A explicação é tão simples: eles me fizeram crer que eu poderia ter esse amorzinho de cinema, sabe? E tudo isso que ótimas trilhas sonoras fizeram ficar gravado na memória.
Atravessar o país e bater na porta da pessoa amada debaixo da chuva mais torrencial que era possível produzir em estúdio. Viajar para a cidade natal dela só para buscar aquela pequena recordação que proporcionará o reencontro. Correr desesperadamente até o aeroporto e impedir o amor da sua vida de embarcar. Escrever uma carta que levará a outra carta que levará a outra carta que levará ao lugar mais especial que já foram juntos.
E por aí vai, infinitamente.
Iludindo a criança que ainda mora dentro de mim.
Quando eu tinha 13 anos eu escrevi algo assim.
Lembro bem do quanto me dediquei para criar a linda cena do reencontro de Sebastien e Sophie, no alto de uma colina, debaixo de um plátano gigante ao pôr-do-sol. Até a brisa leve bagunçando os cabelos e o cheiro de grama eu descrevi naquelas páginas.
Já se passaram outros 13 anos e eu ainda quero ser Sophie.
Mas eu só estou sozinha, olhando esse belo dia de sol ir morrendo aos poucos lá fora enquanto eu cultivo a inútil esperança de ouvir você bater na minha porta com aquela carinha de menino me convidando para dar uma volta.
Mas eu só estou sozinha, odiando-me por ter esse desejo ridículo dentro de mim. Sem inspiração para escrever bonito. Sem inocência para sonhar mais alto.
Só uma volta, meu coração pede.
Não é nem para atravessar o país, parar aviões, tomar chuvas e subir colinas.
É só uma batida na porta. Uma carinha de menino. E uma volta.
Porque hoje eu acordei sentindo a sua falta como sempre, mas também como nunca antes.
Eu acordei sentindo sua falta e levei sete horas para conseguir sair da cama. E eu só consegui sair porque me motivei a levantar para vestir a camiseta que você esqueceu aqui. Que por uma tragédia do destino não guardou nem um pedacinho do seu cheiro pra mim.
Eu acordei sentindo falta do gosto do café coado e do aroma que ele carregava da cozinha para o restante dos cômodos. E a tv eu nem ligo mais, porque se ligasse seria num desses canais insuportáveis que falam de futebol o dia inteiro. E eu iria ouvir tudinho.
Eu acordei sentido falta de cozinhar para você. Nesse tempo todo eu cozinhei só para mim uma única vez. E ficou horrível. O Antônio não achou, talvez ele tenha ficado feliz. Mas a existência da cozinha não faz sentido algum sem os seus pés para eu ficar tropeçando o tempo todo.
Eu acordei sentindo falta das suas roupas escuras para colocar lavar com as minhas. Faz dois dias que a máquina de lavar está pela metade com algumas peças minhas e eu sem motivação alguma de usar sabão em pó para algo tão insignificante.
Eu acordei sentindo falta do quentinho da tua pele. E da tua cara de sono, e de ver a cor do teu olho mudar assim que eu abro as janelas contrariamente à tua vontade. E eu rolei 360º naquele colchão tentando achar alguma posição que não fosse me recordar o imenso vazio que você deixou. Mas não tem jeito, vou ter que anunciar a cama para a doação e comprar uma rede.
Eu acordei sentindo falta de fazer planos para o final de semana. Contar os trocados para comprar aquele vinho de R$17,95 que a gente ama. E planejar o que vamos almoçar e jantar nas próximas 5 refeições, escrever uma lista de supermercado e esquecer ela em casa. Mas nunca esquecer de pegar um leite condensado e depois me arrepender de não ter pego dois leites condensados.
Eu acordei sentindo falta de fazer perguntas. Se você pudesse escolher entre ser uma fruta e um legume, qual você seria? Digamos que Marte e Júpiter fossem habitáveis, em qual você moraria? Se você fosse obrigado a pintar seu cabelo de colorido, qual cor seria? Não vale responder com não sei, tá?
Eu acordei sentindo falta de te pedir colo. De fazer carinho no teu cabelo. De roubar um gole do seu café. De pedir pra você deixar o cantinho do sofá pra mim. De cantar uma música brega e chiclete que vai ficar por horas na nossa cabeça. De colocar a camiseta que você estava usando no dia anterior só pra ficar pertinho do teu cheiro e ainda assim ouvir você dizendo que ela está fedida. De escolher um seriado pra assistir 5 episódios um atrás do outro com pausa para fazer mais uma panela de docinho e te encher de beijos e de perguntas e de cabelos compridos na sua boca que você sempre tem que colocar pro lado. De sorrir pra você daquele jeitinho que você decifra em um milésimo de segundo. E de ver você sorrindo de volta pra mim antes de me puxar pra perto do teu corpo.
Eu acordei sentindo falta da vida. Da nossa. Aquela bagunçada, difícil, atormentada, cheia de problemas que também era leve, divertida, quentinha e gostosa demais de viver.
Eu acordei sentindo falta de quando eu não sonhava em te pedir pra voltar, porque você já estava aqui. E eu sentia que estava exatamente onde deveria estar.
Eu sinto a sua falta. E eu voltei a escrever só pra dizer isso, mesmo sabendo que você não vai ler. Porque eu acho que o universo devolve tudo o que a gente dá. E se eu dou a ele minhas palavras sem métrica, sem rima, sem poesia ele me devolve a minha vidinha sem métrica, sem rima, sem poesia que ainda assim era minha e eu quero demais ela de volta.
Então tó, tá aí universo. Pega esse amontoado de saudades e dá teu jeito.
Eu queria nunca ter te conhecido. Eu queria nunca ter sentido teu cheiro, nunca ter dormido no teu abraço, nunca ter adivinhado a cor do teu olho quando você sorri. Eu queria nunca ter sentido teus lábios no meu pescoço, nunca ter tido teus dedos entre meus cabelos, nunca ter ouvido você dizer que eu era o teu sonho mais bonito. Eu queria nunca ter dividido a cozinha com você, nunca ter cozinhado enquanto a gente falava sobre política, nunca ter iniciado um seriado no nosso sofá, nunca ter deixado você entrar pra morar de mim. Eu queria nunca ter te amado. Não assim. Não com tanta força. Não com tanta alma. Não com tudo de mim. Eu queria nunca ter deixado você me fazer sorrir. Só pra depois eu morrer de saudades de como é se sentir inteiro. Vivo. Novo. Livre. Eu queria nunca ter deixado você me fazer sofrer. Só pra depois eu morrer de medo de como é se sentir perdido. Sozinho. Traído. Podre. Eu queria nunca ter deixado você me tocar. Na pele e na alma. Ter me rasgado a roupa e a dignidade. Ter me jogado na cama e no lixo. Ter me amado tanto e tão pouco ao mesmo tempo. Eu queria nunca ter te conhecido. Nunca ter permitido que meu coração migrasse pras tuas mãos descuidadas. Nunca ter permitido que meu sonho passasse a ser viver o eterno com você. Eu queria nunca ter te conhecido. Porque eu não sei o que fazer com o amor que você despertou em mim e não soube cuidar. Porque eu não sei o que fazer com a vida que eu planejei sem você ter a intenção de ficar. Eu queria nunca ter te conhecido. Porque você nunca me ensinou a ter esquecer.
