Chris nunca foi muito voltado ao drama. Parte pelo fato que tinha vivido uma vida em que precisava se preocupar com a realidade, e não ficar romantizando cada infortúnio que fosse surgindo pelo meio do caminho. Acreditava ter aprendido com a mãe que, mesmo deitada em cima de uma cama por muitos e muitos anos, nunca era de se lastimar das coisas que estavam acontecendo. Mesmo depois da morte do pai, ela assumiu um posto de total responsabilidade durante os primeiros meses, mostrando uma resiliência que Chris nunca conseguiu encontrar em outro ser humano. Ainda hoje, no hospital, era dona de uma esperança e visão de vida inabalável. Chris costumava compartilhar um pouco desse jeito otimista dela. Questionava-se quando tudo tinha mudado. Ainda lembrava-se de quando estavam no médico e este olhara em seus olhos com sombriedade e dúvida. Não podemos afirmar o que você tem ainda. Precisamos fazer mais alguns exames. Mediante a fala do outro, apenas revirou os olhos se dando conta que nunca vivia realmente aquilo, mesmo sabendo que não passava de uma ingênua brincadeira. “São tempos difíceis”. E como quem aparece sem ser convidado, lá estava ele: o pequeno rabo cor de rosa que foi responsável por fazer Chris colocar as mãos na frente do rosto, tapando os olhos e desejando voltar atrás para nunca ver aquilo. Abriu a boca, querendo falar alguma coisa, mas apenas começou a rir. Ria alto e constante, até começar a sentir a barriga doer e a falta de ar querer se mostrar presente. “Por que você está usando isso? Agora essa imagem nunca mais vai sair da minha cabeça.” O riso foi diminuindo com o tempo, até restar apenas um leve balançar de ombros em uma risada leve e divertida. À medida que o tema da conversa ia se tornando mais denso, ela foi sumindo totalmente, dando lugar a uma expressão ilegível. “E ele, eh, aceita você ser, hm, gay?” Deus, como é difícil até mesmo pronunciar isso. “Nunca pensou em fazer uma cirurgia? Eu ouvi falar que existe uma cirurgia a laser que pode zerar seu grau e fazê-lo enxergar bem.”
Teve que virar o rosto para encarar o jeito como o outro gargalhava. Octavian tentou manter o rosto sério, um pouco falsamente irritado com toda aquela risada, mas não conseguia. Ele respirou fundo e soltou o ar pelo nariz esperando pacientemente que o loiro terminasse de rir. Aquele era um de seus pijamas favoritos, na verdade, um de seus tipos favoritos. "Nenhum pijama meu é apenas uma calça ou apenas um short... esse é o único que a camisa é apenas a camisa, na verdade. E isso porque eu tive que fazer em uma gráfica a estampa." ele admitiu com um encolher de ombros. "Eu uso porque é legal! Já somos obrigados a usar roupas normais o tempo inteiro, por que eu usaria isso em casa... ou pior, para relaxar?" era um pouco ofensiva a ideia de usar pijamas comuns, divertia-se bastante escolhendo os seus com temáticas diferentes, nunca abriria mão disso. "Deveria se sentir privilegiado, só meus irmãos viram meu rabinho." e bem, não tinha como falar aquilo de maneira séria. O próprio rapaz teve que ceder ao riso, apesar de não ser tanto quanto o outro. Chegara a conclusão de que sorrindo, Chris ficava ainda mais bonito, isso era um perigo. Queria provocá-lo e dizer para fazer bom uso da imagem gravada na mente, já que, afinal, era sua bunda; porém, a forma como o mesmo demonstrou dificuldade para lhe fazer a pergunta acabou trazendo uma hesitação. "Ele pode mudar quem eu sou?" perguntou, virando-se para encará-lo, os cotovelos apoiados no balcão enquanto fixava as íris claras nele. "Não. Ele não pode. E ele percebeu isso depois... que eu sofri um acidente há alguns meses. Antes disso eu teria respondido de um jeito diferente... mas papai estava me perdendo por causa de algo que para ele não deveria importar... afinal, ele é meu pai. Mas acho que ele só percebeu que era estúpido quando eu quase morri e ele se viu de frente com a possibilidade de me perder completamente.” respondeu, descendo o olhar para o chocolate. "Quando eu acordei algumas semanas depois... ele estava lá. E agora... uh, ele não parece a mesma pessoa. De um jeito bom, eu quero dizer." soltou um riso baixo, tomando um gole do chocolate e depois ajeitando de novo os óculos. "Não sou a pessoa mais indicada para falar sobre receber atenção dos pais, mas bem, agora parece que eles pelo menos estão tentando." concluiu, fazendo uma careta. "Estou caminhando para isso, mas não é fácil, não é barato e muito menos é algo simples assim. Eu não quero envolver minha família nisso então... estou tentando dar meu jeito."