Porto Alegre, 22:14 de um domingo. 24ºC e chove de leve, amenizando um calor inacreditável dos últimos 3 dias. Meu nome é Thomas, tenho 27 anos, moro sozinho em um apartamento que vai ficando mais confortável a cada dia, enquanto vou me acostumando com uma vida que não sonhei e nem planejei mas que aconteceu, e agora tenho que tentar tirar o melhor disso, eu acho.
Muitos pensamentos passam pela minha cabeça agora; sensações passam pela espinha como se fosse uma corrente elétrica e sentimentos no coração ardendo como uma dor de queimadura. Preciso me arrumar, vou trabalhar essa madrugada, fazendo uma escala que apesar de não ser das piores, não significa coisas muito boas dentro da empresa, pelo menos é o que me parece no momento. Passam alguns minutos, eu volto na música anterior que estava ouvindo tão logo ela acaba. É Crawling, do Linkin Park, na última versão gravada, ao vivo, com o agora saudoso Chester cantando baixinho as palavras de um relato pessoal de desespero externadas ao mundo, tornando o sofrimento um pouco mais aceitável e bonito, ajudando milhões de pessoas com a voz doce e furiosa que ele tinha. Letras das quais eu conheço bem, desde 12 ou 13 anos de idade. Na época talvez não entendesse a magnitude e o tamanho daquelas palavras, daquelas sensações, de como feridas podem rastejar sob a pele, nunca curando, nunca melhorando mas avançando seu caminho pro interior de uma pessoa como uma lenta e mortal infecção. Esse ano, em 20/07, quando finalmente o autor delas se viu livre das mesmas, talvez procurando paz, e infelizmente da pior maneira pra quem fica pra trás, eu percebi que vivia as mesmas coisas de formas diferentes, e de lá pra cá esse inseto que rasteja vem tentando me consumir numa batalha diária que às vezes ganho e às vezes não. 22:30 agora, eu dou o terceiro ou vigésimo repeat, como se não quisesse sair desse sentimento, dessa escuridão. Hoje talvez eu entenda o que aconteceu com um cara que inspirou gerações a sair de um buraco, passar por um labirinto dentro da própria mente e conseguir se ver livre de alguns demônios que assombram, traumas que nos são infligidos sem que possamos fazer nada, e escolhas que nos levam a caminhos que se mascaram de bons e nos trazem consequências eternas. A música finalmente muda, passa pra outra de nome Sorry for Now, também deles, e me concentro pra ouvir um refrão que ainda não decorei:
And I’ll be sorry for now
That I couldn’t be around
Sometimes things refuse to go the way we planned
Paro e reflito na letra inteira, na música, melodia e arranjos, uma baladinha pop que em nada lembra a sonoridade original da banda, mas que não deixa de ser bela e facilmente identificável como o Linkin Park, que me acompanha há tanto tempo. Esse refrão, de palavras que agora fazem mais sentido, me conforta e aperta meu coração. Ao mesmo tempo que coisas se consertam, coisas se quebram, e o mesmo acontece aqui dentro. Dentro das portas desse prédio, dentro do meu apartamento e dentro da minha mente. A minha percepção das coisas se tornou muito mais sensível depois de tudo o que aconteceu esse ano; todos os 5 sentidos ficaram mais apurados, como se percebessem que alguma coisa está chegando ou chegou ao fim, como se o corpo se preparasse pra mais uma mudança, pra mais uma alteração, mais uma cicatriz na alma (mais uma? já são tantas). O vento de chuva, o tato nas pétalas da flores, o sal das lágrimas, a visão de um rosto cansado que demonstra muito mais do que a idade que tem. Cabelos dourados como o metal que vão se tornando raros, fios de uma barba que se tornaram brancos contrastando com o ruivo que parecia fogo há alguns meses, uma pele que sofreu a ação de um tempo psicológico maior que o cronológico, e que de lógico não tem nada, porque algumas coisas não fazem mais sentido algum. Uma nova tatuagem, alguns quilos a mais ou a menos, nunca se estabelecendo e alguns outros fatores que envolvem uma auto estima física, importante hoje em dia pra que o mundo veja, pra que possamos nos sentir melhores ao ganhar olhares, como likes em redes sociais, alimentando um ego que não sei se ainda existe.
