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oi, espero que alguém esteja me ouvindo
estou mandando essa mensagem à todas àquelas pessoas que, assim como eu, está sentindo, já sentiu ou irá sentir um vazio no peito. todos que, nesse momento, precisam de ao menos 1 minuto de coragem para se despirem de algo que não os cabe mais, seja uma roupa ou um 'eu. e, apesar desta mensagem estar em forma de texto, tenham a certeza de que estou gritando. e, caso alguém aí não possa fazer o mesmo, espero que se sinta representado pela minha voz. porque esse grito que ecoa não é apenas por mim, não é apenas sobre mim, esse grito é por, para e sobre todos que estão em seu momento de fraqueza. todos que pensam, assim como eu, que a vida já deu o que tinha que dar. meu grito também é seu. e eu espero que você possa ouvi-lo e, mesmo que você não possa participar desse momento, espero que o meu ato de gritar o liberte nem que seja um pouquinho também.
Clarice Lispector disse uma vez "enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta continuarei a escrever", e assim o fez. e mesmo um ano após a sua morte, uma obra foi publicada, e as palavras dela vivem até hoje. e tenho certeza de que viverão por mais quanto tempo o universo durar. mas o que Clarice não contou, pelo menos que eu lembre, é que na maioria das vezes as palavras não nos dão respostas. e eu tenho tentado não sufocar com essa ideia de que preciso saber algo para continuar aqui, tenho tentado me convencer de que é apenas o cansaço, que amanhã será melhor. nunca é. e parece que quanto mais os dias passam, mais meu estoque de palavras se esvai. não tenho mais nada a dizer, queridos. não tenho mais nada a sentir também. não porque já vivi tudo o que tinha para viver, mas porque parece que minha vida é um carro que pifou no meio da estrada e que não tem conserto. estou no acostamento, apenas atrapalhando a passagem dos que necessitam de mais espaço. está doendo dizer tudo isso.
eu gostaria de poder dizer que vai passar, que é temporário e talvez realmente seja. mas há uma possibilidade de termos que conviver com essa dor, esse incômodo pelo resto de nossas vidas. não me acho forte o suficiente para isso. então hoje, apenas aceito que há uma parte em mim que está quebrada e que não há conserto. aceito que há partes que faltam e nunca serão preenchidas. aceito meus transtornos e minhas escolhas. e aceito a falta de palavras. aceito a falta de inspiração e o cansaço, a vida monótona que me passa a sensação de estar em um círculo vicioso do qual nunca consigo me libertar. eu apenas aceito a dor, porque o que dói mais não é senti-la, mas fingir que ela não está aqui. o que dói mais é fingir não sangrar. aceito minhas falhas, aceito meus cortes e feridas, aceito que há coisas que não conseguirei curar. aceito minha humanidade.
espero que você esteja me ouvindo de onde quer que se encontre, que esteja olhando para o alto observando o mesmo céu que o meu. e se estiver pesando em ti também, chore. porque você não está sozinho. eu estou chorando daqui, com o peito apertado e o coração repleto de perguntas sem respostas. repleto de respostas que machucam. sinta meu abraço, não quero mentir para você. não quero mentir para mim. não sei se vai passar, não sei o que vai acontecer, isso não é um texto motivacional. mas o que posso dizer é que nossas luas são as mesmas, e em meio à essa imensidão de coisas desconhecidas, somos alguém. mesmo quebrados, mesmo sujos e mesmo quando nossos demônios resolvem se revelar. nós somos alguém, eu tenho tentado acreditar nisso. tenho tentado não deixar que toda essa merda tome o controle, mas quanto mais eu corro, mais cansado eu fico. o que eu faço com todos esses sentimentos e pensamentos reprimidos?
