Parecia um pesadelo. Morgan nunca vivenciara nada parecido; quando ouviu o primeiro barulho de tiro, a princípio achou que fosse uma brincadeira, uma pegadinha de Halloween. No entanto, o que era uma festa divertida virou uma balbúrdia sem fim, pessoas apavoradas correndo de um lado para o outro, tentando sair do local ou, ao menos, achar um esconderijo. A sensação de descrença do tatuador evoluiu para um pânico que ele nunca sentira antes, uma sensação gelada que percorria toda a sua espinha. E, a despeito de todo e qualquer instinto de sobrevivência que era esperado que Walker demonstrasse, seu primeiro impulso não foi o de fugir da enorme mansão que agora era palco de um ato de terrorismo. Sua mente conseguia ecoar um único nome: Andrew.
Havia separado-se do amigo desde a hora em que dançaram juntos, e Morgan não o havia visto desde então. O moreno passou a percorrer os corredores em um passo que quase beirava ao desespero, pouco se importando se trombaria com um dos criminosos ou não. Sua única preocupação era achar o melhor amigo e tirá-lo daquele lugar. Quando passou na frente de um dos quartos, ouviu uma voz feminina vagamente familiar pedir por socorro, e quase não a teria reconhecido se não fosse o outro grito, inevitável e dolorosamente familiar, que chegou aos seus ouvidos logo após outro disparo.
Morgan não conseguiu, não pôde controlar a direção de seus passos que, apressados, voltaram à entrada daquele quarto. Teve pouquíssimos segundos antes de registrar o rapaz caído, baleado no chão, antes de ver o cano da pistola apontado diretamente para o seu rosto. O homem armado e mascarado que lá estava apontava-lhe o revólver enquanto saía, lentamente, para fora do quarto. “Do anything stupid and you’ll be the next”, ele escutou o criminoso dizer. O tatuador fez o máximo para conter sua adrenalina, seu desespero, enquanto o mascarado saía do quarto. Só então, permitiu-se olhar para as duas pessoas caídas no chão.
Sabia que havia reconhecido a voz feminina que saíra do quarto; Maeve estava lá, a roupa desalinhada, os olhos inchados pelas lágrimas, ajoelhada sobre um Andrew que estava deitado no chão liso. Demorou alguns segundos para Morgan perceber que a moça pressionava o abdômen dele, e que Andrew sangrava profusamente.
A horrível realidade atingiu Morgan como um soco no rosto. Era Andy que estava ali, com um ferimento grave que parecia nunca parar de sangrar. Walker sentiu suas mãos tremerem violentamente, os olhos esverdeados turvarem-se pelas lágrimas enquanto o desespero profundo tomava conta de sua mente. Seu cérebro parecia ter entrado em uma espécie de queda livre, carregado das piores possibilidades possíveis, tentando entender o que aconteceria caso o pior ocorresse e ele perdesse seu sócio, seu melhor amigo, seu...
Stop it, Walker. It’s not the time. Ele não podia se deixar levar pelo desespero. Andrew precisava de socorro, e se Morgan precisasse dirigir uma ambulância sozinho para levá-lo em segurança ao hospital, ele o faria. Poderia chorar depois. Agora, ele precisava agir.
“Maeve...” Ele abaixou-se para olhar a amiga nos olhos; ela estava visivelmente abalada e provavelmente se acalmaria diante de uma tarefa. “I need you to call 911. Tell them there’s people with bullet wounds here in the manor. Then I’ll need you to stay here with him while I look for someone who can give him some... some first aid. Can you do it?” Sua voz estava visivelmente trêmula, e Walker já sentia algumas lágrimas silenciosas escorrerem pelo seu rosto; agarrou-se a todo o controle que tinha para não deixá-las tomarem conta de si para olhar no rosto do amigo. “I’ll get you help, Sykes. Stay with us”. Stay with me.
Morgan levantou-se; se passasse mais um segundo olhando para o rosto de Andrew, sucumbiria. Espiou para fora do quarto; aparentemente, os criminosos já haviam ido embora, e só restavam as pessoas desesperadas procurando por socorro. “Hey! I need a doctor here!” Ele gritou repetidamente, andando pelo corredor, procurando por alguém que pudesse ajudá-lo. Finalmente, um rapaz se prontificou e acompanhou-o até o quarto para socorrer Sykes como podia enquanto a ambulância não chegava. Enquanto o médico dava seu melhor para estancar o sangramento, Morgan voltou a ajoelhar-se ao lado do loiro, tentando ao máximo passar segurança em sua expressão, sem obter muito sucesso e mal conseguindo esconder o medo irracional que sentia de perder o melhor amigo.