“Falo das mulheres-nuvens e sou igual, qualquer vento me desmancha, me afasta.”
- As horas nuas - Lygia Fagundes Telles

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“Falo das mulheres-nuvens e sou igual, qualquer vento me desmancha, me afasta.”
- As horas nuas - Lygia Fagundes Telles
Antes do Baile Verde (1970) - Lygia Fagundes Telles.
Acabei de ler As Meninas da Lygia Fagundes Telles e preciso de tempo pra pensar.
...Já sinto falta de estar na cabeça de Lorena, Lia e Ana Turva, ler os pensamentos dessas três meninas (por que não mulheres?) me tornou mais consciente dos meus. Afinal, o que estaria transcrito nas páginas desse livro se fosse minha alma a ser dissecada?
❤️ Lygia Fagundes Telles
As Meninas, Lygia F. Telles
Breve sinopse (que não faz jus ao livro): Lygia F. Telles reúne três garotas universitárias em um pensionato durante a ditadura militar brasileira. Isso é tudo que possuem em comum, o lugar onde residem e o regime político em que se encontram, uma vez que estão em bolhas sócio-econômicas completamente diferentes e possuem, portanto, aspirações igualmente distintas. As meninas, Lorena, Ana Clara e Lia se entrelaçam através da convivência e pelo compartilhamento de problemas durante o período de greve da faculdade.
Tenho As Meninas da Lygia Telles desde 2017, deveria ter lido esse livro nesse mesmo ano para um vestibular paulista durante meu último ano do ensino médio e talvez eu tenha dito para minha professora de literatura que eu o li. A verdade é que não prestei o vestibular paulista e essa edição linda de capa dura (que foi um presente do meu irmão durante uma de suas viagens a São Paulo) ficou parada na minha estante até que uma amiga me convenceu a dar uma chance à Lygia (íntimas né).
O meu Eu três anos mais novo tinha ficado preso na citação “Os olhos, em verdade vos digo etc etc etc” do capítulo inicial e achado a narração por meio do fluxo de idéias extremamente confusa. Hoje, muitos livros mais tarde e, quem sabe, mais madura, me vi completamente apaixonada tanto por As Meninas quanto pelas meninas.
É um livro que de início pode causar certa estranheza pela forma como é narrado e pela honestidade que lida com certos temas, alguns deles ainda latentes no imaginário brasileiro, como falas e pensamentos abertamente racistas de uma das personagens, memórias que recontam abusos sexuais, violência doméstica, suicídio e homofobia sofridos através dos anos. É de fato uma leitura que requer atenção.
Vou deixar aqui um comentário da própria autora sobre as personagen: Sobre as personagens, Lygia Fagundes Telles n’O Estado de São Paulo em 1995: “As personagens são como vampiros, cravam os caninos na nossa jugular e quando amanhece, voltam aos seus sepulcros até eu anoiteça de novo. O fim do livro seria a pedra que ponho sobre esses visitantes. Definitivamente? Não. Um dia, de repete, com outro nome e outras feições e em outro tempo volta mascarada a mesma personagem, elas gostam da vida. Como nós”.
O que me atraiu no livro foi isso, as meninas (ainda me pergunto, por que não mulheres?) são reais, são humanas, estão vivas em nós e denunciam nossos pensamentos pré-concebidos, preconceituosos. Honestamente? Me via muito na figura escapista de Lorena “(...) que alegria quando fico aqui sozinha. Sozinha.”, na forma como acabou por se perder em sua própria bolha e em como o contexto da ditadura não podia ser percebido em sua rotina, fechada em si mesma, completamente distante do caos social. Então eu diria que acima de tudo foi uma leitura dolorosa, mas extremamente necessária.
As meninas - Lygia Fagundes Telles
Nota: 6
Tempo de leitura: Não anotei (279 páginas)
Lygia Fagundes Telles é uma senhorinha socialista de 97 anos que já ganhou o Prêmio Camões em 2005 e o Jabuti em quatro ocasiões (66, 74, 96 e 01). As meninas, seu terceiro romance, foi lançado em 1973 e ficou bem famosinho por ser a primeira obra publicada na época com descrição gráfica de métodos de tortura utilizados pela ditadura militar.
