· 、◝ ⟢ Era uma manhã como outra qualquer, e Milo encontrava-se em uma das últimas cadeiras que compunham a sala, cuja topologia era inclinada. A cabeça baixa denunciava sua concentração conforme sombreava, com o grafite preto, o desenho que havia acabado de finalizar. Uma capela, como tantas outras que desenhava apenas para descartar na lixeira próxima a saída da sala. Tudo, no entanto, fora água abaixo ao ouvir a voz suave e conhecida do homem, ofuscando qualquer outro som ambiente. Estava sonhando, ou ele voltara depois de tanto tempo? O lápis caiu da mão, reproduzindo um som agudo ao tocar o chão, e sua cabeça finalmente ergueu-se, observando primeiro o espaço ao seu redor. Tudo à sua volta estava parado, completamente imóvel, e quando os olhos fixaram-se no ponto exatamente à sua frente, ele o viu. Miguel, cujo sorriso era sádico e os olhos negros não combinavam com a imagem imaculada que sempre tivera do arcanjo, mas era ele.
A pergunta, então, que claramente serviria de flerte caso se tratasse de dois humanos dialogando, não soou da mesma forma para Milo. Na verdade, bastou a lembrança da queda para sentir uma dor tão intensa nas cicatrizes que o fez, literalmente, cair da cadeira. As costas foram arqueadas contra o assoalho, e o pânico era visível no semblante do caído, que não se importava em demonstrar fraqueza perante aquele que outrora fora seu superior.❝—— Não... ❞ Sussurrou, em pura angústia, antes de gritar. Lágrimas, quentes e salgadas, escorriam por seu rosto, que apresentava caretas que em nada enfatizavam sua beleza celestial. Estava sofrendo, verdadeiramente e como nunca antes havia sofrido.❝—— AAAAAAAAAAAH!!! ❞ Gritou novamente, suplicando mentalmente para que ele parasse com aquilo. Um grunhido similar à choro escapou da garganta, grave, conforme retomava o fôlego que a dor retirava à força de seus pulmões.❝—— Pare, por favor. Eu te imploro. ❞ E então, ele se humilhou. Seu corpo se contorcia com a única finalidade de fazer passar aquilo que sentia nas costas: como se mil agulhas penetrassem sua pele, onde um dia suas asas abandonavam o interior de seu corpo para que revelassem uma natureza à qual não pertencia mais. Mesmo humilhando-se ao arcanjo, no entanto, nada resolvia. As cicatrizes ainda queimavam, como as labaredas do inferno, e ele sofria. Encolheu-se, em posição fetal, as lágrimas escorrendo com maior intensidade dos olhos que, agora, notavam a aproximação do arcanjo. Este passou os dedos nos fios negros do caído uma única vez, bastando isso para que relaxasse. O choro, porém, não cessou, e mesmo com os soluços fora capaz de ouvir o sussurro do antigo superior “Vá para o inferno, Ariel” e, finalmente, as cinzas e o cheiro de queimado retiraram qualquer pingo de esperança de suas mãos, estava aprisionado.
O coração estava acelerado quando tateou o espaço ao seu lado, o colchão macio sendo percebido encharcado por suas mãos. Os olhos abriram-se, e ele finalmente reconheceu o próprio quarto na fraternidade, onde lembrava-se, agora, que havia deitado na noite anterior. Tudo não passara de um sonho, mas havia sido tão real que o mesmo havia suado torrentes de água e com certeza teria de mandar higienizarem seu colchão. A primeira coisa que fez, no entanto, fora levantar-se para checar as cicatrizes no espelho. Havia coberto-as com uma tatuagens anos atrás, mas ela conseguia perceber as nuances, e respirou aliviado ao notar que ainda estavam ali. Ainda era ele. Feito isso, no entanto, os dedos deslizaram com agilidade pela tela touch screen do celular, tentando uma ligação para Ismália; precisava ter certeza de que sua pena estava protegida antes que pudesse relaxar.
