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“ — Tudo aquilo que havia visto, todas aquelas coisas… Alice simplesmente não podia suportar mais. A tanto tempo se cobrava a segurança daquelas pessoas que ela não pode suportar não ter conseguido mais uma vez. Os gritos, as pessoas morrendo, o fogo e os zumbis, tudo aquilo trouxe a tona tudo que a garota estava guardando a anto tempo. O seu próprio desespero. Desde que a família morreu, ela sabia que qualquer extremidade de suas emoções poderia lhe deixar naquele estado e por isso tentava se controlar o máximo que podia, sempre evitando, sempre se dando um motivo para continuar, sempre tentando se controlar. Mas naquele momento não haviam mais coisas que pudessem fazer com que ela mantivesse o controle ou pelo que lutar. Estava tudo acabado e morrer era a única saída. Pelo menos, era o que se passava pela sua cabeça. Já havia lutado por tudo e agora, depois daquilo, não haviam mais motivos para continuar. Esperava mesmo que fosse um zumbi entrando, pouparia mais coisas, mas a voz que soou nem de longe era se comparado ao rosnado de um zumbi. Na realidade, não distinguia nada e embora a morte parecesse uma ótima solução, algo em si discordava e a aproximação da garota fez com que ela alcançasse a arma e apontasse para ela antes que estivesse perto demais para atacá-la. Mas estavam falando com ela. Zumbis não falavam. Notou então ser uma garota do qual ela não se lembrava o nome e nem ao menos chegava a entender direito o que ela falava. Não fazia nenhum sentido para Alice. —— Aguentar? — ela murmurou a palavra como se fosse algo novo para ela, seus olhos mau se focavam, como se tentasse buscar em sua mente o significado daquilo —— Todos morreram. Eu vi morrerem. Eu não consegui… — ela sussurrou, sentindo os olhos encherem de lágrimas uma outra vez. ”
Estava tentando lidar com a situação da melhor forma que podia. As crises de pânico do irmão tinham motivos diferentes como causadores, a exemplo da pressão absurda que o colégio depositava em cima dele mesmo sendo tão novo — suas ótimas notas já faziam a diretoria encher a cabeça do garoto a respeito das melhores universidades do país, pretendiam enlouquecê-lo desde cedo. Daisy sempre fez o máximo que pôde para não deixar Daniel se sabotar com pensamentos terríveis, tentaria fazer o mesmo com a mulher desconhecida e esperava conseguir ajudá-la de alguma maneira. No entanto, zumbis atacando uma cidade inteira nunca foi um dos problemas com que teve de lidar em crises de pânico. Tinha de tentar acalmá-la sem falar nenhuma bobagem sem querer. "Isso, aguentar. Você precisa primeiro pensar em respirar normalmente antes de colocar qualquer outra coisa na cabeça, certo? Você pode fazer isso por mim? Inspire e expire, então faça de novo e de novo." Pediu, segurando a mão da desconhecida, inspirando e expirando na expectativa de que ela a acompanhasse e fizesse o mesmo. Ver quem quer que fosse naquele estado sempre lhe deixava com o coração na mão, mas tinha de permanecer calma se quisesse acalmar a outra pessoa também. Era uma tarefa difícil. "Isso não é verdade. Pessoas sobreviveram sim, se eu e você conseguimos, o que prova que os outros não conseguiram também? Você viu uma parte da cidade, não todo mundo. Tem muitos de nós lá fora, sabe. Conheci várias pessoas que são duras na queda. Tudo bem que não foram muito com a minha cara, mas tenho que reconhecer que alguns me matariam numa virada de pescoço. Muita gente sobrevive a esse inferno, acredite em mim, se Nova York teve sobreviventes, aqui também vai ter."
Podia notar que ela era agitada, pela forma que se movia, falava, e até mostrava em seu olhar. Era bom ficar de olho nela, por mais que parecesse inofensiva. Voltou a segurar a arma, esquadrinhando os arredores enquanto ela subia as escadas, então se afastando da entrada quando ela o fez. Seu jeito alvoroçado era cômico, agora que o medo saía de seu semblante, mas ainda assim o homem se manteve sério. — Não gosto de abraços, também. — Se afastou dela após todo seu discurso de agradecimento, voltando para o posto inicial. — E o que faz sozinha? — Essa poderia ser uma pergunta feita em termos mais… delicados? Já que a resposta costumava vir cheia de dor e lamentações, mas ele não tinha essa preocupação.
De primeira, Daisy obviamente diria ter medo do rapaz — quem não teria, considerando que era ela a mira de sua arma? —, no entanto, estava mais calma agora em sua presença. Ter sua vida poupada já significava bastante, não entraria em pânico com o que poderia acontecer dali em diante, pelo menos por algumas horas. Estava realmente agradecida com a ajuda que o rapaz lhe dera e igualmente agradecida que ele entendia seu não abraço. Não abraçava por qualquer motivo. "Ótimo, já temos algo em comum! Não que vá render muitas conversas sobre o fato de não gostarmos de abraçar, seria um papo mais pra psicólogo, mas ainda é uma qualidade válida." Ponderou com um ar meio sério, meio divertido, antes de sentar-se no chão, já que o desconhecido voltara para o seu posto original de serial killer de andantes.