Hear the sirens, hear the sirens
Hear the sirens, hear the circus so profound
I hear the sirens more and more in this here town
Let me catch my breath to breathe
Then reach across the bend
Just to know we're safe
I am a grateful man
The slightest bit of light
And I can see you clear
Embacei o vidro da janela com minha quente respiração enquanto tentava conversar com a chuva lá fora. Fitei o céu cinza e me imaginei encontrando a localização de Deus naquele infinito nublado. Fiz uma centena de promessas, captando todo o meu entorno e salpicando na língua meus desejos. Ele também sabia que eu haveria de me virar do avesso para cumprir todas elas, mas eu respondi que Ele não iria se arrepender se me desse só mais uma chance. “Nunca é só mais uma, minha menininha” – Eu ouvi Ele falar. “Dessa vez vai ser, o Senhor vai ver! E se eu não fizer por merecer, tire-me tudo de uma vez.”
Eu sei que Ele sorriu para mim, eu O senti sorrindo dentro de mim. E como um pai que cede ao filho mais um doce, Ele me cedeu o pedido feito em meio a dois litros de lágrimas.
Have to take your hand, and feel your breath
For fear this someday will be over
I pull you close, so much to lose
Knowing that nothing lasts forever
I didn't care, before you were here
I danced in laughter with the everafter
But all things change, let this remain
Quando finalmente deitei sobre seu corpo morno, meu coração como um ímã buscou o seu. Nossas batidas eram sincrônicas, mas havia um desejo iminente a se realizar. Minha boca quente encontrou seus pés gelados para que eu começasse a escalada de beijos pelo teu corpo. Cada um deles caía sobre tua pele como as gotas caíam com minhas promessas. E como se o mundo fosse acabar em instantes, a gente permitiu que o sonho falasse mais alto enquanto nossos corpos se uniam em uma profusão de sensações.
Você adormecia ao meu lado, soprando hálito quente em meu peito nu. Eu perguntava a mim mesma se haveria uma maneira de criar um compartimento especial na memória para guardar folheados a ouro esses momentos que tanto desejei. Minha mente afastou o sono por completo, e durante horas eu acariciei cada centímetro do seu corpo que estava ao alcance de minha mão livre.
Pela janela entrava uma luminosidade fria que desenhava o contorno do seu corpo enquanto seu inconsciente deslizava pelos sonhos. Juntamente com a luz esverdeada eu te desenhava com a ponta de meus dedos. E eu não me permitia dormir enquanto gravava em minhas polpas digitais cada detalhe do teu rosto, cada mecha de cabelo, cada dobrinha do seu lóbulo.
Quando pesava sua respiração, cobria-te de beijos e os enviava para afastar qualquer possibilidade de pesadelo. Meu corpo doía por manter a posição, mas eu não desistia de te tocar, de sentir como sua pele exala o único aroma capaz de acender a vida em mim.
Lembro que o dia já clareava quando cedi ao peso das pálpebras e acomodei meu corpo para adormecer. Logo, você também acomodou o seu, de costas para mim, mas eu mal pude me mover, tomada pelo cansaço.
Acordei logo depois, como se despertada pelos anjos que regiam nossa orquestra noturna. Colei em tuas costas e a decorei de beijos, pois sono nenhum me impediria de saborear cada segundo de nossa despedida.
Você despertava e adormecia em intervalos espaçados. Eu desisti do despertador, pois não queria ter de despertar do sonho mais belo que já tive estando acordada.
Minha mente viajava para longe quando seu celular notificava alguma interação. Eu me perguntava se um dia seria capaz de entender como sua mente funciona quando nos separamos. Como você remodela seus circuitos cerebrais para conversar com outra garota, tocar outra garota. Eu me perguntava como seus receptores táteis se adaptavam a outro corpo, a outra cama. Porém, como se o céu nublado lá fora voltasse a revelar Deus, eu ouvi aqui dentro Sua voz dizendo que essa não deveria ser uma indagação minha. Eu não tinha o direito e nem o poder de questionar o seu interior, apenas ceder amor, carinho e compreensão para que você próprio possa definir suas bases, elencar suas prioridades, reorganizar seus objetivos. Eu só poderia ofereceu o calor do meu corpo para você se lembrar onde fica sua casa. Eu só poderia emprestar meus ouvidos para quando você precisasse desabafar sobre seus dias de angústia e com isso se livrasse de tudo o que te intoxica e macula seu coração puro. Eu só poderia ser o canal por onde você mesmo encontra a saída.
E se a saída estiver na despedida, então eu vou te banhar novamente em lágrimas, mas também em carinho. Por desejar mais que tudo que você não se perca, que você não volte a apreciar o gosto do efêmero em troca de um agrado para o corpo. Você já esteve tão perto do céu enquanto se enrolava nas cobertas no sofá e acariciava nossa bolinha de pelos...
Eu sei que deve ser possível que você volte a se empolgar com a vida. Que você volte a sair da cama antes das oito para fazer o dia render. Que você volte a sentir orgulho de si próprio. Que você volte a superar as enchentes.
Pela manhã, logo após eu tentar parar o tempo com minhas lágrimas, pusemos nossos corpos em um contato tão profundo e tão intenso e tão mágico e tão ardente e tão sublime que eu tive a certeza de estar experimentando uma realidade paralela onde todos os problemas desapareciam como as gotas que escorriam pela janela rumo ao desconhecido. E eu me senti plena. E me senti amando da forma mais completa que se pode amar.
Se você quiser, eu vou estar ao seu lado para te desenhar na luz dos meus olhos todos os dias. E te guiar para fora desse poço escuro que nos metemos.
Se você quiser.
Se Deus quiser.
Se Deus quiser, você vai querer.
