Morrigan olhou friamente para o espelho a sua frente, prendendo o cabelo em um rabo de cavalo apertado. Ela estava vestida para qualquer dia normal - o uniforme cuidadosamente delineado em seu corpo, a maquiagem tão ausente em Uppsala ali se fazia presente. No entanto, ela sabia que isso era diferente. Começou a mudar quando conheceu Violetta, a primeira vez que viu a morena com um sapato sem sola tocando o chão, ela se perguntou, por que ambas tinham que esconder aquilo em posturas perfeitas? Ela achava que deixara claro para si mesma que não se envolveria emocionalmente, que aquela ‘relação’ seria basicamente envolta em sua curiosidade. Ela tinha sido tola. Tola em pensar que depois de todos os dias de observação, conversas, apenas fechando os olhos e sentindo a presença, ouvindo sua cálida voz, com uma palavra simples, tudo poderia ser levado embora. Ela mordeu o lábio levemente, um dos únicos sinais de emoção que alguém além de Alastair teve a sorte de ver. Mesmo depois de tudo, ela ainda mal podia acreditar que estava fazendo isso.
A noite anterior tinha sido estressante - tanto que depois ela teve que fazer mais Poção Calmante; ela esgotara seu estoque. Ela nunca pensara que isso a invadiria em seu interior, aquela postura que ela tinha trabalhado tanto para manter, tão difícil de sustentar, e então, era como se uma sombra escura se instalasse sobre si mesma se passasse muito tempo sem conversar com Violetta. Ela não era como eles; ele era diferente. Não por que não enxergava como os outros, mas sim por que o fazia de sua própria maneira, por que com Vi não era seu corpo, sua aparência que importava, era a companhia, as palavras, era apenas Morrigan.
Seus calcanhares contra o chão de pedra enquanto ela caminhava em direção a parte externa, deixavam um frio gostoso se apossar de seu ser. Muitos alunos estavam na biblioteca ou nas aulas, e poucas pessoas entravam ou saíam do instituto no momento. A parte exterior estava praticamente deserta. Com cada batida do calcanhar contra o chão, mudou rapidamente para a sensação da grama úmida. Aproximando-se do local de sempre, ela viu uma jovem, sem dúvida Vi, esperando por ela. Ela mordeu o lábio por apenas um momento ao vê-la. Em vez de parar la continuou andando, e de seus lábios saiu a saudação cordial. “Bom dia, Violet” Ela sorriu, beijando-a levemente na bochecha, de sua forma natural e habitual.
Era difícil surpreender Violetta, que além de poder notar quando alguém se aproxima tinha uma audição impecável, mas naquela manhã, sentada contra aquela árvore específica na qual sentava-se todos os dias, a Sárközi atingira um estado de quase sonambulismo. Se sono fosse um líquido, bastaria mais uma gota e a cabeça penderia para frente. Ironicamente acordada por um beijo, como a princesa que deveria ser. “Hm.” Fez uma careta ao soltar um resmungo mal humorado. A mão fechada seguiu caminho ao próprio olho, coçando-o como quem acaba de despertar. “Bom dia.” A resposta soou mais como um grunhido, e Violetta ergueu o rosto, encarando o céu que provavelmente carregava nuvens. Uma brisa fina cortou o ar como uma espada afiada, e as folhas das árvores responderam em sintonia. “Dois graus abaixo de ontem.” Comentou como se tal informação não fosse completamente aleatória. Suas conversas com Morrigan costumavam ser estranhas e, muitas vezes, sem cabimento. Algo que ela sabia que era culpa sua. Até hoje não sabia explicar exatamente como se tornaram... o que eram agora. “É isso o que te tira da toca, Morrigan? Estou procurando por padrões.” Alfinetou, o tom de voz quase sem emoção além da pitada de acidez e humor. Referia-se ao fato de não te-la encontrado nos últimos dias. Se a garota estava entre os grupos de alunos por quem passara pelos corredores, Violetta não saberia dizer. Poderia perfeitamente evitá-la se quisesse, enquanto a Sárközi não possuia da mesma capacidade. Cheiros, sons nem vibrações eram o suficiente nesses casos. Baixou o rosto por fim, direcionando seus olhos para onde sabia que a amiga estava, ainda que não pudesse vê-la dessa forma. Gostava de provocar as pessoas com seus olhos que nada viam. Uma vez lhe disseram que sempre causava frios na barriga ou na espinha quando seus olhos focam em rostos: sempre um pequeno susto, como se ela realmente pudesse ler suas expressões. Quem dera tivesse tal habilidade.