AUTERNATIVE ANSWER
Umedeceu os lábios vagarosamente, não desviando os olhos dos lábios com gloss da garota à sua frente. Cantadas como aquela tinham uma conotação diferente para o caído, que ignorava o incômodo que lhe causava quando era de seu interesse. Sem afastar-se dela, voltou os olhos para os alheio, falanges invadindo os fios do cabelo alheio e acomodando-se à nuca dela, onde a mão fora fechada e Milo dera um pequeno puxão, sorrindo libidinosamente ao ouvir o baixo gemido que havia arrancado da parceira.❝—— Posso levá-la ao céu esta noite, deixando que decida por si mesma se a queda dói. ❞ Ele murmurou, por fim, não esperando uma resposta para roçar a barba por fazer contra a epiderme alheia, conforme os lábios exploravam o pescoço feminino com genuína curiosidade, leves mordidas sendo deixadas sobre a epiderme macia do local.
— E você deu mole o suficiente pra sair desse jeito? — retribuiu a provocação, com o mesmo tom ríspido aparente na voz alheia, logo fazendo o mesmo movimento do caído, olhando para os lados para constatar se estavam distantes o suficiente para ninguém ouvir. — Não é porque ele é da minha espécie que é um dos meus. Sem dúvidas não faço parte desse grupinho que anda brigando por ai, como é o caso desse que te deu sérios problemas, aparentemente.
· 、◝ ⟢ Não escondeu a surpresa no semblante diante a resposta alheia, observando-o intrigado, com uma das sobrancelhas arqueadas. ❝—— Pensei que possuíam algum tipo de acordo, sabe? De se protegerem, e tal... ❞ Ele dera de ombros, de repente acreditando que o outro merecia um pouco de respeito, ainda que as questões em relação à sua vassalagem o deixasse um pouco desconfiado. That sempre havia tido outro tipo de política, então podia dizer que, de alguma forma, entendia, ainda que não aceitasse. ❝—— Agradeço pela informação, professor. E, se me der licença, acredito que deva dar uma passadinha na enfermaria. ❞
liraz se deleitava com seu algodão doce azul recém comprado em alguma barraquinha suspeita do delphic seaport. sentou-se em um banco de frente para O Arcanjo - achava interessante analisar a face das pessoas saindo da montanha russa, era uma atividade que nunca falhava em fazê-la rir. liraz não era exatamente bem vinda no parque de diversões, já que se recusava a entrar nos joguinhos dos caídos, no entanto ninguém a impedia de entrar lá, então ela continuava frequentando, achava divertido. sua atenção foi desviada dos rostos nauseados que emergiam do brinquedo quando uma pessoa sentou-se no banco junta a ela. virou-se, enfiando uma grande bolota azul de açúcar na boca. “hesitando?” perguntou, indicando a montanha russa, com um sorriso começando a brotar no rosto.
· 、◝ ⟢ Ele só percebeu estar a observando por tempo demais quando alguém passou à sua frente, interrompendo a visão da caída por um segundo e fazendo-o finalmente se aproximar. Sentar do seu lado no banco fora um movimento casual, e embora tenha estranhado quando ela puxou assunto, já que era ele quem normalmente o fazia, Milo acabou pendendo a cabeça em sua direção, oscilando levemente os ombros. ❝—— Na verdade, estava me perguntando quando irá parar de rebeldia e se juntará a sua família. ❞ Ele aproveitou o momento para alfinetar Liraz, ainda sem compreender o motivo da garota simplesmente preferir outros à aqueles que eram como ela. De uma forma ou outra, que eram sua família. ❝—— Os humanos que tanto prefere já te traíram uma vez. ❞
Amaciou a ponta do taco enquanto pensava, de olhos semicerrados, sobre qual seria o melhor ângulo para encaçapar a bola, até contornar a mesa, concentrado, e dar a tacada com força, cumprindo seu objetivo e sorrindo com pouca modéstia. O Bo’s Arcade era seguramente o lugar mais frequentado por Jeb, ainda que se tratasse de um bar de qualidade duvidosa no submundo de Coldwater. “ Certeza que ainda vai querer manter a aposta? ” elevou as sobrancelhas, desafiador, para x adversárix. “ Pelo jeito que estão indo as coisas ” prosseguiu, se posicionando para nova tacada “ não vai terminar bem pra você ”
