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Aqua Utopia|海の底で記憶を紡ぐ
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"I'm Dorothy Gale from Kansas"
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@versivo
nexo total de cegueira
a dose de realidade que se injeta nos homens, para que cada um possa se medir - chamem-no Direito - com os "poderes" e, no processo, produzir o que seria particularmente próprio, o conflito que é suposto mouens da moralidade, como se um heroísmo desbotado pudesse sair da própria cabeça de um sujeito em raios de mil cores... essa dose de realidade é uma dose de farsa e, em última instância, não é senão a forma mais gregária de opressão. a polícia te prende, o marginal te fode, o governo te esfola, mas participar de um clubinho ... te destina.
nenhum destino, contudo. as pessoas se agrupam - essa é a força dos coletivos, da torcida ao partido aos fãs de música de merda e todos os supostos geeks e afins - porque sobraram. só há grupos onde há restos. toda a ansiedade de dar um sentido à vida, em suas formas banais (isto é, aquela que paga foro à sociedade como um todo: "esse é meu direito, isso significa aquilo, eu sou eu"), é viciada pela debilitação sistemática dos indivíduos. nossa obrigação de reportarmo-nos uns aos outros, como se isto fosse por fim ocultar as falhas de caráter que esse próprio hábito nos engendra. não são costumes, não é espírito, são signos e mesmo as conversas mais sérias são mera verificação das condições objetivas do canal de comunicação. para que todos sejamos imbecis em comum, cada qual a seu modo, segundo a sua necessidade. eu não digo que sejam dissimuladas, as pessoas são simples simulação.
quando isso foi diferente? ser resto é a condição comum dos homens; a condição ontológica do ente é o cocô. desde que surgiu a ideia de homem, mesmo em suas formas menos universais, os sujeitos estão sobrando. a injunção dos povos, como deve ser ouvida: "vamos fazer cocô juntos", para formar um mundo mais cheio de merda.
não há problema em sobrar. eu, porém, prefiro ser enterrado em vala comum sem ser obrigado a ter de fato parte nela. eu vou sobrar, mas com mais calma (a virtude aqui é a honestidade) a respeito da fraude que eu sou. espírito é ciência da fatalidade, esperança de que o destino que pesa sobre os homens seja cancelado.
e eu não quero ser contado entre os ímpios.
Assassinaram-te o bastante, suicidiram-te o bastante, para poderes desenrascar-te sozinho, como um rapaz crescido. É o que digo a mim mesmo. E acrescento, furioso, Desfaz-te dessa inércia imortal, não é de bom-tom, neste meio. Eles não podem fazer tudo. Puseram-te no bom caminho, deram-te a mão até à beira do precipício, agora és tu quem tem de lhes provar o teu reconhecimento, dando sem ajuda o primeiro passo.
Samuel Beckett, n'O Inominável
Nada conclusivo tomou lugar no mundo, a última palavra do mundo e sobre o mundo ainda não foi dita, o mundo é aberto e livre, tudo ainda está no futuro e sempre estará.
Bakhtin
ontem eu ouvi teu riso, tinha o som de algo que se partia dentro de mim e queria encontrar razões pra que não fosse assim, mas só encontro o oposto, só o oposto, e, no fundo, não sei onde estou. certamente, R, que as primeiras pessoas a subtraírem-se aos mares e espaços inúmeros das questões, da linguagem que se denuncia corrupta, da redução do mundo a simples eco, por oco, certamente essas pessoas podem sair por aí e dizer algo, nem que o máximo seja só uma tolice. mas depois de tanto tempo mantendo os olhos, procurando esgueirar-se entre as coisas, a debater-se, conquista-se uma flexibilidade, viaja-se, ainda que não de todo à vontade, no mar sagrado das contradições. eu sonhei com isso hoje, mais ou menos, sonhei que te dizia isso (e a espuma era de chocolate branco, whatever) não sei se tou associando errado, é possível.
no mar sagrado das contradições
"A coisa maravilhosa da linguagem é que ela promove seu próprio esquecimento: meus olhos seguem as linhas no papel, e a partir do momento que eu estou preso ao seu significado, eu as perco de vista. O papel, as letras, os meus olhos e o corpo estão lá apenas como a configuração mínima de alguma operação invisível. A expressão desvanece diante do expresso, e é por isso que seu papel de mediador pode passar despercebido"
Merleau-Ponty
Eu desvelei uma visão utópica da cultura imaterial telemática, no qual o Homo ludens vai dedicar sua vida a uma criatividade nascida de uma imaginação de segunda-ordem, com base na clara e distinta razão, dentro de uma sociedade orientada ciberneticamente através do feedback intersubjetivo, uma sociedade sem governo ou poder, uma sociedade de liberdade. Todos os pré-requisitos técnicos para fundar uma tal cultura já estão aqui: nada precisa ser inventado, é apenas necessário distribuir o aparelho existente e permitir que a sociedade deles faça uso.
Vilém Flusser, sobre a vinda do Messias
nenhum destino, nada a esquecer
A imagem mais antiga que tenho é, talvez, a de um riso numa manhãzinha de sol tranquilo, morno, uma reconstrução suscitada por uma fotografia alheia e um sonho que, na pior época da minha vida, despertou a realidade irredutível não de uma realidade profunda mas do simples facto de que nenhuma dor é destino. Passados alguns meses após a série de sonhos dos quais despertava, na madrugada, em meio a lágrimas cada vez mais angustiantes, tive este em que o que transbordava era alegria. E não me senti mal por acordar, a insônia justificava-se - a concretude da experiência era a tal ponto intensa que penetrava o próprio despertar, levando-me a reconhecer que sem o despertar provavelmente aquele instante se dissolveria no jamais lembrado.
