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@yourcatalyst
22:43
e que honestamente se eu tivesse em qualquer um dos dias que vieram depois de você te odiado teria sido um sentimento mil vezes melhor do que o que realmente aconteceu
porque ódio é sempre pro outro,
e o que eu tava sentindo era inteira e especialmente pra mim.
Fortesa Latifi, from The Truth About Grief.
teve essa ask que me fez pensar em você e eu acho que já estava há umas boas semanas sem fazer isso, mas é só um deslize, né? um esbarrão da memória que derruba tudo e então todas as coisas aparecem de uma vez. todas as saudades, todos os espaços, todas as vontades, todas as miudezas. eu não sei se você iria gostar de saber que eu tenho bebido cada vez menos ou que vou tirar a carteira de motorista ou que vou mudar de cargo (de novo) eu não sei se você ainda fica deitado no chão da sala aos domingos ouvindo música e olhando as sombras que a amendoeira na frente do seu prédio faz na parede em que está encostado o sofá, aquele quadro que seu amigo francês te deu de presente de casamento e a samambaia que era da sua ex mulher eu não sei se quando a gente se encontra o seu corpo estremece como o meu com uma saudade tão quente que parece derreter tudo por dentro, mas eu queria que sentisse, eu queria mesmo, porque quer dizer que você tem coragem de pensar em mim tanto quanto eu tenho de pensar em você e que você não foge porque fugir é adiar e a gente não pode mais não agora eu não sei se você vai dar um jeito de me dizer que não esqueceu o meu aniversário como sempre fez ou se vai deixar pra lá porque talvez isso signifique que melhoramos, que não estamos tão doentes de amor feito antes eu te disse que ia te amar até não conseguir mais, até acabar, até deixar de fazer sentido porque é assim mesmo que o nosso corpo luta, pelo esgotamento então quando eu digo que sinto que tu ainda me ama é porque eu sinto que cê tá lutando com as armas que tem e que, um dia, vamos poder olhar pro outro e dizer eu te amei
eu achava que os meus amigos carol e edu ficariam juntos pra sempre. eles tiveram uma longa separação e depois, quando se reencontraram, ficaram casados por quase 3 anos. no processo em que estiveram longe um do outro, se tornaram outras pessoas e quando se reencontraram, foram capazes de se apaixonar de novo. o que eu acho, o que eu realmente acho, é que não foi o suficiente. não tô falando de amor suficiente. eu tô falando que só o amor não é suficiente.
eu estive diante dessa verdade várias vezes durante a vida, mas achava que com eles seria diferente, sabe? mesmo com o bebê e o casamento e toda aquela vida planejada e construída, coisas ruíram. e eu assisti tudo. a forma como se referiam um ao outro mudando, os planos, os medos. pude assistir o crescimento e a morte de um sentimento como um planeta que teve início e fim. e foi tão... comum. tão terça-feira à tarde. não choveu nem ventou muito. no dia em que ela assinou os papéis do divórcio o sol até saiu, os pássaros cantaram, as coisas aconteceram. eu lembro de ver minha amiga chorando e perguntar se ela estava arrependida. ela não estava. não era felicidade, também. era a dor de terminar algo. a dor de saber que uma parte quente e conhecida da sua vida acabou e que agora é aprender tudo de novo. o edu ficou mal por semanas. depois de alguns meses eles estavam rindo no aniversário de um amigo nosso e eu pensei "será?" mas tava lá, nos olhos dos dois, o encerramento.
a carol me disse que não sabia se ainda amava o eduardo. ela amou tudo que ele deu a ela, versões dela mesma, o filho, a chance de ser feliz. não ele agora. "eu não acho que seria capaz de amá-lo ainda". e eu fiquei tão triste, tão triste.
mas entendi que talvez o amor precisasse acabar pra que ela continuasse. talvez.
foi assim que eu me senti em relação a você.
posso te escrever uma carta traumas tem ouvidos de ler? vou te contar que há dores na vida que doem do outro lado da barriga que o apêndice e que amor (tudo o que dissemos que não éramos) o amor não é uma instituição sem falhas naquela época eu acreditei numa coisa, que eu não sei que coisa, que me fez ajoelhar e esperar mesmo após qualquer indício, mesmo após qualquer resquício. e depois. posso te escrever uma carta sobre o que acontece depois mas não foi mais bonito a dor não cessa, ícaro a gente dança ao redor das dores tentando revezar que membro lateja pra permanecer inteiro até o final mas ninguém fica livre das marcas
Sempre lembro de um texto da Clarice em que ela dizia que não se considerava escritora, não como ofício. Ela não conseguia se ver na obrigação de escrever. Escrevia porque gostava.
