou os lábios. Anne sentia seu interior se revirando por imaginar que estava ferindo uma honra e tanto; o Sr. Scott sempre havia se orgulhado do fato de ter tido filhos apenas após o casamento. Por isso, vivera cobrando Chariot para fazer a mesma coisa. Claro que o homem respeitava todas as decisões da neta, mas daí a entender que se ela estivesse realmente grávida, havia sido um acidente, era outra história. Uma bem diferente.
-- Eu fui fazer alguns exames na semana passada... E ontem à noite me avisaram que os resultados estavam prontos. Decidi verificá-los aqui com o senhor. -- Ela explicou, apontando para o envelope branco com o timbre do laboratório no qual havia feito os testes. O Sr. Scott não sabia, mas os médicos encarregados daquela análise pertenciam ao antigo Centro de heróis no qual Anne estivera. Por isso eles não contestaram o sangue coagulado, nem coisa do tipo; apenas alertaram-na sobre as dificuldades que ela enfrentaria por conta disso, se estivesse realmente grávida.
O Sr. Scott passou a ponta da língua pelos lábios. Havia um brilho estranho em seu olhar na hora em que devolveu o envelope à neta. Seus ombros estavam relaxados e, estranhamente, sua voz encontrava-se mais afável do que nunca:
-- Então abra. Quero saber se terei de ligar para a sua avó, pedindo que ela prepare seu enxoval.
Anne sentiu um frio confortável percorrendo sua espinha. Seus ombros se encolheram e todos seus músculos se tensionaram. Não sabia o que esperar daquele resultado; não sabia se estava ansiando por um resultado positivo ou temendo por ele, uma vez que os prós eram tão variados quanto os contras. Sentia-se realmente estranha, como nunca achou que um dia poderia estar. Ainda assim, ocupou-se em abrir o envelope, checar seus dados como nome, sobrenome, idade, tipo sanguíneo e tudo o mais, até chegar aos detalhes. No final do papel, havia algumas considerações acerca de seu estado, cheias de termos médicos que ela desconhecia, mas com os quais não se importou, uma vez que uma única palavra finalizava tudo e era a que mais a interessava:
Positivo.
[...]
Literalmente, Anne sentou e chorou. Passou longas horas abraçada ao avô, choramingando contra a camisa do homem. Havia um misto de felicidade e pânico em si. Havia muito medo de muita coisa e muita alegria por outros detalhes mais. Sentia-se verdadeiramente comovida com aquele resultado, de maneira que sua mente se tornou inquieta a ponto de Chariot não ter condições nem mesmo de guiar o carro, tendo de ser seu avô a fazer isso, para levá-la para sua casa, recomendar a ela um banho, preparar-lhe o jantar e depois colocá-la para dormir.
Entretanto, Anne acordou no meio da noite. Chorou mais um pouco, abraçada com seu travesseiro e, em seguida, com alguns de seus cachorros. A chuva caía lá fora e conseguia ocultar boa parte do choro de Johnson. Viu-se tentada a ligar para o namorado e dar a ele a grande notícia, mas por um estranho motivo, não conseguia deixar de pensar em como Evan estaria se divertindo com vadias por aí e, provavelmente, não a atenderia. Já passava das duas da manhã e ela se sentia péssima por estar pensando naquele tipo de coisa, principalmente porque não conseguia dizer com exatidão por quais diabos estava chorando tão compulsivamente daquela maneira.
Depois de mais algumas horas revirando sobre os lençóis de sua cama, a ex-heroína finalmente tomou alguma coragem e postura diante das informações que havia recebido. Levantou-se, quase arrastando-se ao banheiro e lavou o rosto. Com os olhos inchados, procurou por seu celular. Aproveitou o “caminho” que suas últimas mensagens a Flynn haviam deixado e digitou mais algumas. Eram iguais, mas em plataformas de recebimento de mensagens, diferentes:
“Nós precisamos conversar. Pegue o próximo voo que puder, por favor.”