For every choice, mistake I've made, It's not my plan
Or to send you in the arms of another man
And if you choose to stay, I'll wait, I'll understand
Oh, it's a fragile thing, this life we lead
If I think too much, I can't get over
Whelmed by the grace
By which we live our lives
With death over our shoulders
Want you to know, that should I go
I always loved you, held you high above, true
I study your face, and the fear goes away
E então que você precisa se sentir vivo.
O sangue já estava quase estático em suas veias, fazendo os dias passarem lentamente como fardos que pesavam toneladas em suas costas.
Não era nada disso que você tinha planejado, não é? As coisas eram muito mais fáceis quando você passava a vida no crédito.
E se sentir vivo tem um preço um tanto quanto caro. Não é dentro do 107 que isso iria acontecer.
A música precisava estar alta. O álcool precisava entrar sem filtro. As drogas precisavam enebriar seus sentidos, fazendo essa realidade parecer uma tolice distante.
E você precisava conversar. E falar a todos que dessa vez foi pra valer.
E se sentir vivo é derrubar todas as placas de limite. É levá-la para casa dela e tocar seu corpo com urgência, observar a expressão de desejo quando ela vê seu membro ereto como nunca. É dar beijos tão fortes que quase machucam e tapas que deixarão marcas por três dias. É colocá-la de quatro e sentir que domina seu corpo enquanto o ecstasy satura todos os seus receptores de prazer.
Você gosta de ouvi-la gemer. O suor escorre do seu corpo para o dela e você não interrompe o movimento. Você quer vê-la gozar. Sentir-se homem por dá-la tanto prazer e por tanto tempo, já que sua ejaculação está presa nas substâncias que ingeriu.
Ela geme. Você mete com mais força.
Está se sentindo vivo agora?
Está sentindo o sangue correr depressa, bombeado por esse coração outrora dormente?
É melhor estar. Porque o sexo vai acabar quando ela fingir o terceiro orgasmo. Ela está cansada e se perguntando por que você não gozava nunca. Era melhor fingir. Ela já vai fechando os olhos e você não sabe bem como posicionar seu corpo para se entregar ao sono. Mas dorme, quase acordado, sentindo seus órgãos se revirarem por dentro.
E então você vai vestir as roupas com cheiro de álcool e cigarro, vai deixá-la com um beijo desconcertado, desejando um teletransporte para a sua cama.
Ela disse “a gente se fala”. Você liga o carro e conta os minutos para sentir a maciez do seu travesseiro colando em seu rosto.
Está se sentindo vivo agora?
E você vai dormir e desejar que o domingo se transforme em sexta-feira novamente para curar toda a ressaca e toda dor que você ainda mantém em si.
É bom se sentir vivo, não?
Enquanto a chuva cai lá fora e sua cama bagunçada tem espaço para seu corpo se espalhar na solidão.
E sua vida bagunçada tem espaço para se espalhar sem ter que dar satisfação.
E sua alma bagunçada solta um suspiro baixinho: está se sentindo vivo agora?
Você deixou aqui sua camiseta de dormir. Aquela azul, lembra? Pois é. Eu cometi o erro de buscar teu cheiro nela, porque lá eu o encontrei. E você sabe, os receptores olfatórios estão diretamente ligados à área cerebral que contém nossa memória. Então eu lembrei. Eu lembrei de cada noite em que me senti em casa tocando o teu corpo. De cada dia ruim que se desfez com um beijo seu em minha testa. De cada manhã preguiçosa que implorei por mais 5 minutos em teus braços. De cada refeição acabada que eu pedia para sentar em seu colo. De cada episódio de série que falávamos que seria o último e nos ajeitávamos no sofá pra assistir. De cada pacote de pipoca e cada barra de chocolate que compartilhamos. De cada noite que você falava que eu deveria levantar primeiro para ir pro banho. De cada vez que te dei banho e de cada penteado que fiz em teu cabelo com a espuma do shampoo. De cada dia de chuva que você me ofereceu uma carona e de cada dia de sol também. De cada vez que tua mão tocou minha cintura e me puxou pra perto. De cada adormecer gostoso que vivi sentindo seu carinho em minha nuca. De cada ida ao mercado que falava pra você comprar o que tivesse na sua consciência, implorando por pacotes de bolacha e chocolates. De cada café que você nos serviu. De cada louça que você lavou enquanto eu fazia a janta. De cada beijo que você me deu antes de sair. De cada pesadelo que eu apaguei nos teus braços no meio da madrugada. De cada conversa interminável nas nossas noites loucas. De cada sorriso quando eu falava uma bobagem aleatória. De cada vez que você fez minha alma atingir outra dimensão. Sinto o cheiro e não consigo conter as lágrimas. Me vem na cabeça imediatamente o dia em que ficamos deitados na cama, olhando para o teto enquanto você me contava sobre sua infância. E você falava que apanhou na escola, e que roubou goiaba, e que beijou uma menina com um gosto tão ruim... E eu ia desenhando as cenas em minha mente e te amando mais a cada palavra. Eu ia absorvendo sua história como quem a deseja guardar para sempre. Eu te amo. Eu amo cada centímetro do teu corpo. Eu amo cada nuance da tua voz. Eu amo cada pêlo que nasce no teu peito. Eu amo cada cílio que cai dos teus olhos. Eu amo cada verso de música que você inventa. Eu amo cada movimento que você faz para trocar a marcha do carro. Eu amo cada palavra que você fala com sotaque. Eu amo cada respiração que você toma antes de dizer qualquer coisa. Eu amo cada batida do seu coração que eu ouço quando deito em teu peito. Eu amo cada dia da sua vida como se fosse um presente que Deus concedeu a mim. Mas agora você deve estar se perguntando onde é que estava esse amor todo quando fiz dos seus dias um mar de cobranças? Onde estava esse amor quando você queria apenas sossego? Onde estava esse amor quando você só queria compreensão? E não contenho as lágrimas, que caem aos baldes, ao dizer que estava aqui. Eu só não soube demonstrar. E vou viver eternamente com o gosto amargo da dor de não ter te dado todo esse amor quando você mais precisou. Se eu pudesse colher um cílio teu agora, meu pedido seria simples: "por favor, me dê apenas mais um dia com você."
Por que eu não pude realmente internalizar minhas próprias palavras e fazer delas meu mantra diário? Por que eu deixei o cotidiano me afogar e meus membros se amortecerem sem que todos os abraços que desejei dar fossem dados? Por que eu não soube deixar de ser tão egoísta? Por que eu não fui capaz de agarrar a última oportunidade que tivemos para consertar as coisas?
Na carta eu falo sobre A Descoberta, um filme que assisti ontem enquanto tentava esquecer que estava sozinha no sofá que antes abrigava nós dois e todo o nosso amor. E, mesmo agora, em que esbravejo de raiva com todos os meus por quês, aquela história tão maluca e envolvente vem para aliviar minha dor.
