Em teus olhos castanhos, cor de tempestade de novembro, tens a firmeza e a doçura necessárias para conduzir. Tenho em ti todos os sonhos do mundo. Tenho em ti nenhuma esperança. De todas as escolhas que fiz, a mais certa - e a mais errada - foi seguir teus olhos castanhos-cor-de-tempestade, confiar neles. Nas mãos pequenas, dadas ao trabalho manual, há uma infinidade de possibilidades. Poderias ser cirurgião, pondo entre teus dedos a vida e a morte, pondo em tua palma o balanço da vida de outrem. Poderias ser artista. És. Mas deveria, acima de tudo, ser de fato. Escolhestes, por tanto, ser nem um, nem o outro. Ao cuidar de pequenos humanos, dás a eles teu sorriso mais sincero e mais triste. Nunca te vi em ação e sei que não desejo pra mim o sorriso que dás aos teus pacientes. És incompleto. Prefiro o sorriso que me dás. De canto de boca, quase como quem se segura pra não sorrir mais. Prefiro ver a curva das tuas bochechas – a direita ponteada por uma solitária pintinha – quando te dou comida. Nos dias ruins, repouso meus pensamentos a procura de piadas ruins pra te distrair e te arrancar o sorriso. Sorris com os olhos que, acompanhados das olheiras profundas de dias menos felizes, me dizem que talvez minha procura tenha sido frutífera. É no teu sorriso que os sonhos se prendem, é nos teus olhos que a esperança se esvai, é nas tuas mãos que a confiança perdura.
Laura Barreira Dias, 22 de Abril de 2020














