Por que não fotografei a tapioquinha?
*Texto de Claudia Regina, fotógrafa*
> estou em belém. esta manhã, depois de ir ao banco, vejo uma senhora vendendo tapioquinha. hum, adoro! quero uma. ela disse: “senta ali na sombra, moça, que tá sol!” sentei. da sombra, observei a tapioquinha tomando forma. lá foi ela. coloca a massa de tapioca na frigideira, em pequenas colheradas. com a mesma colher, vai espalhando tudo para formar a panquequinha. espera um pouquinho. sacode a frigideira e, num pulo, a tapioca já tinha virado pro outro lado. espera mais um pouquinho. abre espaço num pano de prato e coloca a tapioca esticadinha por cima. pega um pote de manteiga e, com uma faca, vai aos poucos besuntando a tapioca. primeiro, nas bordas do círculo. depois, no centro. a faca é colocada de lado. fecha o pote de manteiga e pega o pote de queijo. “o queijo está bem molinho, tá calor!” com uma colherzinha vai pegando um pouquinho de queijo e espalhando na tapioca. coloca um pouquinho aqui, outro pouquinho acolá. espalha, espalha, espalha. bota a tapioca, devidamente amanteigada e aqueijoada, na frigideira novamente. aquece um pouquinho e, com a colher, vai enrolando, enrolando (aqui no pará se come tapioca enroladinha, diferente de alguns outros locais do país onde se faz um pastelzinho.) tapioquinha devidamente enrolada, volta pro pano de prato. “é pra comer agora?” opa, com certeza. abre um pote, pega um guardanapo. dobra no meio, levanta a tapioca, coloca ela em cima. parece que está colocando a fralda num bebê, de tanta delicadeza. repete com outro guardanapo, desta vez fazendo uma trouxinha. 3 reais por uma deliciosa tapioquinha feita por uma senhora com um leve toc e muito carinho.
Publiquei o texto acima numa rede social. Em pouco tempo surgiram pessoas comentando: “cadê foto?”, “queremos fotos!”, “devia ter tirado uma foto!”, “por que não fotografou?” Acredito que muita gente espera que eu esteja sempre com a câmera na mão só porque sou fotógrafa. Sei que não parece uma expectiva infundada, mas pra falar a verdade vejo muitos mais motivos para não fotografar do que para fotografar. A situação da tapioca exemplifica bem alguns deles:
**1. Não somos neutros com uma câmera na mão**
Não tem como apontar a câmera para alguém e achar que essa é uma atitude neutra. Se eu fizesse isso nesta situação a tapioqueira ia, na hora, perceber. Não sei o que ia acontecer. Talvez ela ficaria vaidosa e contente. Talvez se sentiria invadida. Talvez ficaria com vergonha. Talvez desse uma ajeitada na coluna. Existem várias possibilidades, mas todas elas pressupõem uma só: ela com certeza ficaria autoconsciente do seu corpo e de seus movimentos mudando completamente o rumo daquele momento. Alterar o momento de rumo muitas vezes quebra algo que estava legal. Aquele momento sublime de uma senhora fazendo tapioca não merecia ser estragado por causa de uma foto. Sou um pouco radical neste ponto: não só acho que não somos neutros com uma câmera na mão, como acho que fotografar outras pessoas é um ato violento por si só. As palavras que usamos para o ato de fotografar mostram muito bem o que estamos fazendo. Tirar uma foto. Capturar uma foto. Não só as câmeras profissionais são enormes e parecidas com armas, a gente ainda usa esta arma para capturar as pessoas! A responsabilidade é enorme. Nós é que decidimos o ângulo, o momento, como e quando apertar o botão. A pessoa fotografada está à mercê da nossa generosidade (ou falta dela.) Se o nosso único objetivo com um retrato é fazer uma foto bonitinha, talvez seja melhor não fazer nada. Uma foto bonita não é um motivo bom o suficiente para cometer essa violência. Acredito que retratos podem ser lindas ferramentas para fazer algo pelas pessoas fotografadas e procuro focar meus esforços somente nestas possibilidades.
**2. A fotografia não é o melhor meio**
Acho bobagem o ditado que diz que “uma imagem vale mais do que mil palavras”. Nem sempre! No caso da tapioqueira, nenhuma foto ou série de fotos que eu fizesse passaria a história da forma que o texto passou. A fotografia é uma ferramenta e não tem nada de melhor que as outras. Às vezes, o que cumpre o objetivo é um texto, um vídeo, uma voz, uma mistura de tudo. O que mais me incomoda de quem usa a fotografia como arte é esta crença de que a fotografia pode passar uma mensagem mais rápido ou pode causar um efeito na pessoa observadora de forma mais real. Às vezes, não. Há um tempo atrás visitei uma exposição fotográfica que possuía imagens de pessoas indígenas. Uma das fotos mostrava uma mulher com pinturas no rosto, argolas e outros acessórios nas orelhas e lábios. Fiquei observando a própria exposição: várias mulheres passavam por esta foto e comentavam algo como “olha que engraçada essa pintura no rosto!”, “que exótica essa moça!”, “gente, como ela tem coragem de colocar isso, deve doer!” Não é preciso uma fotografia para que as pessoas nãoindígenas pensem que as pessoas indígenas são estranhas ou exóticas. Essa foto estava somente reforçando isso. Quem sabe, se esta foto não estivesse sozinha, ela poderia gerar uma reflexão além do estereótipo. Quem sabe, explicando através de outros meios, as pessoas não-indígenas daquela exposição perceberiam que fazer tatuagem, colocar implante nas mamas, usar maquiagem ou se depilar com cera mensalmente também são atitudes bastante engraçadas, exóticas e que dóem. Talvez elas respeitassem mais a pessoa retratada como alguém que, assim como elas próprias, toma decisões com base no que sua tribo espera.
