Estava sentado na poltrona daquilo que costumava ser o escritório de Abe. Os últimos três meses haviam sido caóticos. Se antes gozava da vida de vadio, agora, sem sombra de dúvidas, se tornara uma das pessoas mais ocupadas da ilha. A morte de Abe passara o título de okaasan para ambas as personalidades (embora, oficialmente, apenas a existência de Yoichi era validada) trouxera todas as responsabilidades que Taeoh nunca quis, o prendendo no lugar que desprezava. O primeiro mês em comando fora difícil: não somente era uma responsabilidade imensa num trabalho importantíssimo como as duas personalidades superavam cada uma suas próprias mágoas e perturbações, aumentando o estresse e deixando ambos num estados de fragilidade. Enquanto o geiko sofria com a morte da okaasan, Taeoh era afetado pelos acontecimentos de semanas antes daquilo. O choque emocional que sofrera com a quase morte de @tci-taro fora o suficiente para abalá-lo por muito tempo. Podia soar bobo mas, para ele, ouvir que uma explosão acontecera e que não havia notícias do estado do kumicho fora como se levasse uma facada no coração. Desespero, medo, varias emoções dominaram seu ser que, mesmo antes daquele incidente, já se encontrava frágil e deveras perturbado. Taeoh nunca fora bom com emoções. Na verdade sentia-se tonto em ter sido tão afetado com o acidente do mais velho, afinal, não era como se fosse realmente um parente ou coisa assim de Nakajima — mesmo que, ao seus olhos, o homem fosse um irmão mais velho e melhor amigo, uma figura que admirava e nutria demasiado carinho, definitivamente sua família mesmo que não houvesse conexão sanguínea. De qualquer maneira, o psíquico cansado e sensível de ambas as personalidades facilitara entrarem em trégua — Taeoh parando novamente com os medicamentos e Yoichi diminuindo seu ego, deixando de ser cuzão. Embora, naturalmente, ainda discordassem em muitos pontos e se odiassem.
Suspirou, bebericando do chá de morango que uma das maikos o trouxera. Chá era seu novo álcool. Outro empecilho durante o primeiro mês de comando fora, ele admitia, sua teimosia e infantilidade. Talvez, alguns dias após todas as coisas ruins terem acontecido, tivesse bebido demais e se metido num confronto que o rendera a cicatriz que exibia na bochecha, dentre algumas outras cá e lá. Se metera com as pessoas erradas e aquelas que conhecia estavam ocupadas demais com as próprias merdas para vir ao seu auxílio; trouxera essa desgraça sobre si próprio, ele sabia. Concluíra que, se quisesse ser alguém que não precisava depender de outros ou simplesmente ser melhor do que era, precisava abandonar seus hábitos destrutivos, seus vícios. Era difícil se controlar para não esmurrar a cara de alguns comerciantes, especialmente os de seda, que apareciam na Okiya. Apesar da aparência comportada, no fundo, ainda era o impulsivo e encrenqueiro, Nam Taeoh. E, mencionando o indômito, colocou as pernas sobre a mesa, deixando a cabeça pender para fora do encosto da cadeira, apreciando o melódico instrumental de outras épocas que ecoava pelo cômodo no minimo volume. Quando ouviu as batidas na porta, permitiu a entrada de quem fosse sem mudar sua postura — Entre.
Após sua súbita aparição pública, onde causou grande choque para os moradores de changshi, no centro da cidade fez questão de ir para seu refúgio além de sua residência particular nas montanhas, onde ficava seu quartel general. Okiya representava um pedaço do Japão para Nakajima, mesmo que também o fazia lembrar de sua falecida mãe aquela que jamais vira o rosto, mas ouvira histórias sobre sua beleza e desaparecimento precoce. O caminhar pelo Hanamichi Abe foi feito calmamente com um Taro admirando toda sua extensão e beleza. Não tinha pressa, afinal estava ali para desfrutar do que aquele lugar sempre lhe proporcionou: bons momentos. As mudanças feitas com Yoichi no poder máximo daquele lugar eram ótimas e Nakajima nunca errava quando acreditava no potencial de alguém. Sempre achou que o rapaz iria trazer um novo momento e brilho para Okiya, embora soubesse ou pelo menos supunha como Taeoh estava lidando com tudo aquilo. De qualquer forma se afeiçoou por ambos e sempre deixou aquilo claro.
Ao chegar no estabelecimento com seus shatei fez questão que sua entrada não fosse avisada com antemão para o novo Otto-san, como Kumicho não só a presença quanto autoridade de Taro era sempre máxima e assim nada foi contestado. Pode ver os olhares de surpresa de algumas gueixas e aprendizes quando vislumbraram sua figura. Trajava vestimentas tradicionais japonesas na tonalidade preta e com as calças em cor vermelhas e a flor bordada nas suas vestes, à flor da Higanbana. Os cabelos estavam maiores por não ter cortado eles desde antes da explosão, mas estavam presos atrás. A mão mecânica mesmo coberta pela manga longa ainda dava sinais com os dedos metálicos aparecendo ao fim do tecido. A espada sempre pregada na cintura, como um aviso que sempre estaria em alerta. Acompanhava uma das garotas até o escritório de Otto-san onde ela com a mão tímida bateu na porta para que fosse aberta no instante que a palavra do rapaz lá dentro pôde ser ouvida. — Olá velho amigo. — Sorriu no momento que o viu. Deu alguns passos para dentro sem esperar qualquer palavra do rapaz e quando ouviu a porta se fechando se pôs mais para perto. — Sentiu minha falta?













