Cada palavra dela o fazia se sentir ainda mais estúpido, ainda mais confuso e ainda mais ridículo. Ela estava fazendo o que ele vinha tentando desde que terminaram, transformar a relação dos dois numa simples transação de negócios, assim como era com praticamente todos os membros da gangue. Mas era impossível para o rapaz vê-la daquela forma quando há tanto tempo a via de outras maneiras. Ainda se lembrava da cara de confusão dela quando ele tentou falar umas palavras em espanhol com uma pronúncia no mínimo duvidosa e de como ele riu por estar fazendo aquele papel vergonhoso apenas para tentar se comunicar com a garota nova sem nem ao menos saber porquê o fazia. Se lembrava de ter começado a se apaixonar por ela enquanto conversavam sobre as coisas mais aleatórias possíveis nos fundos da oficina e de como, no meio do maior caos que já tinha acontecido em sua vida, ela o fez se sentir um pouco mais feliz, um pouco mais vivo. Ainda se lembrava do silêncio no apartamento quando se beijaram pela primeira vez e de como queria tanto continuar ali com ela, mesmo que suas costelas quebradas implorassem para que ele ficasse quieto. Mas também se lembrava de quando começaram as mentiras, da forma com que ele se esforçou tanto para esconder o vício e todas as consequências que vinham junto dele. Se lembrava de como se sentiu patético, sujo, nojento, mais do que se sentia o tempo todo, quando ela o descobriu. E de como teve certeza de que ela não o quereria de volta depois daquilo. “Essa seria a última coisa na qual eu pensaria se alguma coisa acontecesse com você.” respondeu, sincero. Sim, ela era importante para a Warlock, um bom soldado, como ela mesma dissera. E talvez como segundo em comando aquilo o preocupasse, mas como Ian, ele não poderia se importar menos com o trabalho que exerciam quando se tratava deles dois. “Eu sei que não.” continuou, magoado, por mais que não se achasse no direito de se sentir assim. Ela tinha todas as razões do mundo para não precisar de alguém como ele, para não precisar dele. Alexeev sabia disso, mas também sabia que ele precisava tanto dela, mas tanto, que era quase como uma dependência. Por mais que tentasse odiar isso, porque não queria precisar de ninguém e muito menos ser um estorvo na vida dela, ele precisava dela com uma intensidade que beirava o irracional. E gostava de precisar dela, o que lhe soava ainda pior. As próximas palavras da jovem fizeram com que ele a encarasse por um instante, sério, se perguntando se ela sentia tanta falta dele quanto ele sentia dela; se ela também perdia tempo se virando de um lado pro outro e pensando em como a porra da cama parecia gelada com aquele espaço vazio ao lado. “Alguns dias são mais do que outros.” concluiu, resignado. Ele cruzou os braços em frente ao peito e curvou os ombros involuntariamente diante daquela pergunta, desarmado. “Eu não sei.” respondeu, um meio sorriso constrangido nascendo nos lábios. “Quero ter certeza de que você chegou em casa bem, é isso.” continuou. Sabia que a ida para casa era a coisa menos perigosa dentre as que a menor teve que enfrentar naquela noite, mas mesmo assim, todo aquele sangue o lembrava do risco que ela corria todos os dias e da vontade que há tanto tempo ele tinha de protegê-la. “Só me deixa fazer isso, ok?”