**3. A fotografia nos toma experiências**
Se eu tivesse sacado uma câmera para fotografar a história da tapioca, em poucos segundos deixaria de perceber cada um dos movimentos da senhora e passaria a me preocupar com o foco e com a composição da foto. Eu deixaria de estar lá. Ao contrário da ilustração ou da poesia, a fotografia está no dia a dia de muita gente. Susan Sontag, no seu livro “On photography”, disse que “todo mundo está usando a fotografia como diversão, quase tanto quanto sexo.” Isso foi na década de 70.
Hoje tenho certeza que fotografamos muito, mas muito mais do que transamos! Nos parece normal que, tendo poder aquisitivo pra isso, passemos tanto tempo da nossa vida olhando o mundo e a sociedade através de retângulos luminosos. Morando no Rio de Janeiro comecei a notar que viajar sem tirar fotos parece inimáginável. Ando pela orla de Copacabana e ali está um moço fazendo uma foto do seu milho meio-comido com o pôr do sol ao fundo, ali está um grupo de amigas fazendo diversos selfies na praia, ali estão pais fotografando cada passo de um bebê. Durante minhas próprias viagens e passeios já cansei de ver guias na maior empolgação contando histórias e causos, e todo mundo só prestando atenção nas suas câmeras.
Viagens potencializam nossa atitude registradora, mas no dia a dia fazemos o mesmo. Sempre tem alguém insistindo para parar tudo para uma foto durante um encontro de família ou para registrar a janta que acabou de chegar no restaurante. Sempre tem alguém para parar seja lá o que estava acontencendo com a frase “vamos fazer uma foto?” E eu me pergunto: por quê estamos fazendo isso?
Muitas vezes, vamos admitir, é para impressionar os outros. Dentro de uma sociedade que tem definições muito claras de sucesso faz todo sentido divulgar na internet a viagem que acabamos de fazer ou o restaurante que gostamos de frequentar.
O pior é que muitas vezes as fotos são só a ponta do iceberg: quantas vezes não agimos para os outros e fotografamos para provar? Sim, muita gente fotografa o casamento para registrar a festa caríssima que fez, mas neste caso a festa já foi feita para se encaixar numa demanda por si só. Se achamos que “se ninguém ficar sabendo é como se não tivesse acontecido”, é hora de repensar esta luta que já começou perdida: os outros sempre vão parecer mais próximos do tal sucesso. Mas nem sempre é o caso.
A maioria das pessoas que conheço e que gostam de fotografia dizem, de forma unânime, que a fotografia serve para relembrar um momento bom. Mas será que precisamos tanto disso? Será que precisamos voltar de Paris com mil fotos, para relembrar de Paris mais tarde, se quando de fato estávamos em Paris perdemos mil momentos vivendo Paris através de um retângulo luminoso? E se, ao invés disso, vivêssemos Paris com todos os nossos sentidos? Será que precisamos passar a infância inteira das nossas crianças fotografando sem parar?
Muita gente me conta que já tem milhares de fotos do bebê de um mês de idade. São milhares de momentos vendo o bebê através de uma tela, ao invés de viver o crescimento do bebê com todos os nossos sentidos.
Fazemos isso porque temos medo.
A viagem à Paris acaba em poucos dias e bebês crescem muito rápido. Temos medo do passageiro, porque ele passa.
Sim, o momento vai passar: mas esse é o melhor motivo para fotografar menos e aproveitar mais.
futuro, é bem possível que lembremos de coisas boas do passado. Se estes momentos foram tão bons assim, é bem provável que a gente não precise de fotos para relembrá-los.
Mas nossa memória não é infalível e com certeza vários momentos ficarão lá no passado.
Mas qual é o problema? Por que precisamos relembrar? Porque não podemos viver o momento naquele momento e nos desapegarmos dele depois? Podemos usar a fotografia para ganhar nosso dinheiro.
Podemos usar a fotografia como uma ferramenta do nosso próprio ego: provando aos outros que temos sucesso ou relembrando nossos próprios momentos bons. Mas também podemos deixá-la de lado e, com isso, parar para olhar para dentro e para fora.
Olhar pra dentro nos ajuda a entender os nossos próprios porquês e de onde eles vêm. Olhar para fora nos ajuda a perceber o mundo que estamos dividindo com outros animais (inclusive os mais difíceis de entender: esses da nossa própria espécie) e como os nossos porquês afetam o que está à nossa volta. Quem sabe, depois de olhar tudo isso, podemos usar a fotografia como uma ferramenta de mudança, de ajuda e de celebração.
E é por esses motivos que não fotografei a tapioquinha.