· 、◝ ⟢ Um sorriso floresceu no canto de seus lábios ao ver a bola ser encaçapada, e manteve-se junto de seu taco, os braços cruzados à medida que uma das palmas era apoiada contra a ponta, simplesmente observando o jogo que desenrolava-se à sua frente. Ainda restavam metade das bolas sobre a mesa, e ao que se lembrava, a metade derrubada os deixava empatados. ❝—— E perder a chance de vê-lo lavar minhas roupas por uma semana? Jamais, corazón. ❞ Ele ponderou, oferecendo-lhe uma piscadela antes de menear a cabeça na direção do outro caído. ❝—— Já que encaçapou, jogue de novo. ❞ Pediu, por fim, apoiando o quadril contra o pequeno parapeito que separava a área da sinuca. Ali, havia deixado também sua caneca de cerveja, e aproveitou-se para dar um gole antes de voltar a apoiá-la sobre a grade de madeira. ❝—— Não cante vitória antes do jogo acabar. ❞
Havia algo nas estrelas que sempre a fizera se sentir bem, mesmo que não soubesse explicar direito, era como se tivessem-na feito de um pedaço de alguma estrela a milhões de quilômetros e ela só sentisse falta de casa, não sabia dizer, talvez realmente fosse isso. Seus pensamentos voavam soltos, ao passo que ela desejava poder voar com eles, as costas nuas pela blusa de frente única exibiam a tatuagem de asas, virou o rosto de lado quando ouviu o som da garganta sendo limpa, ouvira aquele som tantas vezes e sonhara com ele por anos, sem conter soltou um sorriso e voltou a encarar a lua ao passo que ele dizia as palavras: — Quando Ismália enlouqueceu, pôs-se na torre a sonhar… Viu uma lua no céu, viu outra lua no mar. — respondeu o que Milo dizia com a primeira estrofe do poema: — Eu costumava acreditar que você era minha lua no mar… Mas acho que estava mais para um abismo… Bem, bem profundo! — falou um pouco sem ânimo ao ver aquele sorriso no rosto dele, aquele sorriso que a fizera desistir de toda uma vida: — Faça-me o favor Milo! Se inscreveu porque sempre teve uma queda por garotas com um livro na mão! — usava um tom de sarcasmo para disfarçar o nervosismo de tê-lo ali, tão perto e tão distante: — Então… Fiquei livre de você por década e agora passaremos todas as tarde de quinta-feira juntos? — levantou a sobrancelha e o encarou.
· 、◝ ⟢ Era cruel. Ele sabia disso quando a cercava, mas havia alimentado sua imaginação por tanto tempo apenas com as memórias de Ismália, que agora que a tinha de fato por perto, desejava se manter, realmente, perto, para ser agraciados com gestos como aquele: o sorriso, que era capaz de atordoar-lhe os sentidos, causando uma sensação estranha em seu peito, quase como se houvesse perdido o ar. Mas era bom, e por isso, ele sorriu de volta. ❝—— Um abismo que você sempre se aventurou em conhecer. Cada pedaço, por mais profundo que fosse, não é mesmo? ❞ Ele pontuou, mas não com a arrogância costumeira e sim com uma pontada de culpa, como se estivesse desculpando-se com ela por aquilo. A verdade é que estava chocado demais em tê-la novamente em sua vida, pouco acostumado com não ser apenas uma invenção de sua cabeça. Tocou-a outra vez, nos ombros, dígitos escorrendo para a tatuagem de asas que a loira possuía nas costas, ainda que corresse o risco de receber uma esbofetada por invadir seu espaço pessoal. ❝—— O que posso fazer se a inteligência me atraí? ❞ Os dedos afastaram-se dela, voltando para seu próprio espaço, e decidindo por cruzar os braços por não saber o que fazer com eles. Retomou o tom humorado, deixando sentimentalismos de lado. Não era bom com aquilo, afinal, não compreendia tanto assim os sentimentos derivados da saudade. ❝—— As tardes de sextas também. Natação, certo? Mal posso esperar para ver como fica de maiô. ❞ Piscou para ela, deixando que o sorriso ladino voltasse aos lábios.