"E não estamos todos sozinhos neste mundo?" Dramatizou, jogando a cabeça para trás e deitando no chão, esticando os braços como se fosse fazer o próprio anjinho de neve. Podia estar brincando com aquele questionamento retórico, mas a verdade é que não fazia a mínima ideia de como responder aquilo com decência. Nenhuma pessoa sequer sabia o que havia acontecido com ela, não queria reações de pena ou de horror, qualquer um desses pensamentos lhe dava náuseas. Preferia que pensassem que era uma bosta irritante de pessoa por natureza, tanto fazia. "Bom, eu não tenho nenhuma notícia dos meus pais. Não sei se eles estão vivos ou não. Se viraram uma dessas carniças ambulantes, não faço ideia." Confessou, sem entrar em detalhes. A garota tentava nunca pensar sobre o assunto, porque a ideia de seus pais por aí a enlouquecia. Eles podiam estar desesperados atrás dela ou mesmo acreditando em sua morte. Ou, pior ainda, terem se transformado naqueles monstros. Só queria acreditar que eles estavam bem. "Acho que não saber é melhor, ainda me deixa o benefício da dúvida. Mas e você, escolheu a solidão também?"
peace, why so rare? || daisy & ravena
A água de Ravena estava acabando, felizmente para sua sorte, ainda tinha casas abandonadas que possuíam água potável. Abriu a porta de uma casa aleatória e, enquanto a adentrava, fazia barulhos para saber se havia alguma daquelas coisas por ali. Nada apareceu em seu campo de visão, então caminhou diretamente para a cozinha. A sua adaga ainda estava na sua mão, caso precisasse. Chegando ao cômodo, ouviu a voz sair de uma figura feminina e o susto a fez com que sua mão se posicionasse caso precisasse usar a adaga alguma vez, mas o revirar de olhos de Ravena deu a entender que ela não era ameaça alguma, era só alguém reclamando. A morena entrou na cozinha, relaxando sua mão novamente e resmungando para a outra que aparentava ter a mesma idade. “Uau, sinto muito por você ainda não ser a última pessoa viva nesse mundo.”, falou baixinho, mas com uma pontada de sarcasmo em sua voz. “Olha, ela é famosa.” arqueou as sobrancelhas, enquanto mudava o tom de voz.
Guardou o pequeno objeto de ponta afiada entre o seu cinto e seu quadril, pegando três garrafinhas de água que carregava consigo em sua mochila e abrindo-as para enchê-las na torneira. Ao acabar com uma, a fechava e guardava de volta. O processo de encher todas não demorou demais; a garota deixou sua mochila aberta para pegar alguma coisa para comer também, afinal não podia viver só de água. Ficou na frente da outra e a encarou. “Se importa?”, falou enquanto pedia passagem para usufruir das coisas que ela também estava pegando.
Nunca fora do tipo mal-educada, egoísta ou até mesmo impaciente, longe disso. Era praticamente uma garota exemplar — não como a do livro de mesmo nome, mas deu para entender. A questão é que, com a bagunça daquele novo mundo, Daisy não conseguiu se manter a mesma pessoa de antes. Não sobreviveria num lugar onde a população de forma geral decidiu que seria cada um por si a partir daquele momento. Logo, não agiria de maneira diferente com a aparição da garota desconhecida, sem contar que já estava irritada de encontrar alguém em todos os lugares em que ia. Queria um pouco de paz e, aparentemente, ainda não seria daquela vez que a teria. "Bom, considerando a minha companhia do momento, eu também sinto muito por isso." Retrucou no mesmo tom sarcástico, segurando-se para não revirar os olhos e voltando a guardar a faca no bolso. Já previa o jogo de sarcasmo em que continuariam a partir dali e se pegou imaginando qual seria o melhor momento para se atirar da janela do primeiro andar. Pena que a altura só era suficiente para quebrar alguns ossos. "Não a melhor fama do mundo, mas em algum momento vão encontrar um cartaz meu de 'procurada' por aí." Comentou normalmente, como se fosse algo muito comum ter várias pessoas não indo com a sua cara. Tranquilo.
Continuou a encher a mochila com os alimentos que já pretendia pegar antes da garota chegar, olhando-a de lado ao ouvir sua pergunta. "Até que me importo, mas não é como se eu fosse te atirar no chão e te socar por umas latas de comida, mesmo porque já tô ocupando minhas mãos." Disse com falsa seriedade ao erguer ambas as mãos com latas, afastando para dar espaço para a menina, provavelmente com uma idade bem próxima a sua. "Vai em frente aí." Guardou suas coisas, pegando sua própria garrafa d'água e encostando-se na bancada da pia. "Temos todo um banquete à nossa disposição."
cdarel:
Darel semicerrou os olhos quando começou a distinguir que forma era aquela. Era uma garota, com certeza não passava de seus vinte e cinco anos, no máximo. Notou que ela estava assustada e sabia que a arma continuava na mesma altura. Poderia facilmente puxar o gatilho. Mas, por quê? Balançou a cabeça, desnorteado pela intensidade de seus pensamentos e da carga negativa que vinha com eles, perdendo então a pose de atirador e abaixando a arma. Não tinha motivos para não ajudá-la, também. — Está bem. Suba. Tem uma escada na lateral, vou te cobrir. — Apontou com a arma para o local, se afastando um pouco do parapeito.
Não conseguiu conter o suspiro aliviado ao ver o rapaz abaixar a arma e se permitiu abaixar os próprios braços, pelo menos daquela vez conseguiria sair viva. Não duvidava que alguma das pessoas as quais a garota já irritara tinham vontade de matá-la, mas aquele rapaz mal tivera tempo para isso. Ainda bem. "Jesus, obrigada. Quero dizer, obrigada a você também. Mas se o seu nome for Jesus, também não tem nenhum problema." Disse atrapalhada, antes de seguir até onde o rapaz indicava, tratando de subir rapidamente para sair dali. "Eu te daria um abraço de agradecimento, mas não sou muito disso e nem sei se você, então vamos fingir que eu te dei um só para não parecer que sou mal agradecida."
