Réquiem ao medo de te dizer
Me fizestes tua; me fizestes nua; e depois me fizestes nula.
Confiança enfraquecida, esmiuçada.
A grande imoralidade em tuas ações foi a visão que havia me deixado; sorrisos abestalhados que espelhavam a pena que sentia de toda a humanidade: Pobres, pobres coitados! Incapazes de viver e sentir tudo o que nós sentíamos. O amor que faltava a todas as criaturas, ali, sendo um laço apenas entre nós.
Meu eu eternamente unido ao teu. Que jamais conseguiria desencaixar-se de mim, pois era a peça perfeita à minha.
Vi, depois, pouco a pouco em tantas oportunidades isso se esvair.
Fui impelida por ti a enxergar um grande cenário, que não tinha final feliz; éramos felizes, sem que isso tivesse um fim. Agora, somos a inegável realidade de que, de fato, não existem finais felizes; o filme sem final que é uma vida sempre vai seguir, e não tem necessariamente de ser feliz.
Lembro de nossas mãos segurando umas as outras, lembro de tuas frases:
"- Tu precisa entender que não é mais sozinha. Tu podia ser... Mas eu estou aqui agora, e tu nunca mais vai estar só."
Queria tanto viver contigo, só contigo, por dias e mais dias no meio do nada; fiz isso, em todas as oportunidades que tive ignorei todo o mundo a minha volta, passei a chave na porta do quarto e fiquei ali, sobrevivendo do teu ar. Realizei assim meus sonhos de romance, que nunca envolveram véu, grinalda ou paisagens paradisíacas; somente dois corpos em uma cama em um dia de chuva, ouvindo apenas suspiros tão úmidos quanto as gotas no telhado.
Tantas outras vezes, me realizei com coisas inimagináveis ao mundo real. Teu olhar pousado ao meu enquanto tua boca confessava frases de todos meus vícios culturais (até os mais ousados e nunca ditos a ninguém!) como se tivessem sido realmente feitos para mim, e só para mim.
Por essas e outras milhares de razões é que deixei de dormir, que passei a calar do nada.
Pois não sei se tu sabes, meu amor, mas mulher nenhuma nesse mundo (tratando-se de mulheres de verdade, e não daquelas que a alma já deixou o corpo antes de mais nada) doa-se assim por nada; existe uma razão por trás de tudo, mesmo que tu a sinta abstrata. O quanto tu reclamas e diz que me machuco e sofro por tudo e por tão pouco só me faz pensar que devia ter tido mais tato, mais cuidado.
Implícito ao amor está a vontade de convívio, a necessidade de atenção, e algum compromisso de unidade. E tu, ah... Te descompromissou com tanto desdém...
Acostumou-me a duras penas com tua ausência. Me fez aprender o desprendimento. Me fez entender que estou sim sozinha, e que tu vais ir embora no momento em que ter vontade. Tu me trouxe de volta ao mundo da realidade da qual tu me arrancastes tempos atrás.
Pagou com alta traição a quem te deu muito mais do que a mão, arrancaste os delírios de um pobre coração cansado que agora repousa em dores dignas de sambas bonitos de tão tristonhos.
E, digo, como em mil outras ocasiões:
Não te amo uma vírgula a menos. Apenas sei que tudo é diferente agora.
Ainda sinto teu gosto, tuas pele, tuas cores, teu cheiro... Te procuro, te tenho em mim.
Mas já não misturo meu desejo com o resto. Já guardei minhas vontades de guriazinha, coisas tão bonitinhas... Iludida como se fosse brincar de casinha, queria ficar do teu lado até bem velhinha, com uma aliança no dedo e me orgulhando a todo instante ao contar aos netos que contigo estaria até o ultimo momento, e depois ainda mais.