Hestia se sentou na beirada da cama de Marissa, ainda um pouco relutante com aquela ideia enquanto pensava o quanto que aquele momento parecia ser algo de um universo completamente alternativo. A amizade das duas era composta de verdadeiros momentos de altos e baixos (na verdade, mais baixos mesmo), e aquela conversa estava sendo completamente verdadeira. Dessa vez Marissa não estava usando uma de suas máscaras, fingindo ser alguém que ela não era de fato, aquela era a Marissa Deutsch que a Jones conheceu durante o seu primeiro ano em Hogwarts e que, como de costume, falou e muito na cabeça da ravina. — Se eu tivesse que me escutar falando durante 24/7 também ficaria um pouco irritada, ou com saco cheio de mim mesma — sabia que a amiga estava tentando ser o mais amigável possível, dava para perceber aquilo através dos gestos da mesma, e através das expressões faciais era fácil perceber que ela parecia estar se sentindo esgotada, algo bastante compreensível se levasse em conta a toda confusão que aconteceu no Festival dos Fundadores e o fato de ter passado alguns dias no Hospital St. Mungus. De um modo geral todos estavam esgotados desde os últimos acontecimentos e as duas ravinas não eram exceções à regra.
Por ter crescido junto de dois irmãos mais velhos e uma grande família e unida desde pequena Hestia já podia ser considerada como uma garota bastante comunicativa, deixando claro suas vontades para as outras pessoas ou expondo a sua opinião de algo. Sendo assim, ela tinha uma grande tendência de falar e muito, e já escutar o que as outras pessoas tinham para dizer era um verdadeiro teste de paciência para a morena que mal via o seu momento para comentar algo a respeito ou para oferecer algum tipo de conselho. Contudo, o que Marissa tinha para falar era tão interessante que Hestia, dessa vez, não estava vendo nenhum problema em permanecer calada apenas escutando o que a amiga dizia. Aquilo lá estava mais emocionante do que os encontros dos membros do Clube de História da Magia, e com mais segredos e mistérios do que um velho livro “Dom Casmurro”, que ganhou de seu avô que era grande um grande apreciador da literatura trouxa. Estava tão interessante aquela conversa que alguns sapos de chocolate ou varinhas de alcaçuz cairiam muito bem naquele momento para complementar toda situação.
— Claro me lembro de que você está noiva, como eu poderia me esquecer dessa informação depois da cena que você acabou fazendo quando recebeu essa notícia de seu avô, e se você quer saber até que você tem talento para fazer W.A.D.A, daria uma ótima atriz — era um fato de que em algumas situações Rissa conseguia ser dramática quando queria, mas no bom sentindo, é claro. — Você chegou a comentar sobre isso, e se realmente quer a minha opinião do assunto achei bem arriscada essa sua ideia de tentar achar algo contra o seu avô, imagina se ele tivesse te pego em ação! Em uma hora dessas você estaria trancada em algum tipo de torre ou casada com aquele pedaço de mal caminho chamado Max Wilkes, convenhamos que apesar do seu noivo ser um babaca ele é bem bonito — e novamente lá estava Hestia Jones com sua mania de sempre tentar enxergar algo de bom que as pessoas tinham a oferecer, até mesmo quando não lhe davam motivos para acreditar que no fundo existia um pouco de bondade. — Espera um momento, você beijou o irmão mais velho da Mia e do Ed?! Para começo de história eu nem sabia que eles tinham um irmão mais velho, realmente o mundo é um lugar surpreendente. E quanto Max’s você tem na sua vida é como se você tivesse um ímã que atrai caras com esse nome, então a gente podia arranjar um apelido para os dois para facilitar nossas futuras conversas. Podemos chamar o Wilkes de Cobrinha, e o Bones de Beijoqueiro, ou melhor, Boca Nervosa, o que você acha? — durante anos de amizade com Marissa finalmente as duas estavam contando segredos uma para a outra, algo que a Jones achou que nunca iria acontecer e isso estava deixando a ravina animada com a ideia. — Essa é uma situação delicada e sinceramente não sei como te aconselhar, mas as pessoas vivem dizendo que devemos correr atrás da nossa felicidade e se o Boca Nervosa de faz feliz acho que você deveria arriscar. A vida só é uma e as pessoas deveriam se preocupar em ser feliz, ou atingir o Nirvana — sabia que aquele seu discurso sobre ser feliz podia ser considerado como algo clichê, mas era algo em que ela acreditava desde criança. — Você não afasta as pessoas sendo você mesma, isso só acontece quando você começa a agir como se fosse uma família completamente diferente.