E se for possível repetir várias e várias vezes a mesma cena até que finalmente pudéssemos acertar? E se for possível tentar quantas vezes nosso corpo nos permitisse? E se for possível sonhar com uma versão melhor de nós mesmos? E dar essa versão de presente a quem nos presenteou com o mundo?
Gosto de ouvir músicas em meu fone para deixar as lágrimas caírem nos trechos mais dolorosos de cada canção que cuidadosamente escolhi. Mas temo não ouvir a campainha.
Meu coração dispara cada vez que o Antônio corre em direção à porta. E minto para mim mesma que já sabia que não era você.
Tento escrever algo novo, tento depositar em palavras novas emoções. Mas ainda estou presa no texto anterior. Meu ser está plenamente submerso no sonho que criei para suportar o dia de hoje.
Quero ser realista, mas ainda guardo na boca o sabor da imagem que inventei. Nós dois começando uma história inteiramente nova com o amor imenso de sempre. Eu tatuaria em meu pulso esquerdo a palavra “hoje” e ela me lembraria da lição mais importante que já me ensinei: tem que ser hoje.
Por que eu fui esquecer?
Por que eu não disse todos os “eu te amo” que quis dizer? Por que eu não falei “eu sei que a sua dor é mais importante que a minha, então eu vou ficar aqui em pé por você”? Por que eu não te acolhi em meu colo sem pedir nada em troca? Por que eu não abri mão de meus desejos pequenos para não desgastar um amor tão lindo? Por que eu só percebo tudo isso quando já é tarde demais? Por que eu fico sonhando com a tua volta se para a tua presença eu não dava o devido valor?
Talvez meu último fiapo de sanidade realmente tenha ido embora com tantos questionamentos que me arrancam as vísceras.
Parece que tudo já foi dito. Que gastei todas as minhas palavras nos textos antigos e agora só restou uma menina em frangalhos tentando sobreviver a maior dor que já sentiu.
Eu não te pediria para voltar. Como eu poderia pedir? Se o fato de eu saber que erro não me impede de errar de novo. Se a casa continua a mesma. E os móveis continuam os mesmos. E eu ainda odeio lavar louça. E não aprendi a cozinhar nenhum prato novo. E não saí de minha zona de conforto para dar tudo o que sonhei em dar enquanto ainda havia tempo.
Eu não te pediria para voltar. Mas esse é o único desejo que habita meu coração.
Eu não te prometeria nada para o futuro, eu sei que falharia de novo.
Mas eu entendi. Só agora que os minutos se arrastam eu entendi. Só agora que o relógio mal se move eu entendi. NÓS TEMOS O HOJE.
Eu te prometeria o hoje.
E daria meu hoje como se fosse o último possível de se viver.
Porque, meu bem, se tem uma coisa que esses vai-e-vens me ensinaram é que uma hora vai, sim, ser o último.
E nele eu quero ter te dado uma centena de abraços apertados. E quero ter falado milhares de vezes o quanto teus olhos quase verdes ficam mais belos quando você sorri. E quero ter beijado cada centímetro do teu corpo. E quero ter me enrolado em cada fio do teu cabelo. E quero sentir cada gota quente que cair em nosso banho. E quero fechar os olhos enquanto você fala só para gravar o tom de sua voz mais uma vez em minha memória. E quero cheirar teu pescoço até sugar todo ar do quarto. E quero me envolver em teus braços e dizer boa noite pensando não no amanhã, mas tendo a certeza que hoje eu vivi o máximo do amor mais lindo que Deus já desenhou.
Eu escrevi uma carta de despedida e a depositei em cima da pilha que suas coisas fizeram no canto do meu quarto.
Dobrar as roupas que carregavam seu cheiro e amontoá-las em sacolas foi a tarefa mais difícil que Deus já me concedeu, mesmo que eu a tivesse feito outras vezes.
A gente colocou esse filme no repeat algumas vezes, não é mesmo? Uma briga, seus pertences descendo o elevador e o gosto de fim onde era meio que ficava em cada mobília. E então você voltava para se banhar em minhas lágrimas e saborear o mel que escorria de meus lábios por não conter a felicidade de voltar nossa fita para o início.
Mas eu nunca escrevi uma carta de despedida. Eu achava que os fins seriam fins, porém com um recomeço logo depois da esquina, logo depois da primeira saudade. Para que eu faria uma carta de despedida para esses fins?
O fim de hoje, nesse dia de tempestade que veio lavar e levar minha alma, teve uma garota sentada sobre todos os seus sonhos cuidando para que nenhuma gota salgada manchasse a folha em que escrevia algumas verdades nunca antes ditas.
Eu gostaria que você lesse essa carta. Eu gostaria que você a tivesse nas mãos como um dia me teve e a entendesse como um dia me entendeu. Sem que nada, absolutamente nada mais precisasse ser dito enquanto meu corpo se entregava aos teus braços.
Por que eu te escrevi uma carta de despedida? Bom, nela você iria encontrar algo sobre duas descobertas. E, com uma delas, nenhuma continuação é possível. Não existem mais formas de manter esse filme rodando após eu ter finalmente admitido em quais bases construí nossa relação.
Mas e a outra? A outra, que tange a fantasia, é uma desconcertante forma de mostrar que meu jeito de menina sonhadora vai morrer comigo. E eu não pediria jamais para que você compreendesse, pois há coisas nessa vida que não perpassam pelas garras da razão. E são essas, meu bem, as que eu mais adoro sentir.
Imaginar que em um universo paralelo você também encerraria esse ciclo. Sem dó. Mas viria abaixo de chuva para começar uma história nova, disposto a beber um gole de sonho no meu cálice de inconsequência. E você subiria o elevador ensopando os corredores e me daria um beijo como jamais deu, entraria em meu peito que refiz novo para você e nele se apossaria de cada aposento. E diria que vamos fugir. Pegaríamos o carro sem rumo e dormiríamos na primeira pousada simplória que encontrássemos no caminho. Eu, você, um vinho e nosso bebê que esconderíamos entre as malas para não ser descoberto pelos donos da pousada.
Ficaríamos bêbados e conversaríamos a madrugada toda sobre como nossas palavras não expressam a dimensão de nossos interiores. E eu deitaria mais uma vez em teu peito, como se fosse a primeira página de um virgem livro que começo a escrever.
O amanhã não nos importaria, porque a vida não foi feita de amanhãs.
Essa realidade paralela arranca meu último fiapo de sanidade.