Inevitável foi o riso baixinho — daqueles nasalados de quem tenta a todo custo segurar uma risada alta — que escapou dos lábios da nephilim. Ao invés de desviar os olhos, ela pareceu encará-lo mais intensamente; uma curiosidade quase cômica espelhada nas íris cristalinas. “Isso. Me dê uns 20 minutos pra buscar minhas tintas e tela. Se permanecer nessa posição quem sabe eu não te transforme numa releitura viva de The Wounded Man.” Aquele humor, sempre sutilmente velado em meio a voz apática de Sierra, só seria notado por quem já a conhecesse. Ela, então, afasta-se da parede onde estava preguiçosamente recostada e descruza os braços. “Ah, não estou preocupada de maneira alguma. Você colhe o que planta de suas tendências masoquistas. Meu interesse está em quem exatamente era a pessoa do outro lado da briga.”
· 、◝ ⟢ Era fã de arte, e por isso entendeu perfeitamente a referência da garota, no entanto, rolara levemente os olhos com a comparação, ajeitando a postura como se aquilo fosse capaz de mudar todo o cenário que ela havia imaginado. ❝—— Vá com calma, death girl. Não estou tão acabado quanto ele. ❞ Ponderou, arqueando ambas as sobrancelhas para ela como se esperasse sua concordância com a afirmação. ❝—— Prefiro que me pinte como um de seus garotos franceses. Posso ir retirando a camisa enquanto busca suas tintas... ❞ Sugeriu, por fim, sorriso ladino fazendo-se presente dos lábios do caído. Nutria algum tipo de curiosidade em relação à Sierra, e ainda que já houvesse feito algumas pesquisas sobre a garota, nada havia encontrado para justificar o que, de fato, o atraía. Ainda estava, então, intrigado. ❝—— Eu não tive tempo de perguntar seu nome antes de deixá-lo desacordado no asfalto frio, sinto muito por frustrá-la. Quem sabe da próxima pergunto antes de começar com os socos... ❞
Arregalou os olhos quando percebeu o estado físico do homem. Cortes em toda a pele, hematomas por toda parte e um bocado de sangue. “Meu Deus! O que aconteceu com você?!” Mordeu a ponta da língua imediatamente após pronunciar o nome divino, era um habito que ela ainda precisava aprender a corrigir. Não demorou a pegar algumas tiras de curativo e álcool de dentro da bolsa, eram parte do estoque da universidade mas Scarlett tomou a liberdade de surrupiar alguns e carregar consigo para o caso de alguma emergência como aquela. “Senta.” Disse com a voz firme, apontando para a poltrona mais próxima dos dois. "Vai arder.” Avisou, encostando o lenço úmido nos cortes. Não tinha nenhum grande conhecimento sobre enfermagem, mas já havia se machucado o suficiente para aprender alguns truques sobre o cuidado de ferimentos. Encarava o outro concentrada demais nos toques que precisavam ser feitos, enrijecendo as mãos tremulas e ignorando qualquer reclamação ou gemido de dor que escutava. "O que foi que você fez?” Perguntou novamente, dessa vez tentando manter um tom mais calmo em sua voz enquanto segurava seu rosto, dedilhando vagarosamente a extensão ensanguentada.