Ele acompanha a história de três universitárias em 1973, o único ponto em comum entre elas é o fato de morarem no mesmo pensionato. Apesar de terem personalidades completamente diferentes, Lorena, Lia e Ana Clara se complementam e formam um vínculo inesperado, mas muito forte que acaba influenciando profundamente a vida de todas elas.
O livro é escrito a partir da perspectiva das três personagens, e a autora não faz nenhum tipo de anúncio quando ela troca o ponto de vista, o que acaba fazendo com que o começo seja um pouco confuso, mas depois de poucas páginas já é fácil diferenciar, as personagens são muito diferentes e a autora adapta a forma de escrever pra refletir isso.
É impossível não se apegar ao trio, mesmo com os milhões de defeitos que elas tem, Lorena paranóica, Lia perdida e Ana Clara totalmente fora da casinha, porque é justamente o que faz com que elas pareçam reais. Além disso, diferente dos outros livros que li sobre a época da ditadura, o cenário político não é o foco principal do livro o que eu acho que acaba dando uma perspectiva diferente sobre como era o dia a dia da ditadura pra quem não estava necessariamente envolvido na luta.
Eu amei o estilo de escrita da Lygia (tô lendo Ciranda de Pedra agora e isso se confirma), o jeito como ela desenvolve a história e as personagens é perfeito. É um dos grandes livros da literatura nacional e achei um bom jeito de começar as obras da autora, recomendo pra todo mundo!
A estrutura da bolha de sabão
Era o que ele estudava. “A estrutura, quer dizer, a estrutura”, ele repetia e abria a mão branquíssima ao esboçar o gesto redondo. Eu ficava olhando seu gesto impreciso porque uma bolha de sabão é mesmo imprecisa, nem sólida nem líquida, nem realidade nem sonho. Película e oco. “A estrutura da bolha de sabão, compreende?” Não compreendia. Não tinha importância. Importante era o quintal da minha meninice com seus verdes canudos de mamoeiro, quando cortava os mais tenros, que sopravam as bolas maiores, mais perfeitas. Uma de cada vez. Amor calculado, porque na afobação o sopro desencadeava o processo e um delírio de cachos escorriam pelo canudo e vinham rebentar na minha boca, a espuma descendo pelo queixo. Molhando o peito. Então eu jogava longe canudo e caneca. Para recomeçar no dia seguinte, sim, as bolas de sabão. Mas e a estrutura? “A estrutura”, ele insistia. E seu gesto delgado de envolvimento e fuga parecia tocar mas guardava distância, cuidado, cuidadinho. Ô! a paciência. A paixão.
No escuro eu sentia essa paixão contornando sutilíssima meu corpo. Estou me espiritualizando, eu disse e ele riu fazendo fremir os dedos-asas, a mão distendida imitando libélula na superfície da água mas sem se comprometer com o fundo, divagações à flor da pele, ô! amor de ritual sem Sangue. Sem grito. Amor de transparências e membranas, condenado à ruptura.
Ainda fechei a janela para retê-la, mas com sua superfície que refletia tudo ela avançou cega contra o vidro. Milhares de olhos e não enxergava. Deixou um círculo de espuma. Foi simplesmente isso, pensei quando ele tomou a mulher pelo braço e perguntou: “Vocês já se conheciam?” Sabia muito bem que nunca tínhamos nos visto mas gostava dessas frases acolchoando situações, pessoas. Estávamos num bar e seus olhos de egípcia se retraíam apertados. A fumaça, pensei. Aumentavam e diminuíam até que se reduziram a dois riscos de lápis-lazúli e assim ficaram. A boca polpuda também se apertou, mesquinha. Tem boca à-toa, pensei. Artificiosamente sensual, à-toa. Mas como é que um homem como ele, um físico que estudava a estrutura das bolhas, podia amar uma mulher assim? Mistérios, eu disse e ele sorriu, nos divertíamos em dizer fragmentos de idéias, peças soltas de um jogo que jogávamos meio ao acaso, sem encaixe.
Convidaram-me e sentei, os joelhos de ambos encostados nos meus, a mesa pequena enfeixando copos e hálitos.