Fecho os olhos e cubro-me com a memória de teus beijos, pois a única paz que posso encontrar é me enamorando com os doces sonhos que ainda me permito sonhar.
Talvez Deus esteja realmente olhando para mim. Talvez Ele tenha me feito com esse coração de conto de fadas para que o mundo não fosse um lugar tão duro e cruel de se viver.
Meu bem, empreste a sua imagem para meus sonhos apenas por mais alguns instantes. Deixe-me leva-la para a pousada simplória e acender um fogo na lareira ao lado do que restou do seu cheiro em minhas roupas. E eu adormecerei desejando não mais acordar. E eu saberei que, em algum lugar, valeu a pena tentar.
Como quem atravessa a rua, olhei para ambos os lados de minha vida. Um imenso deserto me cercava, dando-me infinitas direções para seguir que não dariam, enfim, em lugar nenhum.
Paralisada, só era capaz de olhar para tudo o que havia perdido no caminho até aqui.
Provavelmente, perdi tudo o que tinha até perder a mim mesma.
Eu e o meu deserto de desesperança.
Eu havia sonhado com um romance perfeito, um roteiro de filme hollywoodiano que encanta pela mediocridade dos acontecimentos. A moça conhece o rapaz de seus sonhos e eles enfrentam muitos percalços até chegarem ao final romântico que faz as lágrimas caírem e os letreiros subirem. Eu seria protagonista, heroína da história que resgata o amado de um mar confusão e a ele apresenta um paraíso regado somente a amor. Não havia lacunas nessa história. O “felizes para sempre” era inevitável.
Mas, como haveria de ser na vida real, não pude ser nenhuma heroína. Despejei-me inteira para um amor que me inundou de prazeres e me envenenou com decepções. Lentamente, fui esgotando meus recursos para recuperar o roteiro original. Faltaram os tapetes para debaixo deles varrer meus sentimentos.
Acreditei que todo e qualquer sentimento negativo faria rasurar na história, então eu tentei desesperadamente abafar os suplícios de meu coração machucado. Era meu dever voltar a confiar. Era meu dever ser otimista. Era meu dever dar todo meu amor. Era meu dever agir como se o passado fosse passível de se apagar.
A todo instante, eu só queria seguir o que havia previsto para esse amor. Porém, enfraquecida pelo cansaço, fui deixando pelo caminho a minha energia vital.
Alimentava-me de contato.
Necessitava dele como se fosse um aparelho ligado a uma tomada. Sem ele, era incapaz de funcionar. Eu precisava da proximidade para que não me fugisse aos olhos, para que não tivesse nenhuma chance de cometer novamente um erro que mudaria o rumo da história pela centésima vez.
Perto, eu sentia que podia controlar e canalizar tudo para onde eu gostaria de rumar: o “felizes para sempre”.
A cada quebra de confiança, um pedaço de mim ficava perdido no chão. Despedacei-me para manter viva a ideia de concretizar o sonho. Porém, agora que entreguei os pontos, vejo-me sem nada. Sem roteiro, sem rumo.
Entreguei tudo o que tinha. E vi-me sem nada. Eu e meu deserto.
Minha luzinha verde-amendoada está enfraquecida. Gradativamente se apagando. E eu me apagando com ela.
Ei, você aí que sente amor por alguém. Vou falar de um assunto manjado, mas dessa vez peço que preste atenção. É importante.
Costumamos passar nossos dias sem ter real consciência da nossa finitude como pessoas. Vivemos como se fôssemos imortais, ainda que não acreditemos que seja possível. Estamos projetados para não tomar a dimensão de nossa existência e acabamos por acreditar que ela sempre se estenderá a ponto de conseguirmos resolver nossas pendências no tempo que nos agradar. E, consequentemente, estamos sempre deixando tudo para depois.
O meu pedido é que não deixe para depois. Isso custa um assassinato. Você vai precisar mirar no seu orgulho e atirar sem dó. Assim, vai estar preparado para ligar pedindo perdão mesmo que ainda esteja magoado. Vai dar aquele abraço apertado mesmo que há pouco tenha havido uma briga. Vai dizer “estou indo”, mesmo que esteja com preguiça de sair da cama. Vai sorrir mesmo quando nem tudo deu certo. Vai agradecer pela oportunidade de ter tudo aquilo que já conquistou, mesmo achando que você merecia ainda muito mais. Vai passar a abrir o presente e não somente deixá-lo passar.
O meu pedido é para que não deixe de realizar cada vontade de estar com quem ama e demonstrar esse amor. Não seja tão rígido consigo e com os outros. Se tiver vontade de beijar, beije. Se tiver vontade de pegar o carro às cinco horas da manhã para fazer uma visita surpresa, pegue. Se tiver vontade de falar o quanto faz bem para você estar na presença dessa pessoa, fale. Não engula palavras, não deixe morrer belas ações simplesmente porque você acredita que o próximo passo tem que ser dado pelo outro. O próximo passo tem que ser dado a qualquer instante, pois é preciso se manter na caminhada de construir uma relação de cumplicidade e respeito mútuos. Não espere.
O meu pedido é para que você faça o exercício de dizer-se todos os dias “eu sou mortal e minha existência pode acabar a qualquer instante”. Automaticamente você estará disposto a olhar tudo com novos olhos e não postergar aquilo que é realmente importante. Você vai seguir seus ímpetos de ser o melhor que pode ser, dar o maior amor que pode dar, esgotar todas as chances antes de se dar por vencido. Você vai andar sob a chuva, atravessar a cidade e bater na porta de seu amor só para dizer aquelas três palavras olhando-no nos olhos. Você vai transformar sua existência em algo profundo, único, intenso. Vai amar-se por dar tanto amor.
O meu pedido é que faça isso agora. Porque, eu falo sério, amanhã pode ser tarde demais. E vão morrer nos seus lábios todos os beijos não dados, vão morrer nos seus braços todos os abraços negados, vão morrer na sua alma todas as palavras não ditas.
“A vida é um sopro”, eu lhe disse enquanto a luz do sol lutava para adentrar meu quarto pelas janelas fechadas.
“Eu sei”, ele respondeu.
Ele não estava comigo, mas pude sentir que somente meu coração batia descompassado, que somente minha visão estava embaçada por lágrimas. Eu podia captar, do outro lado da cidade, que para ele já não importava mais a vida ser realmente um sopro. Ele sempre entendeu muito melhor do que eu que as coisas são finitas.
Naquele momento, enterrei-me em mim. Durante 24 horas, cultivei um silêncio exterior que só deu mais voz para as dores de dentro. Cada pensamento era uma súplica. De lábios cerrados, eu rezava uma oração pedindo para que ele voltasse a se importar.
