O protesto de Piper fez Robin gargalhar. “Como era mesmo a letra? Eu acho que eu lembro…” Algumas vezes havia tentado ajudar a amiga nas composições, mas era boba demais para conseguir levar o trabalho à sério. Fora assim que pérolas como ‘something in the air’ nasceram. Limpando a garganta, apressou-se em recitar. “There’s something in the air. I don’t know what it is but smells really bad. I think i’ts a fart, oh my gosh, this ain’t fair…” Não sabia o resto, mas o trecho fora o suficiente para causar em si uma crise de riso. Robin respirou fundo, fazendo seu máximo para se recompor. Já estava sentada quando ouviu a negativa, mas não se importou em levantar e ir até o piano ao ver as batidinhas. Robin espiou o caderninho, pousando os olhos no título bem marcado. “Space Between.” Leu em voz alta. “Hmm… gostei. Ah, é um dueto? Que bonitinho.” Foi só após a expressão de súplica de Piper, porém, que finalmente entendeu o que ela queria dizer. “Espera, você quer que eu cante?” Arregalou os olhos, afastando-se minimamente no banco para encará-la.
“Na-na-ni-na-não, Poppy. Uh-uh. Eu vou estragar a sua música. Mesmo mesmo. Teve um motivo pra a Cassie cantar sozinha no seu aniversário, sabia?” Tentou argumentar, mas Piper, esperta como era, já havia começado a tocar a melodia. Robin ouviu o início meio emburrada; não por raiva, mas por vergonha. Se comparada à Crumb-Wagtail, realmente acreditava cantar muito mal – fato comprovado quando a sonserina ecoou os primeiros versos, fazendo um sorriso de admiração surgir na face da Puddlemere. De fato, ouvi-la cantar era uma de suas atividades favoritas. Estava tão imersa na canção que não percebeu que era sua vez de continuar, deixando o silêncio se instalar por alguns segundos antes de dar-se conta. “Ah, sou eu? Desculpe.” Pediu baixinho, sentindo a vermelhidão começar a colorir as bochechas. Mais baixa ainda foi sua voz ao cantar, lendo as palavras no caderninho quase como em um sussurro. “I didn’t want to let you down. But the truth is out. It’s tearing me apart, not listening to my heart. I really had to go.” À medida que ia cantando, Robin contraía o cenho. Conhecia Piper o suficiente para saber que as letras de suas músicas raramente eram superficiais, mas aquela em especial transbordava intensidade. A olhando de maneira curiosa, esperou que continuasse.
Para Piper, ouvir Robin cantar jamais soara um incomodo. A Puddlemere era uma boa cantora e Poppy sequer falava aquilo para agradá-la, não fazia parte de si mentir para agradar um amigo, ela preferia mil vezes a sinceridade. Porém, Robin jamais concordara, vivia teimando que a mais velha estava delirando. A sonserina voltou a rir com o susto da amiga, logo negando que cantaria consigo, mas não era como se Poppy já não esperasse por tal ato, já começando a música antes mesmo de mais reclamações vindas da pessoa ao lado. Quando chegou a vez de Robs foi impossível não sorrir com a timidez da garota. Achava de fato fascinante como a outra podia ser tão talentosa e forte e sequer saber disso, sempre ficando sem graça e acanhada com imensa facilidade. De qualquer maneira, Piper ficava bastante feliz em poder ser ela no dever de lembrar a Robin o quão maravilhosa era ela. A voz da lufana começou fraca e contida, mas não foi difícil perceber que ao decorrer da música, quando as palavras começavam a soar mais familiares a seus ouvidos, a Puddlemere foi ganhando mais confiança e curiosidade, o que era claro ao olhar em seus olhos.
❝ —– And I would never stop you.❞ Piper completou, novamente maneando a cabeça para que a amiga continuasse para tornar a acompanha-la na frase seguinte. ❝ —– Nothing has to change. And you can find me in the space between. Where two worlds come to meet. I’ll never be out of reach.❞ Um calor parecia aquecer seu coração, eram momentos singelos como aquele que sempre guardava na lembrança. O que ela e Robin tinham era de uma pureza que ela jamais se achara ser capaz de ter. Não pela falta do desejo carnal, mas porque a amizade que existia ali englobava todos os tipos de amor. Já se amaram como crushes, como amigas, como irmãs, como parceiras, como uma só e, agora, o que mais perturbava a mente de Piper era se Robin estava pronta para amá-la de uma nova maneira. ❝ —– ‘Cause you’re a part of me so you can find me in the space between. You’ll never be alone. No matter where you go.❞ Nos primeiros minutos de escrita perguntou a si como demorara tanto para escrever aquela música sendo que os sentimentos por Robin sempre couberam naquelas palavras, todavia, ao findar a canção pôde entender que as palavras somente vieram quando ela descobriu o que sentia. Por muito tempo os sentimentos foram guardados graças a vários receios, dificuldades e obstáculos. Agora, contudo, ela via com a clareza de quando olhava para a água o que se passava em seu coração. O que a Puddlemere realmente significava para si. ❝ —– We can meet...❞ Voltou o rosto para Robin, sentindo os próprios olhos levemente marejarem. Era muito raro que Piper chorasse então chegar perto disso já era um acontecimento inusitado. De qualquer maneira, a Puddlemere era simplesmente capaz de causar-se emoções que raramente sentia. ❝ —– ...in the space between.❞ Os olhos voltaram-se para o caderno, tocando as últimas notas da primeira parte até que a mesma se findasse. Recolheu as mãos para o próprio colo, retornando a ansiosa atenção à melhor amiga. ❝ —– Então... o que você achou?❞ Questionou, numa mistura de leve insegurança e imensa ansiedade e curiosidade por uma resposta. Mordiscava o interior do lábio inferior enquanto esperava por alguma palavra da lufana.