Nunca dominei a arte dos clichês românticos
Nunca dominei a arte dos clichês românticos. Não sei embrulhar meu coração para presente. Nunca aprendi a enfeitar o amor com um laço vermelho.
Se digo que você é a estrela da minha vida, penso nas estrelas a anos-luz, penso nas estrelas mortas, na luz atrasada — fantasma do fogo atravessando o escuro.
Não posso nem vou morrer por você.
O único risco real é viver.
Viver por você, viver contigo, viver apesar de tudo: do dinheiro curto, do país atando o nó da garganta, das tristezas que entram sem pedir licença e não vão embora.
Deixo as frases bonitas para os poetas antigos. Eles tinham cisnes brancos, lagos plácidos, o luar sobre torres altas.
Tudo o que tenho é o ônibus das seis, a conta de luz atrasada, você voltando do trabalho com o cabelo colado na testa, o rosto cansado de quem enfrentou o dia e venceu por pouco.
É isso que eu amo: você mesma.
Nem musa, nem femme fatale, mas femme vitale: que vive e faz viver, que fica de mau humor quando sente fome, que esquece a panela no fogo, que discorda de mim e insiste em viver do seu jeito.
Ainda bem.
Se você fosse perfeita, eu não saberia o que fazer.
Porque o amor é falho. E só aprendi a amar o que falha, o que erra, o que insiste mesmo quando tudo conspira contra.
Não. Nunca dominei a arte dos clichês românticos. Nunca aprendi a retórica amorosa.
A palavra amor é uma caixa onde o amor não cabe.
Tudo o que sei é isto: quando você sai eu fico esperando, feito um animal que uiva, o barulho da sua chave na porta.
Isto não está em nenhum poema. Não inventaram para isso um nome bonito. Mas é verdade. E basta. - @ton-baptistela