thisisnotwonderland--alice:
“ — O fogo, a grade caindo, as pessoas se desesperando e os militares sem fazer nada. Alice viu sua única esperança de preservar Savannah ir se destruindo como se visse uma tela de cinema com um filme passando em câmera lenta. Uns ainda tentavam ajudar, outros corriam sem saber para onde ir, outros ainda recorriam à ela mas ela não respondia. Alice não tinha mais nada. Se lembrou da primeira vez que tivera contato com a epidemia. Sua mãe debruçada sobre a sua avó que tentou mandá-la correr mesmo com Millicente arrancando suas entranhas. Viu a mulher morrer e o avô morto. E então era a sua vez. Como teria sido se acaso não tivesse lutado? Não tivesse atirado? Teria sido devorada também. Até a morte? Ou ainda teria sobrado de Alice o suficiente para virar um daqueles monstros que agora comiam as pessoas bem diante dos seus olhos? Sentia falta de ar. As lágrimas desciam por seus bochechas enquanto ela observava o mundo cair a sua volta. Tinha um dever para com Savannah. Havia jurado protegê-la mas não havia conseguido nada e ali, quando mais precisavam dela, Alice finalmente caiu no abismo. O ataque de pânico paralisou a garota. Alguém havia lhe arrastado mas ela não viu quem era e agora estava dentro de uma sala pequena com a porta fechada enquanto podia ouvir lá fora os gritos das pessoas, os tiros, o desespero. Não sabia quanto tempo passou ali, mas agora estava tudo calmo. Ela tinha sangue nas roupas e na pele, mas não era dela. Em que momento havia parado de ajudar as pessoas? Quando foi que sua voz se calou para deixar o caos fazer a trilha sonora daquela cena deplorável? Ela não se lembrava. Era como se tudo tivesse sido apagado de sua mente e só restasse a certeza de que não havia mais pelo que lutar. Encolhida no chão, Alice abraçava os joelhos e se balançava, sentindo o ar difícil de chegar aos pulmões e as bochechas molhadas ainda de lágrimas que aos poucos iam secando. Não sabia mais o que fazer, se devia correr ou ficar ali. Se verificava o que tinha acontecido e o que tinha sobrado. Nem mesmo o barulho da porta se abrindo fez com que ela se movesse. Não importava. Fosse uma pessoa ou um zumbi, ela não ligava e sinceramente? Ela preferia que fosse um zumbi e finalmente tudo aquilo acabaria de vez. ”
Se fosse mais religiosa, definitivamente teria acreditado estar no próprio inferno, porque duvidava que fosse muito diferente daquilo. A cidade tornara-se um verdadeiro caos, podia ver o desespero geral, os gritos, a correria. Gravou uns poucos minutos do que estava acontecendo, apenas por questões de registro, enfiando a câmera rapidamente na mochila e armando-se com sua única faca. Daisy estava assustada, claro que estava, podia sentir seu sangue gelar e sua única vontade verdadeira era de gritar e chorar agoniada, no entanto, não foi para isso que viajara tanto. Se fosse para desistir, teria feito isso ainda em Nova York, antes mesmo da merda que fez. Poderia simplesmente ter se juntado ao irmão. Poderia ter aceitado o fim ali mesmo. Aquela era justamente a prova de que ainda não poderia ceder ao seu desejo distante: mesmo que a vida estivesse uma merda, a garota sempre lutou para permanecer viva. Todos têm o instinto de sobrevivência, afinal.
Podia ser uma droga de assassina — sempre faria questão de reforçar isso —, mas sabia dar seu jeito. Aproximou-se vagarosamente de um dos zumbis que caminhavam mais solitários, cravando a faca em sua cabeça sem a mínima hesitação. Estava ali sua camuflagem. A criatura era magrela e menor que a morena, então não foi tão complicado sair arrastando-a por aí, o cheiro podre de carniça camuflando o seu enquanto procurava por um lugar seguro onde pudesse ficar ao menos por algumas horas. Adentrou num lugar aparentemente calmo — tendo deixado o zumbi acompanhante na entrada —, abrindo uma das portas em seguida. Foi então que deparou-se com uma cena que não poderia dizer ser chocante, dada a situação, mas que ainda assim fechou sua garganta. A Daisy do passado palpitava dentro de si, conhecia bem o que estava havendo ali, não pensando duas vezes antes de sentar-se ao lado da desconhecida. "Ei. Ei. Tá tudo bem agora." Disse com a voz baixinha, tentando passar calma para a outra, aproximando-se mais de forma a tentar abraçá-la, ainda que pudesse ser rejeitada. Sabia que um abraço forte e silencioso sempre ajudava a normalizar a respiração depois de um tempo, fizera isso diversas vezes — tanto com o irmão mais novo, quanto com sua melhor amiga. "Conte até vinte e tenta respirar mais devagar. Você vai aguentar isso, okay?"
Essa parte era fácil e realmente familiar. Puxar o gatilho, trocar o pente, começar de novo. Matar – se é que essas coisas já não estavam mortas – era quase tranquilo, já que se encontrava acima de um supermercado saqueado e também não tinha uma horda desenfreada tentando atacá-lo. Eram só alguns aqui e ali, basicamente andarilhos sem vida e só coordenação motora básica. Atirou bem no centro da testa do último, e então notou uma movimentação incomum. Alguém – certamente não seria uma dessas coisas – estava correndo em sua direção. Darel não sabia do que se tratava, normalmente dispararia primeiro e faria perguntas depois, mas a curiosidade venceu sua precaução, fazendo-o abaixar a arma, sem sair da posição.— Mais um passo e pode dar adeus à sua massa cinzenta. — Gritou de forma clara, preparando-se para atirar.
Já era fato que a morena era uma das assassinas mais terríveis que já andou por aquelas terras — não, isso não queria dizer que realizava assassinatos brutais e horrendos, e sim que ela não conseguiria matar uma horda de zumbis nem num jogo de videogame. Tal conclusão tinha como consequência uma Daisy que fugiria dos seres andantes na primeira oportunidade, não seria ela a dar uma de heroína e aplicar golpes e facadas em qualquer criatura por perto. Já estava em mais uma das suas missões de fuga de outra horda, quando os tiros começaram de repente. "Ai, caralho!" Soltou sem pensar, jogando-se no chão e cobrindo a cabeça com a mochila, apertando os olhos e torcendo para que não fossem os militares loucos. Considerando sua desorientação, não fazia ideia de onde partiram os tiros, então assim que eles cessaram, a menina tratou de correr. Digamos que sua corrida não durou segundos, tomando um susto ao ver o homem segurando uma arma, erguendo os braços em seguida. "Olha, eu sei que eu não tenho muita massa cinzenta, mas eu gostaria de permanecer com a pouca que eu tenho, se não for muito trabalho."
peace, why so rare? || daisy & ravena
Honestamente, Daisy estava tendo uma relação conflituosa com aquela vida de player 1 solitário na realidade apocalíptica. Gostava de trabalhar sozinha e etc, mas pelos deuses, já estava com preguiça de ir atrás de tudo o tempo todo. Procurar água, procurar comida, procurar lugar para dormir, procurar algo para procurar. Um saco. Não nasceu para ser protagonista de videogame que faz tudo na solidão e do melhor jeito possível, aceitaria tranquilamente alguém fazendo tudo por ela. No entanto, não confiava em ninguém para tal. Considerando sua falta de confiança na população mundial, lá estava a menina em mais uma jornada atrás de coisas que lhe pudessem ser úteis, além de, claro, uns enlatados para acrescentar à sua coleção — comida de lata fria, que banquete! —, uma busca realmente empolgante.
