“And I knew that you were a truth I would rather lose than to have never lain beside at all.”
Era como se eu pudesse sentir. Como uma porta que se abre em um dia escuro deixando a luz do mundo entrar. Era como se eu pudesse tocar. Sentir nos receptores táteis a luminosidade morna que lentamente escorre sobre minha pele. Do fundo do corredor ela vinha, preenchendo o cômodo com aquele aroma de domingo de manhã, repleto de folhas verdes e nuvens de algodão. Era como se eu pudesse ser. Tornar-me a própria luz, no meu próprio mundo que deixava de ser enegrecido para transbordar-se em vida.
Quando o primeiro sol do ano nasceu, evidenciando o verde cristalino do mar, teu olhar se revelava em esmeralda. Translúcido, ele me deixava entrar no mais íntimo de ti e então conhecer-te de dentro para fora. Do menino ao homem. Do ontem ao hoje.
Tua boca falava, mas eram esses teus olhos que me diziam o que pulsava no teu interior.
Amor. Pureza. Doçura. Leveza.
Gosto de alma lavada. Água salgada. Vida revelada.
Era como se eu pudesse ver. Assistir em uma tela de cinema o pequeno menino que tinha um sorriso danado, e danado de bonito. Magrinho, permitindo que a bicicleta voasse ao vento, sem saber fazia a prece de para sempre poder brincar. Macio o cabelo e as palavras, balançando as perninhas debaixo da mesa enquanto o cheiro de batatas fritas se espalhava pela pequena cozinha. Quietinho em sua cama, fingia não ouvir as vozes da sala tão próxima. Voz de homem. De pai? “Meu pai”, você se repetia. Que pai?
Homem. Dureza. Incerteza. Pai.
Um adeus chorado, disfarçado no sorriso que dizia “Vai com Deus, meu filho.” Tão criança, sentindo-se adulto ao olhar para os tênis cuidadosamente limpos. A casa já não era mais casa, o sonho era a tua morada. Tantos meninos, tantos medos sufocados, tantos quartos compartilhados. Cada vez que tuas mãos firmes agarravam a bola, teu coração galopava para mais perto do que cultivava no fundo de ti: “Serei bom. Serei o melhor. Serei orgulho.” A realidade entrando sem bater na porta. A dificuldade deitada ao teu lado todas as noites, naquele aglomerado tão solitário.
Sonho. Medo. Saudade. Homem.
Voltava sem saber se deveria voltar. Repousava no sofá sem sentir que deveria repousar. Homem. O tempo havia passado e agora a voz de homem na sala era a sua própria. Assumir os cuidados, as responsabilidades, ser quem não sabia ser. Jamais transparecer insegurança, jamais admitir o medo. E faltava o dinheiro, faltava o sonho realizado, faltava o orgulho planejado.
Colo. Perseverança. Luta. Esperança.
Chovia lá fora e você não se permitia estremecer. Agora a moto irrompia contra o vento e havia trabalho a ser feito. De porta em porta, o esguio jovem inventava os próprios sorrisos para poder vencer mais um dia. E todo o final de mês, consumia o peito a falta de ser o homem que poderia ser. Porém, como se não precisasse descansar, oportunidade atrás de oportunidade eram colhidas com a mesma avidez do menino que firmava a bola entre os dedos. O futuro era o único lugar para o qual se permitia olhar.
Tempo. Perda. Lágrima. Homem.
O mundo parecia querer te mostrar que não havia pausas na frenética vida. E nos momentos de maior dor, enchia-se o teu peito de um amor capaz de envolver os outros em um abraço de alento. Ali, frente ao maior dos sofrimentos, o homem que desde sempre estava sendo gerado revelou-se: sensível, forte, sereno, seguro, amável, doce, puro. Puro. Cada lágrima era uma cachoeira de pureza a se derramar. Desse coração poderia sair apenas o bem, em sua mais bela forma. Amar sem cessar. Cuidar sem cansar. Proteger sem findar.
Os novos dias com melhores sabores já sabiam quem era o homem que os desfrutava. Mas a vaidade não. A vaidade, inimiga dos meninos de bom coração, começa como uma pequena ideia que irrompe em meio à noite. E se você pudesse ser mais? E se pudesse mostrar a essa vida tão doída que você havia dado a volta por cima? E se você pudesse mostrar ao mundo tão injusto que a justiça estava agora em suas mãos?
Recomeço. Mudança. Desejo. Confiança.
Aos poucos o homem compartimentalizava os espaços de seu interior, separando em gavetas aquilo que se via podendo ser. Bonito, atraente, cativante, sorridente. No final de cada mês já não faltava o que tanto havia esperado. O mundo nos contracheques, as noites sendo reféns da tua sede de viver o tempo perdido. Mas as noites nem te contaram que a inocência não é de criança, e mais para perto te levavam do efêmero, do profuso, do imediato. Fazer hoje para viver hoje. E a vaidade contentava-se de seu sucesso ao ir, lentamente, dominando a pureza.
Mentira. Sucesso. Pressão. Homem.
Misturavam-se as responsabilidades com as inconsequências, os bônus com os ônus, a noite com o dia. Por que não? Por que não entregar-se como se o amanhã estivesse garantido? Fechadas todas as gavetas do homem bom, abertas estavam aquelas criadas pelo prazer de poder ser irresponsável. Há quanto tempo você não podia ser irresponsável, não é? Acelerando o carro pelas ruas ao amanhecer, sentindo o cheiro do álcool dominando os sentidos.
Mas, lá de cima Deus enviou o comando: “Menina, hoje é dia de sair de casa.” E eu saí. Encontrei o homem insensato, mas no fundo daqueles olhos tão sinceros, de cara abracei o menino magricela, o jovem inseguro, o homem puro. Lembra-te que fui fechando suas gavetas da vaidade e te ajudando a reabrir as da pureza? Lembra-te que te fizeste de novo menino para mim, de voz mansa e brincalhona, suave como uma brisa gostosa de sentir? Lembra-te que dormiu em meu colo como menino, ficou em pé ao meu lado como homem, segurou em minhas mãos como aquele que segurava a bola: ali estavam os maiores sonhos, os maiores anseios. Lembra-te que te encontraste em nossos sorrisos?
Era como se eu pudesse sentir. Esquentava a minha pele o ser mais adorável que esse mundo há de ver. Cobria-me o ombro, beijava-me a testa, sentava-me no colo o homem. O grande homem que você se tornou.
Hoje, após uma centena de lágrimas, posso admitir que não sinto tanto eu por ter perdido tua pureza, mas pelo mundo. Eu queria que também o mundo pudesse sentir esse amor imensurável que mora dentro de ti. Que cada pessoa em teu caminho pudesse ser abraçada por teu olhar caloroso, teu sorriso sincero, tuas maneiras gentis, teus valores de proteção.
Se eu te perdi, que o mundo não te perca. Que tu não percas a ti mesmo.
O homem que sempre quis ser, meu bem, está aí contigo. Ele é você. Basta somente olhar nos olhos da vaidade e dizer que você a venceu. Você venceu.