Ian sabia de todas as consequências. Deus, como ele sabia; e como gostaria de não saber. Ele sabia para qual caminho estava indo desde a primeira seringa que usou para furar uma veia. Ele sabia, mas também sabia que era forte e pensava que conseguia controlar. Por um tempo, realmente conseguiu. A heroína era forte como um tornado, como uma tempestade de verão, um acidente de carro a mais de cem quilômetros por hora. Mas Ian Alexeev Park era forte como um furacão, insistente como uma criança mimada, teimoso como um réu que não aceita uma sentença e insiste em sua inocência dia após dia. Forte como era, ele segurou por muito tempo. Usava outras coisas, mesmo quando a única sensação que queria era o paraíso único que só a heroína consegue proporcionar a um indivíduo. Usava outras coisas, fazia coisas impensadas, atirava, brigava, batia, matava e no fim do dia toda essa raiva se transformava numa dor tão grande, que nem a morfina parecia capaz de curar, nem amar alguém parecia capaz de curar. Ian não costumava ser uma pessoa ruim. Quer dizer, ele era uma pessoa sem moral nenhuma no céu, mas tinha toda a moral na terra, porque a lei dos homens é, sempre foi e sempre será, a lei dos mais fortes. E força era uma coisa que aquele maldito infeliz tinha tanto nos braços, quando na cabeça. Mas mesmo sendo tão forte como era, nem ele conseguia adiar o inevitável por tanto tempo. Por fora continuava fazendo o que precisava: obedecendo ordens quando preciso, dando ordens quando necessário. Controlando, calculando, acertando contas, fazendo contatos, trabalhando, bebendo, enfiando-se em multidões em pistas de dança somente para ter uns minutos no qual podia não ser um indivíduo, mas sim uma parte de uma massa indistinta de gente. Por dentro, ele conseguia sentir a heroína tirando sua capacidade de tomar decisões racionais. Afastando-o das pessoas que o mantinham de pé, das coisas que fazia com prazer. Ele conseguia fisicamente sentir aquilo, as malditas células se alterando, Ian e a heroína se tornando uma coisa só, pouco a pouco. Deus, como isso era difícil. Se existia um inferno, deveria ser parecido com aquilo, com aquela sensação de perda de controle, de desassociação. Se existia um inferno (e como um bom católico, Ian tinha certeza de que estava condenado à este), devia ser cheio de heroína; sedutora, inalcançável, mas destrutiva, faminta, sem limite algum. Sempre tinha sido tão forte, mas agora sentia-se dominado por ela, derrubado por ela, fraco por ela. Queria ser forte, cada vez mais forte. Queria parar, mas ao mesmo tempo não via sentido em fazê-lo, não agora que já começava a se tornar tão ridiculamente dependente. Ele vivia pela ansiedade de sentir aquela onda de prazer que sentira na primeira vez que injetou a droga. Buscava por doses maiores, mas a cada uso parecia mais difícil alcançar aquele nível de satisfação, porque nunca era a mesma coisa. Nunca era tão bom quanto já tinha sido. E além de tudo, era nojento. E estava prestes a se tornar ainda mais nojento, ele sabia. Conseguia sentir a mente substituindo todas as preocupações que sempre tinha tido consigo mesmo pela vontade de buscar mais droga. Em seus anos de adolescência, o jovem Ian, filho de um policial honesto, tinha visto muitos viciados. Na delegacia, nas ruas. E por mais que na época achasse muito errado pensar essas coisas sobre outras pessoas, sempre sentira muito nojo deles e de como não se cuidavam, de como começavam a ficar macilentos, feios, destruídos. Ele estava começando a se parecer com um deles agora e no auge de sua vaidade aquilo o fazia sentir mais nojo de si do que já sentira de qualquer um. Era ridículo pensar assim, mas o que mais o incomodava era o fato de que dali a pouco seu vício começaria a ser aparente. E ele odiava isso. Gostava de ser um rapaz bonito, todo sorrisos, braços fortes, tatuagens, jeito propositalmente de moleque sedutor. Gostava de quando sentia que as pessoas o olhavam e o achavam atraente. Gostava de ter uma imagem imponente, de por fora parecer tão forte quanto se orgulhava em ser por dentro. Mas ele não era mais forte dessa forma. Não mais. E duvidava que pudesse ser de novo.