Sometimes beginning aren’t so simple
Sometimes goodbye is the only way
And the Sun will set for you
The Sun will set for you
And the shadow of the day will embrace the world in gray
And the Sun will set for you
As músicas passam assim como o tempo. Shadow of the day conduz a minha linha de raciocínio agora, assim como as outras músicas não citadas que passaram por aqui, todas dessa mesma banda, como se o youtube quisesse me pregar uma peça, como se entendesse e se importasse com o que está sendo escrito aqui. Demoro a escrever mais coisa, começa outra música
I tried so hard and got so far
But in the end it doesn’t even matter
Um clássico. Cantei a plenos pulmões esses dias no meio de uma festa, talvez querendo colocar pra fora aos berros tudo o que eu sinto, tudo o que eu não consigo explicar e que me aflige, me diminui pra mim mesmo e me deixa tão exposto, como um nervo, insensível pra algumas coisas e à flor da pele pra outras.
22:57, preciso me arrumar, começando a chegar perto da hora de sair e eu ainda não estou nem perto de estar pronto. A sequência finalmente muda, vira Nothing Else Matters, do Metallica, conhecida e muito tocada naquele mesmo violão desde que o ganhei há 15 anos atrás. Realmente nada mais importa, parece que nada faz muito sentido nesse final de ano. Achei que com todas as experiências que tive e todas as coisas que aconteceram eu ia ter mais respostas, mas eu tenho mais perguntas que se preocupam em não serem respondidas, como se estivessem ocultas atrás de um véu. Open mind for a different view. Sim, James, venho fazendo isso há muito tempo, e o que eu faço com o agora?
Mais uma pergunta não respondida, o solo de guitarra começa e eu fico na vontade de ter estudado um pouquinho mais pra tentar fazer algo parecido com essa obra da música.
Minha auto crítica é realmente gigante com tudo o que faço, inclusive com essas palavras (que cogitei não tornar públicas, como a maioria das coisas em mim). O engraçado é que eu nunca tive esse tino pra escrita, nunca fui bom nas minhas próprias composições, mas de alguma forma é um alívio conseguir, mesmo que falando merda, chegar num texto tão grande de forma espontânea.
Existem muitas coisas boas que aconteceram também, muitas pessoas que não esperava, antigas e novas, se tornando tão importantes que o coração parece ganhar sangue novo pra voltar a bater. Nesse mundo de relações tão superficiais, expor a alma é mais difícil que expor o corpo, e poder voltar a entregar pedaços de mim pras pessoas é reconfortante. Eu não acredito mais que temos uma missão nessa vida, mas sempre entendi que o que realmente me faz bem é fazer o bem pro outros, é me doar, compartilhar, amar de forma incondicional. Durante esse tempo isso foi muito explorado em mim, no mau sentido, sugado como sangue. É bom ver que tem pessoas dispostas a fazer essa transfusão pra me manter vivo.
23:09, One começa a tocar, do mesmo Metallica. Preciso realmente me arrumar. Começa a ficar difícil de largar o teclado, de parar de escrever, de me expressar, o sentimento varia entre ímpeto, frustração, raiva, vontade, esperança e desespero. Alguma coisa precisa mudar, eu preciso mudar, mudar de novo, procurar coisas novas, ser diferente sem perder o que eu sou por dentro, sem deixar que toda essa escuridão apague aquela luz que ainda está ali, eu sei que está, ela ainda me mantém vivo, eu ainda sinto.
Porto Alegre, 17/12/2017, voltou a chover, eu preciso ir trabalhar, eu preciso ir pra um lugar diferente, eu preciso de força de vontade.
Eu preciso.
Thomas Krause