Penso nisso quando transporto a escrita da Clarice para os dias atuais e me sinto deslocada nessa dança por produção. Eu só escrevo quando estou no buraco profundo de mim. Os dias ruins são os meus dias mais “produtivos”, mas eu não estou todos os dias assim (obrigada, William, meu analista).
Lembro de quando estava fazendo parte de um coletivo de escrita e me sentia em constante conflito porque não produzia como o desejado. Tudo porque eu estava feliz demais por participar de um coletivo (irônico, não é?).
E por isso escrevo e apago a palavra escritora. Engasgo e prendo no dente. Solto e me arrependo. Nunca consegui fazer da escrita meu principal trabalho, mas sempre volto para ela como se fossemos inseparáveis. Uma parte de mim que rejeito, debocho, desmereço.
Para depois acolhê-la dentro dos buracos vazios que permaneço.
Na parte podre e sensível de todo ser humano. É na escrita que eu me organizo e pertenço.
eu queria te contar que o amor foi feito pra ser uma coisa da qual eu não faço parte seda e porcelana eu só entendi o amor depois do primeiro creq os cacos no corredor 7 sobre o meu chinelo p a r a l i z a d a na plataforma da uruguai eu escrevi: o amor parecia um trem desgovernado eu queria pertencer ao pires borrado de café eu quis ser aquele chá de banalidade as 4 ele dizia coisas como: tudo pode ser mais simples eu só entendi o amor quando deixei ser complicado o bule chiando prestes a explodir p o r q u e v o c ê e s t á g r i t a n d o? o tempo todo sendo teletransportada pra uma hipérbole sem perceber ta ta ta a hipérbole morava atrás da minha casa 12 tiros às 3 asfalto e coberturas eu só entendi o amor depois de subir a rua eu parecia mais com a morte do que com a felicidade - uma questão de tonalidade - eu queria que você tivesse entendido
Roland Barthes, A Lover’s Discourse: Fragments
É tempo de encarar o vazio. Pensei que só acontecia uma vez, como um cometa de nome estranho ou uma superlua que só acontece em dez anos. Não estava preparada para o deslocamento dos meus olhos que agora parecem morarem dentro de mim, observando tudo - querendo ocupar as lacunas - e me alertando, estilo boletim diário, sobre quando é descoberto mais uma rachadura por onde vaza o que não quero lidar.
Antes que a gente pare de se ver
Antes que eu estrague tudo com a minha pressa
A minha fome
A minha inconstância
Antes que eu, na tentativa de te abraçar, sufoque
Antes que a dúvida me incomode
E eu te atropele com os meus controles
E te pergunte de novo
O que somos mesmo?
Respira fundo
Somos flutuantes
Você diz
A gente mora em um não-lugar
E é só nosso
Entende?
Antes que eu responda
A gente se beija
Cheiro de saliva escorrendo no corpo
Existe algo em você que me faz continuar
Antes.
O amor se retira da mesa
O amor nunca esteve na mesa
Reparto o afeto em dois
Devoro de uma só vez
Sozinha.
Às vezes sinto que amo como quem mastiga apressadamente um prato de comida. Perdoe as metáforas — meus temidos excessos — , mas parece que nada conseguiria expressar o que é essa fome de amar se não a própria busca por alimento. Me vejo erguendo os talheres repetidas vezes, não suaves como as outras moças delicadas que respeitam o próprio tempo. A minha urgência é de querer consumir todos os grãos para além do que eu posso digerir. Como se meu estômago pequeno e frágil gritasse por misericórdia, vai com calma, você acabou de receber o alimento, por quê ingeri-lo tão rapidamente? Mas as minhas funções auditivas estão atentas a crocância, explosão, impacto dos dentes com a parte dura que eu trituro, encaixo e devolvo aos meus lábios. Não há nada rígido demais que eu não possa quebrar.
O amor me desce feroz.
E eu aceito.