Peguei-me, procurando, revirei todo o quarto, nada mais estava em seu lugar, as almofadas jogadas ao chão o edredom revirado na cama até mesmo o colchão foi tirado do lugar. A procura não tinha fim, lembrei-me das gavetas no fundo do guarda roupa, me sentei no chão respirei bem fundo pensei bem no que iria encontrar ali. O puxador antigo da gaveta tinha um brilho de resina amarelado que revelava sua idade, com um detalhe em vermelho carne que sempre parecia ser uma gota de sangue ali guardada, temi em puxa-lo, mas a necessidade da busca foi maior. O som de antiguidade foi com musica aos meus ouvidos, o ranger da madeira intacta me remeteu lembranças de uma passado não tão distante, ali estava guardado as mais belas, tristes e fortes lembranças de momentos que a muito buscava esquecer, como em um mergulho em águas tranquilas o cheiro do papel velho e as cores desbotas me envolveram por completo, senti a emoção subir forte pelo meu peito, mas não deixei que passasse pela garganta, ainda não estava pronta. Temerosa, revirei aqueles papéis, envelopes amarelados, laços de fitas coloridas embalagem de doces que hoje só me lembravam do fim amargo, senti algo diferente que estava preso no fundo da gaveta, com um pouco de força logo se soltou, era o que mais temia, e o que mais queria encontrar, a ultima carta que me enviou; respirei fundo por um momento fechei os olhos, ainda podia sentir o perfume de uma época tão linda, o cheiro amadeirado do perfume que usava ainda era presente naquele pedaço de papel. O envelope havia adquirido um tom avermelhado a marca da taça suja de vinho tinto na beira do papel e as machas escuras que se tornaram as minhas lagrimas derramadas sobre aquele papel. Me levantei como num impulso puxei tudo que havia sobre a cama e me deitei direto sobre o colchão de molas, com a luz do quarto apagada e usando apenas a claridade do meu pequeno abajur, me lancei de toda covardia e relembrei cada minuto daquele triste dia, o dia em que você partiu...
Vanessa França - Ultima Carta
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