· 、◝ ⟢ Era uma manhã como outra qualquer, e Milo encontrava-se em uma das últimas cadeiras que compunham a sala, cuja topologia era inclinada. A cabeça baixa denunciava sua concentração conforme sombreava, com o grafite preto, o desenho que havia acabado de finalizar. Uma capela, como tantas outras que desenhava apenas para descartar na lixeira próxima a saída da sala. Tudo, no entanto, fora água abaixo ao ouvir a voz suave e conhecida do homem, ofuscando qualquer outro som ambiente. Estava sonhando, ou ele voltara depois de tanto tempo? O lápis caiu da mão, reproduzindo um som agudo ao tocar o chão, e sua cabeça finalmente ergueu-se, observando primeiro o espaço ao seu redor. Tudo à sua volta estava parado, completamente imóvel, e quando os olhos fixaram-se no ponto exatamente à sua frente, ele o viu. Miguel, cujo sorriso era sádico e os olhos negros não combinavam com a imagem imaculada que sempre tivera do arcanjo, mas era ele.
A pergunta, então, que claramente serviria de flerte caso se tratasse de dois humanos dialogando, não soou da mesma forma para Milo. Na verdade, bastou a lembrança da queda para sentir uma dor tão intensa nas cicatrizes que o fez, literalmente, cair da cadeira. As costas foram arqueadas contra o assoalho, e o pânico era visível no semblante do caído, que não se importava em demonstrar fraqueza perante aquele que outrora fora seu superior.❝—— Não... ❞ Sussurrou, em pura angústia, antes de gritar. Lágrimas, quentes e salgadas, escorriam por seu rosto, que apresentava caretas que em nada enfatizavam sua beleza celestial. Estava sofrendo, verdadeiramente e como nunca antes havia sofrido.❝—— AAAAAAAAAAAH!!! ❞ Gritou novamente, suplicando mentalmente para que ele parasse com aquilo. Um grunhido similar à choro escapou da garganta, grave, conforme retomava o fôlego que a dor retirava à força de seus pulmões.❝—— Pare, por favor. Eu te imploro. ❞ E então, ele se humilhou. Seu corpo se contorcia com a única finalidade de fazer passar aquilo que sentia nas costas: como se mil agulhas penetrassem sua pele, onde um dia suas asas abandonavam o interior de seu corpo para que revelassem uma natureza à qual não pertencia mais. Mesmo humilhando-se ao arcanjo, no entanto, nada resolvia. As cicatrizes ainda queimavam, como as labaredas do inferno, e ele sofria. Encolheu-se, em posição fetal, as lágrimas escorrendo com maior intensidade dos olhos que, agora, notavam a aproximação do arcanjo. Este passou os dedos nos fios negros do caído uma única vez, bastando isso para que relaxasse. O choro, porém, não cessou, e mesmo com os soluços fora capaz de ouvir o sussurro do antigo superior “Vá para o inferno, Ariel” e, finalmente, as cinzas e o cheiro de queimado retiraram qualquer pingo de esperança de suas mãos, estava aprisionado.
O coração estava acelerado quando tateou o espaço ao seu lado, o colchão macio sendo percebido encharcado por suas mãos. Os olhos abriram-se, e ele finalmente reconheceu o próprio quarto na fraternidade, onde lembrava-se, agora, que havia deitado na noite anterior. Tudo não passara de um sonho, mas havia sido tão real que o mesmo havia suado torrentes de água e com certeza teria de mandar higienizarem seu colchão. A primeira coisa que fez, no entanto, fora levantar-se para checar as cicatrizes no espelho. Havia coberto-as com uma tatuagens anos atrás, mas ela conseguia perceber as nuances, e respirou aliviado ao notar que ainda estavam ali. Ainda era ele. Feito isso, no entanto, os dedos deslizaram com agilidade pela tela touch screen do celular, tentando uma ligação para Ismália; precisava ter certeza de que sua pena estava protegida antes que pudesse relaxar.
AUTERNATIVE ANSWER
Umedeceu os lábios vagarosamente, não desviando os olhos dos lábios com gloss da garota à sua frente. Cantadas como aquela tinham uma conotação diferente para o caído, que ignorava o incômodo que lhe causava quando era de seu interesse. Sem afastar-se dela, voltou os olhos para os alheio, falanges invadindo os fios do cabelo alheio e acomodando-se à nuca dela, onde a mão fora fechada e Milo dera um pequeno puxão, sorrindo libidinosamente ao ouvir o baixo gemido que havia arrancado da parceira.❝—— Posso levá-la ao céu esta noite, deixando que decida por si mesma se a queda dói. ❞ Ele murmurou, por fim, não esperando uma resposta para roçar a barba por fazer contra a epiderme alheia, conforme os lábios exploravam o pescoço feminino com genuína curiosidade, leves mordidas sendo deixadas sobre a epiderme macia do local.