Bateu cinco e meia naquela manhã fria de Londres e Bruno ainda não conseguira dormir. Ele não conseguia parar de pensar nas coisas... ele estava muito confuso. Sua vida ultimamente havia se tornado uma calmaria após um grande furacão, mas estranhamente, essa nova serenidade o fazia até mais desconfortável do que o caos de antes. Veja, não é que Bruno não estivesse feliz com as mudanças, longe disso, é que ele tinha medo das escolhas que teriam que ser feitas em consequência delas. E Bruno já tinha aprendido anteriormente que escolhas não eram sua atividade favorita, vamos dizer assim.
A verdade é que, desde adolescente, Bruno sempre sonhou em ir morar na Inglaterra. Ele também sempre sonhava em casar-se com uma menina inglesa, de preferência loira e de alhos azuis, e que os dois morassem lá, juntos, para sempre. E assim Bruno nunca mais precisaria voltar para o Brasil, um lugar que, apesar de ser o lar de muitas pessoas queridas, não trazia a ele as melhores lembranças.
Pois bem. Bruno podia ter muitos defeitos, mas um deles não era falta de persistência e determinação. Depois de alguns anos, pelo o que muitos julgam até ser um milagre, ele finalmente estava lá, no Reino Unido, e ainda casado com uma inglesa de olhos azuis chamada Stephanie. Se o Bruninho do passado pudesse vê-lo agora, com certeza teria dificuldade em acreditar que ele realmente conseguiu o que mais queria, pois até ele mesmo sabia que aqueles desejos eram um pouco fora da realidade. Mas ali ele estava, era tudo real, ele tinha conseguido.
Mas afinal, se tudo estava bem, o que é então que atormentava Bruno? Ele tentava a todo custo evitar essa pergunta. Ele dizia pra si mesmo “só mais um dia, só mais um pouco, logo você para de pensar nisso”. O problema era que os dias, as semanas, e os meses passavam e ele continuava perdendo horas olhando para o teto, como um idiota, apenas sentindo e apreciando o quanto seu amigo Luan o fazia feliz. E certamente, aquilo era uma loucura completa. Bruno sabia que ele tinha coisas importantes para fazer e... a Stephanie estava ali do lado. Ela o fazia muito feliz também, mais do que qualquer pessoa, certo? Claro que sim. Ela era a menina inglesa de olhos azuis que ele sempre quis. Além de ser bonita, ela o amava e fazia de tudo por ele. Naquela época de suas vidas ela estava até trabalhando como enfermeira e não exigia que Bruno trabalhasse pois queria que ele desenvolvesse seu lado artístico. Ela o apoiou até quando ele ficou doente na cama por dois anos, sem vontade de viver. Sinceramente, era difícil achar alguma coisa de errado na Stephanie. Ela era tudo o que uma boa companhia poderia ser. Bruno, nem se pensasse muito, conseguiria arrumar um argumento que dissesse o contrário. Ela era realmente um ser humano raro de se encontrar naqueles tempos.
Ah, mas o Luan era tão fascinante. “Concentra cara, você tem que terminar isso hoje! Esquece esse menino só por um segundo!” Dizia Bruno a si mesmo constantemente. Porém, por mais que ele tentasse focar-se em seus afazeres, tudo que ele pensava era como o Luan o fazia rir de coisas que ele nem sabia que eram engraçadas, e de como o Luan o fazia sentir normal, nem menos, nem mais inteligente do que ele era, nem menos, nem mais estranho. Quando estavam os dois, ele se sentia apenas ele mesmo, “o Bruno”. Nada mais, nada menos. E isso era extremamente confortante para este garoto que passou sua vida inteira sendo sempre “o mais” de tudo e todo mundo no Brasil, e o “o menos” de tudo e todo mundo na Inglaterra. Com o Luan ele não precisava se preocupar com isso. Ele podia respirar, finalmente.
Ou seja, era óbvio que Bruno estava completamente apaixonado pelo Luan, mesmo que Bruno tentasse desviar a atenção toda vez que esse pensamento vinha à sua mente. “Mas e a Stephanie?”, perguntava-se. Bem, como eu disse, não tinha do que reclamar da Stephanie. Só que Bruno era muito mais inteligente que ela. E não só isso, ele também era mais limpo, mais organizado, mais responsável, mais sociável, mais empático, mais maduro... Na verdade, o Bruno era tão “mais” coisas do que ela, que às vezes ele duvidava de sua teoria em que ele passou a ser o “menos” de tudo depois de ter mudado para cá.
E tudo bem, afinal as pessoas são assim mesmo. Não é? E outra, aquela paixão que Bruno estava sentindo era totalmente ilógica. O Luan, além de ser brasileiro, nem era bonito. Se fossem colocadas umas roupas bonitas e uma maquiagem, e quem sabe até uns exercícios, a situação talvez melhorasse um pouco. Mesmo assim, a Stephanie sempre ia ser mais bonita. E ela já era do Bruno. Não é como se o Bruno estivesse escolhendo o Luan por medo de rejeição da Stephanie. Aquela menina inglesa de olhos azuis já estava oficialmente casada com ele. Não fazia sentido algum. “Não faz sentido algum!”, Bruno repetia incessantemente. Mas não importava. Bruno só queria sentir o calor do corpo do Luan encostado no dele, de sua respiração em seu pescoço, da voz dele em seu ouvido. Ele só queria saber como era, estar nos braços do Luan, ao sentar-se em seu colo quando fossem tomar sorvete. E como seria trabalhar todos os dias do lado dele, o Luan editando vídeos em uma escrivaninha, e o Bruno fazendo música na outra.
Realmente, aquilo não fazia sentido. Onde o Bruno estava com a cabeça? Só porque o Luan o fazia sentir a pessoa mais feliz do mundo? Imagina. Que loucura.
Eu sei que pode parecer irônico o que direi agora, pois é evidente que o Bruno não está louco. Porém tudo que sempre o rodeou e o rodeia diz ao contrário. E afinal, ele não pode simplesmente largar tudo que ele construiu e batalhou durante todos esses anos para ir atrás de um amor. Seria um ato de suicídio. Tanto que, a prova de que Bruno não enlouqueceu, é que ele escolheu ficar, na Inglaterra, com a Stephanie, como tudo deveria ser. No entanto, isso não muda o fato de que todos os dias, o Luan não sai da cabeça do Bruno.