Me refugiei nos cubos de gelo amontoados no fundo do copo. cheguei a sugerir, ele podia estudar a estrutura do gelo, não era mais fácil? Mas ela queria fazer perguntas. Uma antiga amizade? Uma antiga amizade. Fomos colegas? Não, nos conhecemos numa praia, onde? Por aí, numa praia. Ah. Aos poucos o ciúme foi tomando forma e transbordando espesso como um licor azul-verde, de tom da pintura dos seus olhos. Escorreu pelas nossas roupas, empapou a toalha da mesa. pingou gota a gota. Usava um perfume adocicado. Veio a dor de cabeça: “Estou com dor de cabeça”, repetiu não sei quantas vezes. Uma dor fulgurante que começava na nuca e se irradiava até a testa, na altura das sobrancelhas. Empurrou o copo de uísque. “Fulgurante.” Empurrou para trás a cadeira e antes que empurrasse a mesa ele pediu a conta. Noutra ocasião a gente poderia se ver, de acordo? Sim, noutra ocasião, é evidente. Na rua, ele pensou em me beijar de leve, como sempre, mas ficou desamparado e eu o tranqüilizei.
Está bem, querido, está tudo bem, já entendi. Tomo um táxi, vá depressa! Quando me voltei, dobravam a esquina. Que palavras estariam dizendo enquanto dobravam a esquina? Fingi me interessar pela valise de plástico de xadrez vermelho, estava diante de uma vitrina de valises. Me vi pálida no vidro. Mas como era possível. Choro em casa. resolvi. “Em casa telefonei a um amigo, fomos jantar e ele concluiu que o meu cientista estava felicíssimo.
Felicíssimo, repeti quando no dia seguinte cedo ele telefonou para explicar. Cortei a explicação com o felicíssimo e lá do outro lado da linha senti-o rir como uma bolha de sabão seria capaz de rir. A única coisa inquietante era aquele ciúme. Mudei logo de assunto com o licoroso pressentimento de que ela ouvia na extensão, era mulher de ficar ouvindo na extensão. Enveredei para as amenidades, oh, o teatro. A poesia. Então ela desligou.
O segundo encontro foi numa exposição de pintura. No começo aquela cordialidade. A boca pródiga. Ele me puxou para ver um quadro de que tinha gostado muito. Não ficamos distantes dela nem cinco minutos. Quando voltamos, os olhos já estavam reduzidos aos dois riscos. Passou a mão na nuca Furtivamente acariciou a testa. Despedi-me antes da dor fulgurante. Vai virar sinusite, pensei. A sinusite do ciúme, bom nome para um quadro ou ensaio.
“Ele está doente, sabia? Aquele cara que estuda bolhas, não é seu amigo?” Em redor, a massa fervilhante de gente. Música. Calor. Quem é que está doente? Perguntei. Sabia perfeitamente que se tratava dele mas precisei perguntar de novo, é preciso perguntar uma, duas vezes para ouvir a mesma posta, que aquele cara, aquele que estuda essa frescura da bolha, não era meu amigo? Pois estava muito doente, quem contou foi a própria mulher, bonita, sem dúvida, mas um pouco sobre a grossa. Fora casada com um industrial meio fascista, que veio para cá com passaporte falso. Até a Interpol já estava avisada, durante a guerra se associou com um tipo que se dizia conde italiano mas não pastava de um contrabandista. Estendi a mão e agarrei seu braço porque a ramificação da conversa se alastrava pelas veredas, mal podia vislumbrar o desdobramento da raiz varando por entre pernas, sapatos, croquetes pisados, palitos, fugia pela escada na descida vertiginosa até a porta da rua. Espera! eu disse. Espera. Mas o que é que ele tem? Esse meu amigo. A bandeja de uísque oscilou perigosamente acima do nível das nossas cabeças. Os copos tilintaram na inclinação para a direita, para a esquerda, deslizando num só bloco na dança de um convés na tempestade. O que ele tinha? O homem bebeu metade do copo antes de responder, não sabia os detalhes e nem se interessara em saber, afinal, a única coisa gozada era um cara estudar a estrutura da bolha, mas que idéia! Tirei-lhe o copo e bebi devagar o resto do uísque com o cubo de gelo colado ao meu lábio, queimando. Não ele, meu Deus. Não ele, repeti. Embora grave, curiosamente minha voz varou todas as camadas do meu peito até tocar no fundo onde as pontas todas acabam por dar. que nome tinha? Esse fundo, perguntei e fiquei sorrindo para o homem e seu espanto. Expliquei-lhe que era o jogo que eu costumava jogar com ele, com esse meu amigo, o físico. O informante riu. “Juro que nunca pensei que fosse encontrar no mundo um cara que estudasse um troço desses”, resmungou, voltando-se rápido para apanhar mais dois copos na bandeja. ô! tão longe ia a bandeja e tudo o mais, fazia quanto tempo? “Me diga uma coisa, vocês não viveram juntos?”, lembrou-se o homem de perguntar. Peguei no ar o copo borrifando na tormenta. Estava nua na praia. Mais ou menos, respondi.
