A ilusão de se deparar com um cenário familiar se despedaçara antes mesmo que pudesse abrir os olhos, pois uma voz masculina carregada de sotaque antigo anunciava formalmente a presença do imperador no jardim. Era hora de admitir que não havia outra opção senão a de encarar a situação. Literalmente. Portanto, os olhos de castanhos de Seohyun se abriram e diante deles se encontrava uma serva tímida, que a aconselhava a se preparar para o encontro iminente por meio de um cochicho. Ela assentiu e logo em seguida a mulher se afastou lhe desejando boa sorte. Seohyun gostaria de agradecê-la, mas acreditava não ter nenhuma sorte sobrando, caso contrário não estaria na situação em que se encontrava.
O imperador Deyun agora estava a poucos passos de distância, a jovem se inclinou em revência quando o mesmo a cumprimentou, pressionando as mãos rente ao corpo para que o homem não percebesse o quanto tremiam. Não queria que o seu juiz, ou possivelmente algoz, usasse do seu nervosismo como prova irrefutável de sua culpa. Ainda era difícil assimilar que estava defendendo a sua vida ali, quando, até uns dias atrás, preocupava apenas em defender suas teses acadêmicas.
“ — Imagino que o reino tenha assuntos mais urgentes. ” Seohyun soltou uma risada baixa e curta, recompondo-se unindo as mãos na frente do corpo enquanto encarava a grama verde. Não ousava cruzar os olhos com o imperador - parte de si, o fazia para demonstrar respeito, enquanto a outra parte consistia em não ter que lidar com o fato de que o homem que lera sobre em livros históricos se materializava como uma alucinação muito realista. A menção dos textos que lhes foram entregues afastaram qualquer receio que tivesse da possibilidade de estar enlouquecendo, fornecendo um pouco de brilho em rosto apático. Bom, o suficiente para esboçar um sorriso verdadeiro e erguer um pouco o olhar para encarar Deyun timidamente. As pinturas remanescentes em sua era não faziam jus ao imperador, pôde notar. “ — Vossa Majestade foi muito gentil, os textos me mantiveram entretida, há tanta informação neles que eu gostaria de discutir com… ” Deteve-se, limitando-se a completar mentalmente apenas: com os outros historiadores. Seohyun voltou a rir, sem graça, colocando uma mecha atrás da orelha, voltando a evitar um contato visual. “ — Com outras pessoas. A bem da verdade, eu gostaria de só conversar com alguém que não se visse na obrigação de me responder. ” Completou, por fim, o pouco humor estampado em sua face desvanecendo enquanto encolhia um pouco os ombros. Contornava a conversa com aquelas palavras, é claro, mas isso não queria dizer que não havia verdade nelas. Os seus conhecidos estavam em outra era, os servos não eram autorizados a falar mais do que o necessário e a nobreza que habitava o palácio não desejava nenhuma ligação com a traidora. Seohyun nunca esteve tão solitária. E por estar tão fragilizada emocionalmente, ou simplesmente pela escolha inusitada das palavras, ouvir o imperador dizer que gostaria de se familiarizar com ela fez com que voltasse a encará-lo, dessa vez com os olhos arregalados, piscando repetidamente enquanto os lábios rosados de Seohyun abriram e se fecharam sem saber o que dizer. O que isso significava? Estava prestes a ter sua liberdade para se preocupar com outra coisa importante? Precisava arranjar um modo de voltar para a sua época. Contudo, por ora, teria que se safar do problema atual e Seohyun reunira informações para montar a sua história naquela era. “ — Desculpe… Sim, por favor, eu gostaria de resolver a minha situação! Eu nunca tive intenção de causar preocupação para o reino e o reinado de Vossa Majestade, não sei porque a minha mera existência significaria tal coisa. Não sou a traidora que cochicham pelos corredores do palácio, não anseio poder, como eu poderia fazer tal coisa? Sou uma mulher e… a última do meu clã. ”
Manteve o singelo sorriso em sua face enquanto inspecionava a mulher ante si com o que esperava ser uma discretidão exitosa. Não que suas miradas ou expressões fossem fazer grande diferença quando Seohyun parecia tentar evitar encontrar seus olhos a qualquer custo. Sua postura polida aproximava-se do ideal. Deyun poderia se deixar convencer de que Seohyun pretendia mantê-la e não afrontá-lo de forma alguma, não fossem suas primeiras palavras. Poderiam fazê-lo rir. Ele estava ouvindo ironia contra si? Que Seohyun não tivesse ciência do quão exatamente urgente era sua situação para o reino, parecia improvável.
