Em quem o pastor vai votar?
Essa é uma pergunta que tenho recebido com certa frequência. Como cidadão brasileiro, poderia exercer o direito de responder apoiando algum candidato ou alguma ideologia política. Porém, como pastor, entendo que posso abrir mão desse direito em nome da comunhão e da paz, pois a partir do momento em que eu disser apoiar um nome ou outro publicamente, certamente traria dor e divisão para a amada Igreja de Jesus Cristo.
O próprio Senhor Jesus Cristo disse: “Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”. (Mateus 22.21). Com isso, Jesus já estava introduzindo que há uma diferença entre o Reino de Deus e os reinos deste mundo. Da mesma forma, no séc. XVI, Lutero falava que o bom teólogo é aquele que sabe distinguir Lei e Evangelho. Desta forma, o 1º Uso da Lei não deve ser transformado no Evangelho, pois enquanto o 1º Uso da Lei é sobre a organização civil da sociedade, o Evangelho diz respeito à salvação eterna. Na Igreja Luterana, nós não abrimos espaço para políticos nominais ou para partidos políticos no púlpito porque entendemos que o púlpito é lugar de pregação do Evangelho, a saber, do Cristo crucificado e ressuscitado – e não de César! Da mesma forma, acreditamos que o Estado não deve ser governado pela fé (evangelho), mas pela razão (1º Uso da Lei).
Entretanto, diante da sociedade polarizada em que tivemos, manter silêncio sobre o voto pessoal e secreto parece incomodar uma parcela da sociedade – incomoda inclusive alguns cristãos. Ao se manter silencioso, inicia-se por parte de alguns uma “eterna vigilância” para se saber “de que lado o pastor está”. Se o próprio pastor não abre o seu voto, então os outros o colocarão em suas caixinhas a partir de suas próprias interpretações que são conduzidas a partir das suas próprias convicções pessoais. Assim, estereótipos são criados para humanizar quem pensa igual e desumanizar quem pensa diferente.
Ainda assim, mantenho a posição de manter meu voto secreto. Procuro também respeitar aqueles que abrem seus votos, pois sei que vivemos em uma democracia que tem como pressuposto básico a liberdade de expressão (que tem seu limite na Constituição Federal).
Como pastor, meu pedido tem sido pela paz. Minha oração é que nenhuma família, igreja, escola, empresa, comércio ou outras organizações se dividam por causa de políticas partidárias. Tenho orado especialmente pelas famílias, pois é ali que mais tem havido brigas, discussões e divisões. Desejo profundamente que as crianças cresçam em famílias que valorizam o diálogo, o respeito e a tolerância.
Por fim, lembro-me das palavras escritas pelo apóstolo Paulo à Comunidade de Corinto que estava profundamente dividida em torno de vários nomes: “Refiro-me ao fato de cada um de vocês dizer: “Eu sou de Paulo”, “Eu sou de Apolo”, “Eu sou de Cefas”, “Eu sou de Cristo”. Será que Cristo está dividido? Será que Paulo foi crucificado por vocês ou será que vocês foram batizados em nome de Paulo?” (1 Coríntios 1.12-13).
Como pessoas cristãs, mantenhamo-nos unidos em torno de Jesus Cristo – o Príncipe da Paz!
P. William Felipe Zacarias
Sapiranga/RS, 24 de Setembro de 2022.