· 、◝ ⟢ Conhecendo Scar como conhecia, talvez não devesse ter ido de encontro à caída naquelas condições. A amiga sempre havia se preocupado demais, e ele soube que daquela vez não seria diferente apenas por ouvir sua recepção. Ignorando, no entanto, ele se jogou sentado no confortável sofá da secretaria, apoiando a cabeça no encosto e fechando os olhos. ❝—— Eu estou bem, só preciso de um descanso, e a fraternidade estava tão longeee. ❞ Dramático, dera ênfase na distância, ainda que acreditasse que ali não fosse o melhor local para tirar alguns minutos de recuperação. A verdade é que o maldito nephilim conhecia seu ponto fraco, e suas cicatrizes queimavam abaixo da camisa por terem recebido tantos golpes. Por já ter acatado a ordem dela, de sentar-se no pequeno sofá, ele decidiu ousar um pouco mais, deitando ali, uma careta sendo esboçada ao sentir o incômodo do álcool em contato com a derme ferida. ❝—— Era para ser uma briga normal, estava até valendo uma grana. Mas ele roubou, Scar... ❞ Revelou, voltando a observar a morena por alguns segundos, deixando escapar um pequeno gemido de dor antes de voltar a fechar os olhos. ❝—— Minhas cicatrizes... Aquele nephilim imundo sabia sobre elas, e me fez abaixar a guarda ao fingir não saber. Mas terá uma revanche... ❞ Ele avisou, em tom vingativo. Suas costas doíam ainda, como se os dedos do maldito nephilim ainda estivessem enfiados ali.
— Eu só queria saber que tipo de caminhão atropelou você e ainda voltou por cima de ti dando ré. — era uma dúvida bastante real, mas não mudou seu típico tom de voz voltado ao cômico, quase como se estivesse tirando sarro dos ferimentos alheios. — Então parece que teremos um velório em breve, se conseguiu deixar o outro cara pior do que você, ele deve estar bem mortinho. — constatou, analisando melhor a pífia situação do moreno.
· 、◝ ⟢ ❝—— Foi um de seus amiguinhos, nephilins. Até pensei que te veria de preto, hoje. ❞ Ele provocou, não se dando o trabalho de erguer os olhos para observá-lo nos olhos. No entanto, se preocupou em olhar para os lados, apenas para verificar se estavam sozinhos no ambiente, já que havia tomado a liberdade em abordar raças no diálogo. A menção ao velório, porém, o fez finalmente direcionar orbes para Samael. Ele definitivamente não entendia a relação da amiga com aquele vassalo, afinal, havia ouvido que ela sequer o possuía. ❝—— Se eu deixar uma flor com você, deposita no túmulo de um dos seus, fazendo o favor? Meus sentimentos são sinceros... ❞
O estômago embrulhou assim que notou os ferimentos. Mesmo que tivesse se acostumado com a fragilidade dos corpos humanos a muito tempo, não se acostumaria jamais a ver Milo daquela forma. Torceu o nariz ao ser tratada com tamanha hostilidade, ainda mantendo os olhos nele. “Só se eu puder usar essa foto contra você pelos próximos milênios. Sua cara está horrível pela primeira vez.” Brincou, tentando deixá-lo mais calmo. Fazia muito tempo que havia decidido que ambos eram praticamente almas gêmeas e, portanto, não havia motivo para brigarem nunca. Se aproximou, tocando um corte pequeno na bochecha com a máxima delicadeza. “O mínimo que eu espero é que ele esteja com o nariz quebrado. Vamos ter que limpar isso de novo, você sabe, né? Ainda tem resto de sangue seco, não sei o que você faria sem mim.”
· 、◝ ⟢ Aparentar uma fragilidade que não era real o deixava de mau humor, por isso havia decidido manter-se isolado e, principalmente, quieto. Com o polegar e o indicador junto à ponte do nariz e a cabeça baixa, esperava que pudesse passar despercebido, mas bastou que se sentisse observado para ralhar, sem ao menos ver quem era seu alvo. Agora, no entanto, que via That à sua frente, podia dizer que estava um pouco envergonhado por tê-la tratado mal. ❝—— Isso quer dizer que achava minha cara boa. ❞ Concluiu, decidido à não retornar no assunto ou começar a se desculpar. Sabia que ela entenderia, ainda que uma hora ou outra acabasse pedindo desculpa. ❝—— Vamos lá, That, sei que pode fazer um elogio melhor. ❞ Provocou, sorriso ladino fazendo-se presente em seus lábios pela primeira vez. Travou o maxilar diante do toque delicado, fechando os olhos momentaneamente — podia não sentir uma dor verdadeira, mas os cortes incomodavam sua pele. ❝—— Ouvi dizer que tiveram que levar o nephilim ao hospital depois, para levar alguns pontos. Então acho que é o suficiente. ❞ Dera uma pequena risada, voltando a abrir os olhos apenas para concordar com a cabeça, como se a autorizasse a limpar os ferimentos. Aquilo incomodava um pouco mais, mas sabia que era pior para humanos, ou nephilins. ❝—— Sem você, viveria de maneira mais arriscada. Mas e você, obicham, o que faria sem mim? ❞
Alice negava a cabeça ao observar o estado em que o outro se encontrava, cruzando os braços e ouvindo o mau humor dele na sua direcção vendo um dos barman na sua direcção a entregar-lhe a caixa de primeiros socorros que havia pedido. - Estava a considerar criar um álbum de fotografias só com fotos suas nesse estado. - Respondeu de forma irônica, se levantando em seguida e indo na direcção do outro. - Não quero saber como é que está o outro cara, ele não está aqui, portanto deixe-me ver esses machucados, precisa de desinfetar isso. - Começou por abrir a caixa e retirar de lá alguns dos itens necessários para fazer curativos. - O que é que aconteceu para terem lutados os dois?
