Te coloquei em uma caixinha
Te coloquei em uma caixinha e te deixei lĂĄ.
NĂŁo sabia o que fazer com vocĂȘ, com suas lembranças. Tudo estava jogado pela casa. NĂŁo conseguia viver, transitar pelos cĂŽmodos sem esbarrar em vocĂȘ, entĂŁo te coloquei em uma caixinha.
A casa ficou limpa, tinha espaço, ficou a sensação de liberdade, como se nada tivesse existido, como se o passado fosse um sonho, como se vocĂȘ tivesse sido uma mera ilusĂŁo, mas eu te coloquei em um caixinha.
Nada tinha acabado, nada tinha sumido, sĂł mudei a bagunça de lugar, tirei do horizonte, apertei tudo em um Ășnico espaço, te coloquei em uma caixinha.
O tempo passa e as vezes nem lembro de vocĂȘ, nĂŁo passo perto da caixa, entĂŁo vivo como se vocĂȘ nĂŁo estivesse lĂĄ, mas vocĂȘ estĂĄ, porque eu te coloquei em uma caixinha.
Mas as vezes vocĂȘ fica inquieto e acaba saindo da caixa e a bagunça se espalha, eu tropeço, caio e me machuco, porque eu te coloquei em uma caixinha e esqueci o quanto as suas coisas podem machucar.
Eu recolho tudo novamente, sufoco tudo dentro da caixa, aperto, coloco coisas novas juntas, passo fita e amarro a caixa e digo que dessa vez de lĂĄ vocĂȘ nĂŁo sairĂĄ, porque eu te coloquei em uma caixinha e amarrei com fita.
O tempo passa e eu novamente vivo como se ja te esquecesse, como se na verdade ja tivesse te mandado pelos correios a caixinha que te coloquei. Mas a verdade Ă© que a caixinha ta la no canto coberto de cetim e a qualquer momento ela pode se abrir e vocĂȘ fugir.
O tempo passou e nĂŁo lembrava mais de vocĂȘ, nĂŁo sabia o que era aquela caixinha, amnĂ©sia momentĂąnea. EntĂŁo por descuido da vida eu te abri, nĂŁo foi por querer, procurava algo que a tempos nĂŁo via. Procurava uma parte de min que havia sumido. E quando tirei o cetim e abri a caixinha, vocĂȘ se emaranho por todos os cantos, por todas as partes e nessa bagunça que te acompanha encontrei o que havia sumido, a parte que me faltava.
Eu te coloquei em uma caixinha e junto coloquei a parte que me completava, a parte que me fazia falta.