Sorri, os outros sorrir-te-ão de volta. Sorri tua transparência, tua candura. Sorri se nada tens a dizer. Sobretudo, não escondas o facto de não teres nada a dizer, nem a tua indiferença total aos outros. Deixa que esse vazio, que essa indiferença profunda resplandeça de maneira espontânea no teu sorriso.
Jean Baudrillard
(e a esperança nos é dada em nome daqueles aos quais já nenhuma resta)
Na uniformidade cinzenta da consciência rasurada e reificada há desejos - em relação aos quais o ethos da autenticidade mais se aborrece e os quais ele associa à degeneração das massas - que são o refúgio de um estado melhor.
Teddy Adorno
(título :w.benny)
"O ser humano é essa noite, esse nada vazio, que em sua simplicidade tudo contém - uma riqueza sem fim de muitas representações e imagens, nenhuma das quais lhe pertence ou lhe vem efetivamente ao espírito. Essa noite, o interior da natureza, que existe aqui - puro Si - em representações fantasmagóricas, é a noite por toda parte: surge então, aqui, repentinamente, uma cabeça ensanguentada; lá, outra aparição branca; e ambas desaparecem de modo igualmente repentino. Quando olhamos nos olhos de um homem, é essa noite que descobrimos, essa noite que se torna terrível"
Hegel
SÓ HÁ UMA EXPRESSÃO PARA A VERDADE: o pensamento que nega a injustiça. Se a insistência nos lados bons não for superada no todo negativo, ela transfigurará seu contrário: a violência. Com as palavras, posso intrigar, propalar, sugerir; é por aí que elas se vêem envolvidas como toda acção na realidade, e é isso também a única coisa que a mentira compreende. Ela insinua que até mesmo a recusa da ordem existente tem lugar a serviço de formas incipientes da violência, burocracias e despotismos concorrentes. Em seu medo inominável, ela só pode e só quer enxergar o que ela própria é. Tudo o que pertence a seu meio, isto é, à linguagem usada como simples instrumento, identifica-se à mentira, assim como as coisas se identificam umas às outras nas trevas. Mas, por mais verdadeira que seja a suposição de que não há nenhuma palavra de que a mentira não possa acabar se servindo, não é através delas que sua bondade resplandece, mas unicamente na dureza do pensamento em face do poder. O ódio intransigente pelo terror perpetrado contra a última das criaturas constitui a legítima gratidão dos que foram poupados. A invocação do sol é idolatria. Só o olhar voltado para a árvore ressecada por seu ardor faz pressentir a majestade do dia, que não precisa abrasar o mundo ao iluminá-lo.
Theodor Adorno
Quanto fui jaz. Quanto serei não sou. No intervalo entre o que sou e estou, A natureza, exterior, tem Sol. Mas, se tem Sol, há Sol. Ao Sol me dou.
Fernando Pessoa
TORNA-TE DA COR DOS MORTOS Sometimes your cards ain't worth a dime if you don't lay them down a nostalgia do sentido é a confissão tímida de sua inverdade total. a necessidade de encontrá-lo, de buscá-lo, de restituí-lo ou, ao imaginá-lo aqui ou ali, preservá-lo, antes de indicar sua ocultação e sua fragilidade (que de si já arruínam a noção de sentido como teleonomia) atesta o esforço de sua ficção. se o sentido naturaliza a relação sujeito-objeto pela manutenção de seus termos conforme um princípio imanente, um catalisador de sua homeostase, é mais do que óbvio que somente um esforço imensamente ingrato e incessante seria capaz de abalar sua coerência, esforço imensamente ingrato e incessante como o praticado pelos arautos de uma felicidade subsistente às expensas de sua contínua autocoerção silenciosa e, no discurso de seu contrário afirmativo, insatisfeita para além de sua própria encenação fantástica. o que se deveria pregar é ainda um paralelo do cristão "deixai aos mortos o cuidado de enterrar seus próprios mortos," ou seu efetivo equivalente reverso, o zenoniano "torna-te da cor deles".
nova axiomática
E que, então, é útil ao homem do presente a consideração monumental do passado, o ocupar-se com os clássicos e os raros de tempos antigos? Ele aprende com isso que a grandeza, que existiu uma vez, foi, em todo caso, possível uma vez e, por isso, pode ser que seja possível mais uma vez; segue com ânimo sua marcha, pois agora a dúvida, que o assalta em horas mais fracas, de pensar que talvez queira o impossível é eliminada.
Nietzsche
Antigamente não se podia ousar pensar livremente, agora isto é permitido, mas não se consegue mais fazê-lo. As pessoas querem pensar apenas o que se deseja que elas pensem, e exatamente isso é sentido como liberdade.
Oswald Spengler, reacionário tamen
"A filosofia tem de abdicar do consolo de acreditar que a verdade não é passível de ser perdida. Uma filosofia que não pode cair no abismo a partir do qual os fundamentalistas da metafísica gostam de discutir em tom empolado - não se trata aqui do abismo de uma ágil sofística, mas da loucura - torna-se, sob o postulado de seu princípio de secularidade, analítica e, potencialmente, tautologia. Somente tais pensamentos que vão ao extremo fazem frente à impotência onipotente do consenso seguro; somente a acrobática cerebral continua tendo uma relação com a coisa que ela despreza em favor da fable convenu de sua autossatisfação. Nada de irrefletidamente banal pode, como reprodução de uma vida falsa, continuar sendo verdadeiro."