· 、◝ ⟢ ❝—— Eu realmente acho que você iria preferir minhas nudes, querida. ❞ Sugeriu de forma debochada, pedindo à quem quer que estivesse lá em cima que não a deixasse tentar cuidar dele naquele momento. Milo não precisava daquilo, de pena e gentileza. Mas é claro que seus pedidos não foram atendidos, o que não era uma novidade. A caixa de mensagens do céu deveria estar lotada desde que Deus decidira abandonar o barco, e a garota já estava diante de si, fazendo-o suspirar. ❝—— Devo ficar quietinho, senhora enfermeira? ❞ Caçoou, rendendo-se à loira ao apoiar-se melhor na cadeira onde estava sentado, oscilando levemente os ombros para o lado. ❝—— Eu comi o sanduíche dele, e ele não gostou muito. ❞ Dera de ombros, ainda que soubesse que a mentira era óbvia.
O soar da moto foi o que levou a garota a se dirigir no meio da via para chamar a atenção do motociclista, a verdade é que aquela situação era pouco segura para a Sheperd que podia atrair todo tipo de delinquente em uma situação típica de donzela indefesa que não era nada do que ela queria ser. A voz conhecida de Milo, no entanto, fez com que ela se sentisse pelo menos mais segura do que se tivesse tratando com um completo estranho. — — O que ela não fez seria a pergunta correta e a resposta seria: andar! — — Ela estava estressada, com frio e molhada, uma combinação que não deixava a garota em seu melhor humor. — — Ah, não precisa. Eu posso ajudar! — — Ela meio que chegou se o vestido escuro coberto pela jaqueta jeans pesada estava mostrando mais que devia e tirando pelo fato das roupas estarem coladas em seu corpo, marcando a silhueta da mais nova, não havia nada de transparente ali. No entanto, ela aceitou a jaqueta de Milo, passando-a por cima dos ombros enquanto o seguia para mais perto do motor. — — Sim, eu pensei que pudesse ser algo com a bateria mas não entendo muito bem. Só espero que não seja nada com o motor, eu gastei meu último salário para tirar ele da oficina, não tenho como mandar ele de volta para lá. Acha que tem salvação?
