O dia em que fomos ao melhor restaurante do mundo
E nem sabíamos.
Lisboa está na moda. Para o bem e para o mal, nas ruas pululam turistas em maior número do que os metros quadrados das ruas da capital. Finalmente temos o merecido reconhecimento, depois de décadas como um segredo bem guardado. Lisboa está na moda e, melhor do que isso, nunca teve tantos restaurantes tão bons e tão “preocupados”. Preocupados, digo, tanto na decoração, como no tipo de cozinha e nas ofertas inovadoras. Reparem, um dos meus restaurantes preferidos em Lisboa é, e continuará a ser, uma tasca mesmo tasca, algures por um dos becos da Rua das Portas de Santo Antão, de seu nome “A Provinciana”.
Mas, é uma lufada de ar fresco. Não precisamos ir a Londres comer Ramen, ou a Berlim comer vietnamita, todas estas influencias chegaram a Lisboa nestes últimos anos.
Entre eles, no meio de alguns bairros da moda pelo Bairro Alto – mais badalados que apetecíveis – está o Bistro 100 Maneiras. Por si só já uma referência, tanto na cidade como no bairro, mas no topo dos “apetecíveis” depois de termos ficado a conhecer melhor o chef Ljubomir Stanisic pelo incontornável reality show “Pesadelos na Cozinha”. Mais do que a curiosidade sádica pelo programa e as suas cozinhas imundas, a verdade é que para além que não conhecia este chef, o seu carácter foi o que mais saltou à vista, a sua personalidade irreverente e a curiosidade de ficar a conhecer alguns dos pratos saídos da imaginação de tal personagem.
@ Fotos da página Bistro 100 Maneiras
Certo dia a meio da semana, lá fomos. Bistro 100 Maneiras, em toldos pretos, perto da Trindade, ali numa esquina, com o Tejo ao fundo da rua. A expectativa era alta. Mas a expectativa, essa, apesar de todos os restaurantes bem cuidados que falei acima, às vezes sai magoada e, não deixamos de ter um pé preso atrás de nós. Descomprometido é, talvez, a palavra que nos acompanha ao longo da noite, ficam já a saber. Chegámos cedo, entrámos através da porta de ferro que tivemos de empurrar e damos logo de caras com o balcão e com o bartender e os seus famosos cocktails. Para além da fama da cozinha, este Bistro também é conhecido pelos seus cocktails, que se fartam de ganhar prémios. É-nos algo familiar, visto que temos passado algum tempo por um dos melhores bares da cidade de Lisboa, bar esse que queremos continuar a manter em segredo (tem um sapo vermelho à porta!), portanto, está decidido que teremos de mergulhar fundo num destes cocktails. Ajuda aquele dia 12 de julho ter sido um dos mais quentes, logo no dia em que decidimos ser turistas na nossa própria cidade. Quem sabe das colinas compreende a dificuldade.
Depois de olharmos a decoração – ambiente sóbrio, estilo deco, paredes brancas, cobertas com uma elegante onda de livros, sim, livros abertos com ilustrações a percorrer por entre as palavras – subimos para o primeiro piso e sentámo-nos numa mesa para dois, junto ao grande espelho que preenche a parede oposta à vista rio.
Os empregados são bem-dispostos, descontraídos e sempre prontos a oferecer de bom grado dicas, desde o vinho a escolher, até ao prato imperdível que temos de provar. Podíamos demorar-nos pelo couvert – se começa a ser tradição os bons restaurantes confecionarem o seu próprio pão, há quem o faça melhor do que outros – e a foccaccia era deliciosa, molhada com o azeite, ou solo.
Pelo meio, os cocktails chegaram – não me lembro dos nomes, mas lembro-me do sabor – o meu, um grande balde de bronze em forma de ananás, com muito, mas muito gelo, e um sabor fresco e frutado a ananás (obviamente). Era tão subtil que não consegui sentir o sabor forte de nenhuma bebida alcoólica, perigoso portanto. – O colega, pronunciava-se num sabor familiar ma diferente que não consegui identificar: lima kaffir; era bem mais pujante que o de ananás, já se fazendo sentir como bebida alcoólica.
Depois de algumas indecisões, foi a Burratina que nos conquistou para entrada. Por entre uma cama de couves portuguesas desidratadas lá se desfazia, suave, suculenta, fresca, gulosa. Confesso que nunca tinha experimentado e é tudo o que me lembro do chef Ramsey dizer.
Para os pratos principais escolhemos dois que nos saltaram à vista e tiveram a aprovação de quem recolheu os pedidos: Tataki de entrecôte com torricado, cogumelos e ovo (27 €) e Garoupa, risotto de açafrão, molho de crustáceos e chocolate (25 €). Convenhamos, onde mais poderia comer garoupa com chocolate?
Apesar da minha garoupa e do meu risotto com açafrão verdadeiro, o grande vencedor foi o tataki de entrecôte, uma carne tenra, cozinhado no ponto e com uma dose generosa de alimento.
A sobremesa bonita, mas talvez o menos surpreendente da refeição, Espuma de queijo, sorvete de goiaba e crumble de amêndoa (7,50 €) proporcionou um terminar fresco na refeição.
Foi uma experiência que acaba por se tornar quase uma fantasia à medida que as semanas passam e as memórias surgem. Mais tarde, a Monocle elege o 100 Maneiras como o melhor restaurante do mundo. Não me surpreende. O ambiente descontraído (reparem, apesar de haver alguns, poucos, portugueses, bem arranjados, acabaram por se sentar na mesma sala do que turistas de havaianas e isso, é impagável. Tão boa comida, tão bom atendimento, mas tão despretensioso.
É isto que Lisboa continua a saber ter, mesmo nos restaurantes galardoados, este à-vontade no tratamento que, para mim, define o quão bem acabamos por nos sentir em determinado espaço.
Há muitos restaurantes em Lisboa com os quais sonhamos e não vemos o dia em que cruzamos a porta novamente. O Bistro 100 Maneiras subiu à posição do pódio nesta lista, sem dúvida.
Espuma de queijo, sorvete de goiaba e crumble de amêndoa.












