Mente Mítica e a Violência Espetacular
Werner Herzog aponta que há sempre dois filmes em curso. Um deles é o filme que se passa nas telas, a trama de palavras, sons e imagens construída pelo diretor e cujo sentido se organiza mais ou menos em torno das intenções deste. Já o segundo filme é sempre invisível, acessível somente à mente coletiva de fundo mítico. Por vezes, os dois filmes entram em contradição. Isso pode explicar casos como os de Tropa de Elite. Apesar do filme, em si, apresentar toda uma discussão contra diferentes formas de fascismo e violência; ele acabou beneficiando todo um imaginário mítico “salvador da pátria” irascível que vem, com extrema violência física e institucional, resolver os flagelos da sociedade civil. Bolsonaro e Moro exploraram abertamente esse imaginário (cada um à sua maneira, respectivamente, os filmes 1 e 2).
O enredo contraditório, paradoxal e excitante de Bacurau dá mostras de ser potente o suficiente para chamar a atenção dessa mítica mente coletiva. No entanto, o que se viu, aí?
É difícil determinar precisamente o que se realiza somente no plano imaginário. Pessoalmente, foi com regozijo que assisti o desfecho no qual o terceiro mundo revida à sua maneira à espetacular e abstrata violência do primeiro mundo. Afora a experiência individual e o escutar atento das repercussões, resta ao crítico, em geral, somente esperar por um fato ou fenômeno, novo ou antigo, que ajude-o a acessar esse plano que, contido nele mesmo, contudo não lhe é acessível diretamente.
Os jornais de hoje noticiam que, em meio às tensões políticas na Bolívia despertadas pela eleição de Evo Morales, denunciada como fraudulenta pela oposição, a prefeitura de Vinto, uma pequena cidade de 50.000 habitantes próxima a Cochabamba, foi incendiada e a prefeita, Patricia Arce Guzman, do partido governista, sequestrada pelos manifestantes opositores. Obrigada a marchar com o grupo, ela foi manchada de rosa e teve os cabelos cortados.
A cena lembra algo do desfecho de Bacurau, na qual o prefeito da cidade, Tony, acusado de facilitar a entrada dos americanos na cidade, acaba detido pela comunidade. Amarrado ainda vivo, nu, a um jegue, seu rosto é coberto com a máscara de uma entidade mítica local. Seu destino é a cidade grande, para que todos lá saibam o que esperar da cidade de Bacurau em caso de revide.
Por vezes, é possível que a mente mítica escape, por sua própria autonomia, às intenções do autor e a história dá inúmeros de filmes que acabaram em mãos erradas. Outra prova disso é que os manifestantes da Bolívia provavelmente não assistiram a Bacurau. Não se trata, portanto, de atribuir ao diretor os possíveis flagelos da realidade; e sim de examinar de que modo a consciência desse conteúdo mítico latente se expressa, ou se faz presente, na linguagem concebida por ele.
A cena ocorrida na Bolivia nos ajuda a identificar uma contradição ou cesura em Bacurau. Observando outra vez a imagem da Bolívia, nota-se que os manifestantes estão todos cobertos de máscaras, nenhuma delas manchada pelo tom rosa que recobre a prefeita. É precisamente isso - esconder o rosto contra uma política de vigilância global, porque se sabe que o ato é destinado não apenas às lutas locais de poder, mas sobretudo ao regime espetacular global - que não ocorre em Bacurau. No momento em que o prefeito é amarrado, ele é o único que tem o rosto oculto. Todos se apresentam de cara limpa, como se portassem ali como o coro das antigas tragédias gregas, o povo que vem dar a sentença ao ator mascarado.
Em outras palavras, Bacurau, face ao vespeiro de um tipo de violência arcaica e altamente simbólica que pretendia suscitar, pode ter adotado uma versão algo ingênua de uma hipervisibilidade política como forma de compensação. Com efeito, na pequena cidade de Bacurau, todos são perfeitamente visíveis uns aos outros e a comunidade é gerida, justamente, através dessa hipervisibilidade (todos sabem os pecados e as fraquezas uns dos outros, quem são os amantes de quem, quem são os matadores de aluguel, os traidores, os desequilibrados porém justos, os que buscam se redimir dos pecados, os corajosos e os covardes...). Não há sombras em Bacurau; há somente a clareza entre os seus e a escuridão, a ausência, para os forasteiros. Clareza reforçada pelo alucinógeno - como se o filme pretendesse dizer que o que se passa na tela só é justificável se estivermos perfeitamente esclarecidos quanto aos nossos próprios mitos. Em todo caso, é justamente essa hipervisibilidade - que, na história da humanidade, parece ser reservada simbolicamente à pólis grega - que é duplamente impossível, hoje. Primeiro, porque é característico das culturas tradicionais conceber a força do oculto em si e no outro, fonte do mistério divino - o que é evidente no cinema de Glauber Rocha, repleto de tentações diabólicas não atribuíveis ao outro. Segundo, porque estamos no mundo globalizado, hipervigiado e espetacular, como a própria Bacurau faz questão de se mostrar em outras ocasiões, um mundo no qual as imagens tem seu próprio destino.
Assim, se é no oculto do algoritmo e das câmeras que o americano vem à Bacurau para expurgar seus demônios; devemos nos perguntar se Bacurau, na verdade, não desejaria inversa e secretamente ocupar - com seus belos rapagões andróginos cobertos de sangue a segurar heroicamente as cabeças do inimigo - o centro do espetáculo mundial.
Se o Haiti é aqui, Bacurau também é. Mas, onde?