· 、◝ ⟢ Ainda que a nephilim demonstrasse irritação, não conseguiu conter o pequeno sorriso, divertindo-se às custas de seu visível mal humor. O caos normalmente o alegrava, e talvez isso se desse devido à sua veia ao sadismo. ❝—— Então Suzy apenas parou. ❞ Concluiu, estreitando levemente os olhos ao notar que havia usado o apelido do carro. Bem, aquilo era algo que, poderiam se passar anos, e ele nunca se acostumaria. Mas sabia que tinha relação com o apego, e duvidava se algum dia Dawn seria capaz de trocar o antigo fusca azul por um carro mais moderno e, principalmente, seguro. Mas, ele não deveria se intrometer no assunto, afinal, o que era dela para tal? Ainda assim, agradeceu mentalmente, esboçando até um leve sorriso quando a mais nova aceitou sua jaqueta. Ainda assim, não manteve sua atenção nela por muito tempo, retirando do bolso o celular do qual ligara a lanterna para verificar o motor. ❝—— Segure aqui então, por favor. ❞ Ele ofereceu o celular à ela, para que pudesse ter mais autonomia para mexer no carro. Deu uma mexidinha aqui, uma olhada na bomba de ignição, vela, carburador, um ajuste na biela, uma inspirada perto da ventoinha. Tudo aparentemente estava bem. A cabeça pendeu na direção da Sheperd, os olhos levemente estreitos. ❝—— Você checou o fusível antes de pensar no motor? ❞
O sorriso iluminou o rosto de Chiro quando a pergunta ácida e bruta surgiu no ar. É claro que não era um sorriso positivo, mas debochado e tão ácido quanto o outro rapaz. Soprou a fumaça de dentro dos pulmões e apagou o cigarro no cinzeiro mais próximo, franzindo os lábios e a testa juntos antes de responder. “Se você não se importa, vou ficar olhando por mais tempo. Estou me perguntando o que é que aconteceu para ter machucado tanto o seu rosto.” deu de ombros, cruzando as pernas sobre a cadeira. Não era o primeiro lugar que ela iria se estivesse ferida daquela maneira, mas a boate vazia com bebidas à vontade era uma boa opção. “Sei, o outro cara. Uma briga das boas, então?” ergueu uma sobrancelha, levantando-se para pegar dois copos do outro lado do balcão e servir com um dos gins mais razoáveis que tinha. “Tell me… What you really are?” semicerrou os olhos, deixando o copo diante dele. Dependendo da situação, talvez, poderia se predispor a ajudá-lo. Do contrário, havia sido uma boa conversa, obrigada.
· 、◝ ⟢ Talvez, por não conseguir desfrutar completamente de algumas sensações, como humanos, ele não entendia alguns hábitos ruins, como o fumar. Havia tentado uma vez, mas a única coisa que sentira fora um grande incômodo na garganta e pulmões, e desde então pensava que se tratava mais de uma questão de aesthetic à gosto, de fato. Os olhos ergueram-se meros centímetros para fitar a loira, capturando o exato momento em que apagava o cigarro, e o sutil rolar de olhos fora inevitável. ❝—— Atropelamento. Um caminhão. ❞ Respondeu de forma sarcástica, estranhamente cortando o tom de flerte, algo que não fazia quando se tratava de Victoire. Mas, para não se arrepender mais tarde, completou: ❝—— Mas a proposta da foto está sempre de pé, you know. ❞ Os olhos acompanharam-na após lhe direcionar uma piscadela, meneando levemente a cabeça com a suposição. Não havia sido apenas uma boa briga, havia, literalmente, lhe aberto horizontes. E embora não gostasse tanto assim de falar sobre si, ele aceitou o copo, à princípio apenas mantendo-o entre os dedos. ❝—— Posso ser o que desejar, corazón. ❞ Recobrou o tom ladino, exibindo um sorriso libidinoso à outra antes de sorver do copo, pequeno gole, quase que para experimentar o que lhe havia sido servido.
Quando Deus desapareceu, justamente durante a sua guarda, Milo se sentiu um péssimo filho, incapaz de alcançar as expectativas do Pai, assim como Tate (1). Mas então ele caiu e descobriu o livre arbítrio, e deixou de dar tanta importância nos mandamentos que conhecia, porque assim como a Isabelle, ele queria se divertir (2). MAs alguém precisa lembrar ele que até a diversão tem limite, ou até a Terra tem regras, ainda que ele saia por ai realizando seus desejos mais sombrios (3). Ele já está há bastante tempo no plano terrestre, e entre algumas coisas que aprendeu com humanos, sentimento foi uma delas, mas ele nega a maioria, assim como Roman (4). Um aprendizado que ele não disfarça, porém, são as ameaças, mas segundo Milo, diferente dos humanos, ele cumpre o que diz (5). Ainda sobre sua vida terrena, acabou adquirindo outros hábitos, como a da bebida, ainda que não ache tão divertido quanto a Eliza, já que não consegue ficar embriagado (6). Diferente do Winchester mais velho, que é bem humorado o tempo todo, Milo reserva seu bom humor à um seleto grupo de pessoas (7). Enquanto para outras não passa de um arrogante que se acha o incrível por ser imortal (8).