Mais ou menos, eu disse ao motorista que perguntou se eu sabia onde ficava essa rua. Tinha pensado em pedir notícias por telefone mas a extensão me travou. E agora ela abria a porta, bem-humorada. Contente de me ver? A mim?! Elogiou minha bolsa. Meu penteado despenteado. Nenhum sinal da sinusite. Mas daqui a pouco vai começar. Fulgurante.
“Foi mesmo um grande susto”, ela disse. “Mas passou! Ele está ótimo ou quase”, acrescentou levantando a voz. Do quarto ele poderia ouvir se quisesse. Não perguntei nada.
A casa. Aparentemente, não mudara, mas reparando melhor. tinha menos livros. Mais cheiros, flores de perfume ativo na jarra, óleos perfumados nos móveis. E seu próprio perfume. Objetos frívolos — os múltiplos — substituindo em profusão os únicos, aqueles que ficavam obscuros nas antigas prateleiras da estante. Examinei-a enquanto me mostrava um tapete que tecera nos dias em que ele ficou no hospital. E a fulgurante? Os olhos continuavam bem abertos, a boca descontraída. Ainda não.
“Você poderia ter se levantado, hem, meu amor? Mas anda muito mimado”, disse ela quando entramos no quarto.
E começou a contar muito satisfeita a história de um ladrão que entrara pelo porão da casa ao lado. “A casa da mãezinha”, acrescentou afagando os pés dele debaixo da manta de lã. Acordaram no meio da noite com o ladrão aos berros pedindo socorro com a mão na ratoeira, tinha ratos no porão e na véspera a mãezinha armara uma enorme ratoeira para pegar o rei de todos, lembra, amor?
O amor estava de chambre verde, recostado na coma cheia de almofadas. As mãos branquíssimas descansando entrelaçadas na altura do peito. Ao lado, um livro aberto e cujo título deixei para ler depois e não fiquei sabendo. Ele mostrou interesse pelo caso do ladrão mas estava distante do ladrão, de mim e dela. De quando em quando me olhava interrogativo, sugerindo lembranças mas eu sabia que era por delicadeza, sempre foi delicadíssimo. Atento e desligado. Onde? Onde estaria com seu chambre largo demais? Era devido àquelas dobras todas que fiquei com a impressão de que emagrecera? Duas vezes empalideceu, ficou quase lívido:
Comecei a sentir falia de alguma coisa, era do cigarro? Acendi um e ainda a sensação aflitiva de que alguma coisa faltava, mas o que estava errado ali? Na hora da pílula lilás ela foi buscar o copo d’água e então ele me olhou lá do seu mundo de estruturas. Bolhas. Por um momento relaxei completamente, “Jogar?” Rimos um para o outro.
“Engole, amor, engole”, pediu ela segurando-lhe a cabeça E voltou-se para mim: “Preciso ir aqui na casa da mãezinha e minha empregada está fora. você não se importaria em ficar mais um pouco? Não demoro muito, a casa é ao lado”, acrescentou. Ofereceu-me uísque, não queria mesmo? Se quisesse, estava tudo na copa, uísque, gelo, ficasse à vontade. O telefone tocando será que eu podia?…
Saiu e fechou a porta. Fechou-nos. Então descobri o que estava faltando, ô! Deus. Agora eu sabia que ele ia morrer.
