— Hilda Hilst, no livro "De amor tenho vivido: Balada do Festival VIII". — 1a ed. — SP: Companhia das Letras, 2018.

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— Hilda Hilst, no livro "De amor tenho vivido: Balada do Festival VIII". — 1a ed. — SP: Companhia das Letras, 2018.
destruí meu velho eu para mim enterrei Deus no quintal, no jardim matei minha mãe, o meu pai me perdoei
(seguimos todos vivos)
— tim bernardes
sara.robin
@onlything_one
• Jorge Amado
escrever é ser uma criança
que brinca eternamente com as palavras.
mv.
Xènia Fuentes
The Woman Next Door project
clico nessas guias abertas incontáveis vezes
ligo e desligo a tela do celular
abro e fecho os livros sobre a mesinha de centro
e fico nesse looping contínuo como se buscasse algo
mas assim que o faço
já não sei mais o que busco
vivo os dias assim
indo e voltando da estação de trem
escrevendo e apagando uma única palavra
sentenciando a morte de uma poesia prematura
cambaleando entre os meus desejos e aquilo que é, de fato, possível
olho para os meus dedos que vão e voltam no meu corpo
(ainda há vida em mim
mas pouca)
sinto o cheiro que vem da cozinha
dos legumes que foram assados há pouco tempo
recolho os copos, os garfos e facas
para que eu os possa sujá-los novamente amanhã
e adormeço sem muita ânsia
de saber o que virá
pois eu sei que
talvez um copo se quebre
talvez o trem se atrase
talvez a carne se queime
talvez uma guerra aconteça
talvez alguma coisa
mesmo que mínima
talvez alguma
coisa
aconteça
mas eu não
eu não.
mv.
Elegance in Flowers: Classic Arrangements for All Seasons, 1985
numa dessas noites em que estávamos divagando sobre a vida e assistindo ao filme green book, eu lamentei que você nunca mais me escreveu nada.
você falou que eu tenho mais textos
e que você tem mais rascunhos
achei bonito de ouvir mas logo te perguntei
do que seus rascunhos valiam
se nenhum deles
chegava até mim
e ficamos em silêncio.
mv.
nem tudo está perdido
- eu ainda choro com poesias.
mv.
Forugh Farrokhzad, tr. by Hasan Javadi & Susan Sallée, from Another Birth: Selected Poems of Forugh Farrokhzad; "Let us believe in the beginning of a cold season"
[Text ID: "I am naked, naked, naked / naked like the moments of silence / between the phrases of love"]
Amalia Bautista (trad. Inês Dias)
in “Conta-mo outra vez” (ed. Averno, 2020)
Mariano Alejandro Ribeiro
in "Antes da Iluminação"
vejo o tempo caminhando pelo o meu rosto
pernas
boca
subindo em mim feito um bicho
indo para lugar nenhum
dou lugar aos desejos que nunca tive e não peço mais desculpas por isso
não tenho pedido desculpas por muita coisa;
tenho me deixado errar e gritar e chorar
mesmo que seja em meio a um carro em movimento
já estou acostumada com a velocidade e não sinto medo
mas diferente de antes
hoje eu não quero colidir contra algo e desaparecer para sempre
pois aprendi com o meu pai a não temer a velocidade
mas tive que estar longe dele
para desaprender a odiar a vida
vejo a fogueira ser acesa no fim de tarde
ouço rodrigo amarante tocando pela milionésima vez
e penso em tudo aquilo que ficou para trás:
os números de emergência
as paredes brancas
a carta para minha irmã
os diários incompletos
e a minha rebeldia indomável
ainda me lembro do meu próprio caminho
e sim, perdi muitas pessoas ao longo dele
mas não
eu não posso ser uma dessas que fica para trás
abro a porta do meu peito
dou boas vindas a tudo aquilo que eu nunca olhei nos olhos antes
deixo as contradições entrarem lentamente
me beijando a testa
me pintando a pele
me revirando de cabeça para baixo
não há como eu me perder de mim mesma
toda ida é sempre uma volta
toda fuga é sempre um encontro
tudo está alojado em mim
poros
pelos
cicatrizes
pois esta é a minha casa
e mesmo que costurada pelo tempo
eu ainda estou aqui
em algum lugar.
mv.
Rosa Morena, in Movimentos Intransitivo