Tendo invadido mais uma casa — estava se tornando uma expert em quebrar janelas —, adentrou facilmente no local e foi direto para a cozinha, abrindo os armários como se fosse seu próprio lar. Com a faca no bolso, não hesitou em puxá-la ao ouvir um barulho. "Mas será possível que eu nunca consigo ficar num lugar sozinha?" Praguejou para si mesma quando a figura feminina entrou em seu campo de visão. "Sério, de tantos lugares abandonados você tinha que escolher logo esse? Só podem ter feito propaganda de mim por aí."
“ —— Sei como é, eu sempre tentava pegar o último pedaço de bolo que a mamãe fazia mas ai meu pai acordava e me pegava no pulo. Parecia até que ele sabia. — contou a memória que tinha da família. Pensar neles agora só o fazia sentir dor. A última vez que havia visto a família já faziam dois meses. Sua mãe havia sido pega pelos bichos e o pai havia mandado que corresse para o mais longe possível. Para o lugar mais seguro que conseguisse achar. Depois disso nunca mais o viu e então eram apenas ele e a irmã mais nova tentando sobreviver naquele mundo do qual não faziam parte. Athos partia da ideia de que talvez, aquele mundo já não fosse mais dos humanos e a realidade era que agora o mundo era dos zumbis. Bem, eram sempre os vivos quem estavam correndo e se escondendo, sobrevivendo, roubando, matando e fazendo o que fosse possível para que não se tornasse mais um devorador de pessoas. Sortudos eram os que simplesmente haviam virado e pronto. Já não tinham mais que se preocupar com essas coisas.
Deu de ombros, era fato que agora as coisas não funcionavam mais da mesma forma. As leis não eram mais as mesmas, porque não haviam mais pessoas para cobrá-las e eram apenas as morais que separavam as pessoas boas das más. Na realidade, talvez, já não existissem mais pessoas boas e apenas aquelas que ainda não haviam sido corrompidas. Athos sabia que faria de tudo para se manter vivo assim como a irmã e sabia que haviam pessoas que fariam o mesmo que ele e talvez pior. —— Tudo bem, eu costumo ser um bosta com todo mundo. Alguém tinha que me dar o troco em algum momento. São só chocolates, não vou brigar por isso. E sabe-se lá quando veremos chocolates de novo. — deu de ombros, especulando que aquela bem poderia ser o último dia que poderiam usufruir da guloseima. —— Sei como é, sou de lá também. As coisas ficaram bastante feias. — ainda tinha pesadelos com a cidade. Com os zumbis todos e com tudo que havia visto. Coisas que adorava nos vídeo-games e agora preferia nunca ter tido qualquer contato. Esticou a mão, pegando algumas batatinhas do saco da garota. Não podia negar sua própria fome, levando em consideração que seu foco principal era a irmã mais nova, Athos as vezes se esquecia de si próprio. —— Está. Acho que de todos nós, ela é a melhor no momento.
Escutar a história do garoto poderia iludir Daisy ainda que por alguns segundos de que não estavam vivendo num caos, lembrar do passado poderia ser reconfortante, mas, infelizmente, doloroso depois de pouco tempo. Queria pensar que ainda poderia voltar para os pais e para o irmão, o problema é que, mesmo que aquele inferno chegasse ao fim, ela própria estragara qualquer possibilidade de reunião familiar. Seria mais fácil se todos morressem. "Eles sempre sabem de tudo. Pais parecem ser metidos com bruxaria quando se trata dos filhos. Nunca consegui ser uma boa mentirosa com os meus." Brincou com um pequeno sorriso no rosto, uma onda nostálgica passando por sua mente antes de se dar conta do que estava fazendo e fechar os olhos por instantes, tentando esquecer — ou pelo menos deixar de lado momentaneamente — qualquer memória com a família que pudesse deixá-la pra baixo. Não tinha mais espaço em sua vida para verdadeira tristeza.
"Bem-vindo ao clube dos bostas então, você está falando diretamente com a fundadora dele. Temos reuniões semanais onde discutimos novos jeitos de ser bosta com alguém. E servimos salgadinhos no lanche." Respondeu irônica enquanto comia para evitar que algum clima desconfortável se instalasse ali. Detestava ficar calada e deixar qualquer momento estranho, então era sempre mais provável que terminasse falando besteiras pelos cotovelos. "Nem me fale. Aqui é um paraíso em comparação a Nova York, aquele lugar virou um inferno. Ainda bem que você me entende, a maioria das pessoas não sabem o tamanho da merda por lá. O que me lembra que a gente não deve confiar muito nos militares daqui, a propósito." Comentou séria, considerando que ainda não tinha tido a chance de falar com ninguém sobre aquele assunto. Não era como se fosse começar a bater papo com um vendedor de conveniência de estrada. "Ela tem sorte de não entender o que tá acontecendo. É bem melhor assim." Concordou com o garoto, antes de lembrar de uma coisa. "Já volto, um instante." Disse rapidamente, antes de procurar por uma seção específica, voltando cheia de potinhos de papinha na mão. "Uma hora ela vai sentir mais fome e só o leite não vai dar conta, então é melhor pegar isso aqui enquanto ainda tem. As de maçã são as melhores, acredite em mim. Nunca prove as de ameixa, vai ser o arrependimento da sua vida, sem falar que ela também não merece comer algo tão ruim."
what the hell do you think you're doing? || daisy & abel
secondxdashwood:
Toda aquela situação deslizava por vias enfadonhas em demasia; O aborrecimento fazia-se claro aos traços do mais jovem dos Dashwood, que pouco se esforçava para conter as ações tingidas pela mesma característica. Compreendia, ao âmago de sua psique, que as circunstâncias eram mais do que suficientes para altear os lados negativos de cada um; Mas, em contrapartida, via-se inábil em simplesmente relevar cada uma das palavras que lhe eram dirigidas - afinal, ele próprio também passava pelas mesmas conjunturas em estresse, que destacavam as facetas menos agradáveis de seus agires.