Lygia Fagundes Telles
Os objetos
Finalmente pousou o olhar no globo de vidro e estendeu a mão. — Tão transparente. Parece uma bolha de sabão, mas sem aquele colorido de bolha refletindo a janela, tinha sempre uma janela nas bolhas que eu soprava. O melhor canudo era o de mamoeiro. Você também não brincava com bolhas? Hein, Lorena? Ela esticou entre os dedos um longo fio de linha vermelha preso à agulha. Deu um nó na extremidade da linha e, com a ponta da agulha, espetou uma conta da caixinha aninhada no regaço. Enfiava um colar. — Que foi? Como não viesse a resposta, levantou a cabeça. Ele abria a boca, tentando cravar os dentes na bola de vidro. Mas os dentes resvalavam, produzindo o som fragmentado de pequenas castanholas. — Cuidado, querido, você vai quebrar os dentes! Ele rolou o globo até a face e sorriu. — Aí eu compraria uma ponte de dentes verdes como o mar com seus peixinhos ou azuis como o céu com suas estrelas, não tinha uma história assim? Que é que era verde como o mar com seus peixinhos? — O vestido que a princesa mandou fazer para a festa. Lentamente ele girou o globo entre os dedos, examinando a base pintalgada de cristais vermelhos e verdes. — Como um campo de flores. Para que serve isto, Lorena? — É um peso de papel, amor. — Mas se não está pesando em nenhum papel — estranhou ele, lançando um olhar à mesa. Pousou o globo e inclinou-se para a imagem de um anjo dourado, deitado de costas, os braços abertos. — E este anjinho? O que significa este anjinho? Com a ponta da agulha ela tentava desobstruir o furo da conta de coral. Franziu as sobrancelhas. — É um anjo, ora. — Eu sei. Mas para que serve? — insistiu. E apressando-se antes de ser interrompido: — Veja, Lorena, aqui na mesa este anjinho vale tanto quanto o peso de papel sem papel ou aquele cinzeiro sem cinza, quer dizer, não tem sentido nenhum. Quando olhamos para as coisas, quando tocamos nelas é que começam a viver como nós, muito mais importantes do que nós, porque continuam. O cinzeiro recebe a cinza e fica cinzeiro, o vidro pisa o papel e se impõe, esse colar que você está enfiando… É um colar ou um terço? — Um colar. — Podia ser um terço? — Podia. — Então é você que decide. Este anjinho não é nada, mas se toco nele vira anjo mesmo, com funções de anjo. — Segurou-o com força pelas asas. — Quais são as funções de um anjo? Ela deixou cair na caixa a conta obstruída e escolheu outra. Experimentou o furo com a ponta da agulha. — Sempre ouvi dizer que anjo é o mensageiro de Deus. — Tenho então uma mensagem para Deus — disse ele e encostou os lábios na face da imagem. Soprou três vezes, cerrou os olhos e moveu os lábios murmurejantes. Tateou-lhe as feições como um cego. — Pronto, agora sim, agora é um anjo vivo. — E o que foi que você disse a ele? — Que você não me ama mais. Ela ficou imóvel, olhando. Inclinou-se para a caixinha de contas. — Adianta dizer que não é verdade? — Não, não adianta. — Colocou o anjo na mesa. E apertou os olhos molhados de lágrimas, de costas para ela e inclinado para o abajur. — Veja, Lorena, veja… Os objetos só têm sentido quando têm sentido, fora disso… Eles precisam ser olhados, manuseados. Como nós. Se ninguém me ama, viro uma coisa ainda mais triste do que essas, porque ando, falo, indo e vindo como uma sombra, vazio, vazio. É o peso de papel sem papel, o cinzeiro sem cinza, o anjo sem anjo, fico aquela adaga ali fora do peito. Para que serve uma adaga fora do peito? — perguntou e tomou a adaga entre as mãos. Voltou-se, subitamente animado. — É árabe, hein, Lorena? Uma meia-lua de prata tão aguda… Fui eu que descobri esta adaga, lembra? Estava na vitrina, quase escondida debaixo de uma bandeja, lembra? Ela tomou entre as pontas dos dedos o fio de coral e balançou-o num movimento de rede. — Ah, não fale isso! Se você soubesse como gostei daquela bandeja, acho que nunca mais vou gostar de uma coisa assim… Se pudesse, tomava já um avião, voltava lá no antiquário do grego barbudo e saía com ela debaixo do braço. As alças eram cobrinhas se enroscando em folhas e cipós, umas cobrinhas com orelhas, fiquei apaixonada pelas cobrinhas. — Mas por que você não