Funcionou bem pouquinho. Estou destreinada em matéria de oração. Ou Deus cansou de atender meus pedidos.
Então, contrariando meus próprios desejos, eu decidi que daria a volta por cima. Eu levantaria a cabeça e faria tudo isso valer a pena sem olhar para trás.
Pensei pouco e fiz muito. Não derrubei nenhuma lágrima. E a cada nova pequena conquista eu me agradeci por estar tentando fazer a escalada sozinha.
Mas, sabe, é tudo tão irreal. Sinto como se estivesse andando a dois centímetros do chão. Sei que estou dando passos, mas eles não tocam a superfície. Vagam por aí sem que eu possa de fato sentir o peso de minhas próprias escolhas.
A única coisa realmente palpável é a saudade. Posso lidar com a tristeza, posso dar cabo no pessimismo, mas a saudade se impõe a despeito de minha decisão de ficar bem. E eu passo os dias a sentir falta. De tudo. Até da forma como minha respiração fica suave em sua presença.
Eu sinto saudade de tocá-lo. Sentir como sua pele parece sempre mais quente que a minha, convidando-me para mais perto. Abandonar meu corpo em seus braços é o impulso natural que vem de dentro do meu ser.
Eu sinto saudade de ouvi-lo. Perceber como sua voz flutua em diferentes tonalidades conforme seus pensamentos fluem. Fechar os olhos e sentir que cada palavra é uma nota que ressoa minha melodia favorita.
Eu sinto saudade de observá-lo. Notar como sempre morde o canto da boca quando está concentrado, como passa os dedos entre os fios de cabelo para realinhá-los, como balança o pé em intervalos espaçados quando cruza as pernas. Perceber cada detalhe de seus movimentos como quem assiste a um filme com a mais bela fotografia.
Eu sinto saudade de tê-lo. Ao meu lado, nas noites escuras. Sentir que seu corpo repousa próximo ao meu, aquecendo minha cama e minha existência por completo. E em todos os outros instantes em que meu peito se enche de ar, eu sinto falta de senti-lo perto.
Eu sinto saudade de ser quem sou para ele. E eu só percebo isso ao notar que, a primeira vez que chorei, foi de felicidade. Derramei todas as minhas lágrimas contidas ao saber que ele havia conquistado algo que desejou muito.
Chorei porque ele merecia essa vitória. Mas, logo, chorava porque não podia abraçá-lo, parabenizá-lo, e lhe dizer que eu estava plenamente feliz por ele.
Nesse momento, entre lágrimas e sorrisos, eu percebi: eu posso alcançar o topo de tudo o que me dispuser a fazer, mas só serei a melhor versão de mim enquanto puder ser-me para ele.
Durante dois anos, depositei aqui melancolias. Despejei pelos dedos todas as lágrimas que dos olhos não podiam mais cair.
Eu precisava falar. Falar para que a dor se transformasse em poder. Para que o sentimento reunisse energia o suficiente até que fosse capaz de modificar a realidade.
Durante dois anos, depositei aqui esperanças. Eu sabia que não escreveria para o fim, mas para um recomeço. Eu nunca verdadeiramente achei que fosse o fim.
Até agora.
No fundo, parte de mim implora para que eu não desista. Não agora. Porém, hei de ser realista: todas as coisas têm fim.
Quando gravei em mim a frase “isso também vai passar”, eu ainda não o conhecia. Ao sentir amor por ele pela primeira vez, e pela primeira vez na vida, quis arrancar a pele do antebraço. Esse amor não tinha o direito de passar.
A cada momento de felicidade, queimavam as letras que me diziam para viver aquilo intensamente, pois um dia passaria, assim como todas as coisas passam.
Teimoso, meu coração se negava a acreditar que veríamos, um dia, nossas almas apartando-se. Seria como uma dessas histórias que viram filme. Iríamos permanecer para sempre juntos. Somente o tempo passaria.
Durante dois anos, quatro meses e vinte e nove dias eu vivi somente por ele. Era como se estivesse mapeado em meu organismo o ímpeto de doar-me inteira para fazer-me completa em seu abraço. Não hesitei, por momento algum, em embrulhar minha vida e dar-lhe de presente. E, em troca, recebi a mais intensa sensação de felicidade que se pode sentir. Nem Freud explicaria como o meu íntimo foi capaz de experimentar tamanho júbilo.
Eu era invencível.
Vieram as mentiras, as desilusões, as dores (as maiores que já senti), mas não veio o desejo de dele me afastar. Pelas minhas veias escorria o sangue purificado com a vontade de envelhecer ao lado dele. Ver por mais oitenta anos como a cor dos olhos dele muda a cada dia.
Nem a dor, nem a humilhação, nem o medo, nem as lembranças, nem os pesadelos noturnos me fariam soltar sua mão, pois estávamos atrelados a algo muito maior que o plano físico. Estávamos conectados como se a nossa matéria fosse poeira da mesma estrela. Milhões e milhões de anos aguardando pelo reencontro.
Nós éramos invencíveis.
O sol que aquecia minha pele gelada no primeiro dia do ano renovou a promessa dos 858 dias que passamos juntos. A promessa de que nossos olhos jamais desviariam do puro objetivo: descobrir, juntos, o grande mistério do fim da existência terrena.
Mas, ao encontrar seus olhos há dois dias, o universo dentro deles se apagara. As galáxias em verde amendoado estavam se esvaindo, sem brilho algum. Ele falou que seria melhor se nos separássemos. Não foi a primeira vez que ele proferiu essas palavras, mas foi a primeira que acreditei. Pois eu sabia, agora ele falava a verdade.
Justiça seja feita, eu também acreditei que pudesse ser melhor. Afinal, eu precisava viver para mim. Eu precisava experimentar novamente a alegria de realizar algo por mim mesma, alimentar minha própria existência. Mas, tão efêmera quanto a luz de um fósforo foi esse meu desejo. Não demorou para que eu me despertasse às suas palavras. Para mim, era impossível que fosse melhor seguirmos separados.
Tarde demais.
Sua mente estava feita. Nossa história também passou, como haveria de ser pelas leis desse universo inexorável.
Mas, preciso admitir, há uma pequena luz. Uma pequena luz do mesmo verde amendoado de seus olhos. Em um cantinho muito protegido, aqui dentro ela se conserva como um último suspiro. Essa luz deve atender pelo nome de esperança, pois em minha mente utópica de criança, amor é aquilo que dura para sempre. Mais forte do que qualquer lei que o universo se atreveu a possuir.
Se for tarde demais, peço que se apague.
