BREVE ANÁLISE DE FERNANDO PAMPLONA SOBRE O CARNAVAL 89
“A FESTA DA SOLIDARIEDADE”
Texto escrito para o jornal O Dia, originalmente publicado em 08 de fevereiro de 1989.
A destaque Sivuca Malta, no centro do abre-alas da Acadêmicos de Santa Cruz
Quanta inépcia, quanta incompetência, quanta desconsideração as otoridades tem. Não sei se da Associação, da Liga, da Riotur ou do raio que o parta. Transformaram o desfile do Grupo II numa disputa interna de acesso ao grupo dos milionários. Foi triste ver os meninos dos Cieps, da Mangueira e do Império do Futuro desfilarem para menos de 100 espectadores. Foi mais triste ver as pobres escolas pobres desfilarem para arquibancadas vazias, com tanto povo do lado de fora querendo ver. Foi um espetáculo lindo, maravilhoso, com sambas de verdade, realizado por sambistas que somente explodiam porque sabiam estar desfilando para juízes importantes. Quatro escolas pelo menos desfilaram com o porte e a galhardia das grandes da “primeira”, a Arrastão de Cascadura, o Paraíso do Tuiuti, Acadêmicos de Santa Cruz e Lins Imperial, e fique imaginando o que seriam estas escolas se tivessem também o tutu das grandes escolas!
Há mais de 10 anos apelamos para as otoridades para liberarem as arquibancadas para o povo no dia do desfile do segundo grupo, ou então, para um controle maior, que se dê 3 mil ingressos para cada escola que desfila e os demais para clubes, associações, blocos, etc. Seria, com certeza, uma festa popular linda! Mas deixa para lá.
De fatos, as grandes (?): a maravilhosa surpresa que foi o Arranco do Engenho de Dentro; maravilhosa e linda, quase perfeita. Cabuçu e Unidos da Ponte bastante boas; Padre Miguel forte, mas sem a unidade visual conquistada por Fernando Pinto; o extraordinário mar azulão da Tradição, que defendeu bem o que de tradicional resta, e com um samba que teve a primeira comunicação com o povão. Apesar de contagiante marchinha, a União da Ilha fez um excelente desfile, lembrou os tempos de Maria Augusta – que bacana!
Caprichosos com o melhor enredo e um excepcional trabalho de Renato Lage mandou uma brasa linda, apesar de carregar, como de costume, uma sofrível marchinha; o Salgueiro não vi, pois estava dentro dele; e a gloriosa mãe Mangueira resistiu à marchinha “boi com abóbora” e foi a Manga de sempre, sem ter alcançado contudo o pique dos últimos anos.
Primeiro setor do desfile da Imperatriz Leopoldinese
Na segunda-feira, uma mistura muito louca de deuses, astrólogos, futurólogos e outros logos que não deixaram adivinhar o futuro do Jacarezinho. Apareceu então a Imperatriz Leopoldinense que, apesar de uma interpretação esdrúxula da história, trouxe o melhor samba dos últimos tempos e fez uma excepcional apresentação, com a escola toda vestida e sem um só nu. Incrível! Mário Monteiro corajosamente historiou a evolução das Artes Plásticas no Brasil e conseguiu transformar obras de pintura em figurinos e carros alegóricos.
Desfile da Beija-Flor de Nilópolis
São Clemente muito mais satírica noutras ocasiões, e Rosa Magalhães dando um banho de beleza no Estácio moderado; depois o heroísmo de Martinho cristalizado, e a Portela, que confundiu a cuca da gente e não matou a charada de quem descobriu o Brasil... Não há o que dizer da Beija-Flor em termos relativos de julgamento estético. Há o que dizer em termos absolutos – solidariedade total. Voltada a normalidade, o Império veio do eternamente querido Jorge Amado, e veio lindo. Como é lindo o Carnaval.
Jornal O Dia, 08 de fevereiro de 1989.
Extraído do site: www.memoriaeba.com.br
* Foto 1: original pertencente ao acervo da destaque Sivuca Malta, enviada por Luiz Augusto.
* Fotos 2 e 3: originais da Revista Manchete, pertencentes ao acervo do amigo Irídio Sérgio.














