━━ all you need is home, and a tea
homslck:
A distância é, muitas vezes, uma jogada engraçada do destino. Dá-nos a sensação de que apenas nossa vida passa, de que aquela outra pessoa permanece congelada no tempo. Faz-nos pensar que quando tal pessoa voltar, tudo estará igual. Que ele estará igual. Adeline nunca quis pensar na distância como algo com o que precisaria lidar, não de verdade. Era calorosa, irradiava vida e energia boa. Mas nada daquilo importava se não tinha seus amados por perto, alguém que recebesse toda sua luz a cada instante. Com a notícia de que Henry, seu Henry, teria que servir e se ausentar por anos na guerra, nada além de medo tomou a garota. Não temia deixar de amá-lo, tampouco deixar de ser amada; temia que sua luz se apagasse, e que quando ele voltasse, já não fosse a mesma. Ou que ele, tão dócil e precioso que não parecia ter origem mundana, não passasse de trauma e restos de uma guerra.
Quando ele, de fato, partiu, acabou achando mais fácil do que previra. Sua saudade alimentava seu amor, e a dor da adição de mais e mais dias à conta da distância a faziam pensar que era um dia mais perto do reencontro. Já não se sentia a mesma; tantas coisas aconteceram, tantas chances de descobrir novas facetas de si, que tinha em mente que seria impossível ser a mesma de antes da partida. De qualquer modo, nenhuma mudança viera para piorá-la. Tornara-se mais madura, mais compreensiva, mais acolhedora. O que outrora fora inocência, agora parecia uma forma de encontrar a bondade do mundo. E com a volta de Henry, aquilo seria ainda mais fácil.
Naquele dia, havia acordado mais cedo para começar a pintar as paredes de seu quarto de outra cor. Era uma promessa antiga, desde antes da partida de Henry, e só então encontrara um tempo para de fato riscá-la de sua lista de idealizações. Havia escolhido a cor rosa, um rosa forte e atrativo. O aparelho de rádio tocava alto, suas favoritas dos anos 90 e 2000 embalando cada pincelada sobre a parede. Quase não ouviu a campainha tocar, mas de fato o fez, e interrompeu It’s My Life pouco antes do refrão, algo que lamentou secretamente.
Quando abriu a porta, deparando-se inesperadamente com Henry, não soube rir nem chorar. Não soube falar qualquer coisa, nem perguntar qualquer dúvida, apenas soube jogar-se na direção dele, cair entre seus braços e agarrar seu corpo, afundar seu rosto no ombro do outro até que não percebesse nada além de seu perfume. Aquele mesmo perfume, que não era de qualquer marca, mas exalava naturalmente de sua pele. E que ela, como sempre, conseguia identificar perfeitamente. “ How can you… how can you be here, love? ”
A calma do corredor, e do prédio, acabou distraindo Henry. Podia ouvir, mesmo que distante, pequenos sons dos demais moradores, os quais sempre tivera curiosidade para saber sobre o que eram. Não tinha costume de conversar com os vizinhos de Adeline, simplesmente os cumprimentava quando avistava um ou outro em seu caminho ou no elevador, mas nada além do rotineiro. Sabia que muitos deles estranhavam seu sumiço, pois geralmente ficava de nove a doze meses longe de casa, e quando lhe eram dados os três meses de férias, era como um gole de água após um longo período de sede. Por estar há dez anos trabalhando tanto para o exército quanto para marines, costumava emendar seu período no Afeganistão ou Irã, para que no ano seguinte, pudesse passar seis meses com sua família, e principalmente, Adeline.
Imerso em pensamentos, não percebeu quando a noiva abriu a porta e lhe viu, apenas percebeu quando sentiu o toque alheio, o abraço firme, e em seguida, o cheiro. Cheiro este que era uma das maiores saudades de Henry, e que quando sentia algo semelhante longe de casa, era capaz de tirar toda seu foco, algo que era quase impossível. Apesar de lhe trazer boas memórias, poderia ser fatal se ficasse preso demais a elas. Demorou alguns segundos até Henry perceber que realmente estava ali, na presença do amor de sua vida, e que por tempo indeterminado, estaria com ela. E assim que a ficha caiu, deixou a mala cair, envolvendo o corpo de Adeline com os braços, sendo preenchido pela sensação de alívio que sentia todas as vezes que a abraçava. Era uma mistura de saudade e do fato de que a morena conseguia afastar qualquer sentimento ou pensamento ruim de si. Também, por ela ser menor em estatura, e quando estava em seus braços, sentia que podia protege-la de qualquer coisa.
Lentamente, abaixou a cabeça, dando-lhe um beijo terno sobre os cabelos, mantendo o rosto ali, o nariz e os lábios apoiados no cabelo da noiva. Com a pergunta, os mesmos sentimentos ruins que lhe atingiram a viagem inteira voltaram, fazendo com que seus olhos marejassem. Fechou-os, a fim de afastar as lágrimas. Não era hora para chorar, e muito menos queria que Adeline ficasse preocupada. Suspirou fundo antes de verbalizar. ━ Too much shit in the office. ━ Verbalizou contra os cabelos alheios, uma risadinha sem humor escapou de seus lábios. Não sabia como iria explicar para Adeline o fato de ter sido torturado por quatro dias, sem que despertasse qualquer sentimento ruim nela. ━ Let’s get inside, so I can explain everything to you. ━ Chutou a própria mala para dentro do apartamento, para então apertar o abraço, tirando Adeline do chão com calma. Assim que sentiu seu peso, mesmo que não o achasse relevante, sentiu em seu ombro esquerdo - o qual havia sido alvejado por uma sniper há dois anos - uma pontada de dor. Não era nada que já não ignorasse diariamente com o peso que costumava carregar. Finalmente, caminhou calmamente para dentro do apartamento, colocando-a no chão assim que satisfeito.