Mas, se ainda houver tempo, que meu coração infantil ainda possa se orgulhar por estar certo: o amor é mesmo a força mais implacável que pode existir.
Sendo assim tão forte, é capaz de mudar os rumos daquilo que prevíamos como certo. Se isso também vai passar, que passe. E que se reconstrua como algo ainda mais nobre e divino.
“And I knew that you were a truth I would rather lose than to have never lain beside at all.”
Era como se eu pudesse sentir. Como uma porta que se abre em um dia escuro deixando a luz do mundo entrar. Era como se eu pudesse tocar. Sentir nos receptores táteis a luminosidade morna que lentamente escorre sobre minha pele. Do fundo do corredor ela vinha, preenchendo o cômodo com aquele aroma de domingo de manhã, repleto de folhas verdes e nuvens de algodão. Era como se eu pudesse ser. Tornar-me a própria luz, no meu próprio mundo que deixava de ser enegrecido para transbordar-se em vida.
Quando o primeiro sol do ano nasceu, evidenciando o verde cristalino do mar, teu olhar se revelava em esmeralda. Translúcido, ele me deixava entrar no mais íntimo de ti e então conhecer-te de dentro para fora. Do menino ao homem. Do ontem ao hoje.
Tua boca falava, mas eram esses teus olhos que me diziam o que pulsava no teu interior.
Amor. Pureza. Doçura. Leveza.
Gosto de alma lavada. Água salgada. Vida revelada.
Era como se eu pudesse ver. Assistir em uma tela de cinema o pequeno menino que tinha um sorriso danado, e danado de bonito. Magrinho, permitindo que a bicicleta voasse ao vento, sem saber fazia a prece de para sempre poder brincar. Macio o cabelo e as palavras, balançando as perninhas debaixo da mesa enquanto o cheiro de batatas fritas se espalhava pela pequena cozinha. Quietinho em sua cama, fingia não ouvir as vozes da sala tão próxima. Voz de homem. De pai? “Meu pai”, você se repetia. Que pai?
Homem. Dureza. Incerteza. Pai.
Um adeus chorado, disfarçado no sorriso que dizia “Vai com Deus, meu filho.” Tão criança, sentindo-se adulto ao olhar para os tênis cuidadosamente limpos. A casa já não era mais casa, o sonho era a tua morada. Tantos meninos, tantos medos sufocados, tantos quartos compartilhados. Cada vez que tuas mãos firmes agarravam a bola, teu coração galopava para mais perto do que cultivava no fundo de ti: “Serei bom. Serei o melhor. Serei orgulho.” A realidade entrando sem bater na porta. A dificuldade deitada ao teu lado todas as noites, naquele aglomerado tão solitário.
Sonho. Medo. Saudade. Homem.
Voltava sem saber se deveria voltar. Repousava no sofá sem sentir que deveria repousar. Homem. O tempo havia passado e agora a voz de homem na sala era a sua própria. Assumir os cuidados, as responsabilidades, ser quem não sabia ser. Jamais transparecer insegurança, jamais admitir o medo. E faltava o dinheiro, faltava o sonho realizado, faltava o orgulho planejado.
Colo. Perseverança. Luta. Esperança.
Chovia lá fora e você não se permitia estremecer. Agora a moto irrompia contra o vento e havia trabalho a ser feito. De porta em porta, o esguio jovem inventava os próprios sorrisos para poder vencer mais um dia. E todo o final de mês, consumia o peito a falta de ser o homem que poderia ser. Porém, como se não precisasse descansar, oportunidade atrás de oportunidade eram colhidas com a mesma avidez do menino que firmava a bola entre os dedos. O futuro era o único lugar para o qual se permitia olhar.
Tempo. Perda. Lágrima. Homem.
O mundo parecia querer te mostrar que não havia pausas na frenética vida. E nos momentos de maior dor, enchia-se o teu peito de um amor capaz de envolver os outros em um abraço de alento. Ali, frente ao maior dos sofrimentos, o homem que desde sempre estava sendo gerado revelou-se: sensível, forte, sereno, seguro, amável, doce, puro. Puro. Cada lágrima era uma cachoeira de pureza a se derramar. Desse coração poderia sair apenas o bem, em sua mais bela forma. Amar sem cessar. Cuidar sem cansar. Proteger sem findar.
Os novos dias com melhores sabores já sabiam quem era o homem que os desfrutava. Mas a vaidade não. A vaidade, inimiga dos meninos de bom coração, começa como uma pequena ideia que irrompe em meio à noite. E se você pudesse ser mais? E se pudesse mostrar a essa vida tão doída que você havia dado a volta por cima? E se você pudesse mostrar ao mundo tão injusto que a justiça estava agora em suas mãos?
Recomeço. Mudança. Desejo. Confiança.
Aos poucos o homem compartimentalizava os espaços de seu interior, separando em gavetas aquilo que se via podendo ser. Bonito, atraente, cativante, sorridente. No final de cada mês já não faltava o que tanto havia esperado. O mundo nos contracheques, as noites sendo reféns da tua sede de viver o tempo perdido. Mas as noites nem te contaram que a inocência não é de criança, e mais para perto te levavam do efêmero, do profuso, do imediato. Fazer hoje para viver hoje. E a vaidade contentava-se de seu sucesso ao ir, lentamente, dominando a pureza.
Mentira. Sucesso. Pressão. Homem.
Misturavam-se as responsabilidades com as inconsequências, os bônus com os ônus, a noite com o dia. Por que não? Por que não entregar-se como se o amanhã estivesse garantido? Fechadas todas as gavetas do homem bom, abertas estavam aquelas criadas pelo prazer de poder ser irresponsável. Há quanto tempo você não podia ser irresponsável, não é? Acelerando o carro pelas ruas ao amanhecer, sentindo o cheiro do álcool dominando os sentidos.
Mas, lá de cima Deus enviou o comando: “Menina, hoje é dia de sair de casa.” E eu saí. Encontrei o homem insensato, mas no fundo daqueles olhos tão sinceros, de cara abracei o menino magricela, o jovem inseguro, o homem puro. Lembra-te que fui fechando suas gavetas da vaidade e te ajudando a reabrir as da pureza? Lembra-te que te fizeste de novo menino para mim, de voz mansa e brincalhona, suave como uma brisa gostosa de sentir? Lembra-te que dormiu em meu colo como menino, ficou em pé ao meu lado como homem, segurou em minhas mãos como aquele que segurava a bola: ali estavam os maiores sonhos, os maiores anseios. Lembra-te que te encontraste em nossos sorrisos?
