Bem-vindos ao inferno mutante.
Kitty foi a primeira a sugerir que matássemos o primeiro tempo, mas não foi a única. Não queria me envolver naquela. Se dissesse que não achava certo matarmos a aula, eles ficariam um bom tempo emburrados, como sempre faziam; mas matar aula só daria espaço para que falassem ainda mais sobre nós e pra criar uma enorme expectativa nos outros alunos, então o melhor seria que chegassemos todos de cabeça erguida e o mais importante, no horário. Por isso não falei nada, Scott não deixaria de qualquer forma, então dirigi meu olhar para o outro lado da grande sala, como se não estivesse ouvindo a conversa.
- Não, não iremos matar o primeiro tempo. Vamos ter que passar por isso de qualquer forma, então que seja logo. E aposto que depois do dia exaustante que teremos pela frente, ninguém aqui vai ter cabeça para ouvir sermão do professor Xavier, ou vão? - Scott falou em alto em bom som, com certeza para que quem estivesse atrás pudesse ouvir.
Era incrível como Scott conseguia transmitir segurança, mesmo que estivesse a ponto de explodir.
Seu belo carro vermelho estava estacionado como de costume na sua vaga dada pelo Instituto. Eu não conhecia absolutamente nada de carros, mas todos que viam aquele carro ficavam de boca aberta, então com certeza aquele não era um automóvel qualquer. Scott abriu a porta do passageiro me dando espaço para passar, entrei me ajeitando no delicioso banco de couro. O lado ruim daquele carro é que bagunçava todo o meu cabelo, não tinha como impedir o vento de bagunçar tudo e qualquer coisa que estivesse dentro daquela máquina aberta e reluzente. Ele estava indo para seu banco, mas algo o impediu de entrar. Vampira, Kurt, Kitty, Bob e Spyke estavam esperando ao lado de fora.
- Ãhn… É óbvio que não cabem todos dentro do carro. - Comentou Scott, meio sem graça com a situação. Ninguém parecia disposto a chegar sozinho na escola. Ninguém exceto…
- Sem problemas, eu vou andando. Quero dar uma aliviada na cabeça mesmo. - Ofereceu-se Kurt. Kitty pareceu não ter gostado da ideia, porque lançou-lhe um olhar um tanto quanto instigador, mas como todos os outros, nada disse.
- Eu vou com você, cara. Prefiro andar um pouquinho para aliviar a cabeça. - Disse Bob. Pela careta de Kurt, ele não pareceu gostar muito da ideia. - Nos vemos na segunda aula, Spy e Kitty. Até mais, pessoal. - Despediu-se. Kurt o seguiu sem dizer mais nenhuma palavra.
Kurt tinha sido o único não afetado naquela brincadeira toda, não havia sido revelado como mutante, estava claro seu medo, mas o motivo para tal me parecia um tanto quanto duvidoso. Era provável que estivesse ressentido que descobrissem que ele fazia parte do grupo desafortunado. O que não era nada legal. Esconder-se quando todos estavam escondidos, quando estar escondido é uma opção plausível para toda uma sociedade, é uma coisa, mas sentir-se envergonhado do que você realmente é, a ponto de sentir vergonha de pessoas que correm ao seu lado a anos, é no mínimo idiotice. Os três entraram no carro, enquanto Kurt partia para a escola da maneira que com certeza havia planejado partir a tempos, sozinho.
O caminho foi no mais absoluto silêncio, Scott não se deu nem ao trabalho de ligar o rádio e ninguém pareceu se incomodar (raridade). O clima estava tão pesado, que minha vontade no momento era pular para fora do carro, ser atropelada e ser levada dessa para uma melhor. Em pensar que o dia ainda ia ficar pior, bem pior! Era desesperador.
Chegamos a escola e Scott estacionou no mesmo lugar de sempre, sob a sombra de uma grande e velha árvore. Saímos todos do carro, numa velocidade tão lenta que chegava a ser desumana, o que era irônico porque, não eramos mesmo humanos! Charles me mataria se me ouvisse pensando algo do tipo. Eramos humanos, só que tínhamos genes um pouco mais evoluídos. Pronto, assim estava melhor.