Não a repreendeu ou rebateu, porém. Permaneceu a observá-la, até que pôde encontrar seu olhar. Ela era bonita, não tinha como negar. E seu sorriso era doce. Que uma mulher de seu porte e de sua idade ainda não estivesse casada levantava muitas questões. Levantar questões parecia ser o dom de Seohyun até o momento — as informações que conseguira coletar acerca dela eram escassas, incertas no melhor dos casos, o que apenas fomentava suas suspeitas.
As sobrancelhas de Deyun deram um pequeno salto ao ouvirem seu titubear. Mais e mais questões. Com quem, realmente, gostaria de discutir tais textos? Guardou a indagação, limitando-se a assentir de forma empática. Deyun conhecia de forma íntima como Seohyun afirmava se sentir. E, quiçá, o sentimento fosse genuíno, a considerar o quão isolada estava ali, proibida até mesmo de mandar cartas. Supunha que ela ainda fosse humana.
Viu-se surpreso novamente com a reação alheia, tão ávida, a suas palavras. Deyun ainda não conseguia lê-la; era frustrante. Conteve o escárnio ante as promessas que ouvia. “Eu entendo. Eu acredito em você,” mentiu. Se sabia que descendia de traidores, por que não entendia o que significava sua existência? Por que acreditaria ser uma mulher a faria parecer genuinamente inofensiva? Que história acreditava que lhe haviam ensinado? Acusações, porém, dificilmente ajudariam-na a baixar a guarda. Ou a aceitar sua proposta.
Sentou-se então. “Por favor, sente-se,” convidou no melhor tom amistoso que conseguia oferecer. “Imagino que os dias passados não tenham sido fáceis, mas espero que possamos deixá-los no passado. Sinta-se livre para comer e beber à vontade,” tomou um gole do chá que lhe fora servido, como que para comprovar sua segurança. “Eu poderia me oferecer para discutir os textos em sua mente, mas sinto que, então, seria a ahgassi que se sentiria na obrigação de me responder,” o suspiro que deixou escapar, em meio a um contido sorriso resignado, foi genuíno. Ao menos tinham aquele sentimento em comum, supunha. “Contudo ainda gostaria de saber qual foi o que mais lhe chamou atenção, caso queira me contar. E... bem, a bem da verdade, tenho outras questões que gostaria de lhe fazer,” concedeu. “Espero que não tome essa conversa como um interrogatório... são apenas detalhes que me intrigam, mas não me aprazeria orientar-me por rumores. Prefiro ouvir a versão de ahgassi.” Um novo gole de chá. Teve de tomar alguns instantes para encontrar as palavras no idioma estrangeiro. “Deve saber melhor do que eu que meu avô, Shenwu Mingzhi Huangdi, ordenou que o imperador de Goryeo entregasse toda a linhagem de seu clã para que fossem executados. Por muito tempo, acreditamos que isso havia sido feito. Então... permita-me indagar, como Seohyun ahgassi sobreviveu? Onde e por quem foi criada todos os anos? E como, afinal, encontraram-na e a trouxeram até aqui?” Deyun tinha suas suspeitas sobre o que acontecera, e sequer poderia culpar um outro reino por não seguir as ordens de seu avô de forma integral, sem grandes protestos, mesmo com a ameaça de guerra. Mesmo assim, o desejo de ouvir a versão de Seohyun era genuíno, se apenas para compará-la às explicações que seus oficiais lhe haviam dado.