Era como se eu pudesse sentir. Esquentava a minha pele o ser mais adorável que esse mundo há de ver. Cobria-me o ombro, beijava-me a testa, sentava-me no colo o homem. O grande homem que você se tornou.
Hoje, após uma centena de lágrimas, posso admitir que não sinto tanto eu por ter perdido tua pureza, mas pelo mundo. Eu queria que também o mundo pudesse sentir esse amor imensurável que mora dentro de ti. Que cada pessoa em teu caminho pudesse ser abraçada por teu olhar caloroso, teu sorriso sincero, tuas maneiras gentis, teus valores de proteção.
Se eu te perdi, que o mundo não te perca. Que tu não percas a ti mesmo.
O homem que sempre quis ser, meu bem, está aí contigo. Ele é você. Basta somente olhar nos olhos da vaidade e dizer que você a venceu. Você venceu.
Eu poderia perdoar qualquer coisa, jamais você deixando de ser você.
Eu poderia perdoar o seu receio, jamais você deixando de ser aquele que respeita.
Eu poderia perdoar a sua insegurança, jamais você deixando de ser aquele que cuida.
Eu poderia perdoar o seu medo do futuro, jamais você deixando ser aquele que ama e ensina a amar.
Eu poderia perdoar o seu deslize, jamais você se deixando cair e abraçando a queda.
Eu poderia perdoar as palavras omitidas, mas jamais aquelas caladas pelo seu egoísmo.
Eu poderia perdoar as mentiras, mas jamais aquelas ditas para não ferir a si mesmo.
Eu poderia perdoar os desejos, mas jamais aqueles que você se entrega por vaidade.
Eu poderia perdoar os erros, mas jamais aqueles que você comete pelo prazer de se autodestruir.
Eu poderia perdoar a sua insensatez, jamais você fechando os olhos para se tornar desprezível.
Eu poderia perdoar o egocentrismo, mas jamais aquele você cultiva para manter-se sempre acima.
Eu poderia perdoar o desespero, mas jamais aquele que você só encontra quando é contrariado.
Eu poderia perdoar a dúvida, mas jamais aquela que você tem antes de jurar uma verdade.
Eu poderia perdoar a insensibilidade, mas jamais aquela que você pratica para se satisfazer.
Eu poderia perdoar qualquer coisa, jamais você deixando de ser você.
Caso não saiba, você é doce. É terno e sereno. É manso e adorável.
Caso não lembre, você é gentil. É solidário e solícito. É entregue e caridoso.
Caso não recorde, você é guerreiro. É forte e determinado. É perseverante e justo.
Caso não perceba, você é bom. É sincero e puro. É amável e sabe amar.
Eu poderia perdoar qualquer coisa, jamais você deixando-se perder.
Todos os dias, lembre-se de quem é. De onde veio. O que fez para chegar até aqui.
Lembre-se do amor recebido, do adeus sofrido. Lembre-se do caminho trilhado, de cada abraço dado.
Lembre-se da luta de quem te amou. Lembre-se dos sufocos pelos quais passou.
Lembre-se de quem sonhou em ser. Lembre-se de quem batalhou para ser.
Lembre-se que aprendeu a amar no colo de sua mãe e jamais se assemelhe a quem aprendeu a desprezar. Lembre-se de quem é. Todos os dias. Todas as horas. Todos os minutos.
Lembre-se de quem é até que jamais volte a esquecer.
Eu poderia perdoar qualquer coisa, jamais que você esqueça de você.
Começou com um sorriso. O seu. Invadindo meu mundo, quebrando paredes, derrubando muralhas, tornando-o teu.
Era a enchente de verão, inundando as ruas de minha vida e me levando a flutuar. Era a tempestade mais bonita que já vi.
Eu costumava achar que seríamos para sempre um só. O casal mais bonito do mundo, como ouvíamos de todos que nos conheciam. O mais cúmplice, o mais divertido, o que sempre quiseram ser. O que eu sempre quis ser. O que eu achava que só existisse nos filmes. O meu próprio filme a rodar.
Cumplicidade. Serenidade. Felicidade. Ao seu lado eu podia ser o que quisesse, principalmente ser aquilo que realmente sou. Eu podia ser doce e frágil e mansa e ansiosa e romântica e medrosa e impaciente e curiosa. Eu podia ser sorriso, lágrima, abraço, chamego, desejo e arrependimento. Eu podia ser menina, mulher, sapeca, séria, irresponsável, inconsequente, imensuravelmente eu. Ao seu lado, descobri como acessar o meu íntimo, entrar em contato com meus ímpetos e realizar meus mais sinceros sonhos. Você me deu a chave.
Tive sempre a certeza de que a única companhia que eu poderia tolerar por mais de 48 horas era a minha própria. Precisava de espaço, ar, silêncio, cobertas e livros. E então você chegou para ser melhor que eu mesma, a mais adorável presença. Com você eu poderia passar todos os dias e teria espaço, silêncio, ar e a mim também. Seu perfume no ar era como a garantia de que tudo estava em paz, o globo girava em sua órbita perfeita e o cosmos gozava de harmonia. Se meu rosto estivesse encostado em seu peito, nem monstros e nem fantasmas, nem tiroteios e nem vulcões, nem terremotos e nem avalanches poderiam me abalar. Eu estava segura. Livre enquanto presa no abraço teu.
No teu olhar eu encontrava algo que poderia descrever como o próprio céu. Intocável, pleno, infinito e belo, capaz de acariciar minha alma ao primeiro contato. Os olhos que eram como água do mar virando cachoeira e tocando a terra fresca. Meu corpo todo se aquecia e acendia em mim uma chama dourada e brilhante que rompia dentro à escuridão, trazendo-me a certeza de que não havia nada mais prazeroso do que viver esse amor.
Não consigo apagar as fotos. Elas são a prova de que eu não estava sonhando. São os registros do que acabo de falar. Todos os sorrisos e carinhos e olhares que elas carregam provam que a experiência de amar verdadeiramente foi real. As que mais gosto são aquelas que tiramos quando sabíamos que nada poderia nos vencer. Nada seria maior do que o estado sublime de viver o sentimento mais intenso criado por Deus. Nada poderia nos separar.
Desisto, novamente, de encerrar o dia com esperança de ser outra vez tão feliz. Fomos vencidos pelo nosso próprio orgulho, nossas falhas, nossos medos. E, sozinha, a fechadura se tranca. Já não tenho mais como ser a menina, mulher, doce, irresponsável, curiosa, mansa, romântica... Não consigo me encontrar entre as paredes que carregam teu cheiro e ecoam o som de tua voz.
Sento-me no chão e espero a vida voltar a fazer algum sentido. Mas a chave, por favor, devolva-me.