não estou escrevo para os outros, escrevo para mim. para que assim, talvez, eu me descubra um pouco. mas hoje, se você quiser aceitar, estou lhe convidando para se permitir sentir comigo. eu aceito essas lágrimas que escorrem dos meus olhos, aceito os motivos delas e aceito as que nem motivos têm mas continuam rolando. eu aceito o meu grito, e aceito que caí. aceito também os momentos em que não consigo externalizar as coisas que se passam aqui dentro. porque é sobre mim. não é sobre vocês, sobre a minha família e sobre o que vocês vão achar/pensar. é sobre mim, sobre a minha liberdade, sobre eu abraçar a casca que me foi dada e cuidá-la. sobre eu respeitar minha vulnerabilidade, e aceitar que alguns estilhaços não conseguirei juntar. é sobre como me sinto quando escrevo, sobre como escrevo quando sinto algo. é sobre as minhas complexidades e singularidades, tudo o que me forma. é sobre quem quero ser, sobre o que eu quero passar para quem me ouve. esse momento é meu. eu tenho direito de estar aqui, de gritar, de me expor e de mostrar o quanto dói. eu tenho direito de ser humana e de dizer que não, não estou bem. não sei quando irei ficar. eu tenho direito de não me anular para que eu ou simplesmente minhas palavras pareçam mais doce aos seus olhos. esse momento é meu, estou desmistificando tudo o que me impuseram, tudo o que me disseram em minha presença ou pelas costas. e essa imagem de guerreira que tanto idealizam.
eu aceito todos esses soluços que vêm à tona com as lembranças, e eu aceito o passado que me fez ser melhor hoje. eu aceito as minhas atitudes imaturas e aceito o meu tentar mesmo que ele não se pareça tanto com o tentar do vizinho. eu aceito tudo o que me faz ser eu, porque aqui dentro de mim, em algum lugar, ainda existe um átomo de esperança. ainda existe uma parte que acredita que aceitar é preciso, não para se acomodar, não para usar as partes ruins como desculpa, mas para que minha consciência não pese toda vez que eu sentir alguma coisa. para que eu não me sinta culpada por sentir em uma intensidade não conhecida. para que eu não peça desculpas por ter a coragem de me mostrar. para que eu continue crendo que não é sobre vocês, sobre meus amigos, sobre a minha família ou sobre o carinha que eu estou afim. é apenas sobre mim. é sobre eu me salvar colocando pra fora tudo aquilo que me tira o sono, é sobre eu vomitar palavras que me foram empurradas goela abaixo quando tentaram me silenciar. é sobre o meu respirar se tornar mais leve, sobre o meu pulso não acelerar toda vez que não atendo às expectativas que as pessoas colocaram em mim.
então nesse momento eu grito, eu faço birra, eu me jogo no chão e me contorço a cada pontada que a dor me dar. eu me deixo sentir, eu me deixo ser, eu tento não pensar no medo ou em como vou me sentir amanhã. tento não pensar no fato de que talvez eu me arrependa, tento não pensar que preciso ser forte, tento esquecer do dia em que me calaram. nesse momento, eu apenas me rendo ao que passei não sei quanto tempo tentando domar, me rendo ao sentir e às falhas do desenvolvimento humano. me rendo às lágrimas. eu apenas me deixo levar, apenas me deixo afundar em mim mesma. e, se você quiser, pode fazer o mesmo. porque não é sobre a sua família, não é sobre seu namorado ou namorada, não é sobre seus amigos, não é sobre seu cachorro ou gato. é sobre você. porque mesmo que a gente não sare hoje ou nunca, ainda será sobre merecermos não nos esconder para que o outro apareça melhor. esse momento, essa lua, essas estrelas, essa luz do poste, essa sensação de estar sendo destruído, isso é apenas sobre você. sobre você se dar a chance de abraçar suas cicatrizes, seus medos e tentar não detestá-los tanto. é sobre você se dar a chance de ser humano. porque somos alguém mesmo quando o que sentimos e pensamos não é algo que as pessoas considerem bonito ou decente. somos alguém mesmo quando não podemos gritar e deixamos que o silêncio faça todo o trabalho. somos alguém essa noite, e seremos amanhã.
seu momento não é sobre mim também. não é sobre esse texto. não é sobre o que exponho aqui nesta plataforma. é apenas sobre você ser você com a pessoa que sempre esteve contigo. meu momento também não é sobre esse texto, e o que sinto mal caberia em todos os caracteres permitidos. é apenas sobre nós. porque somos alguém. porque nossa alma e nossa mente não merecem todo esse poder que damos à elas. eu controlo hoje, eu decido. então me permito apenas estar aqui. e sentir. e ser. e não ser. meu grito é por todas as vezes que tentaram me abafar, o sorriso que de vez em quando dou em meio aos prantos é sobre finalmente fazer algo por mim.
então, se você também quiser, grite. você tem esse direito. porque não é sobre mim. é apenas sobre você. eu espero conseguir te ouvir daqui.