Reflexo
Ele não conseguia tirar os olhos do corpo caído ali no meio da rua em uma crescente poça de sangue. Vários tiros no peito e lá estava mais uma vítima da violência. Ele não conhecia o homem, mas por algum motivo não conseguia parar de olhar. Estava muito frio e toda a pressa que sentiu desde que desceu do ônibus tinha evaporado no instante que viu o corpo. Várias pessoas ao redor olhando e falando sobre conhecer ou não o morto, sobre quem matou, sobre a violência que assolava a vizinhança, sobre o clima, sobre muitas coisas, coisas demais para falarem num momento tão difícil. Pois, devia ser difícil estar ali deitado, morto e um monte de desconhecidos em volta falando.
Ficou hipnotizado pelos olhos do morto que permaneciam abertos, pareciam estar olhando diretamente para ele. O que estava vendo? Via algo ainda? Ou a vida cessava com a última batida do coração. Não, certeza que aquele homem estava olhando nos olhos dele. Olhou para o céu e viu as estrelas distantes e frias não se importando com nada. Olhou ao redor e viu todos os rostos, em cada um deles podia ver outros sentimentos. Uma mulher olhava aflita e virava o rosto imitando um tremor, mas no mesmo instante voltava a olhar. Alguns rapazes olhavam e continuavam a conversar sobre algo que nada tinha a ver com a morte ali e até riam de algo que um deles falou. Outro senhor fumava e contemplava como alguém que tenta entender um quadro pendurado na parede. Uma mulher passou rápido tapando a visão de uma criança. Outro homem conversava com uma mulher e ofereceu uma bala, ele ainda ouviu quando falou: -Para adoçar a vida…
Sirenes e logo a cena mudou, policiais chegaram afastando todos e ele deu alguns passos para trás e voltou aos olhos do morto, que insistentemente o encarava fixamente. Mudou de lugar e o morto acompanhava. Por que será ninguém cobria aquele corpo morto com aqueles olhos que pareciam vivos ainda?
Tudo começou a se desvanecer ao seu redor e somente aqueles olhos existiam. Ficou com medo de repente, não sabia ao certo do que, se do morto, dos olhos, ou de alguém achar que ele conhecia ou tinha algo a ver com aquele morto. Deu alguns passos para trás — não queria parecer envolvido. Mas por que aquele medo, se não tinha nada a ver com aquilo? Não tinha nada a ver com nada ali. Encostou em uma porta de comércio que estava fechada aquela hora e acendeu um cigarro, olhou ao redor e novamente nos olhos do morto que seguiam todos seus movimentos, piscou demoradamente e estavam ainda encarando ele. Então se rendeu. Ficou ali parado, encarando as pupilas que agora eram grandes e irregulares, perdeu o medo e devolvia sobriamente a intensidade do olhar, parou de pensar como ele mesmo, para imaginar como pensaria o morto naquela situação. Desespero? Raiva de quem tirou sua vida? Aliviado por enfim estar livre das dificuldades da vida? Será que tinha um amor? Filhos? Alguém com certeza iria chorar por aquele morto não chegar em casa hoje. Percebeu que todo frio havia cedido a uma temperatura agradável, olhou novamente para o céu e as estrelas estavam agora mais próximas, impressão será?
Vozes abafadas por um zumbido contínuo, quem será aquele homem em pé ali fumando e me encarando? Por que estou deitado no chão? Me ajudem! Não consigo me mexer, alguém chame uma ambulância, o senhor aí, me ajude por favor. Meu Deus!? O que está acontecendo comigo? Será que vou morrer aqui, sem nenhum socorro? Me ajudem, me ajudem. Não, eu não estou caído no chão, quem está no chão é um desconhecido, eu estou ali em pé olhando, estou ali olhando, o morto… o morto…
…o morto sou eu?
Sentiu o chão ondular sob os pés, como se a rua inteira respirasse devagar, puxando-o para algum lugar profundo. O cigarro caiu da sua mão, mas ele não ouviu o impacto — apenas aquele zumbido, agora mais agudo, como se alguém estivesse afinando uma corda invisível dentro do seu crânio. Tentou tocar o próprio peito para sentir o coração, só queria confirmar que ainda estava ali, batendo, firme, insistente. Mas seu braço não se moveu.
As sirenes se dobraram em eco, multiplicando-se em ondas que atravessavam seu corpo como se fosse translúcido. A rua ficou levemente desfocada, luzes borradas, pessoas andando em velocidade errada — umas rápidas demais, outras lentas como água escorrendo. Sentiu um puxão na nuca, suave, mas definitivo, como se algo dissesse: olhe de novo.
Então ele olhou.
Os olhos do morto já não eram apenas olhos — eram um espelho profundo, perfeito, e no reflexo não havia mais o rosto do desconhecido. Era o dele. O próprio rosto, lívido, boca semiaberta, o peito manchado, as roupas que ele sabia que não vestia naquela noite, mas que, de algum modo, eram suas. Um frio impossível subiu pela espinha, não como antes, mas como se cada vértebra estivesse sendo tocada por dedos que vinham do outro lado.
Uma voz — talvez a sua, talvez a dele — sussurrou na cabeça: Você está olhando para onde o tempo para.
As pessoas ao redor continuavam falando, mexendo nos celulares, comentando, mas ninguém parecia ver a troca que acontecia ali no centro da rua, naquele ponto exato onde a vida e a morte se tocavam. Ele quis gritar que não era ele ali, que era um engano, que estava de pé, vivo, respirando — mas quando abriu a boca, nada saiu. O ar não respondia mais a ele.
Do outro lado, dentro do corpo caído, algo começou a se mover. Primeiro foi uma sensação, um tremor mínimo, como o início de um pensamento que não pertence ao próprio cérebro. Ele estava olhando para si mesmo — e estava sendo olhado por si. A linha se cruzou.
O zumbido ganhou palavras: Não foge. Já cruzou.
E então percebeu: o morto não estava chamando ajuda. O morto estava chamando ele.
Algo puxou sua consciência como água drenada por um ralo. O céu desceu rápido, ficou preto, as estrelas apagaram como lâmpadas queimadas, e a última coisa que ele viu — com os olhos que já não eram mais seus — foi seu corpo de pé cambaleando para trás, respirando fundo, como quem volta de um pesadelo.
E a multidão, sem perceber nada, seguiu comentando a morte de um desconhecido.
E ele tentou gritar de dentro do corpo caído, mas o som não passava dos lábios imóveis.

