E era justamente sobre tal patamar que se encontrava na lida com aquela que até então desconhecia por completo; A troca pouco velada de insultos desnecessários fazia-se mais do que suficiente para atiçar a irritação que, aos últimos dias, queimava ininterruptamente sob a própria tez. ‘ Sinceramente, eu não me surpreenderia se fosse verdade ao julgar pelo seu comportamento bizarro. … E número um, sério? Quantos anos você tem? Doze? ’ Replicar fez-se como algo automático para Abel, que pouco se encontrava em vias de controlar o humor tingido pelos dias em desgaste físico e emocional. ‘ Uma arma mortal que, atualmente, é muito mais útil e valiosa do que o pedaço de lixo que tem nas mãos. E, não sei se permaneceu enfiada em uma toca de coelho pelos últimos dias, mas não existe mais mocinhos ou bandidos por aqui. ’
O rolar dos olhos âmbar antecedeu um grunhido descontente ao ter a própria altura mais uma vez em uso provocativo; A jovem não era a primeira a apontar o óbvio, e tampouco seria a última a fazê-lo mesmo em meio ao caos apocalíptico. O Dashwood, todavia, cansava-se de ter a característica física apontada por quase todos que o cercavam - ainda que fosse um silencioso apreciador da própria estatura. ‘ Ou talvez deva escolher algo como ‘ O Hobbit ’, já que você vai poder protagonizar de qualquer jeito. ’ Rebateu mais uma vez, só então vindo a atentar-se para a infantilidade de toda a situação. ‘ Quer saber? Fique ai, com sua câmera e morra sozinha com sua própria estupidez. I don’t care. ’ Decretou, enfim, antes de girar sobre o próprio eixo e afastar-se do local onde até então lidava com a mais jovem. ‘ Mas tem uma horda de andantes nos arredores, então aconselho que ao menos seja um pouco mais inteligente em tentar se esconder. ’
Para um observador, aquela discussão já teria deixado de ser séria há muito tempo, o ar cômico dos tópicos em questão eliminavam qualquer noção verdadeira de briga. Todavia, tanto Daisy quanto o gigante desconhecido pareciam realmente envolvidos na disputa acirrada de ironias, ninguém saberia dizer qual dos dois cederia primeiro. E bem, considerando que fora a menina a começar com os comentários sarcásticos, nada mais justo continuar com estes, não seria ela a desistir do debate. Seus pais jamais reconheceriam a filha se portando de tal maneira, era de fato uma completa estranha, mas não podia se apegar a quem era no passado. Aquela realidade não fora feita para pessoas gentis ou altruístas, sua defesa era justamente o sarcasmo.
"Ah tá, porque não é nada bizarro ouvir alguém falando num arbusto e resolver vir dar um olá. Um andante falante é que não seria." Comentou fazendo pouco caso, apoiando o queixo nas duas mãos enquanto ainda estava sentada no chão. Qualquer pessoa já teria se levantado de forma a discutir numa altura mais justa, a morena, no entanto, estava se divertindo em olhar para o alto durante a conversa e permanecer confortável no chão. "Então, eu estava tentando ser educada, meus pais me ensinaram que não é legal dizer 'mijar' e 'cagar' na frente de estranhos. Mas tudo bem, eu mijo de calças, se isso faz alguma diferença." Deu de ombros e poderia dizer que até ela mesma já estava com vontade de rir àquela altura do campeonato. "Considerando que esse é o lixo que eu sei usar, nós só estamos usando algo em que somos bons. Tudo bem que eu não poderia matar nada com uma câmera, mas com um arco e flecha eu também não faria muita diferença. Pelo menos com a filmadora eu registro alguma coisa. Com o arco e flecha, eu só morro mesmo." Admitiu o próprio pensamento desde o início, ela não era uma máquina de matar ambulante, de qualquer forma, então que pelo menos tentasse fazer algo útil para o futuro.
"Seria um ótimo crossover, na verdade! O Hobbit: Seres Gigantes e Onde Habitam. Você pode protagonizar também, eu não sou ciumenta com o número de aparições." Brincou e tinha certeza de que a qualquer momento o rapaz daria-lhe as costas e ficaria por isso mesmo. Sua teoria se confirmou, só tinha um problema: não esperava pela informação das criaturas estranhas nos arredores. Se já era terrível lidando com um apenas, com uma horda já poderia escrever seu próprio atestado de óbito e guardar no bolso enquanto esperava a morte chegar. Detestava admitir, mas não podia ficar sozinha naquele lugar. Hora de dar seus pulos, pensou Daisy. Levantou-se rapidamente, tratando de andar ao lado do desconhecido como se nada tivesse acontecido. "Mas ei, Gigante, então quer dizer que você sabe mesmo usar essa coisa?" Disse apontando para o arco e flecha. Ele não seria capaz de empurrá-la pro lado num daqueles arbustos, seria? (Ok, a quem estava querendo enganar? Qualquer pessoa a empurraria ali). "A única arma a distância que eu saberia usar seria um dardo. E de plástico. Não sou um Hobbit muito talentoso."