· 、◝ ⟢ Daquela vez, havia passado do limite. Ou ao menos era isso que aquele seu corpo fraco expressava, escondendo hematomas e seu rosto exibindo alguns cortes além de escoriações. Mas a luta na noite anterior, contra um nephilim, havia sido uma das mais divertidas até onde podia se lembrar, além de colocarem o adversário como número um na lista de possíveis vassalos. ❝—— Vai ficar olhando por muito tempo, ou quer fazer logo uma foto? ❞ Rosnou, dentes cerrados ao reparar que estava sendo observado por tempo demais. Não era algo que apreciava, ainda mais naquelas condições — embora não estivesse experimentando a dor, sabia que seu corpo precisava de cuidados. ❝—— E não se preocupe com isso, estou melhor que o outro cara. ❞
Inferno de carro! ralhou a morena chutando o pneu, que provavelmente era a única coisa funcionando no automóvel. Era óbvio que o fusca azul celeste tinha decidido quebrar, de novo, só que dessa vez no meio de uma chuva torrencial que a deixava encharcada. Assim que notou os faróis se aproximando ela acenou com os braços, erguendo-os para cima e abrindo e fechando para chamar a atenção. — — Ajuda!
· 、◝ ⟢ Parar no meio de uma tempestade como aquela, para ajudar outra pessoa, não deveria ser a decisão mais inteligente de um humano, mas como todo ser angelical, Milo não conseguia enxergar algum perigo naquilo, e apenas por isso ele encostou sua triumph twin, deixando o capacete pendurado no retrovisor antes de ir até o fusca. ❝—— O que essa belezinha fez para merecer sua ira? ❞ Questionou, divertido, os olhos encontrando-se apertados devido a chuva, mas não o impedindo de reconhecer as feições delicadas de Dawn. ❝—— Eu acho melhor você entrar, antes que suas roupas fiquem transparentes. ❞ Aconselhou, dirigindo-se à traseira do automóvel, mas parando no meio do caminho, para retirar a próprio jaqueta de couro, que fora oferecida para a mais nova. ❝—— Na verdade, seus bancos não são de couro, então... ❞ Oscilou levemente os ombros, esperando que ela aceitasse para então alcançar a porta traseira do fusca, abrindo-a para que pudesse analisar o motor. ❝—— Ele só parou? ❞
· 、◝ ⟢ Os passos eram suaves enquanto mantinha-se apoiado no corrimão, subindo a escada caracol que o levaria à torre de astronomia. Havia sido apresentado à um lugar semelhante aquele, mas em Paris, por Ismália, que intitulava a torre como seu lugar favorito para pensar. Desde então, havia virado seu local para pensar também, e a cada nova cidade, ele tentava ficar o mais próximo do céu daquela forma. Como um parasita, talvez, tomava tudo o que pertencia à caída para si, até que para ela restasse apenas ele. Com seus incontáveis erros e defeitos, mas ainda assim, somente ele. O pensamento chegava à ser divertido, ainda que de uma forma sádica, e isso justificava o leve sorriso que carregava nos lábios ao chegar ao topo. O local estava ocupado. Ponderou por um segundo retroceder até reconhecer os fios alheios, prateados sob a luz da lua. O que @supposedbeizzy estava fazendo tão próxima da beirada? O pensamento fora interrompido pelo próprio pigarreio, notando ter se aproximado da outra. ❝—— Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você.❞ Cantarolou a citação do filósofo, respirando fundo uma vez antes de sentar-se ao lado dela sem classe alguma. O sorriso que ostentava lhe era característico, prepotente, e estava acostumado à usá-lo na presença de mulheres — deveria saber, porém, que Izzy não era como as outras, e com ela não funcionaria. ❝—— Não te vi na reunião do clube de livro hoje. E olha que eu só me inscrevi para ver você...❞