comprou? — Era caríssima, amor. Nossos dólares estavam no fim, o pouco que restou só deu para essas bugigangas. — Fale baixo, Lorena, fale baixo! — suplicou ele num tom que a fez levantar a cabeça num sobressalto. Tranquilizou-se quando o viu sacudindo as mãos, afetando pânico. — Chamar a adaga e o anjo de bugigangas, que é isso! O anjo vai correndo contar para Deus. — Não é um anjo intrigante — advertiu, encarando-o. — E antes que me esqueça, você diz que se ninguém nos ama, viramos coisa fora de uso, sem nenhuma significação, certo? Pois saiba o senhor que muito mais importante do que sermos amados é amar, ouviu bem? É o que nos distingue desse peso de papel que você vai fazer o favor de deixar em cima da mesa antes que quebre, sim? — O vidro já está ficando quente — disse e fechou o globo nas mãos. Levou-o ao ouvido, inclinou a cabeça e falou brandamente como se ouvisse o que foi dizendo: — Quando eu era criança, gostava de comer pasta de dente. — Que marca? — Qualquer marca. Tinha uma com sabor de hortelã, era ardido demais e eu chorava de sofrimento e gozo. Minha irmãzinha que tinha dois anos comia terra. Ela riu. — Que família! Ele riu também, mas logo ficou sério. Sentou-se diante dela, juntou as pernas e colocou o globo nos joelhos. Cercou-o com as mãos em concha, num gesto de proteção. Inclinou-se, bafejando sobre o globo. — Lorena, Lorena, é uma bola mágica! Voltada para a luz, ela enfiava uma agulha. Umedeceu a ponta da linha, ergueu a agulha na altura dos olhos estrábicos na concentração e fez a primeira tentativa. Falhou. Mordiscou de novo a linha e com um gesto incisivo foi aproximando a linha da agulha. A ponta endurecida do fio varou a agulha sem obstáculo. — A cópula. — Que foi? — perguntou ela, relaxando os músculos. Voltou-se satisfeita para a caixa de contas. — Que foi, amor? Ele cobriu o globo com as mãos. Bafejou sobre elas. — É uma bola de cristal, Lorena — murmurou com voz pesada. Suspirou gravemente. — Por enquanto só vejo assim uma fumaça, tudo tão embaçado… — Insista, Miguel. Não está clareando? — Mais ou menos… espera, a fumaça está sumindo, agora está tão mais claro, puxa, que nítido! O futuro, Lorena, estou vendo o futuro! Vejo você numa sala… é esta sala! Você está de vermelho, conversando com um homem. — Que homem? — Espera, ele ainda está um pouco longe… Agora vejo, é seu pai. Ele está aflito e você procura acalmá-lo. — Por que está aflito? — Porque ele quer que você me interne e você está resistindo, mas tão sem convicção. Você está cansada, Lorena querida, você está quase chorando e diz que estou melhor, que estou melhor… Ela endureceu a fisionomia. Limpou a unha com a ponta da agulha. — E daí? — Daí seu pai disse que não melhorei coisa nenhuma, que não há esperança — repetiu ele inclinando-se, as mãos nos olhos em posição de binóculo postado no globo. — Espera, está entrando alguém de modo tão esquisito… eu, sou eu! Estou entrando de cabeça para baixo, andando com as mãos, plantei uma bananeira e não consegui voltar. Ela enrolou o fio de contas no pescoço, segurando firme a agulha para as contas não escaparem. Riu, alisando as contas. — Plantar bananeira justo nessa hora, amor? Por que você não ficou comportadinho? Hum?… E o que foi que meu pai fez? — Baixou a cabeça para não me ver mais. Você então me olhou, Lorena. E não achou nenhuma graça em mim. Antes você achava. Vagarosamente ela foi recolhendo o fio. Deslizou as pontas dos dedos pelas contas maiores, alinhando-as. — Fico sempre com medo que você desabe e quebre o vaso, os copos. E depois, cai tudo dos seus bolsos, uma desordem. Ele recolocou o peso na mesa. Encostou a cabeça na poltrona e ficou olhando para o teto. — Tinha um lustre na vitrina do antiquário, lembra? Um lustre divertido, cheio de pingentes de todas as cores, uns cristaizinhos balançando com o vento, blimblim… Estava ao lado da gravura. — Que gravura? — Aquela já carunchada, tinha um nome pomposo, Os Funerais do Amor, em italiano fica bonito, mas não sei mais como é em italiano. Era um cortejo de bailarinos descalços carregando guirlandas de flores, como se estivessem indo para uma festa. Mas não era uma festa, estavam todos tristes, os amantes separados e chorosos atrás do amor morto, um menininho encaracolado e nu, estendido numa rede. Ou num coche?