DAISY ELIZABETH WILLIAMS | DEZOITO ANOS | HAILEE STEINFELD
BIOGRAFIA
Desde criança, Daisy parecia fazer perfeito jus ao seu nome: tão delicada quanto a flor a qual a batizaram. Mesmo nascida em Nova York, o estresse da cidade grande pouco afetou sua personalidade e seu modo de agir com o passar dos anos. Era simpática e gentil — talvez uma das únicas nova-iorquinas que ainda se dava ao trabalho de pedir perdão ao esbarrar em alguém —, sendo motivo de orgulho para os pais tão corujas, que não deixaram de lhe dar atenção nem mesmo com o nascimento do caçula, Daniel. A menina sempre adorou o irmãozinho.
A primogênita dos Williams era do tipo de pessoa que sabia exatamente como seu futuro deveria ser, planejava tudo nos mínimos detalhes como se a vida fosse simples assim. Pretendia deixar o amadorismo dos seus vídeos caseiros de lado, estudar Cinema em Columbia, trabalhar para um dos Seis Grandes de Hollywood e, quem sabe, conhecer o amor da sua vida durante o percurso. Sonhos adolescentes que ninguém condena a existência, mas que muita gente sabe não ser algo fácil de alcançar. Para Daisy, seu sonho não seria impossível.
Bom, a garota não imaginava o quão impossível ele se tornaria dentro de poucos dias.
Um estrondo na porta da frente. Estudava quieta em seu quarto, esperando seu irmão chegar do treino de basquete com seus amigos, então provavelmente aquele barulho era só o grupo de Daniel fazendo alguma brincadeira enquanto aguardavam a morena abrir a porta. Desceu as escadas ainda de pijamas — sim, ela adorava usar pijamas quando estava em casa — e abriu a porta despreocupada, sem sequer questionar quem estava do outro lado. Não estava enganada quanto a quem era, só havia um problema: seu irmão não estava num estado normal. Sua aparência era estranha. Ele estava fora de si.
As tentativas de chamá-lo pelo nome eram inúteis, ele não respondia, e continuava a avançar na direção de Daisy. Ela correu, procurando pelo telefone para ligar para os pais, mas quanto mais apressada ela procurava, mais difícil era achar. Jogava livros no garoto e gritava com ele para que se afastasse, porém nada adiantava. Quando Daniel chegou numa distância próxima até demais, a mais velha entrou em pânico. Agarrou o troféu da olimpíada de matemática do irmão — exposto na sala junto de porta-retratos — e, sem minimamente pensar, bateu na cabeça dele. A questão é que, com toda a adrenalina, não houve como medir a força da pancada. Daisy, em pura agonia, terminou por cravar o troféu na cabeça do caçula. Imediatamente este aquietou-se, caindo ao chão e deixando, lentamente, uma poça de sangue no local.
Foi então que Daisy Williams se deu conta do que fez. Ela matou o próprio irmão.
O pânico que sentira com a perseguição de minutos atrás não era nada comparado ao pânico que sentia naquele momento. Acabara com a vida de Daniel. O caçulinha que tanto amava. Tornara-se uma assassina. Tinha sangue do seu sangue em suas mãos.
Inconformada com o que fizera, a morena não viu outra alternativa a não ser fugir de casa. Jamais poderia lidar com a reação de seu pai e de sua mãe ao descobrirem que perderam o filho mais novo, ao descobrirem o tipo de pessoa que a mais velha se tornara. Pegou uma mochila, enfiou nela sua câmera, roupas e o máximo de comida que pôde — além de todo o dinheiro que encontrou na casa —, preparando-se para ir embora. Achava que havia pego tudo, mas completou a bagagem com um adendo: uma faca. Já era uma droga de pessoa, proteger-se de perigos afora não seria grande coisa. Não era mais a criança delicada que pensava ser até aquele momento.
Foi então que, ao descobrir o que estava realmente acontecendo em Nova York e vendo-se sem ter para onde ir, ouviu falar sobre Savannah. Sozinha e perdida, demorou semanas para chegar, mas esperava que o longo caminho tivesse valido a pena.
what the hell do you think you're doing? || daisy & abel
secondxdashwood:
Os movimentos em cautela agora faziam parte da rotina estabelecida por Abel ao decorrer do caos que parecia perpétuo; O atrair das criaturas as quais poderiam eliminar o existir por sobre a terra era deveras simples, e todo era pouco em prol de evitar surpresas desagradáveis, que poderiam facilmente significar não só a própria sina, mas também o perecer daqueles com os quais indiscutivelmente se importava. Tal era a razão que levava Abel a movimentar-se ao mais absoluto silêncio por entre a relva que se fazia aos arredores de Savannah, atraído pelo farfalhar de movimentos que não o pertenciam.
O arco jazia-lhe firme por entre os dígitos, a flecha habilmente posicionada contra a corda tensa em uma prevenção que lhe pouparia incontáveis segundos caso viesse a se deparar com um andante por entre suas buscas; E fora então que o aparente conversar lhe adentrou aos ouvidos. O cenho se franziu levemente ao que o estancar dos próprios movimentos se dava no decorrer de um segundo, apenas para que pudesse atentar-se fronte a origem da voz - que, por sorte ou não, fazia próxima a si. Alguns breves passos e o reposicionar brusco de um dor arbustos foi mais do que suficiente para que o Dashwood tivesse a mais jovem em seu campo de visão, aparentemente sozinha. O rolar dos olhos se fez de maneira automática ante as reclamações dirigidas a si, a tensão de seu corpo sendo automaticamente substituída pelo imperceptível alívio em deparar-se com a desconhecida - ainda que suas atitudes em nada lhe caíssem ao agrado.
‘ Pois é, coitado… Mas aparentemente esse não é seu caso, a não ser que sofra de uma curiosa condição onde só consegue esvaziar a bexiga enquanto fala sozinha. ’ Rebateu em maneira imediata, sem que encontrasse em si vontade para restringir os dizeres aborrecidos para com os alheios. ‘ O que infernos você está fazendo? Fazendo amizade com as plantas, batendo um papo com Deus, tentando chamar mais andantes pra perto ou só exercendo seu papel de esquisita mesmo? ’ Continuou, antes de menear a cabeça em uma leve negação ao que os braços se cruzavam fronte ao próprio corpo.