O enrosco já começou no estacionamento, onde muitos estudantes quase quebraram o pescoço para nos ver e não se importavam em disfarçar para fofocar uns com os outros tudo aquilo que achavam que sabiam sobre nós.
- Vou acabar matando um deles. - Vampira não gostava de receber atenção.
- Você nos faria esse favor? Se puder matar todos, te arrumo o primeiro lugar na fila do banheiro todos os dias. - Brincou Evan.
- Sério pessoal, vamos lá. Vai dar tudo certo. - Scott tinha o dom de fazer as pessoas acreditarem em coisas que nem ele mesmo acreditava, mas hoje suas frases animadoras estavam mais irritantes que os discursos de Charles. Certo, hoje seria um péssimo dia para o professor dar uma conferida em minha mente.
Segurei na mão de Scott, como se isso fosse nos fazer um só. Seria muito mais fácil enfrentar tudo com ele ao lado.
- Kitty e Evan, a primeira aula de vocês é junta, não? Podemos acompanha-los até a sala. - Ofereci. - Quer nossa companhia também, Vampira?
- Não. Eu me viro. E acho que o Kurt vai estar por lá, temos duas aulas juntos hoje.
- Ótimo, vão mexer menos conosco se estivermos em maior número. Lembrem-se de não cair na pilha, não queremos confusão. Ignorem todos, respirem e nos encontramos na saída. Quem sabe pedimos pizza quando chegarmos em casa!
Pizza. Scott sabia mesmo como ganhar o animo de todos, era mesmo um bom político. Vampira foi para sua sala, sendo seguida por muitos pares de olhos. Deixamos Evan e Kitty em sua sala, com o coração quase pulando pela boca, era realmente difícil ignorar o olhar de socorro de Kitty, com aquela carinha de anjo caído. “Vai dar tudo certo.“ Foi o que consegui sussurrar antes de dar-lhes as costas.
Era quase que um desfile. Andávamos e todos abriam espaço para que pudêssemos passar, sussurrando ofensas, ofensas que eram quase impossível de ignorar. Estávamos quase chegando à sala de aula quando a diretora nos parou, para piorar a situação nossa primeira aula seria Física. Era o típico dia em que eu pagaria por todos os meus pecados.
- Srª Darkholme. - Cumprimentamos.
- Srº Summer, pode por gentileza entrar em sua sala de aula?! Gostaria de falar em particular com a senhorita Grey. - Falou com seu habitual tom arrogante.
Algo na diretora me incomodava muito. Ela estava sempre focada em pensamentos atuais, como quem quer esconder algo, ou se impedir de pensar em algo. Sem dúvida eu poderia descobrir o que era se tentasse, mas Xavier tinha me ensinado a não fuçar sem autorização nos pensamentos de outras pessoas, salvo em situações graves ou de risco. Scott me lançou um último olhar e entrou na sala, não seria bom arrumar confusão com a diretora em nossa atual situação.
- Bom, com os atuais acontecimentos, acho que já esperava por essa nossa conversa. - Ela podia ter me levado para sua sala, mas não! Porque não me humilhar no meio do corredor? - A senhorita está expulsa do time feminino de futebol de Bayville e deve devolver todos os seus troféus à escola. - Abri minha boca para tentar me defender, mas ela não me deu oportunidade. - Tem ideia de todos os processos que estamos enfrentando por sua culpa? Vamos perder todas as vitórias que tivemos quando você estava no time!
- Mas eu não usei meus poderes!
É, não tinha resposta para aquilo, porque obviamente não tinha como provar.
- Estamos conversadas. - Disse somente enquanto me virava as costas. Ela parecia se divertir.
Algo ardeu dentro de mim. Era como se uma parte de mim quisesse voar em cima da mulher e a sufocar até a morte. Sacudi minha mente tentando me livrar de pensamentos tão pesados. Depois dessa, o dia não podia ficar pior.