Chilling Adventures: Zoe Yang
No começo, houve caos: que se dane crianças ocidentais e seus super aniversários de um ano de idade ou não. Zoe Yang podia ter nascido em uma primavera belga, mas era herança de duas famílias coreanas e metidas com asiáticos até o talo, com tias, e principalmente ahjummas dando pitaco em como iam comemorar sua primeira conquista de vida.
Sobreviver, não ser mais uma recém nascida que podia, literalmente, morrer de soluço.
Tinha pouca ou nenhuma noção do que era um doljanchi quando a colocaram em cima de um mini altar, usando um hanbok infantil, e de frente pra três objetos enigmáticos que faziam parte daquele ritual: aquele que ela escolhesse primeiro, ia ditar o caminho que ela provavelmente seguiria no decorrer de sua vida.
O arrependimento? Não terem feito uma festinha com cama elástica, decoração da Patrulha Canina e deixado ela dormir no colo dos parentes enquanto os pais tiravam uma folga, quando ela soltou um espirro colossal — muito, muito alto e violento pra uma criança de seu tamanho — e conseguiu atingir com meleca e saliva tudo a pelo menos um metro na frente dela.
Ela escolheu ser tudo. Era essa sua mensagem pro mundo.
Por ser a caçula, era de se esperar que ela sumisse entre os irmãos, mesmo que fosse até bem alta e desenvolvida entre as outras crianças de cinco anos de idade que ela conhecia e tinha convívio. A verdade é que amava como os pais sempre estavam prontos pra pegar ela no colo, como os avós sempre queriam mimar ela com mais empenho, e como Oli sempre estendia sua mão para ela pegar independente de onde eles estivessem, como o bom irmão mais velho que ele sempre foi.
Era assim que ela sabia desde cedo que podia se apoiar e confiar nele, como gerava bons momentos também, assim como julgar e reprovar Theo quando o mesmo escolhia não descer as escadas de casa de maneira convencional, e que sair escorregando no corrimão enorme era uma ideia melhor.
Só pra descobrir, no final e já todo torto e arrebentado no chão, que não devia nem ter cogitado aquilo se não quisesse a dor de dois dentes quebrados e ainda levar um pontapé da própria irmã caçula.
— Vai, chora, seu chorão. Mas chora baixo, tia Laura tá na sala do lado.
Não era culpa dela se as pessoas pareciam funcionar com dois neurônios dando cabeçada, ela já fazia muito sendo fina e educada até com quem não merecia sua classe e consideração toda. Fossem os vizinhos da rua, pessoas aleatórias que ela via por aí e até seus próprios avós. Tinha limite pra tudo.
— Mas quem é Suny? — Perguntou indignada certa vez, se estressando no momento que Mrs. Kang aponta pra um pôster gigantesco que ela não tem vergonha de ter na sala, daquele grupo de cantoras idosas, antes de apontar o dedo minúsculo pra si mesma. — A senhora queria que eu me chamasse Suny por que ela é sua segunda favorita? Mas Suny nem é um nome! Yuri também não, vovó!
Deus sabia o que fazia, Merlim e Buda também, que não deixaram seus pais fazer moradia em Los Angeles e só a deixavam lá nas férias da escolinha pra aproveitar o sol e seus parentes do outro continente, já que sua família na Bélgica tinha mais privilégios — ou pesadelos — convivendo com os três na maior parte do ano.
Quando os pais apareciam pra buscá-la, cheia de tatuagens de chiclete nos braços, o cabelo naquele corte de franjinha tradicional e queimada de sol, depois de quase morrer de insolação naquela cidade infernal, ela tinha um monte de histórias pra contar.
— A senhora se lembra de Naeun? — Pergunta a mãe, agarrada no colo do pai como um coala, coisa que era comum desde que ela tinha nascido, naquele tom de fofoca típico das Kang. Pronta pra começar seu evento.
— A que… Puxava o cabelo da sua tia Goldie no parquinho ou a que a mãe era dona de lavanderia?
— A primeira. Pois muito bem, descobriu que se casou com um menino e a outra namorada dele. — Dizia do jeitinho que sua avó tinha contado, acenando com a cabeça várias vezes conforme sua mãe ficava chocada. — E ele não avisou ela, e agora estão os três casados. Cada um em um estado.
Mais do que fofoca e fingir que não queria xingar e julgar dez gerações de um indivíduo, ela tinha mesmo unido tudo que podia dos genes de seus pais em si mesma, era boa em tudo que se propunha e trabalhava muito duro pelas coisas que ela queria.
Fosse subir suas faixas no taekwondo super rápido, usar sua cabecinha esperta pra entender como quadribol funcionava e como era importante calcular a água de uma piscina num apartamento bruxo pra não correr o risco de ver o prédio todo desabar no chão, praticar a empatia entendendo as pessoas e seus sentimentos e ser solícita e gentil sempre, porque não se perdia nada sendo uma pessoa boa e consciente naquele mundo.
Era o reflexo perfeito de como era importante ser criado em um lar feliz, com pais atenciosos e que acreditavam em criação positiva, amor e respeito acima de tudo. Quase não dava pra dizer que ela tinha essa veia dramática que a obrigava a chorar horas a fio — sem lágrimas — dizendo que ninguém lhe amava mais. Quase não dava pra dizer que ela se estressava as vezes muito rápido, quando pisava nos pés de pessoas inconvenientes, que faziam perguntas inconvenientes para sua tia sempre que ela usava aquele crachá com cordinha de girassol na rua.
Quase não dava pra dizer que ela usava de seu tamanho e agilidade para remover Hye de seu caminho, quase sempre, a pegando pela gola da blusa e a rebocando pra qualquer espaço longe dela como se fosse uma boneca, só porque ela se movia devagar demais para o gosto de Yang. Uma criatura sem paciência, porque:
— Quando você crescer e eu não tiver que te encarar de cima, a gente conversa, fia.
Ninguém podia dizer que ela não tinha avisado que ia ser assim, desse jeito mesmo. Já tinha anunciado sua mensagem pro mundo, e agora estava a percorrendo por si própria.