Daisy Williams tinha em mente que pouco podia fazer para ajudar quem quer que fosse naquele universo apocalíptico mais parecido com alguma ficção de livros. Sabia que sair por aí bancando a badass assassina de seres estranhos nunca daria certo, provavelmente badass assassina seria a própria criatura quando estivesse a comendo viva. Trazia uma faca na própria mochila — pelo menos podia se gabar desta estar afiada para os agora não futuros churrascos em sua casa —, no entanto, não era como se aquilo fosse o suficiente para se tornar uma assassina em série profissional. Era apenas em caso de emergência, como diria sua mãe nos momentos de obrigá-la a levar um casaco consigo onde quer que fosse, a situação era só um pouco diferente daquela vez. Como podia ser possível que em tão pouco tempo a emergência na vida de Daisy tenha deixado de ser uma onda de frio repentina para alguém tentando matá-la? Impressionante comparar a vida que levava com a que se encontrava atualmente.
A verdade é que, tendo em mente sua incapacidade de matar sem morrer junto, achava de extrema importância o registro dos acontecimentos de sua nova realidade — era sua forma de tentar ajudar de alguma maneira. Se o mundo manteve na memória diários como o de Anne Frank após a Segunda Guerra Mundial, escritos e gravações do terror que agora viviam também poderiam vir a ser relevantes no futuro. As futuras gerações precisavam saber daquela tragédia, ainda que esquecer de tudo parecesse uma boa opção.
Tendo tudo isso em mente iniciara seu documentário amador, infelizmente com uma reviravolta inusitada nos primeiros segundos do longa. Ter o esconderijo descoberto não era parte de seus planos e, claramente, o rapaz não se importava muito quanto a isso. "Sim, eu tenho uma condição em que só consigo fazer o número um enquanto falo, fico deitada no chão e, bem... continuo de calças. Já fui ao médico, não tem cura." Fingiu um ar desolado, continuando o jogo de ironias, não seria ela a ficar calada escutando um estranho retrucá-la. "Interessante você perguntar! Eu estava tentando chamar mais andantes, pensei se não seria uma boa entrevistá-los em primeira mão!" Respondeu com falsa animação, revirando os olhos enquanto sentava-se no chão, considerando a qualidade da pergunta a qual tivera de ouvir. Não entendia bem o que estava acontecendo naquela cena, mas ainda não tinha pretendia parar. "E você com essa arma mortal aí? Vamos fazer um duelo arco e flecha versus câmera? Garanto que você não vai sair como o mocinho." Balançou o aparelho de filmagem na própria mão, finalmente mostrando sua verdadeira intenção em estar ali. "Talvez eu mude o tema do documentário para: Seres Gigantes e Onde Habitam."
what the hell do you think you're doing? || daisy & abel
Desde que chegara em Savannah, Daisy ainda não havia conseguido colocar as mãos em sua câmera. Sabia que precisava gravar mais da cidade se quisesse o seu futuro documentário com detalhes importantes — aquela ideia era a sua aposta de ter um melhor portfólio na universidade quando o caos chegasse ao fim —, mas não achava uma boa ideia substituir a faca por uma filmadora quando entrasse na cidade. Ficaria muito vulnerável e ainda poderiam roubar-lhe seu precioso equipamento, mesmo que amador, coisa que ela não queria nem em seu pior pesadelo. Era aquela coisinha que ainda a fazia lembrar de sua antiga vida, seu pequeno pedaço da outra realidade em que vivia.
Tentava procurar um lugar onde pudesse começar a gravar, quando achou uma grande quantidade de arbustos em uma casa abandonada. Podia dizer que mesmo antes do surto, aquele local já precisava de um jardineiro há meses, era impressionante como estava descuidada. Tratou de esconder-se bem entre as plantas, deitando-se de bruços no gramado, para garantir que ninguém pudesse notá-la. Virou a câmera para o próprio rosto, preparando-se para gravar. "Daisy Williams falando. Estamos em 2017 e esse é o meu segundo dia aqui em Savannah." Seu tom de voz era baixo, mas ainda limpo o suficiente para que pudesse ser ouvido na gravação. Estava ansiosa para o seu próprio documentário. "Os militares já chegaram e..." Não teve tempo de concluir a frase, pois logo os arbustos foram afastados e expuseram seu esconderijo, fazendo com que a menina tomasse um susto e virasse de costas para a grama. "Mas que merda?!" Reclamou em voz alta, antes de perceber a figura de uns bons dois metros de altura a observando lá de cima. "Coitado de quem precisa fazer xixi perto de você, hein?"
“ — Athos ficou observando a cena da menina enquanto ela lutava com os salgadinhos. Aparentemente, salgadinhos eram coisas mais difíceis e perigosas de lidar do que zumbis. O que era no mínimo cômico. Aproveitando da situação, ele se abaixou para pegar um pacote que estava em seus pés, mesmo que ela houvesse lhe avisado para manter-se longe das guloseimas. Acontecia que ele duvidava que ela iria brigar porque aquele saco de salgadinhos quando tinha tantos outros para lidar. No entanto não o abriu naquele instante, o jogou dentro da mochila para mais tarde, junto com todas as outras coisas de bebê que até aquele momento eram as únicas coisas qual Athos havia se preocupado em pegar. —— Pode ficar com o restante dos salgadinhos, só quero esse aqui. Dá próxima vez, acho melhor não fazer tanto barulho assim, sabe? Essas cosas ouvem e vem até nós e ai você sabe o que acontecesse. — ele disse, dando de ombros enquanto ajeitava a criança de seis meses contra o seu corpo, mantendo ela segura contra o seu corpo, sempre checando se ela poderia ou não acabar caindo. Por mais tempo que houvesse passado cuidado da criança sozinho, haviam coisas quais Athos ainda não tinha se acostumado muito bem.