Algumas vezes, talvez até mais do que isso Marissa concordava que pegava demais com Hestia. Sabia que a garota não conseguia evitar ser tão alegre e ativa. Era algo dela e quando percebia já era tarde demais. Era algo também como frustração que escorria pelas palavras da ravina, por nunca conseguir agir daquela maneira. Ela nunca conseguiria ser tão doce, educada e atenciosa como Héstia. Ela nunca chegaria nem mesmo aos pés de ser alguém como amiga era, e quando Héstia conseguia tudo isso de maneira tão fácil deixava Marissa insana. A verdadeira Marissa, não a que ela moldava e que tentava ser legal com todos, e sim com a Marissa que fora forçada a agir como alguém ela algum dia dificilmente conseguiria ser. A mesma pensava em como pessoas como a Jones conseguiriam sobreviver caso seus lugares fossem trocados, e por isso ela sempre estava mandando a amiga crescer. Ela não queria que algo ruim acontecesse para que Hestia tivesse que crescer, mas de todas as formas Marissa sempre perdia o controle, e com isso dava a ideia de que estava afastando Hestia quando na verdade sempre quis a menina o mais próximo possível de si. “Você é chata sim, e muito irritante. Mas não chega a ser tão extremo assim. De toda forma, acho que eu sentiria falta caso não tivesse uma dose de Hestia Jones por dia. Faz para o balanceamento do universo.” Brincou um pouco para ver se conseguia melhor o clima com a amiga para que não fossem a tão extremos assim, pois agora estava com seu coração aberto falando e não era só porque estava em uma cama impossibilitada.
As duas eram pessoas completamente diferentes. Vindo de raízes completamente diferentes. Marissa mesmo se sua mãe estivesse viva, talvez nunca conseguisse ser tão positiva. Talvez fosse algo que ela tivesse carregado desde que sua mãe estava grávida dela. A noção de tempo, e que algumas coisas não eram perfeitas. A forma como sua mãe fora corajosa para ir adiante e se casar com o homem que amava. Como escolheram fugir para um outro país. Marissa sempre quis ter esse tipo de determinação, mas via-se presa em teias de aranhas, e um sistema onde ela não tinha voz ou a coragem. Ela não merecia nem mesmo ser filha de sua mãe. Sabia que a mulher nunca aceitaria o que estava sendo imposto para Marissa, mas o que Marissa ia fazer? Ela era racional o suficiente para saber que não deveria desistir de seus estudos. Não tinha coragem para deixar tudo e começar uma vida no mundo trouxa. Por mais que ela fosse half-blood, ela sabia pouquíssimas coisas sobre o mundo trouxa. O que fazia sua mentira de ser pureblood parecer muito mais real. Suas mentiras tornaram-se parte dela, e por isso que Marissa via uma dificuldade tão grande de sair de tudo que havia se metido. Era como se seu avô tivesse planejado tudo tão bem que ela não pudesse nem escapar.
A ideia de ir para o W.A.D.A nunca havia aparecido na cabeça de Marissa, e por essas e outras ela adorava Héstia. Não era algo impossível, e poderia ser uma ótima opção de curso a se fazer, pós-Hogwarts, mas ela nem tinha uma ideia do que aconteceria com ela quando saísse de Hogwarts, então tudo ficava extremamente difícil. Ela não queria planejar um futuro para depois vê-lo destruído bem na sua frente. Seria algo doloroso demais para Marissa, então simplesmente sorriu para a ideia e guardou no fundo de sua mente. “Certamente acho que já seria a senhorita a senhora Wilkes se isso acontecesse e olha como isso soa repugnante. Marissa Wilkes, tenho até vontade de vomitar só de ouvir. Sério. Ele não tem nada de bonito, Héstia. Deveria ter visto ele com a cara cheia de espaguete. Wilkes só me traz repulsa, e nojo. As coisas que ele me disse, da forma que ele iria me tratar. Simplesmente um nojo. Eu nunca poderia me casar com ele. Eu me mato antes de isso acontecer, mas espero que não tenhamos que chegar a esse extremo.” Desabafou, e pode perceber como Hestia tinha razão quanto a seu drama. Algumas vezes Marissa exagerava. De toda forma, era verdade. Desde que tivera um jantar com Max, as coisas só iam a pior no então noivado deles. Toda vez que ela o via tinha vontade de vomitar, e até mesmo cuspir na cara do noivo. Só de ver aqueles anéis já faziam Marissa ter vontade de tentar algo estúpido. “Era nisso que eu queria jogar. Tecnicamente não foi uma única vez que nos beijamos. Realmente eu não sei sobre isso. E eu sei que ele é mais velho, mas ele é um dos únicos que me ajudou com tudo isso. Sem contar que ele tem um espirito de criança, então a idade não fala nada. E nos definidamente não vamos chamá-los disso. Mas sei que estou falando com as paredes aqui, pois você já está fazendo o que acha melhor.” Os apelidos eram horríveis, mas ela sabia que não conseguia evitá-los, afinal Héstia era Hestia e se ela queria fazer alguma coisa ela simplesmente faria. “Não sei o que é o Nirvana, e nem sei se Max é o que me faz feliz. Eu gosto quando estou com ele, pois não preciso fingir. Ele sabe de tudo que teria que saber sobre mim. Até mesmo a parte do meu avô e a minha parte trouxa. Ele nem mesmo liga para isso. Ele simplesmente decidiu me ajudar, mas ele tem uma mulher. E isso é errado, Héstia. Eu estaria pensando na minha felicidade, mas e a da mulher dele? Eles são casados, e provavelmente muito felizes. He is a dream. A beautiful dream. E eu tenho que acordar. Geralmente tudo que é bom uma hora acaba. Só tenho você e Rai que são constantes.” Confessou para a mesma, enquanto tentava arrumas os pensamentos. “Não quero que as pessoas vejam o eu real. Eu não gosto de quem eu sou. Como outra pessoa iria gostar? É simplesmente, complicado demais.” Revirou os olhos esperando por alguma reação de Héstia, uma vez que ela era a única que poderia ajudá-la naquele momento.