… Tinha flores espalhadas pela estrada, o cortejo ia indo por uma estrada. Um fauno menino consolava a amante tão pálida, tão dolorida… Ela concentrou-se. — Esse quadro estava na vitrina? — Perto do lustre que fazia blim-blim. — Não sei, mas assim como você descreveu é triste demais. Juro que não gostaria de ter um quadro desses em casa. — Mais triste ainda era o anão. — Tinha um anão na gravura? — Não, ele não estava na gravura, estava perto. — Mas… era um anão de jardim? — Não, era um anão de verdade. — Tinha um anão na loja? — Tinha. Estava morto, um anão morto, de smoking, o caixão estava na vitrina. Luvas brancas e sapatinhos de fivela. Tudo nele era brilhante, novo, só as rosas estavam velhas. Não deviam ter posto rosas assim velhas. — Eram rosas brancas? — perguntou ela guardando o fio de contas na caixa. Baixou a tampa com um baque metálico. — Eram rosas brancas? — Brancas. — As rosas brancas murcham mais depressa. E fazia calor. Ele inclinou a cabeça para o peito e assim ficou, imóvel, os olhos cerrados, as pálpebras crispadas. O cigarro apagou-se entre seus dedos. — Lorena… — Hum? — Vamos tomar um chá. Um chá com biscoitos, quero biscoitos. Ela levantou-se. Fechou o livro que estava lendo. — Ótimo, faço o chá. Só que o biscoito acabou, posso arrumar umas torradas, bastante manteiga, bastante sal. Hum? — Eu vou comprar os biscoitos — disse ele, tomando-lhe a cabeça entre as mãos. — Minha linda Lorena. Biscoitos para a linda Lorena. Ela desvencilhou-se rápida. — Vou pôr água para ferver. Pega o dinheiro, está na minha bolsa. — No armário? — Não, em cima da cama, uma bolsa verde. Ele foi ao quarto, abriu a bolsa e ficou olhando para o interior dela. Tirou o lenço manchado de ruge. Aspirou-lhe o perfume. Deixou cair o lenço na bolsa, colocou-a com cuidado no mesmo lugar e voltou para a sala. Pela porta entreaberta da cozinha pôde ouvir o jorro da torneira. Saiu pisando leve. No elevador, evitou o espelho. Ficou olhando para os botões, percorrendo com o dedo um por um até chegar ao botão preto com a letra T, invisível de tão gasta. O elevador já descia e ele continuava com o dedo no botão, sem apertá-lo, mas percorrendo-o num movimento circular, acariciante. Quando ela gritou, só seus olhos se desviaram na direção da voz vindo lá de cima e tombando já meio apagada no poço. — Miguel, onde está a adaga?! Está me ouvindo, Miguel? A adaga! Ele abriu a porta do elevador. — Está comigo. O porteiro ouviu e foi-se afastando de costas. Teve um gesto de exagerada cordialidade. — Uma bela noite! Vai passear um pouco? Ele parou, olhou o homem. Apressou o passo na direção da rua.
Lygia Fagundes Telles
"Se um dia tiver uma real oportunidade, e achar que aquela é a única de sua vida, agarre-a com unhas e dentes"
- Dragões de Éter: Caçadores de Bruxas
"assim queria escrever, indo ao âmago do âmago até atingir a semente resguardada lá no fundo como um feto"
Verde Lagarto Amarelo - Antes do Baile Verde
"...você diz que se ninguém nos ama, viramos coisa fora de uso, sem nenhuma significação, certo? Pois saiba o senhor que muito mais importante do que sermos amados é amar, ouviu bem? É o que nos distingue desse peso de papel..."
Os objetos - Antes do baile verde
"Os objetos só têm sentido quando têm sentido, fora disso... Eles precisam ser olhados, manuseados. Como nós. Se ninguém me ama, viro uma coisa ainda mais triste do que essas, porque ando, falo, indo e vindo como uma sombra, vazio, vazio. É o peso de papel sem papel, o cinzeiro sem cinza, o anjo sem anjo, fico aquela adaga ali fora do peito."
Os objetos - Antes do Baile Verde
"Porque todo o caráter de uma pessoa é reconhecido através da maneira como ela se comporta diante da dor"
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"Os deuses não deixariam de nos unir"
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"Eu gosto de pensar que a perfeição estragaria tudo [...] Aprendemos muito com nossos erros."
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