—— Bem, veja o lado bom, não vai precisar organizar isso nem pagar. — comentou, enquanto ia até a prateleira da frente e pegava uma barra de chocolate, algumas regalias que ele gostaria de se permitir mesmo no fim do mundo. —— Você quer? Não sou egoísta a ponto de dominar uma prateleira inteira. — brincou, oferecendo para ela uma das barras enquanto jogava a sua na própria mochila, decidindo e levava mais de um ou se só aquele estava de bom tamanho por enquanto.
Ficou quieta enquanto fitava o garoto pegar um dos pacotes, ele provavelmente estava rindo dela internamente com aquele papo supostamente ameaçador. A morena até tentara soar séria, mas estava meio óbvio que não seria capaz de brigar por tantos pacotes, tinha uma mochila nas costas para carregar a comida, não uma mala inteira vazia aguardando pela feira do mês. Soltou um suspiro ao ouvi-lo, tinha sido idiota em tratá-lo daquele jeito mal-educado, mas não era mais como se pensasse muito em suas palavras antes de dizê-las, estava muito tensa com o mundo inteiro à sua volta para continuar a ser do jeito que era antes. Sabia que nem todo mundo a trataria de um jeito calmo como aquele garoto, então não podia se dar ao risco de agir com as pessoas como se todas elas fossem maravilhosas exceções. "Não consegui evitar... Foi como se eu estivesse em casa de novo tentando fazer meus pais não escutarem minhas idas noturnas à cozinha. Os pacotes de biscoito sempre me entregavam." Confessou, agora com um humor mais leve, já que o garoto realmente não parecia ser do tipo que atacaria de repente. "E acredite, eu sei bem o que acontece." Seu tom de voz era fraco e ela começou a colocar alguns salgadinhos na mochila como se o que tivesse acabado de dizer fosse apenas um comentário aleatório.
"Vendo por esse lado... vou me sentir um pouco menos culpada agora por esse desastre." Disse, observando a bagunça que estava o chão. Franziu a testa ao ver a barra de chocolate sendo-lhe estendida, olhando desta para o desconhecido. "Você não precisa ser legal comigo, acabei de ser bem bosta com você. E-e... desculpa por isso, a propósito. Não falei com muita gente desde... desde Nova York." Concluiu um tanto atrapalhada a última parte, porque o "desde" fazia respeito a um evento bem específico. Ainda desconcertada, aceitou o doce da mão do garoto, antes de pegar um dos salgadinhos e abrir o saco vagarosamente, oferecendo para ele após pegar um para si e jogar na boca. "Com fome? Acho que eu posso dividir esse daqui, considerando o meu mais novo império de batatinhas." Brincou. "Sua irmãzinha aí está okay?"
“ — Havia se cansado de bancar o bom garoto e ficar quieto no seu canto, obedecendo os comandos dos militares que não sabiam de nada. Demorou algum tempo, mas ele conseguiu sair. Sua teoria era que os homens estavam de olho nele porque ele havia vindo de fora e sabia das coisas. Coisas que aquela cidade ainda não sabia. Com Adhara presa a sua barriga pelo lenço que envolvia o corpinho miúdo da criança, segurando-a firme, ele caminhava pelas ruas com cautela, a adaga na mão e a outra preparada para pegar a arma. Tinha o mercado como objetivo e depois de algum tempo conseguiu achá-lo. Estava vazio e tinha a porta de vidro da frente quebrada. Se aquilo havia sido feito por civis ou militares ele não fazia ideia e nem se importava. Empurrou a porta com cuidado, entrando sorrateiramente, estudando o lugar até se dar conta que estava limpo. Primeiro, a seção de bebês. Pegou uma chupeta nova e jogou na mochila, uma mamadeira ainda embalada e um pacote pequeno de fraldas. Precisava achar um lugar só para si onde pudesse levar as coisas e manter seguras e guardadas para quando precisasse. Era a próxima coisa que faria. Estava na sessão de leite quando ouviu um barulho e se virou, pronto para atacar, mas era apenas uma pessoa. Ergueu as mãos em rendição, para não parecer ameaça —— Eu só estou pegando leite para a minha irmã! — avisou, esperando ser deixado em paz para continuar o que fazia. ”
Ainda estava consideravelmente perdida — certo, muito perdida — após as poucas horas de chegada em Savannah. Daisy tinha de admitir que esperava algo diferente do local: talvez uma atmosfera mais acolhedora do que a que se encontrava no momento: podia avistar os militares ao longe e, definitivamente, não foi para ficar sob custódia militar que cruzara tantos estados por tantas semanas. Recusava-se a receber ordens de quem quer que fosse dada a situação atual do país inteiro, então optou por permanecer longe da área restrita e ficar por sua conta e risco — pelo menos se morresse, não seria porque um militar resolveu dar-lhe um tiro no meio da testa.
Estava pronta para procurar uma casa vazia onde pudesse dormir, considerando que não deitava numa cama há semanas, quando pôde visualizar um mercado a poucos metros de distância. Consumira toda a comida de sua mochila, além de toda a que comprara ou roubara, durante o percurso de Nova York até ali, logo aquele mercado era a oportunidade perfeita de se reabastecer por mais alguns dias. Sua barriga roncou com simples o pensamento. Entrou de fininho, tentando fazer o mínimo de barulho possível, mas parece que sempre que se tenta fazer isso, o contrário acontece, e dessa vez não foi diferente. Foi só puxar um pacote de salgadinhos que vários vieram ao chão numa avalanche. "Droga!" Reclamou num sussurro, quando percebeu não estar sozinha. Tentou procurar pela faca em sua mochila, mas o estranho se adiantou e disse as primeiras palavras. "I-Irmã?" Ela perguntou, antes de notar a menininha junto a ele. Aquela mísera imagem já era o suficiente para fazer sua garganta fechar, mas pigarreou numa tentativa de disfarçar, fechando a própria mochila em seguida. "Eu, er... Certo. Você não vai ter uma concorrente nessa seção, pode ter certeza que eu não vou precisar de leite. Só fique longe dos salgadinhos, stranger. Minha propriedade. Cheguei primeiro desse lado do mercado."